A Duende Orelhuda e outras histórias….

Duenda Lakinha & J.J. Gullymor, 1º Secretário do Papai Noel

Duenda Lakinha & J.J. Gullymor, 1º Secretário do Papai Noel

Há uns anos atrás, tive a oportunidade de trabalhar como duende de natal, num shopping aqui em Sampacity. Foi um evento muitíssimo bem feito, que resolveu dar acessibilidade aos deficientes auditivos, colocando intérprete de língua de sinais nos cenários onde contavam-se histórias e lendas de natal.
Não sei dizer muito bem como fui parar lá, já que meu conhecimento na língua de sinais é fraquíssimo, dada a minha falta de interesse (eu faço excelente leitura labial, inclusive aprendi francês e espanhol usando-me unicamente dela), além da dificuldade que era, até pouco tempo atrás, de achar uma escola onde se ensinasse esse idioma (hoje em dia, se acha bem facil, basta procurar na internet).
Bom, como eu estava lá mais de quebra-galho do que qualquer outra coisa, fiz o possível para me enturmar com as pessoas com quem eu trabalhei.
Eram 4 sessões diárias de meia hora de historinhas em Líbras (Língua Brasileira de Sinais), de sexta-feira à domingo. O resto da jornada de 12hs, eram basicamente hitórias contadas verbalmente que depois acabaram virando um teatro improvisado, que a gente fazia pra divertir as crianças (e pro tempo passar mais rápido, já que o evento durou dois meses).
A gente contava, encenava, ria, fazia mil brincadeiras. Pulava pra cima e pra baixo. Inventava coisas novas a cada “peça”. Incluia as crianças na peça. Pintava o sete, ria e chorava,
Mas uma coisa que sempre deixava claro era que eu não ouvia, porque isso era uma forma de incluir a deficiência na história e mostrar o mundo que pessoas com deficiência são parte integrante da sociedade.

Algumas crianças ficavam curiosas, outras ficavam intrigadas, outras assustadas, mas sem dúvidas, praticamente todas queriam fazer perguntas, porque criança não tem preconceito, tem conceitos em formação.
Eu explicava que não ouvia, porque minhas orelhas não funcionavam, que era como passar o dia todo com as mãos tampando os ouvidos. Elas ficavam intrigadíssimas e não entendiam – assim como milhares de adultos também tem dificuldade de compreender – como eu conseguia respondê-las sem ouvir. Leitura labial, aparentemente, é menos conhecido do que parece hahaha
Enfim, nessa aventura especial de natal, teve um acontecimento que me marcou.
Umas meninas pré-adolescentes, como de hábito, vieram conversar conosco depois da apresentação, que devia ser a quarta ou quinta daquele dia.
Uma delas, virou-se pra mim e perguntou:
– Tia, você não ouve?
E eu:
– Não, querida. A tia é completamente surda.
E ela (reparando na minha fantasia de duende que tinha 2 orelhas de plástico pontudas no chapéu):
– Ah, puxa, tia, que chato.
E eu:
– Faz parte da vida. Algumas pessoas não ouvem, outras não enxergam, outras usam cadeiras de rodas. Mas somos todas tão felizes quanto você.
E ela:
– Que bom, tia! Mas, você tem quatro orelhas?
E eu me dei conta que ela tinha percebido minhas orelhas “de carne” sob a fantasia. Rindo, respondi:
– Sim, tenho. Olha…1, 2, 3, 4…
E ela fez uma cara desolada (meio falsa, de quem vai fazer piada mesmo):
– Puxa, tia, você tem QUATRO orelhas e você não ouve?
Isso me arrancou uma gargalhada gostosa e um “bico” de triste bastante forçado:
– VERDADE! Eu não tinha pensado nisso. Puxa, agora fiquei triste!
E ela, com o sorriso mais doce do mundo, prontamente me socorreu:
– Não fica triste não, tia. Olha, te dou um abraço.
E ela salvou meu dia, deixando uma marca indelável no meu coração.
Crianças são anjos que não tem asas…
Beijos,
Lak

4 palpites

  1. Leila disse:

    Querida Lak, adorei seu blog. Espero que continue escrevendo, pois vc é uma escritora e tanto.
    É verdade que crianças são anjos sem asas… Só pra deixar registrado aqui, um neném de 1 ano que é meu vizinho veio tocar aqui, bem na hora que estava lendo seu blog.

  2. Laka é por isso que eu amo crianças. No meu orkut msm pode ver que tem um album só dos meus primos. São o meu tesouro mais precioso. Amei esse seu relato e confesso que se fosse eu no seu lugar teria chorado hahahaha eu sou uma PAMONHA, choro até vendo comédia kkkkkk.
    Beijoooos

  3. laklobato disse:

    Num é, Di… ela roubou meu coração. Poxa, eu tava de fantasia há tempos e nunca tinha pensado nesse detalhe!! Crianças fazem mágica!!

  4. Leila disse:

    Só faltava a pamonha da Di aparecer aqui hahaha…

    Bjs!