Implante Coclear + AASI: o sucesso de Alessandra Drummond

A surdez é uma deficiência que abrange um grupo bem diversificado de pessoas. Entre surdos profundos e moderados, congênitos e adquiridos, é preciso que os recursos para auxiliar na comunicação dessas pessoas tenham igual diversidade. Como é o caso do Implante Coclear, do Aparelho Auditivo Convencional (AASI), do Sistema Baha e da Língua de Sinais. Todas as opções de tecnologia e formas de comunicação são válidas, na medida que permitam que a comunicação de pessoas seja estabelecida.

Mas, existem casos em que apenas uma forma de comunicação ou tecnologia não seja suficiente. E é preciso unir mais de uma alternativa. É o caso dos surdos com linguística bimodal (que utilizam tanto a língua falada quanto a língua de sinais) e aqueles que se beneficiam de mais de uma tecnologia, como é o caso da Alessandra Drummond, autora do blog  O Milagre da Audição, onde ela conta suas aventuras com o implante coclear e acrescenta muitas informações sobre deficiência auditiva.

Abaixo, Alessandra conta um pouco da sua história e como a união do IC com o AASI tem sido extremamente benéfico para a comunicação e a audição dela.

Conte um pouco da sua história com a surdez. Você nasceu surda ou perdeu a audição? Qual a causa e qual o tipo de perda que você tem?

Creio que nasci ouvindo, uma vez que aprendi a falar e a cantar, segundo relatos da minha mãe, que até gravou uma fita cassete comigo cantando “Atirei o Pau no Gato”, quando eu tinha por volta de dois anos de idade. Após um quadro grave de caxumba, minha mãe notou que eu não atendia aos chamados dela, ou seja, a perda da audição parece não ter sido progressiva e sim, súbita. Quando fui levada ao médico para ver o que havia acontecido comigo, ele diagnosticou surdez por sequelas da caxumba que acabou afetando o nervo auditivo. Entretanto, atualmente a tecnologia avançada permitiu verificar através de tomografia e ressonância magnética do ouvido interno que tenho perda neurossensorial severa e profunda bilateral, devido ao extenso alargamento do aqueduto vestibular. Esse alargamento do aqueduto fez uma pressão na cóclea, causando a morte das células ciliadas que ficam dentro da cóclea (responsáveis por levar o som ao cérebro) e com isso causando a surdez.

Você sempre usou AASI (aparelho de amplificação sonora individual)? Como se dá com eles?

Uso AASI desde os meus cinco anos de idade, todos retroauriculares, exceto o primeiro, que era de caixinha, usava pilha comum, muito indicado para treinar a fala e estimular os dois ouvidos, por isso era preso na gola da camisa bem próximo a boca. Aos oito anos tive meu primeiro AASI retroauricular e passei a usar somente no ouvido direito, que era o de menor perda e onde os sons eram melhores. A minha relação com todos meus AASIs sempre foi boa e me dei super bem com eles, principalmente os analógicos. Começou a ficar tenso quando surgiram os digitais. Eu simplesmente não conseguia me adaptar a eles. Experimentei várias marcas, com várias fonos, até que num desses testes fiquei conhecendo o IC. Após ter feito IC, ficou mais fácil a adaptação ao AASI digital.

Quando você soube que tinha indicação para o IC? Como foi, gostou da ideia?

Em 2012, numa consulta com otorrino por causa de uma rinite, comentei com o médico que meu AASI analógico era bem velhinho, já não tinha mais nem peças para manutenção e que não havia conseguido me adaptar em um teste feito em 2010 por um ano com AASI digital. Aí o médico me sugeriu que eu experimentasse, sem compromisso, alguns aparelhos digitais com a fono da clínica dele e eu aceitei. Quando fui testar, a fono – que também fazia parte de uma equipe de IC – me apresentou essa tecnologia e disse que eu era indicada para a cirurgia. A princípio havia gostado da ideia, afinal, meu ouvido esquerdo estava parado havia trinta anos e não tinha nada a perder, qualquer 5% a mais de audição seria lucro. Ainda assim, fiquei um bom tempo pensando sobre a cirurgia e conhecendo o IC, até que tomei a decisão de fazer e comecei os exames para cirurgia.

Você que é bimodal (quem utiliza duas tecnologias diferentes), como compara as tecnologias?

