Em direção ao respeito à diversidade na surdez

Antes de mais nada, que fique claro que não tenho nada contra  Líbras, acho ela uma excelente forma de comunicação e fico feliz de morar num país que reconheça a língua de sinais como segundo idioma oficial. Sei que tem gente que necessita dela e que ela retira muitos surdos do isolamento social.

No entanto, fico aborrecida quando vejo que muita gente começa a confundir deficiente auditivo com língua de sinais. Sempre deduzem que todo deficiente auditivo fala Líbras e muita gente fica perplexa de descobrir que não é somente um surdo adquirido em idade adulta que pode ser oralizado.

Essa foi uma das razões que me levou a fazer o DNO (sigla do blog “Desculpe, não ouvi”). Queria que as pessoas tivessem consciência da diversidade imensa que existe dentro da deficiência auditiva. Existem surdos sinalizados (aqueles que usam somente a língua de sinais), surdos oralizados (que falam oralmente como ouvintes e lêem lábios), surdos bilingues (que utilizam as duas vias de comunicação) e deficientes auditivos (aqueles que, apesar de terem dificuldade de ouvir naturalmente, com o apoio de próteses auditivas, conseguem ouvir a ponto de discriminar a fala sem necessidade da leitura labial), cada grupo com suas necessidades e suas individualidades, mesmo que, em todos os casos a deficiência se dê no mesmo campo sensorial.

Não é todo surdo que nasceu assim, portanto, para quem aprendeu primeiro o português, nem sempre vai conseguir ter fluencia, familiaridade ou interesse em aprender a língua de sinais, especialmente se a pessoa, assim como eu, tiver facilidade para a leitura labial. A língua de sinais se torna um apoio desnecessário. Da mesma forma que nem todo surdo consegue fazer leitura labial com clareza e depende absolutamente da língua de sinais.

Nem  todo caso de surdez é indicado ao Implante Coclear, que apesar de ser uma excelente alternativa, está longe de ser considerado uma CURA verdadeira pra surdez ou ter capacidade de erradicar a deficiência auditiva do planeta. A surdez neurossensorial é comum, mas existe casos de surdez condutiva e até de ausência de coclea, que podem ou não permitirem outros  métodos de sonorização.

E quem se interessa em respeito humano, acessibilidade e inclusão, deve saber sobre todos os tipos que deficientes auditivos que existem. Mas, melhor do que eu escrever sobre o tema, pedi pra uma amiga emprestar, aqui pro blog, um excelente texto sobre o assunto.

O texto de uma amiga que falei dela algumas vezes por aqui, ela foi uma das pessoas que me ajudou a buscar o Implante Coclear, mostrando as maravilhas que ela tinha descoberto, como por exemplo, conhecer o som do Bem-te-vi.

Em direção ao respeito à diversidade na surdez: anti anti-implante coclear

Sou anti anti-implante coclear na exata medida em que sou anti anti-libras, pois acredito que todos temos o direito de fazer escolhas. Nós escolhemos algo ou alguma coisa baseando-nos naquilo que sentimos ser o melhor para nós mesmos, e não o que os outros acham ou decidem o que é melhor para nós, salvo nos casos em que somos pequenos e, portanto, ainda não temos o poder de fazer determinadas escolhas. Enfim, as escolhas também implicam em desafios, pois que elas também têm limites.

Adoro especialmente quando Robert Martin nos afirma “cuidado para que a pessoa não se torne o rótulo. Digo que rótulos são para potes de geléia. O melhor rótulo para mim é o meu nome. Eu sou Robert Martin e sou neozelandês. Sou uma pessoa primeiro e minha deficiência é apenas uma parte da minha vida. Minha deficiência não me possui.” Estas palavras me cairam como uma luva, pois eu sempre adotei esta postura em relação à minha surdez, razão pela qual nunca me interessei verdadeiramente por nenhum movimento pró “cultura surda”. É verdade que já estive perto de entrar nessa onda (lembro-me especialmente da passeata pró “cultura surda” de 1999, em Porto Alegre, em que me aderi “sem mais nem menos”, ao lado de pessoas surdas usuárias de libras vindas de toda parte do país), mas isso se deu numa época em que as idéias e ideais que nortearam/norteiam o conceito de “cultura surda” ainda não me eram claros, eu viria a ter os primeiros contatos com as teorias dos Estudos Surdos alguns meses depois desse evento. E a conclusão a que cheguei é que Orgulho Surdo não é comigo. Sou uma pessoa primeiro e a surdez não me possui.

