Entre dois mundos…

Um pai veio me pedir para falar sobre qual é o melhor caminho para a inclusão social de uma criança/adolescente com deficiência auditiva. E comentou que achava que tinha cometido algum erro, já que não conseguia perceber o filho inserido nem no mundo ouvinte, nem no mundo dos surdos.

É muito delicado para eu abordar esse assunto. Pelo simples fato de eu não ter filhos. Como, sem ter sentido na pele a experiência de ser responsável por uma criança, eu vou falar sobre isso com alguma propriedade?

Porém, já adianto que a minha intenção não é ensinar pessoas a criarem os filhos. Não acredito que exista fórmula mágica para a criação de filhos, ainda mais vinda de quem não nunca teve, mas trago o debate ao DNO, porque acho que esse é um assunto social, que diz respeito aos surdos oralizados em termos gerais, não apenas restrito a pais.

Primeiro, repetindo algo que costumo falar nas minhas palestras: nenhum pai ou mãe erra de propósito. Não consigo imaginar alguém fazer uma escolha para o filho pensando no pior para ele. Toda a escolha é feita pensando que, por algum motivo, aquela escolha parece melhor, dará o melhor resultado, é o melhor para a criança naquele momento. Logo, não tem porque os pais se sentirem culpados porque o resultado não foi o esperado. Ninguém tem bola de cristal para prever a vida, a gente faz escolhas baseadas em hipóteses e possibilidades. Que às vezes dá certo, outras não dá.  O que é importante é pensar que independente do resultado, você escolheu o melhor pro seu filho sempre!

Segundo, não existe um caminho mágico onde o sucesso seja garantido. Já ouvi elogios e reclamações de todos os tipos de caminhos, vindo dos pais e vindo dos filhos.  Já vi surdos que usam apenas LIBRAS lamentarem por não terem aprendido português bem o suficiente para se virarem. Já vi surdos bilingues reclamarem que não gostavam de ser apenas oralizados e quiseram língua de sinais. Já vi implantados não gostarem do IC. Não existe assim, uma escolha que será perfeita e ninguém vai reclamar de nada. Pode ser que a maioria prefira X, mas quem garante que seu filho não ficará na minoria que preferia Y?

Em parte, eu acho que a escolha pelo caminho da LIBRAS, da Oralização ou do Bimodalismo deve ser feita tal como fazemos o de uma religião. Os pais oferecem aquilo que acreditam aos filhos (vale a pena pesquisar bastante antes de escolher, inclusive) e quando o filho cresce, ele decide se quer seguir esse caminho ou buscar outro que parece melhor. E os pais respeitam. Inclusive, é realmente importante ter em mente que o caminho que você escolheu não é necessariamente o mesmo que seu filho vai escolher. Você oferece uma escolha por aquilo que você acredita. Mas ele, quando tiver idade para escolher, fará as próprias escolhas de acordo com a própria percepção do mundo.

Eu recomendo que os pais conversem com os filhos, ouçam sempre o que eles tem a dizer. Escolham coisas juntos e respeitem as escolhas um do outro. Cabe aos pais orientar e, pelo menos até uma certa idade, até mesmo impor determinadas escolhas. Adultos não deixam crianças escolherem se querem comer apenas batata frita ou se querem ir pra escola apenas quando está nublado. Mas, chega o momento que essas escolhas precisam ser compartilhadas.

É claro que eu concordo que a grande maioria dos surdos quer conviver com outros surdos. Alguns preferem a companhia de usuários de LIBRAS, porque se identificam com ela. Outros preferem a companhia de oralizados/implantados, por conta da identificação. Amigos com a  mesma condição sensorial é importante. Mas a tribo em questão, vai depender de com quem cada um se identifica.

Acredito que pais de crianças/adolescentes surdos precisam ter contato com outros pais, trocar experiências e dúvidas. Somente alguém que está passando pelo mesmo que você compreende a dimensão das suas angústias e anseios.

Talvez no Brasil falte um pouco da cultura de formar grupos de apoio que apenas conversam, tal  como a gente vê nos filmes. Um dia da semana, do mês, do ano que a gente tira para estar junto de gente como a gente, para conversar, desabafar, contar as novidades e servir de apoio uns aos outros. Uma opção é fazer grupos de apoio no whatsapp, por exemplo, para quem não tem tempo ou a distância não permite  um grupo frequente.

E se for o caso de você perceber que a sua escolha não está permitindo que seu filho se sinta integrado no mundo, talvez seja hora de buscar ajuda ou outro caminho. Agregar, em vez de excluir.

Como surda oralizada, eu tenho a sensação que essa idéia de mundo de ouvintes X mundo dos surdos realmente não abraça muito bem os oralizados/implantados. Mas a gente vem trabalhando para mudar o mundo e, quem sabe, futuramente até essa tribo não encontrará o seu lugar no mundo?

Beijinhos sonoros,

Lak

 

 

3 palpites

  1. Lina Meira Lina Meira disse:

    Um assunto delicado mesmo…nem posso opinar..
    Aqui o Leo só convive com ouvintes…tanto em casa…na escola e entre amigos..
    Não pq evitamos esse convívio com surdos..e pq realmente onde moro não tem outra criança , adulto surdo..nem na escola..por enquanto o mundo dele é entre os ouvintes.
    Mas quero muito que ele conheça pelo menos outras pessoas com a mesma deficiencia dele…pra que ele entenda que não é o único assim. Rs

    • Jacqueline disse:

      Meu filho de 29 anos foi criado só entre ouvintes. Eu nao tinha a menor orientação na época mas hj percebo que foi um erro. A convivência com outros na mesma situação e muito importante.

    • Lak Lobato disse:

      Eu convivo com meus iguais, mas são surdos oralizados como eu. Não acho que a convivência com surdos que não são oralizados seja conviver com meus iguais. Eles são bem diferentes de mim. O importante é que as pessoas convivam com quem elas se identificam.