Deficiência auditiva: Esconder ou exibir?

paperbagSe tem um assunto que gera debate entre deficientes auditivos de qualquer grau é se o melhor é esconder ou avisar que se tem deficiência auditiva.

Antigamente – e talvez não tão antigamente assim – as pessoas eram aconselhadas a esconder qualquer deficiência até onde fosse possível. E o resto da sociedade, a fazer vista grossa e fingir que não estavam vendo. Toda criança aprendia a não apontar, não comentar, não ficar olhando para alguém com deficiência. Porque era ofensivo, muito ofensivo, quando a pessoa não conseguia esconder e então, alguém comentava.

Mas, o tempo foi passando e a sociedade foi se transformando e hoje em dia, falar de deficiência deixou de ser um tabu e virou assunto para novela, livro, jornal e rede social. Ou quase…

Porque ainda tem gente que se envergonha de usar aparelhos auditivos. Conversando com fonoaudiólogas que trabalham com aparelho, é o relato mais comum. As pessoas com mais idade, que perdem a audição pela idade, dizem ter horror da idéia de usar aparelho. Negam enquanto podem. Dizem que a família vai tratá-los diferente, que fica feio, que as pessoas vão ficar olhando.

Aí você vê que a sociedade evoluiu, mas não tanto. Falar de deficiência tudo bem, desde que não seja a nossa. E se você falar demais da sua, você é chato e sem noção. E se você não é sempre simpático, sorridente e age como balcão de informações – independente da forma como as pessoas abordem o assunto com você – você é mal resolvido e deveria fazer terapia.

Por isso, acaba sendo perfeitamente compreensível que, mesmo em tempos tão “modernos” a surdez ainda não seja tratada com a mesma naturalidade que usar óculos de miopia, por exemplo.

O problema é que, se a gente não fala sobre o assunto, a sociedade continua ignorando a nossa existência e, por tabela, as nossas necessidades.

Querendo ou não, a iniciativa para a mudança tem que ser nossa. É preciso perder a vergonha de falar no assunto, perder a vergonha de pedir o que precisa. Perder a inibição de usar a própria voz, mesmo que ela tenha sotaque. Perder o receio de dizer “por favor, você pode falar mais devagar? Mais alto? Pode repetir?”. Não se envergonhar de solicitar atendimento preferencial quando sentir necessidade. Não se incomodar de entrar numa fila preferencial, porque sabe que (pelo menos teoricamente) é ali que o atendente vai ter mais paciência de repetir o que você não entender. Não ficar acanhado de usar aparelho na orelha. Nem ter problema de falar para a pessoa do lado, numa roda de conversa “você pode me ajudar? não estou conseguindo acompanhar o que estão dizendo.”.

A mudança inicial, infelizmente, terá que ser a nossa. Para que a sociedade acompanhe essa mudança e passe a abordar a deficiência auditiva com a mesma naturalidade que nós mesmos temos conosco.

Ser exibido não é o termo que se aplica aqui. O lance não é ostentar deficiência, mas encará-la como uma parte de nós e que é preciso deixar à mostra, para que as adaptações que precisamos sejam feitas…

Beijinhos sonoros,

Lak

p.s. é claro que eu concordo que tem hora e lugar para tudo. Tem momentos em que realmente não interessa passar informação completa. Por exemplo, se eu estou numa loja querendo comprar algo e estou sem tempo. Eu não tenho disposição sempre de explicar que sou surda oralizada, que sou implantada, que hoje ouço com o IC etc. Falo que não escuto muito bem e peço para falarem mais alto/mais devagar, etc. No caso, não é uma omissão, mas um resumo rápido para agilizar naquela situação. Mas isso, só quando estou com um pouco de pressa. De resto, eu explico, com calma e muito bem!

15 palpites

  1. Ze Marchiore Ze Marchiore disse:

    Já estou implantado há quase dois anos e nunca me preocupei em esconder…..eu quero é ouvir…..e tô conseguindo….q beleza !!!!

  2. Lak Lobato Lak Lobato disse:

    é isso aí… quem dera todo mundo pensasse como você!!

  3. Lak Lobato um bjão p você!!!

  4. Netinho disse:

    Muito bom, o texto. É como você mesma disse: “O lance não é ostentar deficiência, mas encará-la como uma parte de nós e que é preciso deixar à mostra”. Eu acredito que assumir a nossa deficiência vai ser melhor para nós mesmos, sabe? Mas, mesmo quando nos aceitamos como somos e encaramos a nossa deficiência de frente – o que dá uma levantada na nossa autoestima – ainda assim, enfrentamos muitas barreiras, e uma delas é a forma como somos tratados, em certas situações como por exemplo, pedindo informação a um atendente usando a nossa fala, e quando percebe o sotaque, olha logo para a pessoa que está contigo e pergunta o que você falou, ao invés de perguntar para você mesmo, afinal, a pergunta partiu de você, e daí passa a informação para o seu acompanhante, tipo tradução simultânea e isso sem ao menos olhar para tua cara, enquanto você está ali do lado ouvindo tudo com o seu IC. Não entendeu o que eu disse? Pergunta novamente! Falei baixo? Pede para eu falar mais alto, poxa! Infelizmente, temos que admitir: por mais que um surdo use e escute com o AASI/IC, para alguns, ele não ouve. Eu digo mentalmente: sabe de nada, inocente.

