Direitos das pessoas com deficiência x Vagas demarcadas

Vez em quando, evoco um assunto super polêmico aqui no blog “Desculpe, não ouvi!”, vulgo DNO, relativo ao uso das vagas demarcadas para deficientes físicos por quem não precisa delas.

É claro que muita gente tem milhões de argumentos de que aquelas vagas deveriam poder ser usadas por quem tem qualquer defiência, não apenas aquelas que afetam a mobilidade (e não, labirintite não entra no rol do que afeta mobilidade, porque ela não é exclusiva de deficientes auditivos e se for argumentação, qualquer pessoa vai ter motivo de sobra para usar a vaga). Eu, particularmente, não concordo com isso, porque acho que para quem realmente precisa do espaço lateral, não existe alternativa de parar em vaga comum e, se as vagas estiverem ocupadas, como eles farão?

Bom, de forma alguma meu objetivo é dar lição de moral, mas um pedido de ‘pare e pense, as vagas não são prêmio de compensação para quem sofre, elas são uma necessidade de quem precisa”. Se nem assim adiantar, lamento, mas pelo menos tentei fazer a minha parte.

E fazer a minha parte vai além de pedir um pouquinho de consciência, eu pedi também para o Jairo Marques, jornalista do Jornal “Folha de São Paulo”, colunista quinzenal do caderno Cotidiano e autor do belíssimo blog Assim Como Você, que serviu para criar uma enorme rede de blogs falando sobre deficiência, acessibilidade e inclusão, honrar o DNO com um texto sobre o assunto. Especialmente porque o Jairo é cadeirante e conhece muito bem o outro lado da história.

A vaga reservada

Por Jairo Marques

Certa vez fui falar em uma escola para uma plateia só de alunos surdos. Eram todos adolescentes, irrequietos. Minha sorte era que, por motivos óbvios, o barulho não se sobrepunha à minha voz….

Depois de papear um bocado sobre minha carreira e sobre o tal “como cheguei lá” sendo cadeirante e com todos os enroscos que isso pressupõe, abriu-se para as perguntas…

Os garotos, em sua maioria adolescente, tinham um interesse em comum: “Como era minha vida sexual uma vez que eu tinha movimentos comprometidos?”

A minha resposta foi devolver a pergunta: “Pra mim, o que é difícil imaginar é transar sem escutar os gemidos ou mesmo sem falar um palavrãozinho sequer! O resto, eu dou jeito”.

Naquele momento, senti que havia feito o sol na cabeça do meu público. A impressão era que eles não tinham noções do que significam diferenças e só tinham olhos para “dificuldades”.

Penso que o debate sobre o uso das vagas reservadas em estacionamentos passa pela mesma discussão: até que ponto conseguimos entender a necessidade do outro?! Até que ponto conseguimos medir nossas próprias limitações?

Não há outra justificativa, pela lei, da criação das vagas demarcadas para deficientes que não seja a necessidade física de mais espaço. Nesse sentido, cegos e surdos não são agraciados com a “benesse”.

O lance é simples: numa vaga tradicional, o cadeirante não vai conseguir sair da xaranga. É preciso abrir beeeem a porta (não importa se do passageiro ou do motorista) para que o cidadão consiga posicionar a cadeira e ‘apiar’.

A vaga também tem o sentido de facilitar o acesso para aqueles que têm dificuldade de locomoção. Por isso, normalmente, são mais próximas das entradas dos mercados, dos shoppings, das lojas…

Todas as outras justificativas, por mais louváveis que sejam, são criações sem sustentação legal, por enquanto. O espírito da lei é permitir o acesso e não criar um privilégio, minimizar um possível transtorno.

Se a Justiça ou os legisladores abraçassem todas as peculiaridades que justificariam o uso do espaço demarcado para deficientes, não sobraria lugar para os ditos “normais”. Mulheres grávidas alegam que não podem andar muito, gente com o pé delicado alegaria que está exposto a bolhas, famosos alegariam que precisam entrar e sair rapidinho, então…

Uma pessoa cega ou surda, pensem comigo, não ficaria impedida de ir a um lugar na ausência de uma vaga acessível ou mesmo com todas elas ocupadas. Já um malacabado das pernas, por exemplo, teria de ir embora ou parar a ximbica de forma irregular para conseguir entrar.

Entender as diferenças e as necessidades dos outros costuma ser um trabalho árduo porque, geralmente, nossas próprias ‘dificuldades’ gritam de uma maneira escandalosa. Mas não tenho dúvida de que o caminho para uma sociedade mais igual é saber lidar com o diverso.