Pois bem, dito tudo isso acima, vou ao que me interessa: estive navegando no youtube, a fim de procurar vídeos sobre a temática da deficiência para meus trabalhos, e de cara me deparei com este lamentável vídeo, campanha anti-implante coclear. Seria trágico se não fosse cômico, a começar pelas mais absurdas desinformações relativas às “restrições impostas” pelo implante coclear. Está aqui a prova mais cabal do grau de infantilidade de uma parcela da comunidade surda, contrária às tecnologias que possam trazer melhor qualidade de vida às pessoas com surdez profunda:

http://www.youtube.com/watch?v=beKYEPfxhTY&feature=related

Um desses sujeitos fazendo uso de teatro barato para ridicularizar os usuários de implante coclear com demonstrações dos choques elétricos que levamos (esta foi boa), da “restrição” do implantado ao mergulho, totalmente ridícula (dentre outros exemplos dados, igualmente ridículos), dando a entender a (im)possibilidade do surdo implantado em mergulhar e culpar (os pais, os médicos?!) por não poder suportar a pressão debaixo d’água e com isso danificar o implante coclear ??

A princípio eu nem ligaria, mas o problema é que a ignorância deles afeta a imagem de qualquer pessoa com deficiência auditiva. As pessoas com deficiência auditiva não são um grupo homogêneo. Qual surdo oralizado nunca teve que educadamente pedir para algum bom samaritano falar, em vez de ficar-lhe fazendo mímicas ou mesmo libras? Não é este o tipo de vida que nós, usuários de implante coclear, levamos, como querem fazer crer essa propaganda anti-implante. Se o implante coclear é tão ruim assim, ou como consideram os mais extremistas deles, um crime contra a pessoa surda, e se essa premissa é verdadeira, então pela lógica se uma pessoa tiver duas pontes dentárias já não passa pela porta de um banco; assim, ela não pode ir ao dentista senão virará um robô, visto que uma dentadura postiça é sempre uma prótese. Tal qual um marca-passo e um implante coclear. Não se trata de dizer o que é bom ou mau pra pessoa surda. Trata-se, repito, do grau de infantilidade da mente humana, na incapacidade de se colocar no lugar do outro e sentir o que o outro possa estar se sentindo. Enfim, essa gente fica citando os mesmos autores para comprovar que estão certos e depois dizem que não podemos discutir o assunto porque não os lemos. Eu já usei o argumento de que, se as premissas são falsas, a tese é igualmente falsa, sem precisar lê-la inteira. Por exemplo, não preciso ler um mundo de livros nazistas para me convencer de que o nazismo está errado. Basta conhecer suas premissas (se uma coisa tem cheiro de m**, cor de m** e formato de m**, não precisamos provar para se certificar se tem gosto de m**). Agora, logicamente, aos olhos dos nazistas, o nazismo é científico. Mas aos nossos olhos, não precisamos estudar o nazismo para sabermos que essa teoria está errada.

A cultura tem como moto perpetum o comportamento evolutivo, calcado na experiência, que é acumulativa. Assim, se uma cultura é, por definição, mutável, para eles não pode bastar porque, se bastasse, estática haveria de ser. Sendo estática, cultura já não seria. Neste sentido, na medida em que a tecnologia caminha para suprir as necessidades humanas e elas são ditadas em grande parte pela cultura, ela há de ser influenciada em igual monta pela tecnologia. Quando os livros passaram a ser impressos, a necessidade de ler aumentou, pois ficou mais barato imprimir do que relatar oralmente. Quando a tecnologia permitiu, o homem se fez aos céus, criando uma demanda constante por viajar. A rejeição da tecnologia há de ser, portanto, uma quebra do enlace cultural mutável que caracteriza o ser humano. Podemos concluir que o uso do implante coclear cria uma variante na “cultura surda”. O implantado não será jamais um ouvinte mas será capaz de emular a audição, da mesma forma que um ser humano, ao entrar num avião, não se transforma em pássaro. Em outras palavras, um implantado não deixa de ser surdo, da mesma forma que um portador de marca-passo não deixa de ser cardíaco. A meu ver, o implante coclear transforma um surdo sem acesso ao som num surdo com acesso ao som, da mesma maneira que um marca-passo transforma um cardíaco com arritmia num cardíaco sem arritmia.

Por que então enxergar os surdos implantados como traidores da cultura surda ? Por que fazer tamanha campanha contra o pobre aparelho ? Vocês, como Surdos, ao pretenderem que a surdez não se extinga, ao fomentarem que se perpetue, deveriam estar mais preparados para entender o mundo que lhes cerca. Deveriam estar mais alerta para o entendimento da diversidade passar obrigatoriamente por despirem-se das atitudes arrogantes. Aliás, não seria psicologicamente muito mais equilibrado mostrarmos os riscos e benefícios e deixarmos que a pessoa se decida por si mesma ? No caso dos pais decidirem por seus filhos surdos, a conseqüência não poderá ser tão funesta assim, pois bastaria, caso o indivíduo optasse pela surdez sem sons, desligar o aparelho.

Sinceramente,

Anahi GM

[Texto reescrito em 12 de abril de 2008]

AnahiAnahi GM é Cientista social, ativista do Movimento de Vida Independente e pesquisadora do grupo de pesquisa em Acessibilidade e Tecnologias do Laboratório de Experimentação Remota, do Departamento de Engenharia e Gestão do Conhecimento da UFSC, onde atua em projetos relacionados à acessibilidade às comunicações para pessoas com deficiência, partindo da contribuição das tecnologias de informação e de comunicação como ajudas técnicas.

