AutoAceitação da Deficiência Auditiva: o que isso significa?

Ultimamente, eu tenho percebido muito o uso desse termo “a pessoa não se aceita” como justificativa para um determinado comportamento tido como danoso, por quem julga a pessoa em questão. Vale para tudo: carreira, relacionamento, deficiência, condição financeira, etc…

Mas, eu percebo também que esse argumento é frequentemente usado com a intenção de dizer: “essa pessoa não se comporta como deveria”. Mesmo que o comportamento não seja nocivo pra ela, é apenas uma forma de dizer “não se comporta do jeito que EU acho que deveria”.

Quando se tem deficiência auditiva, esse julgamento se torna ainda mais comum e frequente. Porque muitos estudos e teses foram feitos em cima do modelo antigo da deficiência auditiva: de nascença, profunda e sem recurso tecnológico adequado para suprir o deficit auditivo. Obviamente, aceitar-se significava abraçar a língua natural possível: a língua gesto-visual de sinais. Um surdo neste modelo que negasse utilizar essa forma de comunicação teria muito mais dificuldade de se comunicar, de aprender, de compreender o mundo, a menos que fosse um caso de sucesso na oralização.

Ainda hoje, o resultado da reabilitação auditiva é muito variável. Depende do momento do diagnóstico, do tipo de perda auditiva, do tipo de intervenção, do sucesso dessa intervenção, da aceitação individual da pessoa com deficiência auditiva em relação a essa reabilitação. Além disso, é preciso considerar o grau de perda e o momento em que ocorreu a perda na vida dessa pessoa. É impossível criar um modelo único de pessoa com deficiência auditiva, ou surdo, numa equação de inúmeras variáveis que gera mais de um tipo de perfil.

Se formos pensar do ponto de vista pessoal, não existe problema nenhum em cada um fazer o que é melhor e funciona para si, em vez de perder tempo discutindo se a pessoa deve fazer isso ou aquilo.

Porém, quando se trata de incluir essas pessoas na sociedade e dar acessibilidade a elas, a tendência é propor uma padronização dessas pessoas.  Pegam em comum o que todas tem: deficit na audição e levam por base que elas priorizam a percepção visual, já que a auditiva não funciona.

Aí que mora o problema: mesmo elas tendo em comum o deficit auditivo, ainda assim, elas podem ter diferentes graus de perda: leve/moderada/severa/profunda/ausência total. Elas podem ter nascido sem audição ou podem ter perdido a audição aos 10/20/30/40/50/60/70/80 anos. Elas podem ter sucesso com o uso de aparelho convencional, podem ter sucesso com o uso de implante coclear/sistema baha/implante de tronco encefálico. Ou elas podem detestar intervenções auditivas e se comunicar somente (e eficientemente) por leitura labial. Ou podem não ter nenhuma afinidade com a leitura labial e preferir a comunicação através da língua de sinais.  Ou ela pode optar por mais de uma forma de comunicação. Como padronizar algo que varia de pessoa para pessoa, de histórico para histórico, de solução comunicativa para solução comunicativa?

Num universo extremamente diversificado e complexo, como definir quem se aceita e quem não se aceita? Qual o comportamento pode ser considerado melhor e único adequado, para pessoas tão diferentes entre si? Incluindo o fato que uma pessoa pode ter mais de uma preferência. Ler lábios e usar aparelho auditivo. Usar implante coclear e utilizar LIBRAS.

Acho que para quem tem necessidade de julgar as pessoas, o primeiro passo deve ser assumir que não se tem conhecimento suficiente sobre a diversidade. Em seguida, abrir-se para o conhecimento e aprender. Aprender que a deficiência auditiva não é homogênea, não ocorre sempre na gestação ou nos primeiros anos de vida. Aprender que ela pode variar conforme o grau de perda. Aprender que existe várias formas de comunicação para essas pessoas. Aprender que existe vários tipos de próteses e implantes auditivos. Aprender que alguns tem mais afinidade com a língua portuguesa e outros com a língua de sinais. Aprender que várias pessoas utilizam mais de uma forma de comunicação. Aprender que cada surdo tem suas preferências, que são seres humanos únicos, que toda e qualquer forma de vida que seja saudável deve ser respeitada. E só depois de compreender – e entender com clareza – essa diversidade, se pode falar sobre uma pessoa e “julgá-la”, mas de acordo com o que ela é, e não de acordo com o que se espera dela.

Porque o ponto principal é que a pessoa se comunique com eficiência. Interaja de forma eficaz com o mundo. Expresse plenamente a sua vontade. Se tudo isso estiver ocorrendo, não importa como esteja sendo feito, importa que funcione. E que a pessoa esteja satisfeita. E o resultado disso tudo, é a auto-aceitação da pessoa, pois ela está interagindo da melhor forma possível, para ela, com o mundo. E é a maneira como ela se sente melhor, e não a maneira que alguém acha melhor, que define isso.

O DNO, por exemplo, é um lugar específico para compartilhar o lado bom e sonoro da vida, para quem busca essa alternativa à deficiência auditiva, através da tecnologia. E esse é o único foco da surdez que me interessa.

Beijinhos sonoros

Lak

5 palpites

  1. Bacana, Lak. Há alguns meses escrevi um texto sobre essa heterogeneidade da surdez. Compartilho com você: http://www.jeitosdesereconviver.blogspot.com.br/2016/01/1001-jeitos-de-ser-surdo.html
    Um abraço

  2. Belo texto. É realmente preciso acabar com o desejo de alguns de ditar um modo de vida “correto”, ainda que tal pretensão esteja travestida de politicamente correto. Aliás, quando se traveste, o preconceito é ainda mais pernicioso. Afinal, como escreveu Erasmo de Roterdã, “a mentira se agrava quando se faz de virtude.”

  3. Lak Lobato Lak Lobato disse:

    Conosco rola muito. Esses tempos mesmo, veio uma pessoa dizer que eu deveria me aceitar que tinha surdez e falar de LIBRAS no DNO. Não, amigo. Eu me aceito e isso NÃO significa falar de LIBRAS. Surdez pode incluir aceitação de muitas formas, reconhecer que preciso do IC é uma delas.