Eu não preciso da vaga demarcada, mas preciso da legenda nos programas de tv (os sinalizados precisam da janelinha de interpretes de Líbras). Um cadeirante não. Já pensou se, de repente, eles resolvessem alegar que isso é desnecessário porque ocupa espaço demais na tela? É mais ou menos como eu enxergo a briga pelas vagas.

Usar fila preferencial, eu até concordo, se a pessoa sentir que tem dificuldades de comunicação (e torço para chegar o dia que os atendentes saibam, além do básico da Libras, falar devagar com deficientes auditivos que lêem lábios). Isso é uma necessidade real, não uma compensação pela deficiência. Mas as vagas? Deixemos para quem realmente necessita delas!

Beijinhos sonoros,

Lak

32 palpites

  1. Maíra disse:

    Ih, eu já passei por um aperto qd estava num barzinho com um amigo cadeirante… Quando fomos embora veio a grande surpresa: um carrão resolveu estacionar quase que grudando na vaga dele, sendo que onde o cara estacionou não era bem um vaga, era o restinho da vaga especial que tinha para dar espaço ao cadeirante. LIgamos pra polícia e nada. Ficamos séculos esperando pelo dono do carro e nada. Começou a chover feito tempestade… Nem eu mesma podia pegar o carro e ajeitar para ele pq onde iria pôr o carro depois para ele entrar? A rua era meio complicada. O que fiz? Subi a calçada. Foi o jeito.

    • laklobato disse:

      Pra você ver como um deficiente auditivo (você) não precisa de vaga demarcada, afinal, vc entrou no carro pra tirá-lo da vaga. Mas o seu amigo (cadeirante) precisava imensamente dela e o rolo que foi ela não ter sido respeitada. A vaga é pra quem tem necessidade, porque a ausência dela, causa perrengues enormes.
      Não, esse não é um direito que precisamos. Existem outras coisas mais importantes para nós.
      Beijão e obrigada pelo relato!

  2. SôRamires disse:

    Resumo da ópera:
    DEIXEMOS AS VAGAS PREFERENCIAIS PARA QUEM REALMENTE PRECISA DELAS!
    E chega de inventar desculpa esfarrapada para usar essas vagas indevidamente!
    Boa lembrança Lak!

  3. Bruna disse:

    Concordo e assino embaixo! Questão de bom senso né!
    Bjs

  4. Mila disse:

    ótimo o texto do Jairo, mas você arrematou com ainda mais excelência. Ser acessível é buscar o acesso de todos a todos os lugares. Não há o que se brigar nisso, quando todo mundo fica satisfeito com o simples fato de não ser impedido de entrar no lugar só pela falta de acesso. Não queremos entrar em mais lugares, usufruir mais, nem ter mais benefícios que todo mundo. Queremos entrar, usar, assistir, ler, comprar COMO todo mundo.
    Um beijo enorme, Lak.

  5. Greize disse:

    Gente tem outros Deficientes que fazem isso??Ta na cara e, é lógico que , essas vagas são destinadas para um tipo de Deficiência.Nunca passou pela minha cabeça usar essas vagas, é tão óbvio.
    Cada um com sua luta e sua vaga!Respeito! 😉

  6. fabiana disse:

    Concordo plenamente com você e com o Jairo. Procuro nunca usar vagas reservadas e quando estou com alguém que não precisa, também não deixo. Bjss 😛

  7. Márcia Frizo disse:

    Olá, Lak

    Segui a dica do Jairo no twitter e entrei em seu blog.Adoreeeiii.
    Também sou surda, isto é, audição zero. E oralista. Mas muito inclusiva pois esse mundão é todo nosso!
    Estou incluindo o link de seu blog no meu. Temos muito que trocar informações e conscientizar as pessoas.
    Prazer em conhecer.

    Márcia Frizo 🙂

  8. Rogério disse:

    O que esperar de um texto a quatro mãos Lak-Jairo? Covardia…
    Não sei se você percebeu, mas a mídia ultimamente vem se referindo às vagas em suas matérias como ‘vagas públicas’.
    Isso me preocupa um pouco, porque estou finalizando um verdadeiro alfarrábio para apresentar representação junto ao MP, tratando do desrespeito às vagas exclusivas em bancos, supermercados e afins, mas também em shoppings e outros locais que possuem estacionamento próprio, cercado e boa parte cobrado.
    Enviei um e-mail para a AMT (que corresponde à CET aí em SP), reclamando dos abusos nesses locais fechados, e a resposta que recebi era no sentido de que eles não têm autoridade em locais privados. Achei ridícula a resposta, mas mandei o e-mail só para ter uma prova da inoperância dos órgãos fiscalizadores, porque o que peço na representação é justamente cobrar isso deles.
    Nesse Brasilzinho danado tudo é possível, até mesmo a moralização.
    Oremos.