Beijinhos sonoros,

Lak

20 palpites

  1. inês disse:

    Aplausos!…É uma luta difícil, a do direito à opção por modo de comunicação (recepção e produção de mensagem) para o surdo, independentemente do grau, tipo, data de aquisição de surdez…etc e tal…Eu como pessoa (surda ou não) não quero impor aos outros a minha maneira de estar na vida, de pensar, de me relacionar com os outros…portanto também não admito que o queiram fazer comigo e rótulos, também os recuso. Liberdade de escolha, sempre…sem que a minha liberdade implique a perda de liberdade dos outros. Só e apenas!
    E sim, a minha defici~encia auditiva é apenas uma característica minha, tal como a minha deficiência visual (miopia), tal como o ser alta e morena, tal como gostar de ler e escrever…sou, acima de tudo, um ser humano!
    bjs,
    Inês

  2. Ferris disse:

    Individualidades sempre devem prevalecer… sem contar que é altamente contraditório alguém querer falar de inclusão e segregar opções de pessoas dentro de sua própria categoria…
    Acho que quanto mais nomenclaturas e categorias inventarem, mais desigual a coisa fica… Pessoas são indivíduos, com o perdão da redundância, e todas tem suas idiossincrasias…
    É como eu sempre digo: não há nada mais igualitário no mundo do que a burrice, ela não discrimina, cor, raça, credo, etnia ou deficiência…

  3. Bruna disse:

    Obrigado pelo belíssimo texto!
    Um ótima semana pra vc!
    Bjs

  4. April disse:

    É uma pena existir esse tipo de preconceito, a mim parece medo da novidade e inveja de quem tem coragem de experimentar….
    bjs.

  5. Judy disse:

    Lak, o texto é incrível, mas achei o vídeo apenas… bobo. Só bobo.

    Estarei sendo insensível à questão? Não sei. Penso em piadas que me atingiriam por minhas características pessoais e acho mesmo bobo, como aquele programa (Saturday Night?) que me fazia mudar de canal pelo alto teor de babaquice por segundo…

    Agora, “Orgulho Surdo”? É o fim, como qualquer orgulho nazista, mesmo.

  6. SôRamires disse:

    Valeu divulgar o texto da Anahi. O ponto de vista de uma pessoa implantada que construiu e constrói sua vida e carreira em cima de sua identidade de ser humano completo e não simplesmente uma “identidade surda”.

    Orgulho de nascer assim ou assado? A gente deve ter orgulho das coisas que realiza na vida ou que pelo menos tenta realizar.
    Acho infelizmente que existem outros interesses não declarados quando se ataca tão violentamente uma prática médica que pode ajudar as pessoas a ouvir.
    Existem interesses de escolas, professores, ideólogos, muita gente que nem é surda mas vive em função do “mundo dos surdos entendido como mundo da língua de sinais”.
    Não podemos admitir que a sociedade seja “bombardeada” com afirmações equivocadas como “todo surdo é mudo” (absurdo erro uma vez que o aparelho fonador existe e funciona na maioria dos casos, apenas por falta de audição deixa de ser usado e treinado) e consequentemente “todo surdo usa lingua de sinais”.

    Por isso me identifico como SULP – Surda Usuária da Língua Portuguesa (e outras mais…porque a gente é mesmo metida n`est-ce pas?)
    A propósito alguém já viu um muletante falar mal das cadeiras de rodas?
    Uma pessoa de baixa visão atacar o transplante de córneas?

    Claro que existem grupos religiosos que se opõe à transfusão de sangue mas isso deve ficar no âmbito de quem pratica tais religiões e não valer como premissa para atacar uma prática médica e querer criar regras para a sociedade como um todo.

    Essa discussão cansa mas não podemos deixar de divulgar nossos pontos de vista, afinal ainda há jornalistas que usam o termo “surdo-mudo”… 🙂 🙂 🙂 Parabéns à Lak e à Anahí.

  7. Rogério disse:

    Eu poderia ser simplista e apenas citar Nelson Rodrigues: não há nada mais humilhante que a coragem alheia. Tem gente com coragem (além de condições financeiras e indicação clínica) de fazer o IC, outros hesitam ou simplesmente não se aventuram. Normal. Mas parece que a coisa transcende o humor de qualidade horrorosa (deve ser inglês), com atores de esquina apresentado no vídeo. Tem interesses outros por aí.
    Beijinho, fofa.

  8. Renata disse:

    Muito bom o texto da Anahi. Os seus sempre sao otimos! A luta continua… Beijinho

  9. Simone disse:

    Eu sei que foi faz tempo…mas ADOREI este post, ainda que há o video que é tão cômico, deu para rir, sim!
    Valeuuuu!!
    Beijos.
    Simone.

  10. Daniela disse:

    Anahi falou tudo!! Amei ler este post, cada um tem sua individualidade e deve ser respeitado….nem todo surdo está sujeito a obrigação de aderir a Língua de Sinais, apenas é uma OPÇÃO.