    Abração, Lak!

  5. soramires disse:

    Na Argentina tinha um colega do grupo de hipoacúsicos (lá a gente diz assim) que estava sempre com o AASI NA mão, e ainda se queixava que a mulher dele falava baixo. Um caso típico de idoso que não aceita ter perdido a audição. Quando mostramos isso a ele dizendo que ele vivia tirando o AASI ele ficou furioso…infelizmente tem gente assim. E quanto mais negar pior para a pessoa, os amigos e a família. Quando o saudoso doutor Lázaro G.Formigoni me disse que existiam aparelhos auditivos para meu caso vibrei de felicidade…tinha uns 20 e poucos anos e desde que coloquei o primeiro AASI me apaixonei, amor que dura para sempre.

  6. Na Argentina tinha um colega do grupo de hipoacúsicos (lá a gente diz assim) que estava sempre com o AASI NA mão, e ainda se queixava que a mulher dele falava baixo. Um caso típico de idoso que não aceita ter perdido a audição. Quando mostramos isso a ele dizendo que ele vivia tirando o AASI ele ficou furioso…infelizmente tem gente assim. E quanto mais negar pior para a pessoa, os amigos e a família. Quando o saudoso doutor Lázaro G.Formigoni me disse que existiam aparelhos auditivos para meu caso vibrei de felicidade…tinha uns 20 e poucos anos e desde que coloquei o primeiro AASI me apaixonei, amor que dura para sempre.

  7. Nunca escondi,acho importante quando chegamos em lojas,banco etc,avisar que temos deficiência auditiva,é muito melhor as pessoas ja nos atende sabendo.

  8. Lina Meira Lina Meira disse:

    Aqui faço questão de deixar claro a deficiência do Leonan,mesmo porque o IC fica bem visível… Não tenho vergonha nenhuma da deficiência dele…E jamais terei….

  9. Muito interessante isso.
    Tenho deficiência auditiva unilateral de grau profundo. Só ouço do lado direito. Durante muito tempo eu escondi. Sei lá, tinha vergonha da minha condição.
    Até hoje, quando ando lado a lafo com alguém, sempre me coloco do lado esquerdo da pessoa, quando alguém me dava espaço para sentar no ônibus ou num restaurante onde eu via que ficaria ruim pra eu escutar direito, eu negava e dizia que a pessoa podia sentar. Nunca dizia o motivo.
    Odiava quando minha mãe dizia que eu era deficiente na escola, porque eu acabava sendo a única a ter lugar marcado, isso me obrigava a dizer o pq eu tinha tratamento diferenciado.

    O problema é que eu SEMPRE ouvi assim, e considerava que ouvia muito bem. Hoje, eu me assumo como deficiente. Quando não entendo o que alguém diz eu digo: desculpa, pode repetir, pois não ouço desse lado.
    As pessoas me olham com uma cara estranha e depois ficam me perguntando sobre a deficiência. Aff…
    Pior é quando me perguntam como é ouvir de um único lado… como posso responder se eu nunca ouvi dos dois lados… aff.

    Mas acho super importante se assumir como realmente somos. Sempre quis ouvir do lado esquerdo, hoje existe o implante Baha. Estou realmente cogitando a possibilidade de colocar, mas tenho pavor de cirurgia, rsrsrs.

  10. Suzana Racquel Gaia, se quiser conversar sobre o BAHA, posso te apresentar usuários. Mas te adianto que é cirurgia de porte simples. 🙂

  11. Eu adoraria conhecer usuários do BAHA.
    O médico já me explicou o procedimento. Mas eu tenho pavor de qualquer procedimento cirúrgico.
    Mas acho que vale a pena.

  12. Assim que voltar pra SP, te coloco em contato 🙂

  13. Sou recém-operado e ainda não tenho ideia de como irei ouvir através do IC: som metálico, som biônico, mais natural…seja como for, esconder não é o melhor caminho, mas se der para levar a conversa na boa sem precisar se explicar, melhor. Usei AASI durante mais de 25 anos, hoje estou com 50 e apesar de estar em boa forma, sem barriga, careca, etc…a idade chega e temos que nos adaptar. Estou ansioso para que venham muitos sons, daqueles que já conheço como os novos ou que ficaram numa memoria auditiva distante. Como a Lak sempre disse, é um reencontro ao caminho dos sons, não a cura. Meu implante bilateral foi um sucesso, e depois de passar por 5 horas e uma recuperação de mais de 40 dias, duvido que eu pense em esconder. Quero ouvir e conversar com meus amigos, afinal, estou aqui para viver da maneira mais positiva possível. Esconder? Jamais. Sem estresse, sem se exibir, e dançar conforme a música. O que os outros vão pensar? que pensem.

    • Lak Lobato disse:

      Ai, MArcelo, esqueci de responder seu email, né? Desculpe, é que eu fico pra responder depois (sempre leio rápido via celular) e sempre esqueço.
      Pois é, esconder acaba atrapalhando o que é o mais importante: viver o som… Imagino a sua ansiedade, mas já adianto que no começo será meio metálico mesmo, depois melhora… Certamente, vai ser uma jornada de aprendizado, mas é um aprendizado que dá pra prazer de viver. Torcendo para você amar viver o implante. Vale a pena!! Beijos