  9. Mariana disse:

    Ah não, fiquei revoltada com o relato de Maíra. Que absurdo! É preciso conscientizar as pessoas mesmo, demonstrando a necessidade dos cadeirantes para ocupar as vagas especiais. Mesmo que seja “rapidinho”, não tem desculpa nenhuma, oras. Tá bom de tomar uma boa dose de bom senso ò_ó

    Bjs, Lak!

  10. Olá Lak !

    Pois é, o mundo paralelo em que nos situam não é homogêneo, é, graças aos Deuses, muito heterogêneo, diverso, plural.

    Além das particularidades que cada deficiência ou limitação impõe a cada malacabado ( by Tio Jairo ), tem as diferenças de personalidade que pressupõe ser um humanóide.

    Entender e respeitar a dificuldade dos malacabado do lado torna mais qualitativa a nossa luta pela dominação do mundo, acredito.

    Portanto cada coisa no seu devido lugar, vagas de estacionamento é para quem possui uma deficiência física, que prejudique a mobilidade e exija uma proximidade com o local visitado em questão. Audiolivros devem atender a demanda dos deficientes visuais que amam obras literárias e similares e não podem ver aquelas letras miúdas que me derrubam de sono nas madrugadas. Legenda nas telinhas devem ser para nós que não conseguimos ouvir muito bem, os gritos de horror do Boneco Assassino.

    Alguém tem que escrever : Boo ! na telinha rsrsrs

    Bjs e bom fim de semana !

  11. zuleid disse:

    Oi Pessoal!
    Perfeito este post! A lei deve servir para quem necessita!
    Esta semana eu atendendo uma cadeirante em um orgão público e a mãe da moça me contou que não tinham conseguido estacionar em uma vaga para deficiente porque no carro não tinha o adesivo de deficiente! Daí eles estacionaram longe e com todas as dificuldades para empurrar a cadeira uma vez que a moça é obesa e a mãe uma mulher de 68 anos de constituição miúda. CLARO que acionei o serviço social e autorizaram o estacionamento no sub-solo do prédio para que a moça fosse conduzida de acordo com seus direitos e necessidades.
    Deveria ser regra, mas vira exceção…

  12. Andressa disse:

    Já usei a vaga especial uma vez, o motivo não foi a surdez pois ainda não havia perdido a audição…eu estava era baleada com a quimioterapia, sem condições de andar e precisava retirar um documento no poupa tempo. Meu marido pediu p estacionar na vaga e o guardinha deixou, mas p falar a verdade sai meio sem graça do carro pois, quem me via não sabia da minha dificuldade naquele momento.
    Esses dias fui assistir o musical Mama Mia, meu tio ficou responsável em comprar os convites…e o local escolhido não favorecia minha dificuldade em escutar, mais uma vez o maridão interviu e o pessoal do teatro me colocou na primeira fileira, assim a leitura labial me ajudou muito…mas fiquei sem graça tbém…mas valeu muito a pena. Da próxima vez compro na frente.
    Saudades de sapear pelo blog, pelo visto está recheado de belos textos.
    Bjocas

  13. Germana disse:

    Olá pessoal, aproveitando que o assunto é sobre nossos direitos… n sei se todos aqui estão informados sobre isso e só eu, até então, desconhecia tal direito. Sei que portadores de deficiencia têm direito a adquirir veiculos com insenção de impostos, porem eu nunca tinha encontrado uma lei que desse esse direito a portadores de deficiencia auditiva, pois na Constituição Federal n está escrito nada sobre decficientes auditivos. Eu busquei informações sobre isso em varios lugares, Receitas Federais e até mesmo nas concecionarias, porem ninguem sabia me informar, na verdade eu tinha mais informaçoes que eles proprios, nem mesmo na internete eu consegui encontrar esta informação. No entanto hoje ao ler um edital de concurso com mais atenção, vi que a lei ja existe desde 2004, Decreto Federal nº 3.298/99, quase não acreditei quando li lá que deficiente auditivo é considerado portador de deficiencia!!!

  14. Greize disse:

    À Andressa,
    querida não precisa ficar sem graça, vi de perto quem passa por QT, e sei como inabilita a pessoa, é seu direito nesse caso.ok.Mta saúde, sempre!
    Lak o assunto é sério ,mas não pude deixar de rir da abordagem dele na questão do sexo com os alunos surdos.heehehe 😀 .Mto boa!

  15. Germana disse:

    Poxa Lak, eu tava pensando que a gente tinha o direito de insenção de impostos! Será se não cabe ação? Vc tem conhecimento de alguem que ja tentou?

    bjus