Epopéia de um domingo de manhã

(escrito em 24 de janeiro de 2005)
Eu dormia tranquilamente na minha cama, discutindo suavemente com o cobertor, que teimava de me esquentar mais do que devia, numa ensolarada manhã de domingo.
De repente, senti uma presença no meu quarto e acordei. Era minha mãe, com o rosto tão branco e os olhos demasiadamente assustados, de maneira que pensei: “Será que alguém morreu?”.
Minha mãe permaneceu em silêncio, antes de articular qualquer palavra, como se lhe faltasse ar suficiente para me explicar o que havia acontecido.
Meus pensamentos não foram longe, devido ao sono que me acometia, depois de poucas horas de descanso prematuramente interrompidas.
Finalmente, ela conseguiu falar:

– Tem um bicho na sala.
E eu:
– Uma barata?
Ela fez uma cara de pavor, horror, asco e qualquer similar desses sentimentos:
– Não, é um bicho voador. Ele estava atrás do arquivo preto. Fez um barulho enorme e me assustou. É todo preto, deste tamanho… – e fez um sinal com as mãos, separadas por aproximadamente 15 centímetros de envergadura.
Pela descrição, nada fidedigna, por conta do exagero costumeiro de mulher apavorada, imaginei que se tratava de um morcego.
Ainda com sono, retruquei:
– Chama o porteiro, para dar cabo nesse troço.
A expressão apavorada tornou-se raivosa:
– Que chamar o porteiro o quê? Eu vim chamar você. – Grunhiu ela.
– Esperando que eu faça o que? Você acha mesmo que eu vou levantar e catar o bicho com as mãos? Bebeu? – Respondi.
– Quantas vezes você me acordou, porque se assustou com algo de madrugada, na televisão ou na internet? – Argumentou ela, usando aquela culpa típica de mãe, quando não tem argumento lógico.
– Várias, mas alguma vez eu mandei você catar um dos monstros que vi na televisão ou na internet com as próprias mãos, poxa? – Reclamei. Cara, era domingo de manhã, eu estava caindo de sono e ela vem com culpa? Ah, tenha dó.
– Pelo menos, venha comigo até a sala.
E eu levantei, de pijama, com aquela cara de quem está pra lá de Marrakesh de sono, e fui, sonambulamente, até a sala.
Chegando lá, após alguns minutos breves de procura do suposto morcego, descobrimos o ser pousado na persiana, tão preta quanto ele, deixando-o assim, camuflado.
Afinal, não era um morcego, mas uma mariposa superdesenvolvida.
– O que você vai fazer? – Perguntou minha mãe.
– Eu vou entrar no MSN e ver se alguém me dá uma luz.
E ela foi se vestir, enquanto eu acessava o programa de bate papo, só pra me distrair, antes que eu falasse alguma atrocidade àquela que me deu à luz.
– Tem um filhote de helicóptero na sala. – Escrevi eu, para para o único ser vivente online àquela hora.
– Ele está fazendo o boletim do trânsito? – Respondeu ele.
– Não, ele está enlouquecendo minha mãe, que acha que é uma conspiração do além contra o domingo dela. Você sabe como é a minha mãe, tudo é vibração negativa em andamento.
– Eu acho que isso é resultado de janela aberta. – Argumentou, sabiamente.
– Concordo com você, mas minha mãe acha que é um sinal divino de desgraça.
E ficamos discutindo como colocar o morcego-mariposa-filhote-de-helicóptero dali para fora.
Afinal, minha mãe chega:
– Vou chamar o porteiro.
– Nossa, finalmente alguém teve uma idéia prática nessa casa. – Satirizei eu.
O porteiro subiu, pegou o ser com a mão, colocou numa sacola de plástico e levou-o embora, numa questão de milésimos de segundos, que deixaria muito Agente Smith com inveja.
E eu pude, finalmente, voltar para a cama, fechar os olhos e retornar meu sagrado sono dominical.

Moral da história: Eu posso ser surda, mas às vezes, as pessoas não me ouvem, cáspeta!!

2 palpites

  1. Samy disse:

    Cai de paraquedas aqui no teu blog.. e adorei!!!

    Principalmente pq essa sua Epopéia, é bem parecida com as minhas.. xD

    Minha mae costuma dizer que teve uma filha(no caso eu) por um unico motivo: deixar alguem mais forte e corajosa que ela na Terra; o forte num rolou, mas sempre que aparece barata, rato e afins em casa, la vem minha mae e meu pai me empurrar pra matar ou pelo menos dar cabo do bicho! ¬¬’

    Enfim… tudo isso só pra dizer que adorei o blog! Bjos!

    • laklobato disse:

      Oi, Samy.
      Num sei de onde os pais tiram a ideia de que somos todos biólogos em potencial. Será que foi porque nos viram brincar com insetos aos 2 anos de idade? Volte quando quiser… E fica tranquila que nunca te pedirei pra matar nada hihihi Beijos