9 perguntas sobre LIBRAS: Língua Brasileira de Sinais

Desde que comecei a escrever o DNO, em abril de 2009, me cobram que falta falar de LIBRAS por aqui.

Confesso que não tenho afinidade nenhuma com a língua de sinais e não tenho muito interesse de elucubrar o assunto. Mas, já que é um dos muitos assuntos que permeiam a deficiência auditiva, trouxe um texto informativo para ajudar alguns ouvintes que tem dúvidas sobre a LÍBRAS.

Quem escreveu foi a minha amiga Cinthia Meira, que tem bastante conhecimento no assunto e também é implantada.

LIBRAS – desmistificando alguns pré-conceitos

“É por acaso e por simples razões de comodidade que nos servimos do aparelho vocal como instrumento da língua, os homens poderiam também ter escolhido o gesto e empregar imagens visuais em lugar de imagens acústicas.”

                                         Ferdinand de Saussure.

Olá amigos cyborgs e leitores do DNO! Meu nome é Cinthia, sou de Bauru e acompanho este blog fantástico há pouco mais de dois anos. Antes de enveredar pelo assunto principal que me dispus a explanar aqui, preciso explicar o que me levou a escolher este tema.

Enquanto escrevia este texto, imaginei que muitos questionariam aos seus botões: LIBRAS de novo? Já não se fala constantemente sobre isso? Este blog não é relacionado mais ao universo da oralização (surdos oralizados)? O que ainda se tem a falar sobre LIBRAS que não tenha sido dito?

Pois bem, há um claro paradoxo: sim, vira e mexe, sempre surge em qualquer pauta a temática da Língua Brasileira de Sinais, porém, ao mesmo tempo em que é amplamente citada, poucos de fato a conhecem. Não digo ter fluência ou saber se comunicar na modalidade, mas sim, entender sua história e conceitos. Tal conhecimento é essencial para desenvolver o respeito á diversidade, um pequeno passo rumo a uma sociedade mais fraterna, mais humana. Então interessa, não apenas à comunidade intimamente relacionada à surdez, mas a toda a sociedade onde a língua se faz presente.

Pontuando o que já é constantemente dito no nosso pequeno universo: a surdez é heterogênea. Uma das facetas deste micro-universo diz respeito justamente ás Línguas de Sinais. De tópico em tópico, vejamos alguns pontos importantes relacionados à LIBRAS, desde sua origem até sugestões de aprendizagem:

1. Qual sua origem no Brasil?

Em 1857 foi fundada a primeira escola para surdos no Brasil, o Instituto de Surdos-Mudos, que atualmente é o INES. Se originou da mistura entre a Língua de Sinais Francesa e o vocabulário já utilizado pelos surdos em várias regiões do país. Desde essa época, apresenta as mesmas características formais atribuídas a qualquer língua oficial, porém, apenas em 2002 foi reconhecida oficialmente (Lei nº 10.436, de 24/04/2002). Como todas as leis brasileiras, é linda, mas na prática…

2. Quais as principais diferenças entre a Língua Brasileira de Sinais e a Língua Portuguesa?

A mais óbvia reside no fato da primeira ser de modalidade espaço-visual e a segunda, oral-auditiva. Cada uma possui uma estrutura própria, assim como todas as línguas existentes e complexidades distintas. Um enunciado simples em português segue a ordem sujeito+verbo+complemento/predicado. Em LIBRAS, segundo a gramática que lhe é inerente, pode seguir, por exemplo, a ordem inversa. Resumindo, a língua de sinais não é uma versão sinalizada da língua oral, não é mímica, não é universal (cada país tem a sua) nem se resume a datilologia: é uma língua autônoma e natural.

Quando sinalizamos seguindo a estrutura do português, na verdade estamos praticando um ‘português sinalizado’, prática essa que configura o bimodalismo.

3. Bimodalismo, Bilingüismo e Comunicação Total – qual a diferença entre os três conceitos?

Bimodalismo

Essa filosofia pode ser entendida como um meio para se atingir um fim, no caso, utiliza-se a língua de sinais como recurso para o ensino da língua oral. Embora a intenção vise facilitar a aprendizagem da língua oral, tal método relega a língua de sinais a uma “pseudolíngua intermediária”, desprezando toda uma história, cultura e riqueza linguística.

