Implante Coclear me permite conhecer a voz do meu irmão

Eu tenho um irmão por parte de pai 16 anos mais novo que eu. O que significa que quando ele nasceu, eu já era deficiente auditiva.

Vi meu irmão crescer conversando com ele só pela leitura labial. E lembro que ele teve que aprender, desde cedo, que tinha que falar comigo estando de frente para mim. No começo, ele tinha dificuldade de entender porque nossa irmã mais velha podia falar com ele no telefone e eu não. E que algumas vezes, meu pai teve que dizer que eu estava doente ou não estava em casa, porque ele queria muito que eu falasse com ele no telefone também (naquela fase que criança descobre o telefone e quer ligar para todo mundo).

Os anos passaram, meu irmão cresceu. Houve um momento, quando ele era adolescente, que fomos bem próximos. A gente conversava pelo MSN, que fazia sucesso na época.

Depois o MSN perdeu o encanto e a vida continuou.

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Quando fiz o primeiro implante ele veio em casa, junto com nosso pai, me visitar. Mas, como sempre conto, o primeiro implante não me deu discriminação auditiva da fala e eu continuei sem conhecer bem a voz dele. E, confesso, era algo que eu sonhava em conhecer. Quando escrevi sobre as minhas expectativas pré-IC, lá no blog do Jairo Marques, antes da primeira cirurgia, eu citei a voz dele como uma das coisas que eu queria poder ouvir…

Um belo dia, a gente teve um desentendimento e parou de se falar por um tempo. O que era para ser um tempo, durou quase 3 anos. O motivo não importa muito. O problema é que foram justamente 3 anos em que eu fiz a cirurgia do segundo implante coclear. E pude começar a entender vozes. E ouvir pessoas. E conhecer  a voz de todas as pessoas. Menos a dele…

Nesse meio tempo ele também fez as malas e foi morar no exterior. Primeiro em Londres, depois em Amsterdã. E a distância tornou-se também geográfica.

No aniversário da minha mãe, ela e minha irmã foram comemorar em Paris e passaram por Amsterdã e encontraram meu irmão. E graças a isso, fiquei sabendo que meu irmão aceitaria numa boa, se eu me aproximasse dele de novo.

Pois bem, voltamos a conversar e, depois de alguma conversa, criei coragem para pedir para ouvir a voz dele.

A distância agora não era mais emocional, era geográfica.

Algumas semanas depois, quando ambas as agendas e fusos horários permitiram, marcamos uma conversa via SKYPE, por videoconferência.

Confesso que eu fiquei bastante ansiosa e nervosa com essa possibilidade. Cheguei a sonhar que ele desmarcava a conversa! Olha que loucura…

Mas, a conversa aconteceu mesmo e eu pude conhecer a voz dele.

Eu tenho 5 anos de deslumbramentos sonoros nas costas. Muitas e muitas e muitas histórias para contar. Algumas mais emocionantes, outras mais banais, mas todas com seu grau de importância. Porém, ouvir a voz do meu irmão foi uma experência muito muito especial. A primeira reação que tive foi engraçada. Eu fiquei triste! Triste porque meu irmão já tem 21 anos, já tem voz de homem, não mais de criança. Fiquei triste de pensar que perdi a oportunidade de ouvir aquela voz doce de criança pequena aprendendo a falar. Fiquei triste de perder a oportunidade de ouvir a voz dele sofrer a metamorfose de vozes na adolescência. E fiquei triste de pensar que uma briga fez com que eu perdesse quase 3 anos da voz dele, mesmo depois de recuperar a audição.
Mas, junto com essa tristeza, veio a alegria de conhecer a voz dele. Aquele alivio de saber que, independentemente de todas as coisas que não aconteceram, ainda pude conhecer a voz dele.

Uma voz única, bonita  e bem clara (ele fala bastante, inclusive hehehe), como toda a voz de pessoas especiais para nós costumam ser.

De todas as coisas que o Implante Coclear me deu, poder ouvir e escutar a voz das pessoas amadas, está no topo mais alto do ranking de importância. Todo o resto, mas absolutamente TODO O RESTO, tem menos significado, por mais bonito que sejam.

Se a gente puder colocar um preço no implante coclear com base nessas conquistas, ouvir a voz do meu irmão, assim como a voz dos meus pais, do meu marido, da minha irmã, dos meus melhores amigos, torna o valor do IC simplesmente imensurável!

Beijinhos sonoros,

Lak

12 palpites

  1. Renata Orsi Renata Orsi disse:

    Amei, Lak! Emocionada ????

  2. Que lindo! E que bom que vocês retomaram essa relação… ❤️❤️❤️

  3. Que lindo! E que bom que vocês retomaram essa relação… ❤️❤️❤️

  4. Que lindo!!!! Sao raras pessoas que que nos tratem tão beem!!!!

  5. Que legal Lak, mas algumas coisas como ouvir a voz do seu irmão, não estava no seu alcance, quando esteve você fez com a coragem que lhe é peculiar. O IC para nós tem um valor sentimental, um valor de que só é possível ouvir. Tudo tem a sua importância, até mesmo os sons que não queremos ouvir, mas eles fazem parte da vida. Parabéns, sei exatamente o que você está sentindo. Beijinhos sonoros!!

  6. Ai, eu sempre choro lendo você <3

  7. DeysianeAntonino disse:

    Ei Lak, emocionei lendo essa história. Tenho um filho tem 7 anos e usa IC bilteral. Descrevo igual você, não tem preço que pague poder ver o meu filho responder que está ouvindo… tenho também um bebê de 10 meses e ambos são garradinhos rsrs… sonho muito que eles continuem sendo amigos sempre sempre… Que Deus continue abençoando sua vida, minha querida… Beijinhos sonoros… (adorei esses sonoros rsrs…)

  8. Vera Carvalho Vera Carvalho disse:

    Lak eu acompanhava o teu blog há anos. Meu neto nasceu com deficiência auditiva e até o primeiro implante não conhecíamos nada sobre o assunto. Após o implante comecei a procurar muito sobre o assunto até que encontrei o blog. Tu me inspirou muito para continuar lutando e ter a certeza que meu neto também ia escutar e falar. Te agradeço por teu blog, pela tua pessoa maravilhosa que sempre deu força para mães desesperadas, incentivando a cirurgia. Que bom que te encontrei aqui e obrigado por me aceitar no face. Que Deus te abençoe!!!

  9. Marielle disse:

    Fiquei muito contente com a 🙂 história. É a minha primeira vez aqui e é muito legal encontrar pessoas parecidas comigo. Abç!