Dicas de convivência com usuários de próteses e implantes auditivos

generico2Eu já tinha postado um texto bem parecido de dicas de relacionamentos amorosos com usuários de implante coclear. Mas, muita gente falou que era válido para todos os relacionamentos, então dei uma adaptada no texto para fica mais genérico.

Então, segue algumas dicas que podem facilitar a convivência com pessoas que usam implantes ou próteses auditivas. Com ênfase no PODEM, porque cada ser humano é único e não existe receita de bolo para lidar com TODAS as pessoas que usam próteses. Algumas podem ir na contramão de tudo isso e faz parte. Tampouco existem regras de comportamento para todos os seres humanos, né?

– Posso perguntar sobre o aparelho dela?
O aparelho dela é visível? Ela tenta esconder ou mostra com tranquilidade? Se a pergunta for feita com naturalidade (sem grosserias ou suposições) é provável que a maioria se sentiria a vontade para esclarecer a respeito dele. E se ela não quiser responder, tudo bem. Você tem o direito de perguntar. E ela, de não querer falar no assunto.

– Posso pegar no aparelho dela?
Só com autorização prévia e da forma que ela permitir. Qualquer prótese ou parte externa de implante auditivo é cara. E pode ser que a pessoa seja extremamente zelosa e não queira que ninguém toque além dela. Ou pode ser que ela seja tranquila e deixe você pegar de boa. Traduzindo, você pode pedir para tocar, mas esteja preparado para uma recusa.

– Posso perguntar sobre a surdez dela?
Pode. Especialmente se você convive bastante com ela. Aliás, deveria ser algo que parta da pessoa, sempre que ela entrar numa empresa/escola/local que irá frequentar regularmente, explicar sobre as particularidades da deficiência auditiva dela. Mas, infelizmente, nem todo mundo sabe que pode abordar o assunto com naturalidade. Ou pode ser que ela já tenha feito isso e você não estivesse presente. Então, peça para ela te contar o quanto ela ouve com o aparelho, se ela consegue ouvir bem quando você a chama estando de costas, se ela consegue atender o telefone e participar de uma reunião, etc. Lembre-se: pergunte, não faça suposições. Perguntar “Você consegue utilizar o telefone?” é uma abordagem ótima. Sair dizendo: “Eu sei que você não consegue falar no telefone, então vou te passar meu whatsapp” é uma suposição que, algumas vezes, poderia impedir mais uma forma de comunicação entre vocês. Há usuários de próteses que conseguem utilizar o telefone.

– Só porque uma pessoa utiliza aparelho auditivo e ouve bem, significa que ela ouve igual a um ouvinte?Não. Depende de diversos fatores. A quantidade de som que ela ouve e a forma como ela processa o que ouve. Pode ser que ela tenha ficado surda recentemente, tenha feito a cirurgia de implante coclear na semana seguinte e hoje tenha o melhor resultado do universo e tenha sim, praticamente uma audição normal. Ou pode ser que ela não ouça tão bem e ainda tenha uma perda leve. Ou pode ser que ela tenha ficado muito tempo sem ouvir e o cérebro dela não consiga processar todas as informações que ouve. Mais uma vez, não faça suposições, pergunte.

– A pessoa costuma tirar o aparelho com determinada frequência, posso pegar no pé dela para ela usar mais?
Ela é sua filha ou uma criança pequena que ainda está em fase de aprendizado? Se não, você pode apenas sugerir que ela use o aparelho em determinadas horas. Mas, também deve compreender quando ela não quiser usar. A interação de um adulto com a prótese que ele usa por escolha própria, é de foro íntimo. Tem gente que tira a prótese para se concentrar melhor e tem gente que tira a prótese por causa dos ruídos ambientes que ouvintes fazem questão que existam, mas que são extremamente incômodos para quem tem deficiência auditiva.
Um exemplo: música ambiente. Nem toda pessoa com deficiência auditiva tem a mesma tolerância de um ouvinte a esse “ruído”.

– Por que a troca da pilha não é feita de forma regular? Significa que a pessoa usou menos o aparelho naquele dia/semana?
Não, o processamento de som de um aparelho varia muito conforme a quantidade e volume do ruído ambiente. Se a pessoa foi menos exposta a barulhos, a bateria costuma durar mais. Se ela esteve em ambientes ruidosos, pode ser que dure muito menos. Além disso, a marca da pilha usada também pode fazer diferença. E, no caso de implantes cocleares, há diferença de utilizar baterias recarregáveis ou pilhas descartáveis, que costumam ter tempo diferente de duração. E, por último, o tipo de programação do aparelho/implante pode fazer diferença no consumo de pilha/bateria.

– Pessoas com deficiência auditiva tem sono mais pesado? Conheço algumas que são mais difíceis de acordar.
Obviamente, o silêncio permite um sono mais profundo do que um sono cheio de interrupções por ruídos ambientes. Porém, como já foi dito na introdução, cada ser humano é único. Tem surdos que dormem feito pedra e tem surdos que acordam o tempo todo porque tem sono leve. Tem surdos que tem insônia e surdos que dormem em qualquer lugar. Seres humanos são sempre únicos, à revelia de suas condições sensoriais.

– Pessoas com deficiência auditiva são sempre silenciosas, certo?
Errado, muitas vezes são pessoas extremamente barulhentas, já que nem sempre tem noção do barulho que estão produzindo. Fora que algumas gostam de fazer barulho para sentir a vibração ou porque gostam do barulhinho repetitivo de determinada coisa. Não caia nessa falácia de achar que trabalhar com uma pessoa com deficiência auditiva significa que você terá paz e silêncio só por causa da surdez dela.

– Eu tenho dificuldade de compreender o que meu colega diz. Posso sugerir que ele faça fonoterapia?
E você tem certeza que a pessoa já não faz? Nem sempre a terapia de fala faz milagres. Dependendo do tempo que a pessoa ficou sem ouvir, a terapia pode ajudar na melhora da voz, mas não torná-la uma voz de ouvinte. É mais indicado que você se esforce para entender o que a pessoa diz, peça para ela repetir quantas vezes for necessário ou até que ela escreva o que quer, do que mandar ela para fono.

– Posso falar de música com pessoas que usam próteses/implantes auditivos?
Pode, mas nada implica que ela seja obrigada a gostar do assunto ou que ela goste do mesmo tipo de música que você. Então, trocando em miúdos, o tema MÚSICA não é assunto proibido entre nós, mas a conversa vai fluir de acordo com cada pessoa.

– Posso convidar a pessoa para uma balada barulhenta?
Pode. Aceitar ou recusar vai de cada pessoa. Mas receber um convite é sempre bem vindo.

– Posso oferecer ajuda para traduzir uma conversa em ambiente barulhento ou uma reunião?
Pode. Oferecer ajuda é sempre educado. Mas, nem todo mundo precisa. Então, ofereça ajuda e esteja disposto a ouvir um “não, obrigado” sem insistências.

Beijinhos sonoros,

Lak Lobato

3 palpites

  1. Fabíola Cardoso disse:

    Ótimo texto,pensando seriamente em imprimir e colocar no quadro de avisos de onde eu trabalho ! 😀 😀

  2. Boa ideia Fabíola, algumas pessoas do meu trabalho PRECISAM aprender a lidar com minha perda. Estou CANSADA de piadinhas sem graça e das pessoas acharem que sou lerdinha. Só precisam aprender a respeitar, essa semana surtei porque não aguento mais, sempre levei na esportiva, mas uma hora CANSAAAAA! Enfim, rezo para os meus aparelhos chegarem logo, não aguento mais.

    E Lak, amei aqui. Beijos! :* 😉