Acessibilidade para surdos oralizados em bancos e empresas, cadê?

Terça-feira, 30 de agosto de 2011, entrei no twitter e havia uma reclamação da Paula Pfeifer, do blog Crônicas da Surdez, já conhecido pela maioria daqui de tanto intercâmbio que rola entre nossos blogs, reclamando da falta de acessibilidade à conta bancária dela.

Explico, apesar de muita coisa hoje em dia poder ser feita pela internet, existem serviços que só podem ser feitos pelo telefone, como por exemplo, desbloquear um cartão recebido pelo correio ou avisar que tivemos um cartão roubado. O acesso que o banco nos dá é  um 0800 especial via TDD, um telefone com teclado que só tem função de ligar para outro aparelho igual, vendido por apenas uma empresa aqui no Brasil e que custa caríssimo, então a maioria dos deficientes auditivos não tem, já que hoje em dia dispomos de email, chat, SMS e videoconferência. Afinal, vale mais a pena eu comprar um telefone que só liga para outro aparelho igual que ninguém tem ou usar a tecnologia disponível?

Começamos a conversar por email sobre essa situação e decidimos que era hora de dar um basta!

No Crônicas, Paula decidiu fazer um post recolamando da falta de acesso a vários serviços bancários fundamentais, do descaso dos gerentes e funcionários com clientes deficientes auditivos e citou vários casos, como ter que ligar para a operadora de cartão de crédito, para efetuar desbloqueio cada vez que ela viaja para o exterior. Lembram-se de um post que fiz em abril de 2010? Tive um cartão de crédito clonado no site da TAM – sim, tenho certeza absoluta que foi nesse site, pois eu JAMAIS compro coisas pela internet com cartão de crédito, foi a única ocasião em que usei aquele cartão, num site supostamente seguro – e não pude cancelar meu cartão sem cometer fraude: minha mãe teve que se passar por mim, simplesmente porque meu marido não poderia fazer o desbloqueio, já que só aceitam falar com o titular do cartão ou via telefone especial que simplesmente não tenho em casa!

Isso porque já houve outra ocasião em eu fui ao banco mudar a data de vencimento de outro cartão de crédito e a gerente, querendo mostrar serviço, me empurrou pro TDD da agencia – aparelho que eu sequer sabia usar – e a atendente do número especial simplesmente disse que tem serviços que via TDD não é feito e só indo na agencia. Acontece que eu estava lá e a gerente me empurrou pro serviço. Não basta o banco não oferecer acessibilidade real – oferece uma pseudoacessibilidade ilusória que me obriga a gastar com itens a mais, em vez de promovê-la pelos canais disponíveis – como me empurram de um lado pra outro porque ninguém quer ter trabalho de me atender.

No post original de denuncia da Paula, ela fazia também sugestões do que seria uma real acessibilidade para nós, surdos oralizados que não conseguem usar o telefone e não tem TDD em casa:

O que eu acho que é ACESSIBILIDADE PARA SURDOS ORALIZADOS nos bancos brasileiros??
  • gerente capacitado para atender um surdo oralizado
  • atendimento por email
  • atendimento por SMS
  • cadastramento de 1 ou 2 pessoas de confiança, mediante documentação registrada em cartório, para que elas possam falar por nós no 0800 em casos de extrema emergência
  • cadastro da informação de que sou surda oralizada nas informações da minha conta, para que eu não precise contar minha vida inteira de novo a cada troca de gerente
  • chat disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, no site dos bancos, com funcionário capacitado a resolver problemas para clientes cadastrados como surdos oralizados

Agora parem para pensar sobre a utilidade de um 0800 para deficientes auditivos e da fala queutiliza TDD nos seguintes casos:

  • assalto
  • sequestro
  • problemas em viagem ao exterior
  • surdo oralizado que não possui telefone TDD
  • cartão clonado
  • cartão extraviado
  • surdo oralizado que trabalha em local sem TDD
  • qualquer eventualidade que ocorra em local sem TDD
  • solicitações que as atendentes do TDD não consigam resolver

No post seguinte, ela citou outras empresas que só oferecem atendimento por TDD, como lojas! Ora, por favor, muito mais fácil disponibilizar chat e email!

Por conta disso, nosso amigo Raul Sinedino, outro surdo oralizado que vive tendo problemas com esses desserviços bancários teve a idéia de um PANELAÇO no Twitter para mandar as hashtags #Acessibilidade e #SurdosOralizados e levar à população o conhecimento da existência da falta de acessibilidade que sofremos atualmente, além de divulgar que surdos oralizados existem.

Basta postar frases no twitter com a seguinte informação (frases iguais, o twitter não computa) “#Acessibilidade p/ #SurdosOralizados em bancos: INEXISTENTE! http://bit.ly/qKfiH6 (ajude a divulgar)”

Quando? Dia 20/09/2011 à partir das 15h30


E quem não tiver twitter, pode apenas ajudar na divulgação. O interesse é fazer com que as pessoas influentes tomem conhecimento da nossa falta de acessibilidade e nos ajudem a mudar as normas da ANATEL no que se refere ao atendimento remoto de deficientes auditivos. Ou até fazer um twitter só para participar do Panelaço.

Claro que nossos pedidos não se resumem aos oralizados, o acesso que pedimos é para todos os deficientes auditivos. Mas tem muito banco e empresa por aí achando que colocar um interprete de Libras na agencia/loja resolve. Oras, se o interprete for mandar o surdo ligar pra um número especial via um aparelho que ele não tem, adianta de algo?

Pelo então aos leitores e amigos, ajudem-nos a divulgar este movimento!  Seja participando do PANELAÇO, seja divulgando-o nas suas redes sociais e/ou blogs.

Hoje é conosco, amanhã pode ser com qualquer um que perca a audição. Você mesmo ou qualquer pessoa querida. Imagine perder a liberdade de resolver os próprios problemas e ficar dependendo de tecnologias caras e obsoletas ou tendo que pedir pra outra pessoa se passar por você?

Acessibilidade é um direito de todos!

Beijinhos sonoros e mãos à obra,

Lak

 

20 palpites

  1. Rodrigo Nunes disse:

    Lak

    Eu cheguei ao ponto de pedir pro meu chefe se passar por mim pra cancelar um serviço telefônico residencial. Passei meus dados pra ele resolver isso depois de eu ter falado com a companhia telefônica por chat! Disseram que só seria possível ligando para o 0800 deles.

    Uma outra empresa prestadora de serviços, a qual também fornece atendimento por chat, pediu que eu fosse numa agência e falasse pessoalmente com um atendente. É degradante o que nos fazem passar.

    Deixo pra ti também o recado que deixei pra Paula: contem comigo.

  2. Caroline disse:

    Olá Lak,
    Acredito que seja possivel o cadastramento de uma pessoa para que ela possa resolver certos assuntos junto ao banco, inclusive via telefone.
    Por mto tempo gerenciei conta de um parente (que não tinha nenhuma dificuldade, era só falta de tempo mesmo… rs), tendo para isto uma procuraçao feita em cartório e uma procuração feita no próprio banco.
    Claro que não é o ideal, pois nem sempre queremos dividir estas informações com alguém, porém já é um início.

    • laklobato disse:

      Não, não é… eu tentei fazer isso quando tive problema com meu cartão de crédito!
      O lance não é passar uma procuração pra um parente, queremos apenas que a pessoa tenha autorização pra fazer um ou outro serviço por telefone pra gente, mais nada.
      Beijocas

  3. Deni disse:

    Em relação ao comentário da Caroline, muito mais que autorização, queremos autonomia mesmo!
    Mas enfim, façamos o barulho!
    Não sou fã das redes sociais, mas já já penso como fazer o meu protesto… hehehe

    Bjos,

  4. Crisaidi disse:

    Noooosa! Nunca havia pensado nisso!

    Sou ouvinte e acho muuuuito chata essa limitação ‘apenas por telefone e apenas o titular’!

    Se você ‘pode’ ligar… é uma canseira de uns 40 minutos, no mínimo para ‘talvez’ resolver seu problema.

    Se você é de idade e/ou acha tudo isso muito complicado, é praticamente impossível pedir que aceitem que seu filho ou cônjuge para representá-lo.

    Mas o surdo ou deficiente auditivo fica totalmente dependente.

    A solução mais rápida (não necessariamente a melhor) é pedir para alguém ser o titular e passar todo esse ônus ‘de presente’!

    Quem vai querer????

    ComplicaDÍSSIMO! 😥 😥

  5. Ewerton Luiz disse:

    Olá, Lak

    Postei há pouco no blog da Paula, sobre o descaso não só dos bancos, mas de todas as empresas onde os serviços de que “dispomos para um melhor atendimento”, se faz necessário o uso de telefone somente como ferramenta de voz, como se não fosse capaz de fazermos contato por outro meio, tão rápido e eficiente quanto.

    Talvez seja emblemático de um país que pouco lê, feito por ignorantes que só aceitam comandos por voz, já que pedir que pensem por si mesmos denota bom senso, que não possuem.

    Gostei muito de conhecer dois blogs que convergem para um ponto em comum, o seu e da Paula, chamativo e instigante no nome escolhido para eles, não poderiam ter escolha mais feliz.

    Vejo que muitas pessoas escrevem pela primeira vez, que se sentem representadas no que vocês articulam e o retorno só faz com que mais pessoas com deficiências auditivas participem, seja apoiando ou buscando alternativas para uma melhor integração ou contornar as dificuldades, que parecem tão simples mas exasperantes.

