DNO: A Origem

A gente estava voltando do trabalho. Já era de noite, mas eu ainda estava de óculos escuros, evitando os faróis dos carros. Não que eu seja uma pessoa cheia de frescuras, é que eu estava com a pupila dilatada por conta do colírio que era obrigada a pingar a cada oito horas. Não sei exatamente como ou por que, mas algo tinha causado uma lesão na região periférica da minha retina e que me deixou quase cega do olho direito. Mas tudo bem, depois de um surto inicial, já tinha me acalmado, confiando que o tratamento devolveria a minha visão direita.

E a gente voltava do trabalho, conversando sobre blogs. Era março de 2009 e fazia tempo que eu dizia ao Edu que queria trabalhar com textos, porque sempre (me considerei) fui boa para escrever. Ele me dizia, pela enésima vez, que eu deveria fazer um blog falando de surdez.

Eu era bem relutante com esse tema. Nunca fui muito chegada na idéia de escrever “surda” no meu cartão de visitas. Sim, eu era surda desde os 10 anos de idade, mas isso era um detalhe e não a definição máxima de quem eu era.

Nunca me deixei limitar pela surdez. Nunca aceitei que dissessem que eu não podia algo por causa dela (nada a ver com a surdez em si, eu nunca aceitei que me dissessem que eu não podia fazer algo, sou rebelde por natureza e sempre tive necessidade de provar que posso qualquer coisa que invente de fazer). Portanto, achava que surdez era justamente o tema que eu não era indicada para escrever.

Mas, naquele dia, a gente falava sobre os blogs que faziam sucesso. E o que eles tinham em comum: foco. Bons blogs eram focados, tinham assunto interessante de se ler, prendiam a atenção e tinham público cativo. E surdez era um tema que, querendo ou não, eu conseguiria manter o foco, pelo menos por um tempo. Isso era outro receio que eu tinha: não conseguir ter assunto suficiente para manter o blog ativo por muito tempo.

Os dias passando e eu fiquei com essa idéia na cabeça, enquanto fazia meu tratamento para o olho e pensava como seria bom poder escrever um blog que tocasse as pessoas,  a exemplo do blog do Jairo Marques, o Assim Como Você.

E foi assim, depois de muito pensar, num momento bem difícil da minha vida, que no final de tarde de expediente, com tempo livre para matar, que eu escrevi as primeiras linhas do DNO. O nome não foi escolhido ao acaso. Era o nome escolhido para o meu livro, na primeira tentativa de relatar a minha história (ainda tenho o manuscrito, mas é chatíssimo e graças a Deus, nenhuma editora se interessou na época hehehe). O nome era uma brincadeira com essa coisa de você pedir para repetir o que disseram porque não ouviu, não entendeu ou estava distraído. Uma expressão comum, que todo mundo usa, até ouvinte…

Ao contrário do que eu imaginava, o DNO foi muito bem recebido. Mas, claro, na época existia uma visão geral muito forte de que surdez sempre tinha que incluir LIBRAS. E eu fui bastante bombardeada por críticas de que deveria falar do assunto. E eu bati o pé e disse que não, que surdez poderia sim, ser falada sob o foco dos oralizados, aqueles surdos que usam a voz oral e  a leitura labial e/ou o apoio das próteses auditivas para se comunicar. Ganhei um monte de inimigos na época, incluindo gente famosa e importante. Para todos os efeitos, eu era alguém que supostamente lutava contra a acessibilidade e a inclusão.

Felizmente, também ganhei muitos aliados. Inclusive blogs similares começaram a surgir. De repente, os oralizados saíam das sombras – afinal, sempre existimos, apenas vivíamos camuflados entre os ouvintes – e ganhavam vozes.

No meio disso tudo, acabei criando coragem de fazer a cirurgia de implante coclear e o DNO ganhou outro foco: divulgar essa tecnologia. Meu caso está totalmente documentado na internet, com direito a muitos relatos emocionantes e outros nem tanto. Ele acabou servindo de inspiração e fonte de informação para dezenas (ou quem sabe centenas) de outros casos de implantados. Especialmente adultos que já tinham desistido de acreditar que o IC seria indicado para o caso deles.

ConvitinhoDNO

E, de repente, a minha vida deu um salto de 5 anos, desde aquela conversa no retorno para casa. Não só a minha vida se transformou. Mas também a minha pessoa. Eu mudei tanto: de casa, de emprego e como pessoa. O blog e o implante representaram mudanças radicais na minha vida. Minha voz mudou. Minha percepção do mundo mudou. Minha auto-imagem mudou: hoje coloco com orgulho “surda oralizada” no meu cartão de visita.

Mas, sobretudo, muitas vidas mudaram junto com a minha. Exatamente o que eu sonhava que pudesse acontecer.

Daqui duas semanas, a realização de um sonho: transformar o blog num livro. E, numa transformação jamais sonhada: feita a muitas mãos, com um apoio indescritível. Inclusive de pessoas que criticaram a mensagem inicial do DNO. Hoje, falar de surdez sob o foco dos oralizados é aceito, apoiado e é também considerado uma forma importante de divulgação de acessibilidade e inclusão. Obviamente, o mérito não é exclusivamente meu. Foi trabalho de equipe entre várias blogueiras que falam sobre esse assunto!

No fim, a mensagem que fica, ao ler tudo isso, é uma mensagem linda do Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”. Pode até ser que você, assim como eu, não mude nada sozinho. Mas, se você fizer a sua parte, pode ser que sim, a mudança aconteça! Vale a pena tentar!

Beijinhos sonoros,

Lak

5 palpites

  1. soramires disse:

    Bela história que tive o prazer de acompanhar…parabéns pelo primeiro livro, outros virão…

  2. Cristiane disse:

    Parabéns, Lak, por ser essa pessoa grandiosa!
    Não tenho dúvidas de que no momento não seja possível mensurar o nível de alcance desse trabalho maravilhoso que você tem desenvolvido.
    Tenho certeza que muitas pessoas acessam, lêem, refletem , se identificam, choram, crescem, se revelam, te indicam, sem se manifestar.
    Parabéns por ser exemplo fiel e espontâneo de um dos ensinamentos de Gandhi, desmitificando a surdez!

  3. Mariana Siqueira disse:

    Lak, toda vez que me lembro de ti ou quando falo sobre tu a alguém, sempre me lembro (é porque adoro fazer isso e adoro exibir essa história hehe) de como foi que eu cheguei ao teu blog de forma tão despretensiosa, como você se tornou minha musa inspiradora, de como o simples ato de ler o teu blog mudou a minha vida. Parabéns, Lak! Um grande beijo 🙂

    P.s.: Eu queria ir ao lançamento, com a Rafaela de Mello, mas as passagens estão uma facada! 🙁