A arte de valorizar a audição

Você sabe o valor que a sua audição tem para você? Sabe como é importante ouvir todos os sons do universo? Lógico, eu sei que tem sons chatíssimos e momentos em que ouvir é um saco (e se você for implantado, tenho certeza que abusa do botão de off nesses momentos, certo?). Mas, consegue mensurar o valor que tem poder ouvir um som que te agrada? Para quem tem perda auditiva e opta por ouvir através de uma tecnologia, essa valor triplica. Pelo menos, é o que eu acho..

Porém, eu ando percebendo, graças aos meus relatos de conquistas incríveis nas redes sociais – coisas incríveis mesmo, tipo reconhecer uma música aleatória num ambiente barulhento, assistir um vídeo em inglês sem legenda e entender tudo, ou até mesmo passar 1h30 conversando com uma amiga no telefone – notei que as pessoas colocam a expectativa do IC lá em cima, achando que o IC só vale a pena se essas metas forem atingidas.

Obviamente, o sucesso auditivo é marcado por esse tipo de discriminação: falar no telefone, ouvir música, entender até mesmo outro idioma sem leitura labial. E é mais do que compreensível que todo mundo tenha essas expectativas. É muito bom sonhar alto e fundamental dar sempre o melhor.

Porém, nem todo mundo vai ter esse resultado. O implante coclear não é um milagre capaz de curar qualquer tipo de perda auditiva. Alias, ele não cura perda nenhuma, ele dribla. Em alguns casos, mais do que em outros. Para algumas pessoas, resultados muito melhores que outros. Porque é assim mesmo, tudo na vida DEPENDE.

Depende de uma série de fatores, depende das circunstâncias, das condições, das adversidades. De personalidade, de sorte, de empenho, de suporte, etc etc etc. Dois irmãos criados iguais podem se tornar pessoas completamente diferentes, quererem coisas diferentes, conquistarem coisas diferentes. Mesmo tendo tido a mesma base e o mesmo incentivo. Porque a vida oferece papeis diferentes para pessoas diferentes. Com o implante coclear, a regra continua sendo essa.

Porém, o que define o sucesso de ser usuário de IC nem é exatamente o quanto a pessoa ouve. Mas o quanto ela valoriza o que ela ouve. Ouvir não se resume a falar no telefone, escutar música ou aprender idiomas. Ouvir é uma percepção feita por inúmeros pequenos sons que dão trilha sonora para o dia a dia. Desde o momento em que colocamos o processador de manhã, até o momento em que tiramos antes de dormir (ou para tomar banho). Começa com o tic tac do relógio, o som da água do café fervendo na chaleira, do frigir dos ovos na frigideira, do bom dia que nossos parceiros/filhos/parentes/vizinhos dizem pela manhã. E se segue por uma incontável presença de sons cotidianos que preenchem cada movimento ou ação realizada. O silêncio absoluto sequer existe no dia a dia de um ouvinte, isso é privilégio dos surdos.

Valorizar esses sons é dar sentido ao implante coclear. Seja pelos sons que você adora (eu adoro o som da água fervendo na chaleira, adoro o som da água sendo derramada na minha xícara onde farei o café, adoro o som do sino de vento da varanda tocando de manhã cedo), seja pelos sons que você detesta (odeio som de talheres batendo na gaveta quando vou pegar a colherinha do café, odeio som do saco de pão sendo amassado, etc), mas que são um privilégio que você pode ouvir e constatar que não gosta.

Essa coisa de não gostar de um som e poder opinar, eu considero um privilégio, porque me lembro da angústia que eu sentia, nos meus 22 anos de silêncio absoluto, quando alguém reclamava de um som, eu pedia para descreverem, mas não sabia como era, nem se eu gostaria ou não. A simples possibilidade de poder formar opinião sobre algo é um privilégio.

No que se refere ao implante coclear, entendo a necessidade das pessoas de quererem o melhor. Mas eu penso que ninguém deixa de fazer natação e gostar do esporte, só porque não tem condições de disputar a Olimpíada. Valorizar o que é gostoso e te faz bem, mesmo que esteja a anos-luz da perfeição, é a chave da felicidade pessoal. O que destrói essa felicidade é ficar se comparando com os outros. Quem sabe se os outros valorizam tanto o pretenso sucesso que tem, tanto quanto você valoriza as mais ínfimas conquistas?

Ouvir é tudo de bom! Aproveite!

Beijinhos sonoros

Lak

9 palpites

  1. Ouvir é muito bom!
    Mas num ambiente de som agressivo, é um privilégio poder guardar na bolsa as próteses auditivas…

  2. Quando chego em casa, a primeira coisa que faço é retirar as próteses…

  3. Lina Meira Lina Meira disse:

    Confesso que so dei valor pra audição..depois que Leo veio sem ela. 😕
    Hj me preocupo com a qualidade do que ouço..volume…esse tipo de coisa

  4. Jairo Marques disse:

    Que texto gostoso de ler! Sóbrio e motivador, ao mesmo tempo! É super importante para quem é formador de opinião, como você, preze pelo equilíbrio, pela crítica e não embarque apenas no oba oba. A decisão de fazer um implante é algo que tem potencial de “mudar a vida”, logo não é como rasgar uma página, apagar uma linha no computador… beijosssss

    • Lak Lobato disse:

      Obrigada pelo carinho e pelos elogios. De fato, tenho percebido essa necessidade de opiniões mais brandas, agregados e inclusivas, porque vivemos numa era de extremos. Acho que saber valorizar as pequenas coisas, é crucial na escolha de algo como o implante, cujo resultado é variável. Beijinhos sonoros.

  5. Fomos a um restaurante e o garçom veio com uma chapa quente para colocar os bifes e mantê-los aquecidos. Minha filha ( agora com seis anos, implantada desde os três anos de idade) ao ouvir o chiar dos bifes na chapa exclamou… UAUUUU!!! Foi muito legal!!! Até o garçom riu.

  6. Se conseguisse até dormiria com eles .

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