Canta uma música para mim?

No começo do ano passado (janeiro de 2013), quando eu tinha acabado de ativar o segundo IC, que me devolveu a discriminação auditiva da fala, teve um evento na empresa que eu trabalho que incluia uma festa.
As festas lá são sempre incríveis e o contratam bandas para tocar ao vivo.
Era a primeira vez, depois de quase 26 anos de nenhuma percepção de música, que eu estava numa festa com música ao vivo onde conseguia compreender alguma coisa.
Lembro que meu queixo quase caiu no chão, quando percebi que estavam tocando a minha música favorita quando ensurdeci, “Exagerado” do Cazuza. Eu não sabia se cantava, se dançava, se chorava, se ficava só parada com cara de boba ouvindo. Fiz tudo isso e fiquei super cansada com tantas emoções e fui sentar numa mesa num canto da festa,
Um colega meu de trabalho, com quem eu tinha o maior prazer de ficar horas conversando, veio na minha direção e sentou ao meu lado e passamos o resto da festa conversando. (Leia-se, eu interrogando ele sobre todas as músicas que a banda tocava, porque obviamente, só conhecia umas 2 ou 3. Sou uma pessoa abençoada que sempre encontra almas caridosas que aguentam meus questionários sobre sons).
Lá pelas tantas, ele exclamou “Nossa, estão tocando minha música!” e começou a cantar junto. Isso facilitou para caramba a compreensão da letra, já que eu estava recém ativada e não era tão fácil entender as letras das músicas que ouvia.
Achei a música linda e fiquei com o refrão dela na cabeça.
Chegando em casa, dei busca da música na internet e ficava cantarolando o refrão de vez em quando, da maneira mais errada possível, o que sempre fazia o Edu me corrigir. Até o dia que ele se cansou de eu ficar cantando errado e me desafiou a aprender a cantar direito (eu acho que ele estava enlouquecendo com a minha versão nonsense). Como sou ariana e não admito que me digam que não sou capaz de algo, eu coloquei a música no meu celular e passei a ouvi-la tipo 70 vezes por dia (com fone de ouvido a maior parte do tempo, lógico). E quando comecei a fazer reabilitação auditiva, minha fono pediu para eu escolher uma música para treinar e eu aproveitei para escolher essa, assim tinha uma motivação a mais para vencer o desafio do Edu.
O tempo foi passando, até comecei a enjoar da música e a vida seguiu o rumo.
Um ano depois daquela festa, houve outra festa no trabalho e a mesma banda foi contratada, chamada Crepe Suzette.
Como eu faço parte da organização do evento, estava sentada no chão desembrulhando uma bugigangas quando a banda chegou, antes da festa começar. Aí o vocalista veio na minha direção e fez uma brincadeira relativa às bugigangas e percebi que ele era uma pessoa muito simpática.
Lógico que eu não sou nada boba e aproveitei a deixa para contar a minha história fofinha de vida e pedir para ele cantar de novo a tal da música.
Maycon Rosa,  o vocalista, ficou muito emocionado com a minha história (afinal, sou expert em contá-la da maneira mais suave possível, sem dor, sem drama, apenas falando do lado bom de reencontrar uma capacidade perdida) e aceitou cantar a música sim.
Duas horas de show depois, ele avisou que ia cantar uma música especial, a pedido de uma mocinha que ficou mais de 20 anos sem ouvir e começou a cantar.
A minha surpresa foi que não só ele, mas praticamente a festa toda, começou a cantar junto. Aí sim, eu quase surtei de emoção! Não apenas porque passei o ano todo treinando uma música – sem saber – para aquele momento, como todo mundo cantar junto me fez sentir na prática algo que eu sempre via, enquanto surda, e me sentia de fora: a união que a música é capaz de fazer com as pessoas. Música é uma das poucas coisas que realmente faz todos os corações ali presentes baterem em sintonia!
O resultado disso, vocês podem comprovar nesse vídeo:

Não tem legenda, porque estamos apenas cantando. A música se chama “Pescador de Ilusões” do grupo O Rappa!

Beijinhos sonoros,

Lak

p.s. sabe a única coisa chata? O amigo que cantou a música que eu me apropriei não trabalha mais conosco e não estava presente para cantar de novo 🙁

p.s.2 apesar de eu saber a letra de trás pra frente e até conseguir acompanhar como vocês notaram no video (hahaha) eu não consigo acertar um trecho da música, quando falam a palavra “Coloridos”. Não importa o quanto eu tente, sempre canto errado!

