A arte de conviver com um surdo oralizado

Apesar de eu ser tida como especialista no assunto surdos oralizados, admito que meu statos quo foi adquirido basicamente por escrever sobre o assunto, relacionando-os às minhas vivências mundanas, sendo surda oralizada há 1/4 de século (já fiz bodas de prata com a surdez!) e era isso.

Mas, aqui entre nós, eu sempre escrevi num sentido meio que dentro pra fora. Ensino as pessoas a lidarem com pessoas como eu, partindo do ponto de vista de como é, pra mim, ter que lidar com ouvintes.

Na véspera do feriado de 7 de setembro, tive oportunidade de viver essa realidade de outra forma: conviver com um surdo oralizado! Hahaha, Raul veio pra São Paulo e ficou 1 noite aqui em casa.

É claro que eu já tinha convivido com surdos oralizados, mas nunca por tanto tempo hihi

Narrando a aventura (ele reclamou das mesmas coisas, porque também NÃO está acostumado a conviver com surdos oralizados)

A gente se encontrou no Outback, assim que ele chegou de Porto Alegre. Apesar do Edu estar junto, a conversa acabou sendo basicamente por leitura labial, porque a acustica do restaurante estava impossibilitando a filtragem do som ambiente. Isso, é uma delícia, porque não precisar falar alto é tudo de bom!

O problema é quando você quer falar algo e a pessoa não olha pra você. Pra quem sabe conversar com surdos, nada demais. Mas para quem só convive com ouvintes, faz o que? Continua falando, a pessoa não te ouve, você se dá conta que está falando sozinho e começa a abanar as mãos pra ela olhar pra você.

Outra coisa é repetir algo que a pessoa não entendeu. Normalmente, eu altero o tom da voz, mas nesse caso, não fazia diferença. O jeito era articular mais e falar mais devagar….

Uma terceira gafe constante, era chamar alguém que ouve por IC, as vezes está com ele desligado ou distraído e ficar falando o nome dele, até perceber que a pessoa não está realmente te ouvindo. Quem só convive com ouvintes, não lembra como que não adianta apenas chamar, é preciso algum sinal visual.

Por outro lado, conviver com um surdo tem suas vantagens. Por exemplo, não precisar se preocupar de não fazer barulho, quando ele está dormindo. O ruim é que por causa disso, esqueci que o Edu estava dormindo também e acabei acordando o pobre hahaha

Mas, sem dúvidas, a melhor parte foi a troca de experiências sobre o implante, sobre surdez e essas coisas que só quem convive com isso percebe.

No fim, ficaram várias lições: vale a pena conviver com certa frequencia com alguém similar a você. Você acaba aprendendo mais sobre si mesmo. Também que é ótimo conviver com surdos, por um lado, mas por outro, requer boas mudanças de hábitos. E, mais importante: você nunca sabe o suficiente sem ter vivido a experiência!

Beijinhos sonoros,

Lak

9 palpites

  1. soramires disse:

    eu tenho muita dificuldade para entender e conversar com outros surdos porque minha leitura labial é uma m…. e perco muita coisa!

  2. Magda Vagli Zobra disse:

    Poxa lak, a minha perda de audição é bem mais recente que a sua desde 2005, mas sempre convivi com meu pai que era surdo desde meu nascimento e ele sempre usou aparelho auditivo a vida todo dele, mas mesmo assim as pessoas esquecem que precisamos que olhem para nós para entendermos o que essa pessoa está falando…sabe que minha mãe que conviveu com ele a vida todo escrevia bilhetes porque não tinha paciência pra falar com ele…se as pessoas querem que realmente eu entenda o que elas estão falando tem que aprender olhar pra mim e falar devagar até porque não são muito boa em leitura labial como vc…mas tudo que vc fala aqui no blog é bem o que todos os surdos oralizados sentem…Adorei o texto…bjs
    Magda 🙂

  3. Elizabeth disse:

    Oi, LAK! Muito bom, mas não se pode explicar isso a todos que encontramos. Muitas pessoas nem entendem que surdo é gente. E se falamos, não acreditam que somos surdos. Surdo tem que ser mudo. Vc não tem problemas, com o IC vc é normal. Abraços, Elizabeth.

  4. soramires disse:

    É Lak cada oralizado tem suas peculiaridades e sotaques, com alguns converso sem problema, com outros a preciso de uma atenção maior…mas é a convivência mesmo que facilita tudo! E sua palesta foi um exemplo de que você se comunica bem!

  5. Marcel Pigozzi disse:

    Lak, fui no encontro dos implantados pela primeira vez, no RJ deste ano, e senti exatamente o que vc disse no post. Falava com eles, e só me dava conta depois que estava falando sozinho. rs
    E concordo que temos que vale a pena conviver com certa frequência com alguém similar a nós. Depois do encontro do RJ, me senti que não estava sozinho.. Muito bom!
    Bis