Inclusão social escolar

Cheguei cedo no trabalho hoje e tinha um jornal Folha de São Paulo dando sopa em cima de uma mesa. Pensei com meus botões “hummm hoje é terça, será que é dia da coluna do Jairo Marques?

E, como meu santo é forte, era dia da coluna dele sim e falava sobre inclusão de crianças com deficiências na escola. Falando que, principalmente as escolas particulares,  comumente tem mil desculpas para recusar matrícula dessas crianças.

Apesar de eu já ser velhinha, a leitura me levou a pensar nos meus tempos de escola…

Perdi a audição aos 10 anos, por sequela de caxumba, como já contei aqui. No entanto, sempre me mantive como surda oralizada – só fui ter contato com a língua de sinais aos 26 anos, com a qual não tive a menor afinidade e, por isso, nunca inclui na minha vida – e sempre falei normalmente (nos tempos de escola, meu sotaque ainda nem era dos mais fortes). Por conta disso, só tive matrícula recusada em uma escola e logo que perdi a audição, quando nem minha mãe sabia exatamente se eu conseguiria acompanhar as aulas.

Logo que voltei a estudar, pois fiquei 1 ano afastada por conta dos tratamentos que tentavam recuperar a minha audição, a única coisa que mudou foi a posição da sala em que eu sentava. Se antes era aluna de sentar no fundo, passei a sentar na segunda carteira da fileira. E, como sou movida a desafios, minhas notas aumentaram assustadoramente, porque eu tinha muito mais facilidade de me concentar e me esforçava muito mais para acompanhar as aulas.

E, como naquela época não existia essa política de inclusão de hoje, era cada um na sua, eu acompanhei as aulas exatamente como os outros alunos: lia os lábios dos professores (sim, eu entendia tanto quanto quando ouvia, minha capacidade de leitura labial é comparável a audição normal) , copiava da lousa, pegava caderno emprestado (porque copiar coisa com professor ditando ficava meio dificil), etc…

E me formei em primeiro lugar na escola, simplesmente porque me esforcei pra isso.

Por outro lado, o relacionamento com colegas também NÃO mudou. Eu nunca fui das pessoas mais populares – vocês devem ter notado aqui no DNO que eu sou geniosa – e mesmo quando ouvia, muitas vezes era deixada de lado. Como surda, ironicamente ninguém sentia pena de mim a ponto de ficarem me incluindo em tudo que viam pela frente. Passei por situações chatas, é claro, fui alvo de piadinhas, mas nada que arrancasse pedaço ou deixasse traumas. Até hoje, tenho contato com pessoas com quem estudei e não me tratam como anjo nem como demônio. Sou apenas mais uma da turma.

Eu não sei dizer se contribuí para que todos se tornassem pessoas que respeitam deficientes. Mas sei que alguns deles cresceram sem a necessidade de montar barricada contra o politicamente correto – coisa que temos visto muito. Sei que vários tem outros amigos com deficiência também. E sei que a maioria deles, mesmo sem perceber, teve um pouquinho da vida transformada pela convivência com a diferença. E é exatamente isso que a inclusão social faz pelas crianças sem deficiência que convivem conosco.

Nenhuma criança perde por conviver com outra diferente dela. Mas, todas elas perdem com a homogenia! Espero que essa má vontade das escolas de incluir mude com o passar dos anos e que, futuramente, a nossa sociedade se preocupe mais com carater do que com condição física ou sensorial.

Beijinhos sonoros,

Lak

p.s. Fotinho de uma baladinha de sábado passado, com amigos de 7ª, 8ª série.

19 palpites

  1. Jairo Marques disse:

    Ser colunista do maior jornal do país não foi em decorrência apenas das experiências que vive e de algum conhecimento que adquiri, foi também pelas pessoas que me rodearam e passaram a fazer parte da minha vida. Quando escrevo sobre um surdo, um cego, um abatido em geral da gerra, penso nos meus amigos e em suas vidas. E eles me fazem…. acertar. Ler esse texto, para mim, foi um banho de felicidade, de emoção (vc tem o dom). Obrigado por me ajudar tanto, Lak, mesmo sem saber o quanto… beijos

  2. Juliana Toro disse:

    Adorei o post e super concordo com vc. =) beijos querida!
    (como faz tempo q não passo por aqui…=p sapoticons !!)
    😀 😎 😈 😈 😎 😯 hiahuauhauhauhauah

  3. Óóóóótimo post, Lak!!! 😀 Temos certeza que seu texto poderá contribuir – e muito!!!- para que as pessoas da comunidade escolar/acadêmica compreendam que a DIVERSIDADE é que faz com que a sociedade se enriqueça em termos de convivência, de intercâmbio de experiência e de formação de valores! 🙂
    E mais: você consegue, com seu relato, derrubar aquele mito de que o estudante com necessidades especiais sempre acaba por ir mal na escola! Você consegue demonstrar que, desde que o estudante tenha acesso a material didático e tenha as funções cognitivas preservadas, ele consegue ser um bom aluno… aliás, em diversas situações, até superam as notas dos “ditos ‘normais’ “… isto porque se esforçam mais e concentram-se melhor! Parabéns pelo post mais uma vez!
    E um beijão bem sonoro!!! :-*

