Assistindo palestra com o Mini Mic: um relato pessoal

Um dos maiores obstáculos que eu, como deficiente auditiva enfrentei na vida, foram referentes a acessibilidade em sala de aula. Nos meus tempos idos de surdez sem implante, eu dependia imensamente da boa vontade do professor para não virar de costas, colocar a mão na frente da boca, não falar rápido demais. Depois do implante, veio a questão da reverberação, do eco, dos ruídos da sala e, claro, do volume de voz do professor.

É claro que eu não posso reclamar muito, porque sou uma pessoa de sorte! A grande maioria dos professores que me deparei (e ainda me deparo) sempre foram pessoas que acreditavam que ensinar não depende da limitação sensorial do aluno, mas do interesse dele de aprender. O que é meu caso.

E eu voltei a estudar recentemente, realizando meu sonho de fazer ESPM (para quem não conhece, a melhor instituição de ensino de Marketing e afins do Brasil) e também de fazer pós graduação. No caso, MBA e hoje foi a primeira aula presencial que tivemos, já que eu optei pela plataforma EAD (ensino a distância).

O ponto forte desse evento presencial era uma palestra que podíamos escolher conforme o assunto que nos interessava. Optei por uma palestra chamada “Como tomar as melhores decisões”, já que eu ando numa fase de buscas e mudanças.

Chegando na sala onde seria apresentada a palestra, junto com minha amiga Maria, me deparei com um senhor já de cabelos brancos, semblante sério e uma sala relativamente pequena. Sentei na terceira fileira e aguardamos o início da apresentação.

Quando o professor começou a falar, a voz dele soou bem baixinha para mim e aí, começou a saga que inspirou esse texto.

Dado meu histórico de surdez que me acompanhou em toda a minha vida acadêmica, a minha primeira reação foi querer levantar e ir embora. Porque ficar numa sala com uma pessoa falando e entender quase nada é algo simplesmente traumático na minha vida. Mas aí, eu lembrei que uso implante coclear e era só uma questão dele aumentar o volume de voz. Olhei e vi que tinha um microfone na sala, mas olhando ao redor, percebi que eu era a única pessoa que parecia incomodada com o volume da voz dele. Nessa hora, uma estrela brilhou na minha frente  e lembrei do Mini Mic 2+ dormindo na minha bolsa. Liguei e levantei a mão. Ele já tinha começado a falar, então fez uma pausa com uma cara de “ai ai ai, que que essa menina quer?”.

Falei, com toda a propriedade que só uma Lak Lobato (e eu falo que na internet e na minha vida pessoal são pessoas diferentes, pois pessoalmente sou muito retraída) conseguiria ter e disse: “Eu tenho deficiência auditiva e não estou conseguindo ouvir o senhor direito. Você se importaria de usar um microfone na camisa, para eu te ouvir melhor?”

Ele fez uma cara de surpresa. E perguntou se eu preferia que ele falasse com o microfone na sala. Falei que não, que eu preferia aquele, porque o áudio ficaria melhor.  O que, de fato, aconteceu. Nunca ouvi tão bem uma palestra! Ele andou pela sala, virou de costas, ficou longe de mim, e o áudio era sempre no mesmo volume: alto e claro!  Teve até uma hora que eu tive uma crise de tosse e, por educação, saí da sala. E continuei ouvindo. Ou seja, não perdi nem uma palavra do que foi dito! Acho que nunca, nem mesmo quando era ouvinte, consegui ouvir tão bem cada palavra!

Não só foi a palestra mais maravilhosa e interessante da minha vida, pelas coincidências do discurso dele, que se pareceram com tantas coisas que falo nas minhas palestras, como pude perceber como eu GOSTO de participar das aulas.

E até fiz uma descoberta interessante: sou realmente muito mais auditiva que visual, pois ele fez uma pergunta que ninguém conseguia acertar, já que tinha uma foto influenciando a resposta, mas eu só prestei atenção na pergunta em si e acertei! (Hoje estou desprovida de modéstia, tá?)

Professor Roberto Camanho, da ESPM, utilizando o Mini Mic.

No fim da aula, perguntei se ele se importaria de tirar uma foto com o Mini Mic preso na camisa. Ele perguntou porquê. E expliquei que eu sou adulta e era apenas uma palestra, mas ele me deu uma resposta gentil diante do meu pedido. Enquanto há professores de crianças, que precisam ouvir bem o conteúdo da aula, que se recusam a usar uma simples tecnologia de acessibilidade. Que eu queria compartilhar a experiência, para que ele pudesse inspirar professores a aplicar a verdadeira inclusão: permitir que um aluno aprenda, independentemente das limitações dele.

Se eu gostei de usar um sistema de transmissão de som numa palestra? Mais que tudo nessa vida! Porque além de ouvir melhor, eu pude escutar de verdade o conteúdo!

Beijinhos sonoros

Lak Lobato

p.s. A primeira das 5 habilidades destacadas pelo prof. Roberto Camanho,  para auxiliar na tomada de decisões era justamente “Reconheça seus limites”. Acho que foi um exemplo real de como reconhecer limites pode fazer toda a diferença nas nossas vidas!

7 palpites

  1. ADOREI. Já me aconteceu abandonar um curso interessante porque a sala tinha eco e mesmo com microfone eu não entendia nada. Seu relato é semelhante ao efeito que eu tenho em lugares onde há ARO MAGNÉTICO seja cinema (entendo duto) ou palestra. A tecnologia é uma ajuda e tanto. Alegre com sua alegria de poder entender uma aula.

  2. ADOREI. Já me aconteceu abandonar um curso interessante porque a sala tinha eco e mesmo com microfone eu não entendia nada. Seu relato é semelhante ao efeito que eu tenho em lugares onde há ARO MAGNÉTICO seja cinema (entendo tudo ou quase) ou palestra. A tecnologia é uma ajuda e tanto. Alegre com sua alegria de poder entender uma aula.

  3. Compartilho dessa experiência a vida inteira e ainda não me acostumei rsrs

  4. Monica Campello disse:

    Lak, amei !
    Vou compartilhar com as professoras dos pequenos que atendo.Conhecer o Mini pela fala de um usuário adulto, sempre reforça e faz entender tudo que a Fono explica sobre os benefícios que proporciona no dia a dia escolar dos pequenos e sobre a necessidade do uso. Sempre é um incentivo.

  5. Jorge Roberto Vieira Alves disse:

    Boa tarde Lak,
    Sou candidado a implante coclear e gostaria de saber o que é o Mini Mic 2+. É um acessório do ap. de implante? Ele vem junto com o ap.?

    • Lak Lobato disse:

      Ele acompanha implantes da Marca Cochlear (Nucleus 6 / Kanso). Outras marcas e modelos possuem acessórios compatíveis nesse mesmo estilo.
      Esse Mini Mic 2+ é um transmissor direto de som. É um microfone que fica com a pessoa que está dando a aula ou palestra, transmitindo a voz dela diretamente para seu processador, evitando que a voz “compita” com outros sons do ambiente: outras vozes, ecos, reverberações, ruídos da sala do lado, etc…