Fonoterapia para a vida!

Poster do filme de terror Them! (O Mundo em Perigo – 1954)

Poster do filme de terror Them! (O Mundo em Perigo – 1954)

Não sei se eu me enquadro como ávida defensora da terapia fonoaudiológica, inclusive porque eu tenho pouco conhecimento de causa. Até pouco tempo atrás, achava que fonoaudiologia era para tratar de audição e fala somente. Depois que descobri muitas outras funções da fonoaudiologia, como trabalhar dificuldades de leitura, de respiração, de deglutição, etc etc etc…

Mas, depois que fiz o implante coclear – até porque aí eu passei a ver resultados reais, claros, precisos, absolutos – eu realmente passei a gostar de fazer fonoterapia. E passei a levar mais a sério, como algo importante para a minha vida.
Como eu tenho um excelente resultado com o IC no que se refere à discriminação da fala auditivamente, meu foco nas sessões de terapia são trabalhar a fala, já que eu tenho 25 anos de surdez sem qualquer feedback auditivo nas costas e muitos e muitos maus hábitos remanescentes que me deixam com perpétuo sotaque de surdo. Não que eu me preocupe em perder o sotaque, é mais porque eu ficava rouca muito fácil. Bastava falar em voz alta mais de 2 minutos, que a minha voz já era. Imagine essa situação para quem dá palestras de 1h em auditório cheio e sem microfone? Pois é…

Bom, mas hoje, eu descobri outra função super legal para a fonoaudiologia: servir de base para o aprendizado de novos idiomas.

Como já contei aqui, estou em Londres estudando inglês até março (por mim, ficava 6 meses, mas infelizmente, a conta bancária não permite, mas juro que estou aceitando doações, se alguém quiser bancar minha estada e estudos aqui hihihi) e ralando para caramba para aprender a ouvir um idioma que não se parece com a minha língua materna e a falar uma língua que não é minha, cheia de sons que não sei pronunciar de forma natural.

Hoje, estava assistindo aula (eu tenho 3 aulas por dia, uma de pronúncia e outras duas de gramática e conhecimentos gerais) de pronúncia e a professora estava ensinando sobre como fica o som de certas palavras com som mais fraco, no meio de palavras com som forte. Esse fraco e forte, quero dizer, se refere à importância que a pronúncia tem na frase…

Obviamente, ela explicou que a gente não precisa se esforçar para falar tão rápido quanto um nativo, mas é importante aprender para poder entender quando um nativo fala conosco. Só para facilitar a compreensão, um exemplo: “What is your name?”. O is da contração “what is” já perdeu força e virou um “s” falado como se a palavra “what” fosse plural (pra nós, cujo plural costuma ser dado pela presença de S): “whats”. Nessa frase acima citada, o pronome “your” também não tem força nenhuma e é quase como se não tivesse importância na frase, a menos que você quisesse dar ênfase para o pronome “seu” por algum motivo. Então, falado como um nativo “Uót is ior neim?” vira algo tipo “Uótsorneim?”, dito sem respirar.

Tudo bem que eu falo mega rápido, mas só em português. Tratando-se de inglês, eu dou pausas entre as palavras, tal qual qualquer pessoa que não seja nativa costuma dar. Resultado, falar “what’s your name” com a mesma fluência de um nativo não rola, mas é excelente treinar para aprender como normalmente se fala.

A aula é cheia, cheinha de exemplos desse tipo. Vocês sabiam que “I’ll ask her” tem praticamente o mesmo som que “Alaska”? Pois é, aprendi isso hoje. A professora explica quando, como, onde e porque deve-se falar dessa forma e a gente vai repetindo junto, com ela corrigindo sempre nossa pronúncia.

Lá pelas tantas, não lembro exatamente qual era a frase, a professora pediu para uma outra brasileira da minha turma falar uma palavra terminada em M. Aí a moça não conseguia falar “Them” com o som do M no final. Ela falava algo próximo de “Deê” igual ao som que a gente faz para pronunciar homem (“homeê”).

Porque vocês sabem, né? Em português do Brasil, nós praticamente não pronunciamos nenhum som de consoante sem vogal na sílaba, mesmo quando a palavra termina em consoante, com exceção do R e do S. Tipo “flor” e “seis”. Se a palavra termina em M ou N (é raro, mas acho que temos, né?) o som vira o som da última vogal, de forma nasalada.

Quer tentar? Pronuncie “Eles conversam”. O som que a gente faz é praticamente o mesmo de “eles conversão”, por isso que tanta gente erra. Homem, para nós, é quase como “homê”, com som mais prolongado: “Homeê”. Palavras terminadas em L ficam com som de UBrasiu, Viriu, Papeu.

No inglês (aliás, acho que nas outras línguas latinas também, tipo francês, espanhol e italiano), as consoantes são pronunciadas mesmo sem vogais. Basta você ouvir um nativo falando. Eles pronunciam perfeitamente as consoantes, sem precisar de vogais, coisa que a gente tem muita dificuldade de fazer.

Por mais que a professora insistisse em mostrar como era, ela continuava errando na pronúncia de “Them”. Até que a professora desistiu e falou “é, quase isso”.

Só que eu fiz fono a vida toda e, inclusive, tenho feito bastante disso dos últimos tempos. Virei pra ela e falei (em inglês, porque só pode falar em inglês na aula): fecha os lábios e faz o som de M, assim ó: “mmmmmm” (aquele som que a gente faz “hummmm”). E aí, ela conseguiu falar a palavra “Them” do jeito que deveria ser.

De fato, falar o som de consoantes sem vogais nunca vai soar muito natural para mim, mas confesso que sinto menos dificuldade que eu esperava, justamente por causa dos exercícios que fazia com a fono. Quando começo a achar muito difícil, tento lembrar qual exercício minha fono passava para o treinamento de determinados sons e acaba funcionando.

Por causa disso, me dei conta da importância que a fonoaudiologia tem na nossa vida: mais do que aprender a falar um som, ela abre as portas para que possamos aprender a ir além dos nossos limites.

No caso, meu limite vai muito além do que apenas falar bem minha língua materna. Mas aprender todos os idiomas que me der vontade!

Muito obrigada a todas as pessoas que escolhem a fonoaudiologia!

Beijinhos sonoros,
Lak

3 palpites

  1. Roberta disse:

    Oi Lak…estou admirada com a sua coragem ,tenho o sonho de fazer um intercâmbio…mas falta- me essa coragem 😮 vc irá nos contar da sua aventura nas terras gringas??Qual é essa escola e os requisitos para cursar-lá??Ou seria uma escola própia para deficientes auditivos?Beijoss

    • Lak Lobato disse:

      Roberta, não é escola especial e eu não pedi qualquer tipo de acessibilidade. Estou estudando da mesma forma que os alunos ouvintes. Foi uma escolha minha e baseada no meu resultado com o IC. A unica adaptação que faço é, quando tem audio em sala de aula, eu pulo pra pagina do livro que tem a transcrição do texto e leio enquanto ouço. De resto, é igual. Beijos

  2. Lílian Kuhn Lílian Kuhn disse:

    Sou muito orgulhosa de você!