O AASI e o IC são duas tecnologias diferentes que podem atender bem quem tiver indicação pelo médico otorrino ou fono. Dependendo do caso, o paciente responde bem com AASI, caso contrário, só com implante coclear vai ter algum ganho de audição. No meu caso, por exemplo, no ouvido direito uso AASI desde pequena, tenho uma boa conversação, consigo me comunicar bem sem leitura labial e falar ao telefone, ou seja, tenho um bom ganho. Já no ouvido esquerdo, não conseguia usar nem o AASI analógico nem o digital, apesar de várias tentativas e testes com vários tipos e marcas. Ouvia somente ruídos e barulhos incompreensíveis. Então, decidi fazer o IC nesse ouvido, o que me proporcionou um ganho muito bom de audição. Com IC ainda não falo ao telefone com perfeição, apenas palavras dentro de um contexto conhecido, mas com ele consigo ouvir muitos sons que o AASI não pega. Assim sendo, se com IC eu consigo ouvir mais sons que o AASI, o AASI por sua vez me ajuda na compreensão da fala. Ambas as tecnologias estão cumprindo bem os papéis delas, tanto o AASI quanto o IC.

Você acha que rola muita pressão pelo IC bilateral, menosprezando a parceria IC + AASI?

A maioria dos implantados que conheço fez o bilateral, o que chega a ser normal, tanto o sequencial (faz um ouvido e depois faz o outro) quanto o simultâneo (faz os dois ouvidos ao mesmo tempo), porque é caso de perda profunda nos dois ouvidos e nenhuma ou pouca resposta com AASI. As pessoas sempre me perguntavam no começo se eu não iria fazer IC no outro ouvido e até hoje me perguntam, acreditando que meu AASI não daria conta do recado, o que não é verdade. A diferença é que no começo eu tinha dúvida se deveria fazer ou não, hoje não vejo necessidade. Talvez no futuro possa até fazer, mas ainda assim acho difícil, porque a parceria AASI + IC deu super certo, um complementa o outro, tanto que se estiver com apenas um deles sinto falta do outro. Claro que exigiu perseverança e paciência na fase da adaptação. No começo percebia a diferença do som de um ouvido e de outro, mas o cérebro unificou e hoje ouço uma coisa só, ou seja, houve a fusão dos dois sons.
Volto a dizer, quando o paciente tem perda auditiva bilateral sem resposta ou pouco ganho com AASI, entendo que não tem porque não fazer IC nos dois ouvidos, ainda mais se teve bom resultado no primeiro IC. No entanto, se a pessoa tem um bom ganho com AASI, não há obrigatoriedade de fazer IC, muito embora tenha boas chances de ouvir melhor mas isso pode não ser garantido e é preciso repensar sobre a vantagem de se correr o risco. Na minha opinião, não vejo necessidade, mas vai da opinião pessoal e segurança de cada um.

Qual mensagem você gostaria de passar sobre essa questão, das pessoas não abandonarem o AASI quando tem um bom resultado, só porque o IC parece melhor?

Com base na minha experiência como bimodal, posso garantir que a dupla AASI + IC dá super certo quando se tem um bom ganho com os dois. Eu sou daquelas pessoas que concordam que não se deve fazer IC apenas por ele parecer melhor que o AASI, já que a pessoa tem um bom ganho com AASI. Tanto que inicialmente o paciente só tem indicação para o IC após um período usando AASI e se nesse teste ele não tiver bom resultado. E outra: a tecnologia vem sendo usada em favor até de quem é bimodal. Atualmente existe a possibilidade de conectividade do IC com o AASI. Graças a Deus, a tecnologia vem avançando cada vez mais, nos proporcionando melhor qualidade de som e com isso, qualidade de vida.

Beijinhos sonoros,

Lak

3 palpites

  1. Ita Estela Awensztern disse:

    Lak você nem pode imaginar como foi bom para mim ler a entrevista da Alessandra Dumond!Somos iguais.
    Só estou num dilema pq meu AASI é analógico e o digital eu não consigo me adptar e como n existe mais o analógico não sei como fazer.A Alessandra conseguiu mas eu faço uso do aasi ha 50 anos e como Alessandra os dois se adoram rs n consigo ficar sem os dois!!Estou sem chão só de pensar na falta que vai fazer!
    Beijos!

%d blogueiros gostam disto: