Aprender LIBRAS não é sinônimo de fracasso na oralização

ic-librasNão pretendo fazer um post de defesa apaixonada à língua de sinais. Primeiro porque não precisa, ela tem milhares de fãs, de entusiastas, de defensores ferrenhos. Segundo, porque eu mesma não tenho mais do que o conhecimento básico e não tenho lá muita afinidade com ela, então não estou advogando em causa própria e isso já afeta minha empolgação hehehe.

Mas, hoje, vou sair um pouco da “minha pauta” – usando esse termo porque geralmente quando me cobram falar desse assunto, respondo que essa não é a minha pauta – e falar um pouco sobre a LIBRAS.

Quando a gente pensa numa criança usando implante coclear, automaticamente, pensa numa criança tendo a oralização estimulada pela audição proveniente do IC. Imagina que ela faça acompanhamento fonoaudiológico e que, com o passar do tempo, a fala chega a um nível comparável ao de uma criança da mesma idade, ouvinte biológica. Tanto que a qualidade da voz de implantados pode chegar  a ser tão clara e natural, que nem se perceba a deficiência auditiva dela (porque leigo só percebe surdez quando a fala tem sotaque).

Porém, o implante coclear tem resultado imprevisível. Quer dizer, até é previsível, no sentido que tem casos mais favoráveis e casos menos favoráveis. E mesmo assim, existe as exceções tanto para melhor quanto para pior.

Em muitos casos, no entanto, a criança pode até ter um parecer favorável, mas por diversos fatores (incluindo nenhuma explicação clara) a fala oral e o desenvolvimento da linguagem podem não se desenvolver ou se desenvolver aquém do esperado.

O maior sonho de pais ouvintes que tem um filho surdo é que ele seja curado da surdez. Obviamente, porque aos olhos da sociedade, a surdez é uma deficiência e a única solução para ela seria uma possível cura. Ainda que o implante coclear não cure a surdez, ele é a opção mais próxima disso, quando permite que  uma criança com deficiência auditiva tenha total autonomia auditiva e com uma qualidade de voz de ouvinte biológico. Além disso, para chegar no auge do sucesso do IC, a criança ainda teria que ter uma compreensão da linguagem – entender perfeitamente o contexto do que lhe dizem, não apenas o som da palavra e expressar-se perfeitamente de modo que seja entendida sem equívocos – igual a uma criança ouvinte da mesma idade que ela.

Acontece que nem sempre isso ocorre. Pode ser que a qualidade  de som que ela receba com o IC não seja tão perfeita, por razões físicas. Pode ser que o implante dela tenha sido feito mais tarde que a idade da janela de neuroplasticidade auditiva. Pode ser que ela tenha alguma deficiência cognitiva concomitante. Pode ser que os pais não consigam dar o estímulo que a criança precisa. Pode ser que… milhares de fatores, que nem importa tanto, porque o objetivo do post não é procurar culpados. Pode simplesmente ser que a criança tenha um ritmo próprio muito mais lento que o comum, quem sabe?

Nessas horas, entra a sugestão de médicos, fonoaudiólogos, psicoterapeutas, professores, familiares, vizinhos, etc.: “Que tal incluir a língua de sinais para a comunicação da criança?”

E aí, os pais se ofendem, se chateiam, ficam achando que fracassaram, que o IC foi perda de tempo, que as pessoas estão mal intencionadas ao indicarem a LIBRAS….

A verdade é que não existe fórmula mágica para se educar crianças. Com milhares e milhares de especialistas no mundo, ainda existem muitas dúvidas do que é melhor para a criação de um filho. E isso acontece porque cada ser humano é único, com suas particularidades, com suas idiossincrasias, com suas vontades, anseios, desejos e necessidades.

E simplesmente, algumas crianças precisam da língua de sinais para o desenvolvimento da sua linguagem, da sua comunicação, da sua expressão de vontade. A criança pode precisa da LIBRAS para se comunicar, para expressar seus desejos e vontades, para compreender o contexto do que lhe dizem. A língua de sinais seria uma ponte para a comunicação dela, onde ela conseguiria se perceber como um indivíduo, conseguiria interagir com as outras pessoas, conseguiria compreender o mundo ao redor.  E seria através desta forma de comunicação que ela poderia encontrar o caminho para outras formas de comunicação. Ou seja, a LIBRAS pode servir tanto para a comunicação, como pode ser uma excelente ferramenta para o desenvolvimento da linguagem oral. Por isso mesmo que, em casos em que a LIBRAS é necessária e/ou indicada por especialistas, não deve ser encarada como FRACASSO da oralização, como motivo de vergonha, como algo ruim. A língua de sinais nasceu para servir de ponte de comunicação de pessoas com deficiência auditiva. Justamente o que implantados são. Nenhum implantado deixou de ser deficiente auditivo, só porque ouve através do IC.

O importante não é receber uma medalha de sucesso na criação de filhos, mas saber reconhecer as necessidades de cada criança e dar o suporte que ela precisa.

Por isso, resolvi fazer esse texto. Eu acho que muitos pais se espelham em mim, muito embora eu seja uma implantada adulta e pós lingual e acham que porque eu não precisei de LIBRAS, os filhos não deveriam precisar. Não é assim, cada história tem seus detalhes, cada pessoa tem suas necessidades. Não vejam a LIBRAS como fracasso de alguma coisa, mas como uma ponte para o sucesso. Algo que poderia acrescentar muito para uma criança com deficiência auditiva.

É claro que não estou dizendo que todo implantado deveria aprender LIBRAS.  Não acho que ela seja necessária pra 100% dos deficientes auditivos, nem deve ser obrigatória para toda e qualquer criança implantada. Eu não acredito em determinismos, acredito em liberdade de escolha. Acredito que cada pessoa tem as próprias necessidades e não existe caminho certo ou caminho errado. Mas o caminho individual de cada um.

E, mais importante de tudo, confie também no seu instinto materno/paterno, para saber o que é melhor para o seu filho. Tão ou mais importante que o conhecimento dos especialistas, é a intuição de mães e pais. Ninguém conhece melhor o próprio filho que seu pai e sua mãe.

Se o seu filho for uma dessas crianças que precisa de LIBRAS, mãos à obra. Aprender um idioma a mais é sempre uma nova maneira de ver o mundo, um mundo que vai se tornando cada vez maior!

Beijinhos sonoros,

Lak Lobato

14 palpites

  1. Marcelo P. disse:

    Muito bom texto. Aprendi libras aos 16 anos. Não que eu precisava, mas por ter conhecido muitos surdos que a utilizam. Hoje consigo ter uma vantagem em diversas situações.

  2. Muito bom texto. Aprendi libras aos 16 anos. Não que eu precisava, mas por ter conhecido muitos surdos que a utilizam. Hoje consigo ter uma vantagem em diversas situações.

    • Parabéns Marcelo, foi um grande passo na sua vida. Acredito que sua maior vantagem foi ter se sensibilizado pela causa, são pessoas como vc que o mundo precisa. Parabéns pela atitude.

  3. Meu filho de 7 anos vai aprender libras este ano de 2015

  4. Aprendo tanto lendo o seu blog. Parabéns e obrigada!

  5. Pois é, tudo são escolhas que fazemos para melhorar nossa vida. Fiquei surda com 27 anos e me comunico relativamente bem por leitura labial. Só que para conseguir acompanhar decentemente as aulas da pós-graduação, seminários e congressos, só leitura labial não foi suficiente. Por isso, aprendi Libras. Não é perfeito, mas ajudou/ajuda bastante. Vou compartilhar na fan-page do meu (futuro) livro (https://www.facebook.com/pages/P%C3%A9rolas-da-minha-Surdez/625485890883157), ok? bjs!

  6. Nossa !!!!! Como é isso… Tenho pacientes implantados que usam Libras e estão oralizando e outros já oralizados também… A Libras é uma lingua que permite que o surdo desenvolva a linguagem e compreenda o mundo e ainda… Aumente seu vocabulário. É fantástico…parabéns… Vou passar para os país dos meus pacientes… Bjs

  7. Super fofo o texto e o blog. AMei.
    Vou acompanhar. Divulguei esse texto em nossa humilde página, espero que não se importe.
    Bjs.
    🙂

  8. Keilah Ayres disse:

    Oi Lak!
    Concordo plenamente c vc!Sou mae d implantado usei Libras como apoio no proc d oralizacao do meu filho o q deu mto certo e no futuro tenho conviccao d q ele fara uso de Libras sim pq sinto q ele se identifica.Sempre indico Libras p alguns pais e percebo a resistencia creio q por sentirem esse senfimento de fracasso e tb serem quase q pressionados em alguns centros d Ic a banir a Lingua de Sinais da vida da crianca.Mas fenho esperanca de num futuro proximo isso vai mudar.bjs

  9. Obviamente, aquele que aprende Libras não é fã de usar AASI ou muito menos por uma cirurgia de IC, aqueles que se adaptam perfeitamente a linguagem, muitas vezes precisam de tradutores pois se a maioria desconhece até um deficiente auditivo oralizado, imagino como deve ser um que opta por Libras. Por outro lado acredito impossível alguém oralizado se interessar por Libras, não pelo fato de ignorar, mas pelo fato de nunca ter necessitado o aprendizado. Também não gostaria de “rivalizar”, cada um tem seu modo de expressar, assim como alguns cegos preferem ler o cardápio e outros preferem que o garçon traduza o menu. É tudo uma questão de adaptação, eu prefiro os sons, mesmo que não sejam claros o suficiente, mas a linguagem de Libras é tranquila e bem vinda da mesma forma, mesmo que muitos ainda desconheçam.