    Abraço.

    • laklobato disse:

      Verdade, Ewerton, o DNO e o Crônicas acabaram se completando, porque ambos tem publico similar, mas pequenas diferenças (o dela tem foco nos usuarios do AASI e o meu, no IC, mas ambos são focados na dinâmica dos surdos oralizados)… Por isso, acabam sendo parceiríssimos.
      Que bom que o resultado disso é que tantas pessoas estão encontrando eco para suas vozes, né? Bom não se sentir só…
      Beijos

  6. Jairo Marques disse:

    Lak, obviamente que sou totalmente favorável à demanda do povo surdo. Pergunto apenas se já houve alguma tentativa de negociação direta com a Febraban. Digo isso porque a entidade tem mostrado que tá disposta a promover acessibilidade. Bancos de renome já conseguiram cumprir a cota de deficientes e estão investindo em cursos de capacitação. Beijokas

    • laklobato disse:

      Jairo, eu vou fuçando e vou achando onde está o problema. A FEBRABAN apenas cumpre as normas da ANATEL, que por sua vez, cumpre o que foi solicitado em 2001 pelos representantes dos surdos. No caso, a empresa que vende o TDD foi muito bem repre$entada na discussão (porque queria vender o TDD, obviamente) e acabou conseguindo que as normas da ANATEL fossem através desse aparelho. Como já ficou claro que somente as empresas compraram o TDD (o usuário comum não compra porque é muito caso e uma tecnologia ultrapassada), agora é mudar as normas da ANATEL. Segundo soube, basta que o MP faça a solicitação da mudança que tudo se resolve.
      Beijos

  7. Arnaldo Abreu disse:

    Parabéns, Lak! Você já disse tudo aí, nesta matéria. Já passei e ainda passo por todas estas dificuldades quando tenho que resolver assuntos por telefone. Vamos, sim, divulgar nossas necessidades especiais e requerer das devidas autoridades solução que nos beneficiem na acessibilidade.
    Abraço
    Arnaldo Abreu/Rio
    IC Unilteral e AASI no outro ouvido

    • laklobato disse:

      Com surdez unilateral você tem dificuldade de falar no telefone? Que droga, heim? Vamos mudar isso e poder resolver nossos problemas sem precisar dele, então.
      Abração

  8. teresa disse:

    Desculpe coloquei errado acessibilidade e agora estou escrevendo. “Vou te contar o que aconteceu ontem (12/09) sobre empresa aérea. Infelizmente não tem acesso msg ou chat na empresa aérea GOL para alteração da data e só tem telefone para deficiente auditivo, no meu caso ouço, mas não consigo entender nem discriminar. É preciso ter acessibilidade para qualquer lugar como empresa aérea, bancos e etc…Se não, vou divulgar o projeto ou protestar ou quero fazer panelaço…não por mim e para deficientes auditivos que precisam comunicar por email ou internet. Não sou mais dependente, vc entende isso!!!. Então, procurei meu esposo ligar sobre alteração da data para que eu viaje para São Paulo para fazer outro mapeamento com a fono. É muito indignação para nós. Beijos….” 😥

    • laklobato disse:

      Entendo e sinto a mesma indignação. Ninguém merece, em 2011, não ter acesso aos serviços básicos que todo mundo tem, só por conta de falta de informação e má vontade. Beijos

  9. Cristina disse:

    Gostei do movimento! Vou twittar! Abraços, Cristina

  10. Regina Braga disse:

    Olá,

    Sou ouvinte e intérprete da Língua Brasileira de Sinais, estou acompanhando o movimento de vocês e acho ótimo, todos devem ter seus direitos garantidos.

    Trabalho em um banco e gostaria de saber qual a melhor maneira de atender aos surdos, seja oralizado ou sinalizado.

    Bjos
    Regina/SP

    • laklobato disse:

      Bom, como já estava no post:
      – gerente capacitado para atender um surdo oralizado (saber como falar conosco, devagar e virado para nós) ou sinalizado (por meio de intérprete em todas as agências)
      – atendimento por email
      – atendimento por SMS
      – cadastramento de 1 ou 2 pessoas de confiança, mediante documentação registrada em cartório, para que elas possam falar por nós no 0800 em casos de extrema emergência
      – cadastro da informação do tipo de surdez que temos (se somos oralizados ou sinalizados, se conseguimos falar no telefone ou não) nas informações da minha conta, para que não seja preciso explicar toda a situação novamente a cada troca de gerente
      – chat disponível 24 horas por dia, 7 dias por semana, no site dos bancos, com funcionário capacitado a resolver problemas para clientes cadastrados como surdos oralizados e sinalizados.

      Espero ter ajudado.
      Beijos