A exclusão nossa de cada dia…

Era um simples desabafo no Facebook, depois de conversar com uma amiga ativista de outra causa, mas que também está perdendo a audição e por isso, comentou dessa questão das pessoas não terem paciência com quem não ouve bem. Mas o desabafo rendeu dezenas de compartilhamentos e muitos e muitos desabafos de amigos.

Pode parecer algo corriqueiro, que qualquer pessoa passa. Você está boiando na conversa que pegou no meio (ou no começo) e pergunta o que é e dizem “nada não, esquece”. Alguém te diz alguma coisa e você pede para repetir e respondem “deixa para lá”. A pessoa te chama para algo e você não entende o que é de primeira e ela “ah, não era nada”. Todo mundo passa por isso? Sem dúvidas….

Mas, quando se tem deficiência auditiva, essa situação não é simplesmente corriqueira. Ela é constante. Seja no trabalho, em conversas informais. Seja no trabalho, em reuniões formais. Seja em casa com a família, no jantar diário. Seja em casa com a família, em festas em que vem todos os parentes. Seja na escola, vindo de alunos. Seja vindo de professores. Seja entre pessoas que consideramos amigas próximas. Seja com desconhecidos que estão nos passando informações.

Às vezes, é uma conversa informal, quando perder a informação nos exclui apenas do assunto. Noutras, são conversas formais, assuntos de trabalho,  decisões importantes sendo tomadas. E quando a gente pede um apoio extra, porque alguma informação se perdeu e queremos confirmar ou entender por completo, recebemos uma resposta nada educada, nada inclusiva, nada solícita: “Deixa para lá” “Não é nada” “De novo pedindo para repetir? Faz um esforcinho, né?”.

A primeira coisa que as pessoas precisam entender é que uma pessoa com deficiência auditiva tem uma barreira na comunicação. Ainda que ela fale bem, ela não ouve perfeitamente como um ouvinte natural, mesmo que ela utilize próteses auditivas ou implante coclear. Pode ser que o ruído ambiente atrapalhe, pode ser que a programação do aparelho dela não esteja tão boa naquele dia ou para aquele momento, pode ser que ela esteja mais cansada que o normal e não esteja conseguindo processar tudo o que ouve com a mesma clareza do dia a dia.  Se ela pede para repetirem, é porque ela precisa desse reforço na comunicação para entender ou confirmar o que entendeu. E responder “deixa pra lá” como se a barreira da comunicação fosse má vontade dela, ou preguiça, ou falta de esforço significa deixá-la a parte de informações que podem ser importantes.

E, para algumas pessoas, pode representar um processo contínuo de exclusão. Pessoas relataram no texto que fiz que deixavam de conversar com familiares. Que deixavam de se enturmar com colegas de trabalho. Que deixavam de querer participar de reuniões de família. Que evitavam almoços em grupo. E quando você lê relatos como esses, percebe que a situação é bem diferente da banalidade que tentam dar para ela, alegando que ouvintes também passam por isso. Porque se torna frequente ser deixado à parte das conversas. E por um longo período do tempo.

Em muitos casos, a situação é mais grave. Porque afeta o desempenho escolar ou de trabalho. Li relatos de pessoas que foram demitidas porque o chefe não queria ter que constantemente ter que repetir ou precisar chamá-los mais de uma vez. Outras, falaram que cortaram relações com gente da família por esse constante descaso. Muitas demonstraram que essa exclusão afetava a auto-estima, ao ponto que as pessoas se sentiam extremamente mal com elas mesmas.

E o pior, ainda houve quem dissesse que simplesmente desistia de tentar conversar – já que a conversa esbarrava em barreiras de comunicação e diversos “deixa pra lá”- e se refugiavam no celular. E  por isso, recebiam o rótulo de antipáticas e antissociais. Quando, na verdade, eram pessoas que foram  excluídas por tempo demais e hoje, preferiam fazer outras coisas em vez de ficar forçando uma comunicação que não flui…

Portanto, não é uma reclamação boba. Um simples desabafo que foi comum de centenas de pessoas com a mesma condição que eu. Inclusive de mães de crianças com surdez, porque vêem constantemente os filhos passando por isso.
A surdez é uma deficiência menos visível que as outras – digo menos e não “invisível” porque existem traços visíveis sim, para olhos treinados para enxergar os sintomas clássicos de surdez: aparelhos auditivos que aparecem, articulação mais exagerada da fala, olhar fixo nos lábios típico da leitura orofacial – mas ela também uma das deficiências menos respeitadas.  Para um surdo – especialmente quando oralizado – é frequente essa mentalidade de “faz um esforcinho para entender” porque o outro não quer se dar ao trabalho de auxiliar nas barreiras comunicacionais que aparecem num diálogo com uma pessoa com deficiência auditiva.

A primeira atitude bacana para mudar esse comportamento é não tentar banalizar um desabafo, dizendo que “é bobagem e todo mundo passa por isso”.  Esses desabafos que fazemos hoje nas redes sociais são um grito de alivio, de gente que vem sendo excluída há meses, anos, décadas, a vida toda. Simplesmente porque até pouco tempo atrás, deficiência se camuflava e ninguém se permitia falar do assunto. Hoje, libertamos a nossa voz e dizemos em coro: não nos excluam, não dá para deixar pra lá!

Beijinhos sonoros,

Lak

6 palpites

  1. Magda Ap. Vagli Zobra disse:

    Lak …te amo só isso..

  2. e olha que a gente é bem educada e diZ: DESCULPE NÃO OUVI. E mesmo assim a não respostá é essa mesmo: DEIXA PRÁ LÁ. e COM ISSO A GENTE É ÉJETADA DO MUNDO.

  3. Jorge Eduardo Brito disse:

    “e se refugiavam no celular. E por isso, recebiam o rótulo de antipáticas e antissociais.” Isso acontece muito comigo. Perfeito

  4. Enia Nóbrega Ferreira disse:

    Aproveito aqui o espaço para incentivar as pessoas com deficiência auditiva que solicitem das autoridades, que todos os filmes, exibidos nas salas de cinema, mesmo os dublados, sejam acompanhados de legenda