Falando dos meus tempos de escola: Como era ser surda oralizada e sem IC em sala de aula

58762_139446946099296_2032251_nVira e mexe, alguém vem me perguntar como foi meu período de alfabetização como surda oralizada. Dessa parte, eu jamais posso ajudar, porque sou surda adquirida pós lingual e quando perdi audição, já era oralizada e alfabetizada igual a qualquer criança ouvinte, que é o que eu era até perder a audição.

Mas, posso falar como foi a minha experiência de surda oralizada em classe regular na era pré-inclusão, se alguém tiver curiosidade de saber.

Eu consegui estudar normalmente da 4ª série do primário (acho que seria equivalente ao atual 5º ano) à faculdade, sem o uso de prótese nenhuma que fosse, então meu relato é exclusivo de quem utilizava a leitura labial.

A primeira coisa que eu precisava fazer era me apresentar ao professor novo, todo santo ano ou mudança de professor. E me deparar com uma pessoa completamente despreparada para lidar com um surdo oralizado em sala de aula.

Geralmente, eu sentava na frente, o mais perto possível do meio da sala. Isso me dava uma visão clara da lousa, do professor quando sentado e quando em pé. Obviamente, eu não conseguia enxergar todos os meus colegas, mas isso era a coisa menos importante que eu precisava fazer.

Toda a matéria dada em lousa, eu copiava, sem exceção. Essa era a principal forma de assimilação de conteúdo na minha época, graças a Deus, quando não existia essa coisa de professor não usar a lousa.

Quando a matéria era ditada, eu sentava do lado de alguém e copiava o que a pessoa escrevia. Isso sempre me ajudou muito e eu sempre tentava escolher pessoas caprichosas, com boa letra e boa vontade de me ajudar. Sim, sempre tinha um anjo em sala de aula com essa disposição. (Obrigada Tathianne, Fernandinha, Andrea, Viviane, Patricia… Nem vou por todos os nomes, porque seria injusta se eu esquecesse alguém).

Quando a matéria era lida em voz alta, ou eu me dispunha a ler para a sala (isso me ajudava bastante, inclusive sendo terapêutico na manutenção da fala) ou sentava junto com alguém, que marcava com o dedo onde estivesse sendo lido e eu ia acompanhando dessa forma. Sim, também sempre teve anjos para me ajudar com isso. Geralmente os mesmos que me deixavam sentar para copiar o que eles escreviam.

Obviamente, hoje em dia, quando aparentemente ninguém mais pode ajudar ninguém, esse trabalho poderia ser muito bem feito por um intérprete oralista, mas admito que sou imensamente grata por ter podido contar com meus colegas, que são meus heróis até hoje!

Trabalhos em grupo eram a coisa que eu MENOS gostava de fazer, porque envolvia conversas em grupo, gente falando ao mesmo tempo e eu acompanhando bem menos do que gostaria. Por isso, ou eu ficava como líder do grupo e responsável pela maior parte das coisas ou tentava fazer sozinha sempre que era possível.  Povo adora conversar quando rola trabalho em grupo!

Algumas matérias eram mais difíceis de acompanhar que outras. Por isso, as adaptações variavam conforme as dificuldades. Teve matérias que eu fiz aulas particulares, tipo inglês durante o ginásio. E matemática/química, durante o colegial.

Outras matérias, eu pedia livros de apoio e estudava sozinha em casa. Isso era fácil porque eu gostava de ler.

Houve algumas matérias durante a faculdade que eu tive dificuldade durante a aula, por causa da iluminação. Na minha época se usava muito retroprojetor, o que deixava a sala à meia luz. Daí, a dica era pedir livros extras. Ou 10 minutos de explicação antes ou depois da aula.

Todos os professores se dispuseram a me ajudar? Claro que não. Teve algumas pessoas que realmente achavam que meu lugar não era ali. Mas, graças a Deus, essas foram a grande e insignificante minoria. A maioria dos professores que encontrei ao longo da vida, eram seres quase divinos que acreditavam que ensinar para alguém que queria aprender era um privilégio e me acolheram de braços abertos!

Talvez por causa deles, eu tenha tanta disposição de compartilhar tudo o que aprendo!

Beijinhos sonoros,

Lak

6 palpites

  1. Diogo Madeira disse:

    Curti muito teu relato! Sem dúvida, o gosto por leitura resolve qualquer problema sim!
    Beijos e saudades!

  2. Virginia disse:

    Carregar a “cruz” que nos cabe, com determinação, seriedade e força de vontade nos leva a vitória, com certeza.
    Extremamente importante seu relato. Posso dizer que a minha experiência foi semelhante.
    Graças a Deus, amigos queridos, professores de verdade e Nossa família, vencemos.
    Ressalto a importância da leitura, sempre. Seria mais ou menos assim, quanto mais lemos, mais facilita nosso diálogo, não ouvimos ou entendemos uma determinada palavra, mas a conhecemosassim, , facilita o entendimento do contexto….

    • Lak Lobato disse:

      Sim, acho que a gente precisa falar da nossa história também. Só se fala dos casos de fracasso no ensino regular para surdos. E os que conseguiram? Eu, você, outros tantos. Nós também existimos e devemos ser levados em consideração. Beijão e obrigada por compartilhar.

  3. Belo texto e linda homenagem aos bons professores!
    Para não descrer da Educação!

  4. Olha que legal Fabrício Maiolino, ela perdeu a audição depois de alfabetizada…