As Sem-Razões do Amor

Quem me conhece sabe a adoração que eu tenho por Carlos Drummond de Andrade, mas se tem uma poesia dele que eu venero é essa:

Eu te amo porque te amo
não precisas ser amante
em nem sempre sabes sê-lo


O que me inspirou esse post foi um comentário que fizeram no Blog do Jairo Marques (Assim como Você) que, explicando, é chefe de reportagem da Agência Folha de São Paulo, colunista oficial e possui um blog destinado ao universo dos portadores de deficiências, o qual eu tenho o prazer de acompanhar diariamente.
Calhou que semana passada, ele esteve no Programa do Jô acompanhado com uma amiga também cadeirante e o Jô – obvio – perguntou se ela era namorada dele.
Se quiser dar uma conferida: Jairo no Jô

Eu te amo porque te amo
Amor é estado de graça
E com amor não se paga
Amor é dado de graça

Não que um cadeirante não possa namorar outro, mas é um hábito social as pessoas “deduzirem por tabela” que deficiente só namora outro. Parece que as pessoas deduzem que sempre se busca o literal semelhante, sem se dar conta que buscamos seres humanos, apenas.

É semeado no vento
na cachoeira, no eclipse
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários

E, enquanto comentava sobre isso com minha amiga Miriam, ela me perguntou se olhavam feio pro Edu – meu marido – por ele ser casado com uma pessoa com deficiência.
Eu falei que não, que no meu caso, a deficiência não é visível, ainda mais porque eu converso normalmente (ou seja, falando oralmente e respondendo com naturalidade), no máximo, acontecia de deduzirem pelo meu “sotaque” que sou estrangeira e perguntarem pro Edu o que falei, num apelo para ele traduzir o misterioso idioma.
Mas é comum me perguntarem, quando acabam de me conhecer, se meu marido também tem “esse mesmo probleminha” (odeio quando tentam amenizar, usando um termo muito mais pejorativo do que “deficiência”) que eu.

Eu te amo porque amo
bastante ou demais a mim
Porque amor não se troca
Não se conjuga e nem se ama

Por outro lado, com meu ex-namorado, que era absurdamente tímido e raramente falava com alguém desconhecido – chegava a ser irônico, porque eu sou super comunicativa, ainda que tenha deficiencia justamente na comunicação – a minha surdez era acomplada-por-osmose a ele. Não raras vezes me perguntaram, na frente dele mesmo, se ele era surdo sinalizado (surdo usuário da língua de sinais, que só fala de forma gestual). Nas primeiras vezes, a gente achou engraçado, mas depois chegava a ser irritante a necessidade do estereótipo.

Amor é amor a nada
Feliz e forte em si mesmo
Amor é primo da morte
E da morte vencedor
Por mais que matem (e matam)
a cada instante de amor.

O amor não conhece barreiras físicas, geográficas, raciais, econômicas. A única coisa que pode dificultá-lo são problemas de cunho estritamente pessoal/emocional/piscológico.
De resto, é apenas amar e deixar-se amar.
Beijinhos
Lak

7 palpites

  1. Jairo Marques disse:

    Querida Lak, seu canto de ideias, como não poderia deixar de ser, é de extremo bom gosto, de extrema emoção e de muita competência. Adorei demais o visual agradável e amigável….. gosto também da poesia e da leveza. Gosto dos seus textos. Pra mim, é um orgulho saber que vc mergulhou nesse “mundo” do campartilhar pensamentos e devaneios… pode contar com as minhas visitas, palpites e palavrinhas… Vc está de parabéns. Beijocas, coisa querida

    • laklobato disse:

      Super ter você por aqui. Adorei os elogios, especialmente por citar justamente a palavra que eu usei como base (você é médium?): “Leveza”
      Ando com ela na cabeça, desde que um amigo, que possui outra deficiencia, disse que a maneira leve como eu encaro a minha surdez ajudou ele a se aceitar melhor. Quero manter o foco do blog nisso. Acho que faz bem à alma! Tomara que eu consiga!
      Você é vidente, confessa! hihihi

  2. Jairo Marques disse:

    Ah, sim, a sua mega, ultra, blaster sacada de juntar a poesia com aquele fato do Gordo, foi demaiiiisss!!!

  3. Patie disse:

    Sinceramente, seres humanos me dão medo. Acho super triste as pessoas assumirem que deficiente só pode ficar com deficiente, como se fosse um mundo fechado ou como se deficientes não fizessem parte do mesmo mundo que todos nós.
    E seu blog tá liiindo demais, e eu ainda tou rindo do filhote de helicóptero ahahaha

    Beijão!

  4. Leandro Kdeira disse:

    Mais que espaço gostoso hen!!
    Parabéns e Bjos.