12 palpites

  1. Ana Lúcia Issa disse:

    A felicidade está nas coisas simples da vida, e é a mais pura verdade! Como é bom pro corpo e a alma escutar uma música e cantar junto, momentos como este são únicos, não tem preço. E pra quem passou um longo período sem curtir este prazer é um momento muito especial. Viva os AASI, Implante Coclear e toda tecnologia que proporciona este e outras tantos prazeres sonoros. 😀

  2. Olá Lak Lobato, boa noite =)
    Bem, eu não sabia nada sobre você, te descobri porque entrei no face book da minha amiga Flávia Cintra, e estava passando a barra de rolagem pelas postagens, quando li um comentário dela: “Ái essa Lak Lobato, não cansa de me emocionar”. Confesso que eu nem ia ler, mas achei o título super interessante e pensei, vou dar só uma olhadinha rápida para ver do que se trata! Hã, estou agora vivendo um relacionamento sério com o seu blog, aliás, em um caso sério de amor com o replay, pois não me canso de ouvir você cantando a música do Rappa, nem me canso de chorar com cada texto que leio seu. O título que achei interessante era: “As Mães dos Implantados”. Então comecei a ler e não consegui mais parar, me encantei por tudo e aos poucos fui desvendando a sua história! Deixe-me explicar um detalhe que é muito importante você saber para me entender melhor: sou tradutora/intérprete de LIBRAS. Vivi e convivi com os meus amigos surdos a minha vida inteira, estudei com eles numa escola estadual desde a 2º série do primário, e desde então, eles são parte de mim, namorei um surdo por dois anos, e entendo profundamente esse universo. Então, quando entrei no seu blog, chorei com cada vivência sua, fiquei imaginando, torci por você, chorei com você, li praticamente todas as suas postagens, são quase duas horas da madrugada, e eu ainda estou aqui, encantada com tudo que você teve a capacidade de descrever, não consigo parar de ler. Quando penso: agora chega, vou dormir, amanhã eu leio mais…me pego aqui hipnotizada pelos seus textos, por todas essas vivências que conheci até agora. Chorei com cada descoberta sua que li aqui. No texto das mães dos implantados, o que mais me emocionou, foi quando você disse que elas são capazes de enfrentar tudo isso, apenas por uma possibilidade, “pois sem essa, só resta a certeza da surdez”. Isso que você disse me tocou profundamente, principalmente porque conheço as mães de todos os meus amigos surdos, fiquei pensando o que cada uma sentia, e me desabei aos prantos. Piorei quando em um outro texto, você contou como é lembrar o barulho que as mãos fazem quando se atritam, e nisso você lembrou do seu pai nas aulas de massoterapia na infância. Nossa, estou aqui querendo ir dormir, porém presa ao seus textos, socorro!!! Agora preciso dormir, não vai dar tempo de ler todos os textos, mas queria saber como, porque, e com que idade você ficou surda. E faço questão de comprar o seu livro, tenho certeza que vai ser a melhor leitura de vida que eu vou fazer na minha vida =) Meu e-mail é: oabforte85@gmail.com. Parabéns pela maneira que tem de tocar as pessoas através da escrita, isso é um dom, e você foi agraciada com super dosagens desse dom =) Beijinhos do Silêncio <3

    • laklobato disse:

      Oi, Alessandra. Eu ensurdeci aos 10 anos… Beijinhos sonoros e obrigada pelos elogios. Que bom que mesmo sendo tão apaixonada pela LIBRAS, ainda sobra espaço para amar também os surdos que querem ouvir pelo IC.Tem gente que acha que essas opções se contrapoem. Quando, na verdade, são apenas formas diferentes de se lidar com uma mesma situação.

  3. Mariana Siqueira disse:

    Esse texto, e principalmente o vídeo, me emocionou tanto! Meu sonho conseguir cantar assim com a turma! Quanto tempo não vinha comentar aqui… 🙂 :*

  4. Mariana Siqueira disse:

    Lak, a recuperação está sendo bem mais tranquila. Já posso retomar minhas atividades na faculdade. Não sinto, nem senti dor ao girar a cabeça, ao abrir, meu paladar não foi afetado… Não senti tonturas, enjoos. Nem se compara com a primeira. Eu estava preparada para isso tudo, mas foi super tranquilo mesmo. A minha ativação será dia 28 desse mês já, mal posso acreditar que está tão pertinho. Sinto saudades de ler os teus deslumbramentos sonoros e de outras pessoas no facebook, e só por isso fico pensando em retornar com um perfil diferente e círculo mais restrito hehe.

    Beijos,

  5. Regiane disse:

    Sempre quis fazer isso.. cantar junto com todos.. mas isso é beem complicado.. a nao ser que tenha alguem cantando pertinho de mim para que eu possa fazer a leitura.. Nem no meu casamento ouvi as musicas.. apenas escolhi.. mas ouvir mesmo, nao..
    Mas é assim a vida.. quem sabe logo com o IC permita que eu consiga ouvir sem leitura.. torço muito por isso.. e to com medo.. a qualquer momento o HC me liga.. 😯

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