A um passo da diversidade…

Outro dia, um amigo me disse que é importante focar no termo “diversidade”, porque é o assunto social do momento. Diversidade é a capacidade da sociedade de abraçar todos os tipos de pessoas e assim, formar uma sociedade e não mais apenas um grupinho homogêneo de iguais.

Não é nada fácil incluir diferentes no nosso grupo. A gente se aproxima uns dos outros pelas semelhanças e, por consequência, se afasta pelas diferenças. Mas, uma sociedade madura e saudável abraça todos os grupos e se forma através da diversidade deles. É tempo de amadurecer nosso conceito de sociedade, inclusive.

Quando falamos de deficiência auditiva, é simplesmente impossível (ou pelo menos muito difícil, deveras improvável) que se fale da diversidade da deficiência auditiva sem torcer o nariz. Ninguém quer ter que citar trocentos grupos, sabendo a boa parte deles nem se bica, porque sabe que independentemente do que seja dito, vai gerar polêmica.

Por exemplo, surdos que utilizam LIBRAS geralmente falam dos surdos não-usuários de LIBRAS (principalmente se implantados) como um grupo que não aceita a deficiência. Porque, pra eles, aceitar significa vivê-la através da forma de comunicação tida como natural, a língua de sinais. Já entre os implantados, é comum evitar falar de LIBRAS porque há a impressão de que ela sufoca os demais assuntos e não permite que nada além dela seja debatido. E existe os usuários de AASI ou apenas de leitura labial, que se sentem incomodado com qualquer um dos temas, porque sentem-se simplesmente invisíveis em meio de dois grupos fortes e com identidades definida. E enquanto isso, um tema muitissimo mais importante – a deficiência auditiva e sua necessidade de acessibilidade e inclusão como um todo – fica minguado no meio de uma verdadeira guerra civil de subgrupos.

Todas as pessoas com deficiência auditiva tem algo em comum. Primeiro, nenhuma delas tem audição normal. Sem qualquer pejoratividade no termo normal, que não significa nada além de “de acordo com a norma”, audição nos limiares de um ouvinte que não tem dificuldade de ouvir. Segundo, que a grande maioria tem (ou já teve) dificuldade de se comunicar com a sociedade em geral. Terceiro, que de alguma forma, necessidade de recursos de acessibilidade onde a comunicação se faz presente (numa sala de aula, numa reunião, no cinema, numa palestra, etc). E apesar desses pontos em comum, a problemática se dá pelas formas que cada grupo considera adequada para suprir todas as questões. Seja formando um grupo que se comunica livremente pela língua de sinais. Seja por um grupo que abraça a tecnologia. Seja por outro grupo que faz mágica através da leitura labial.

Mas, para falar da deficiência auditiva, é importante que haja espaço para abraçar todos os grupos como um só. É importante que nenhum grupo seja tido como menos importante ou inferior. É importante que nenhuma demanda seja deixada de lado. É importante que a sensação de que a LIBRAS sufoca os demais assuntos não seja motivo para faltar com respeito à ela. Nem se deixe de reconhecer que ela é fundamental para a comunicação de milhares de pessoas. E que ela deve ser reconhecida como uma língua nacional lado a lado com a língua portuguesa. Na mesma medida em que se fala de implante coclear, aparelho auditivo ou leitura labial como formas de comunicação válidas e autônomas (ou seja, sem precisar incluir a língua de sinais para promover acessibilidade para esses grupos). Que haja informações corretas e verdadeiras sobre o implante coclear. Que haja apoio para manutenção dos implantes. Que haja acessibilidade através de recursos tecnológicos (sistemas de transmissão fechada de som), intérpretes oralistas e legendas em tempo real). Para falar de deficiência auditiva é fundamental e imprescindível dar voz à diversidade, falar de todos os grupos e deixa claro que a deficiência auditiva não forma um grupo homogêneo, mas um grupo com diversos subgrupos e que todos merecem o mesmo respeito e o mesmo direito à acessibilidade e inclusão.

Que venham novos tempos em que a sociedade realmente abrace esse termo diversidade e que seja possível todos os grupos e subgrupos viverem pacifica e fraternalmente. De coração, espero que meu amigo tenha razão!

Beijinhos sonoros,

Lak

3 palpites

  1. EU cito a língua de sinais, Libras, como um dos recursos de acessibilidade para surdos, e corrijo quem afirma que é O RECURSO PARA SURDOS, INSINUANDO QUE É O ÚNICO. Mas na verdade minha atuação é no campo que vivo e conheço, surdos que usam próteses e se comunicam usando a língua portuguesa…TRATO DE DIVULGAR NOSSA EXISTÊNCIA PORQUE GRANDE PARTE DA SOCIEDADE ACHA QUE TODO SURDO USA LÍNGUA DE SINAIS E É MUDO! HÁ UNS DIAS DEPOIS DA MINHA INTERVENÇÃO NUMA PALESTRA EXPLICANDO ISSO, PESSOAS VIERAM COMENTAR COMIGO QUE NÃO CONHECIAM ESSA DIVERSIDADE DENTRO DA SURDEZ, e me agradeceram por falar no assunto.

  2. Natália disse:

    Eu me identifico com o grupo que usa aparelho auditivo. Como a gente não estamos nos extremos, as pessoas não reconhecem como deficiente e acham que não é nada demais, já que você passou a vida falando e interagindo de alguma maneira com as pessoas. Não vou negar que pra mim dói, mas hoje tento não levar pra minha vida isso. Temos que seguir em frente. Espero mesmo que tenhamos essa diversidade no futuro. Ótimo texto! Abraços

  3. Natália disse:

    Corrigindo: como não estamos nos extremos… Ficou grotesco. Desculpem escrevi pelo celular e me enrolei.

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