Bilinguísmo

Quando se fala em bilingüismo, não se trata, como (eu) equivocadamente supus de início, do domínio pleno de duas línguas independente de qual fosse a L1 (primeira língua) do surdo. Entende-se nessa concepção a língua de sinais como L1 e a língua oral (português) como L2, a aquisição de ambas visa relativizar a diferença e facilitar a comunicação, tal qual o aprendizado da língua inglesa por brasileiros.

Comunicação Total

O foco aqui recai no aprendizado exclusivo da língua oral, para tanto utilizando-se de recursos espaço-visuais como facilitadores de aprendizagem. Defende o uso de qualquer recurso linguístico para facilitar a comunicação: sinais, oralidade, códigos manuais, imagens, etc. Não privilegia o fato de a língua de sinais ser natural e carregar uma cultura própria. A criação de recursos artificiais para facilitar a educação pode dificultar a comunicação entre surdos que dominam códigos diferentes da língua de sinais. Principais metodologias: LIBRAS, datilologia, sinais manuais, português sinalizado, pidgin (simplificação da gramática do duo português-LIBRAS).

4. A língua de sinais se originou da língua oral?

Não, cada língua de sinais tem influência histórica de outras línguas de sinais. Tanto a língua americana de sinais (ASL), quanto a língua brasileira de sinais (LIBRAS) tem suas origens na língua francesa de sinais, ou seja, ambas as modalidades seguem, em princípio, uma linha do tempo paralela. Se influenciam mutuamente, dada a “coabitação” lingüística, ocorrendo empréstimos e hibridismos, fenômeno comum a todas as línguas, resultante da globalização.

5. Que fatores qualificam a LIBRAS como uma língua oficial em seu sentido pleno?

Toda e qualquer língua oficial é estruturada nos seguintes níveis linguísticos: fonológico, morfológico, sintático, semântico e pragmático. A língua brasileira de sinais tem seu sistema convencional de sinais estruturados nestes níveis. Seu léxico é infinito, possibilitando a geração contínua de novas palavras, seguindo o princípio de que todas as línguas mudam com o tempo. Existe uma pressuposição equivocada de que não se consegue expressar conceitos abstratos em LIBRAS, pois a língua teria um léxico limitado, é simplificada. Desmistificando essa ideia, sim, qualquer conceito, inclusive abstrato, pode ser expresso.

6. Existe uma língua de sinais universal?

Sim, porém é uma língua artificial, ou seja, foi estabelecida com um propósito específico, como é o caso da língua oral esperanto. Denominada Gestuno, também é conhecida como língua de sinais internacional. Esse tipo de língua é considerado uma língua auxiliar e tal como o esperanto, objetiva estabelecer uma comunicação internacional. Não é considerada uma língua “real”, visto que é inventada e adaptada.

7. A Língua Brasileira de Sinais é ágrafa (sem escrita)?

Não, muitos ainda desconhecem o fato, mas atualmente existe um sistema de representação escrito da língua brasileira de sinais, que vem sendo desenvolvido desde 1996, pela PUC de Porto Alegre. Ainda é recente e pouco disseminada, porém já existem bibliografias específicas (dicionários) disponíveis.

8. É mais difícil aprender LIBRAS, em comparação a outras línguas?

Não. Muito do sucesso na aprendizagem de qualquer língua depende do aluno, de este estar aberto ao processo de aprendizagem e disposto a praticar. A motivação é um forte reagente, pois potencializa a aprendizagem. Se o aluno não está motivado, por melhor e bem disposto que esteja o professor, o conhecimento não é efetivamente transmitido. A aquisição de vocabulário é semelhante ao método das línguas orais, o indivíduo memoriza uma palavra, ou sinal, e contextualiza, de forma a memorizar com mais eficiência.

9. Há algumas dicas que possam ser úteis a quem deseja aprender?

Sempre há estratégias que podem potencializar a aprendizagem, uma delas seria praticar frente ao espelho: assim é possível observar como se está articulando os sinais. Outra ainda, para quem tem por hábito ouvir música, seria exercitar o que aprendeu tentando ‘traduzir’ a música. Na ausência de outra pessoa para praticar, funciona muito bem, é um desafio que nos força a expandir e buscar novos conceitos que não foram adquiridos em aula. Mais eficiente ainda seria ter contato contínuo com um usuário fluente, mas na impossibilidade dessa opção, a tecnologia está ai para quebrar um galho, rss…

– Cinthia Meira

Beijinhos sonoros,
Lak Lobato

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