Eu, a música e o implante coclear

Outro dia, fizeram uma matéria sobre o lançamento do meu livro, no site do Hospital das Clínicas. Porque, óbvio, sou paciente deles, falando do trabalho deles.

Meu médico que me operou, Dr. Koji, fez um comentário interessante sobre eu ouvir música e complementou que era algo raro.

Eu conheço muito implantado que não gosta de música e vários que gostam. Então, gostaria de conversar com vocês sobre como eu faço para ouvir, já que meu caso vira uma referência de “tudo o que a gente quer” dos candidatos ao implante.

Como muita gente sabe (mas tem gente que não sabe) eu sou surda pós lingual da pré adolescência. Perdi a audição aos 10 anos de idade. Ou seja, ouvi muita música nesses 10 anos.  Tinha prazer de ouvir, passei muito tempo ouvindo e tenho um vínculo emocional fortíssimo com essas lembranças.

Eu tenho dois implantes, feitos com 3 anos de intervalo. O esquerdo, que operei primeiro e não tem todos os eletrodos, é o que liga ao lado direito do cérebro, que é responsável pela interpretação de música. Logo, são 4 anos e meio já, desse lado “trabalhado”. O direito, que é minha orelha dominante, que tem 22 eletrodos numa cóclea sem qualquer deformação (a esquerda está com um problema físico, chamado fibrose, que impediu a perfeita inserção do feixe de eletrodos e eu ouço tudo meio distorcido desse lado) liga ao lado direito do cérebro, que interpreta a comunicação e, portanto, responsável pela minha capacidade de abandonar a leitura labial. Esse implante direito tem 1 ano e meio.

Então, sem mais delongas, explicando que houve tempo grande de estimulo com o IC para me adaptar ao som dele, vamos ao que interessa.

Apesar de eu ter ouvido naturalmente  até os 10 anos, ter boas lembranças e muita saudade, mas eu nunca nunca nunca mesmo comparo o que ouço com o IC ao que ouvia naturalmente. Obviamente, o tempo que fiquei sem ouvir ajuda a não comparar, já que não lembro com muita clareza, porém o meu parâmetro de comparação é com o silêncio. E o silêncio, para mim, durante décadas representou uma clausura intransponível. Ele me isolava do mundo e me tirava a sensação de conexão com o ambiente.  E eu comparo sempre o som do IC a essa clausura, não ao que eu ouvia antes.

Agora, explicando exatamente como ouço música:

1. Eu só ouço música sem ruído de fundo. Música ambiente, show em local barulhento, vira apenas barulho para mim. Muitas vezes sequer sei que está tocando música, só ouço um ruído chato.

2. Ouço música preferencialmente com cabo especial de implante (veio no meu kit do Nucleus 5), porque isola do barulho ambiente. Já por via área, quando o local não tem muito barulho – tipo meu carro com as janelas fechadas ou a sala da minha casa – é tranquilo, mas já não ouço tão bem e o volume precisa ser bem mais alto que via cabo.

3. Música em show, só se o isolamento acústico da casa for muito bom e as pessoas estiverem quietas. Na verdade, só lembro de ter feito isso com tranquilidade no Teatro Frei Caneca, durante a orquestra ao vivo da peça “Bibi Ferreira Canta e Conta Piaf”.

4.  Eu nunca entendo uma letra de primeira, só ouvindo a música. Geralmente, tenho que ler a letra antes. E ouvir umas 15 vezes dessa forma, para conseguir ouvir perfeitamente todas as palavras. Mesmo músicas que eu sei a letra de cor, sofro para entender a letra nas primeiras vezes.
Minha música favorita mesmo, tem um trecho que até hoje sou incapaz de reproduzir, porque não consigo assimilar como o intérprete fala determinada palavra.

5. Já assisti um vídeo que diz que implantados não ouvem música muito bem, porque o implante não capta algumas frequências. Ok, não vou discordar de especialistas, porém, distorcido ou não, o que interessa não é COMO você ouve comparado à audição natural, mas que efeito ouvir determinada coisa tem sobre você. Se dependesse de audição perfeita e percepção igual, não haveria tanto lixo musical fazendo sucesso e indignando pessoas por aí. Portanto, se você que usa implante, ouve música do seu jeito, tem prazer com isso, se diverte com isso, repete várias vezes, torna ouvir música um momento de prazer seu, então sim, você ouve música muito bem e igual aos ouvintes, já que o resultado sobre você é o mesmo que sobre eles.

Talvez o que seja mais difícil não seja um implantado conseguir ouvir música. Mas a sociedade aceitar que existe muitas e muitas maneiras de se perceber uma realidade. E a nossa, na condição de cyberouvintes, é tão válida quanto qualquer outra!

Beijinhos sonoros,

Lak

 

8 palpites

  1. soramires disse:

    Lak querida, o som ambiente de música, se o lugar não tiver boa acústica é uma tragédia até para que não é surdo…teatros e locais improvisados, sem estudo acústico são terríveis, o som bate nas paredes e volta todo misturado, acho que é por isso que músicos usam fones de ouvido para ouvir o que estão tocando. Quando insisto no aro magnético é porque a gente tem o mesmo conforto que teria usando os cabos ou fones de ouvido de quyalidade, som direto sem reverberação, som nítico de cada voz ou instrumento. Sinto essa diferença quando vejo filmes em Buenos Aires com o aro magnético, entendo tudinho sem ouvir o vizinho tossind, conversandoo ou mastigando pipocas. E notei que seu texto está cada dia melhor, resultado de ter feito o livro. Adorei o texto que explica para quem não é surdo o que acontece com você e sua audição via implante. Parabéns, bou colocar um link no Sulp.

  2. Mariana Siqueira disse:

    Sobre o item 5: eu também vi sobre isso, e concordo totalmente contigo. Inclusive, estudo sobre isso também, mas mais especificamente das experiências sensoriais que cada um de nós temos (com a arquitetura e urbano, na verdade), que são únicas e enriquecedoras. Os textos que eu leio sempre frisam isso. Nenhuma torna a outra inválida. Detesto esse tipo de comentários que generaliza, que age como se soubesse mas nao sabe de nada. Se um implantado gosta de ouvir assim, tá valendo. 🙂
    Essa manhã finalmente ativei o meu ouvido direito! Não consegui parar de rir, foi muito bom! Infelizmente, não consegui gravar, deu algum problema na camera. Foi um azar, mas tá gravado na memoria :))

    Beijos, Lak!!

    • Lak Lobato disse:

      Pior é que veio da boca de um médico. Uma pena que uma pessoa use palavras assim para destruir sonhos.
      Mas, como foi a ativação? Gostosa? Beijinhos

  3. Mariana Siqueira disse:

    Ops, ouvido esquerdo! Sempre confundo esquerdo com direito. Esse meu senso de coordenadas está bichado! Rs

  4. Mariana Siqueira disse:

    Desculpa o flood de comentarios haha mas não podia deixar de dizer que o teu blog tá lindão!

  5. Aline g disse:

    Olá Lak, parabens pelo seu blog, eu sou ouvinte bilateral profunda, qdo era tinha 2 anos e meio e perderam meus ouvidos. tenho 2 aparelhos normal (sem IC), mas tenho medo sobre IC, mas minha mae nao aceita a IC. você é querida. bj