    • laklobato disse:

      Meninos, eu sei que cada caso é um caso e tem muito aluno com deficiencia auditiva que PRECISA da lingua de sinais na escola. Não sou exemplo da classe toda. Mas, posso comprovar que com interesse e força de vontade, qualquer um pode, se quiser, superar qualquer estigma.
      Eu adorei ter estudado em escola comum, me ajudou a conviver com a sociedade sem receios. É isso que eu desejo para qualquer criança com deficiência.
      Beijão

  4. zuleid disse:

    Isso me fez lembrar da Bárbara uma garotinha que nasceu com meningomielocele (parte da medula nasceu prá fora como se fosse um rabinho no final da coluna) e foi submetida a cirurgia bem novinha no primeiro mes de vida. Pois bem ela sempre foi tratada de forma normal respeitando-se seus limites! Aos 4 anos, depois de nova cirurgia foi indicado que ela fizesse hidroterapia pela sua dificuldade de locomoção (ela usava muletas na época) e quando ela chegou à clínica e viu aquele bando de pacientes com sequelas motoras e portadores de deficiências ela disse:
    “Não quero ficar aqui tratando porque todos os adultos daqui são doentes! Quero ficar na minha natação porque lá todo mundo é igual eu: sem doença!”
    Isso mostra que ela se enxergava capaz como as outras crianças e que o fato de sempre ter sido tratada de forma igual fez com que ela se sentisse apta! Hoje ela é totalmente adaptada e competente!
    Viva a inclusão!!

    • laklobato disse:

      O problema de tratar a criança como se ela fosse anormal é que ela dificilmente vai se livrar desse estigma de auto-imagem. É claro que a criança com alguma necessidade especial (cabendo aqui mais do que deficiência, mas doenças crônicas tb) precisa saber que algumas coisas dela são diferente da maioria, mas isso é um detalhe e ela não precisa viver em torno disso somente.
      Beijos

  5. Claro, Lak, sabemos que cada caso de necessidade especial escolar tem uma especificidade! 😉 Logo, quando afirmamos no comentário anterior que, “desde que o estudante tenha acesso a materiais didáticos e tenha as funções cognitivas preservadas, ele tem condição de ir bem na escola” ,não descartamos, de nenhuma maneira, as adaptações adicionais específicas de cada caso de cada estudante com deficiência…! Sabemos que tem aluno com deficiência auditiva/surdez que necessita da língua de sinais – e que, portanto, PRECISA de intérprete; outros,como você, não precisam. Tem cego que se dá melhor com o Braille, enquanto tem cego que não gosta desse tipo de escrita,e prefere recursos de áudio. Assim como também, em um grupo de deficientes visuais com baixa visão, cada um tem necessidades específicas de tamanho de letra, contraste, iluminação, etc., pelo fato de os tipos de doenças oculares e suas intensidades (bem como outras variáveis) fazerem com que cada pessoa de baixa visão tenha um desempenho visual residual bem diferente da outra… 😉
    Isso sem contar que, além dos recursos materiais e humanos necessários a cada necessidade especial -e a cada especificidade dentro de um mesmo tipo de deficiência (ex: deficiência visual e os diversos tipos de necessidades entre um def. visual e outro)- , pode, em certos casos, haver necessidade de certas adaptações curriculares. Por exemplo, se a pessoa lê em Braille, mas lê devagar, ela tem direito de ter um acréscimo de tempo para terminar de fazer uma prova, em relação aos colegas de visão normal… assim como os portadores de baixa visão que porventura tenham leitura lenta e segmentada em caracteres ampliados podem ter prorrogação de tempo para finalizar tarefas… e assim por diante! Certinho? 😉 Então, sabemos que cada caso é um caso, e que não existe uma única “receita de bolo”… e compreendemos que o melhor é se informar sobre os diversos tipos de necessidades especiais e, O MAIS IMPORTANTE, ouvir e seguir as orientações que o próprio estudante deficiente (ou sua família) têm a oferecer sobre o que é melhor no caso dele! 🙂 Ok?
    Beijão sonoro! :-*

    • laklobato disse:

      Acho que vcs interpretaram mal o meu ‘precisa’ em letra maiúscula. Só tinha dito que sei que o meu caso não é dos mais comuns e não deve ser usado como exemplo, mas que não deixa de ser um caso de sucesso. No mais, valeu pela explicação sobre ensino de alunos com deficiência visual. Sei bem pouco do assunto, infelizmente.
      Beijos

  6. Oi, Lak, olha nós aqui de novo, hehehe! 🙂 Dá uma passada lá no nosso blog e veja a Sugestão de Leitura de hoje, que demos para os leitores do “Sopa”! 🙂

    http://sopadenumerosecalculos.blogspot.com/2011/02/historia-de-sucesso-inclusao-escolar-de.html

    Esteja a vontade para comentar, hehehe! 🙂
    Um abraço!

  7. Sun Melody disse:

    Lak,

    Posso dizer que a minha vida não foi diferente da sua, mesmo tendo surdez desde bebé, o meu médico dos olhos azuis naquela época avisou aos meus pais que tinha potencial, sabia isso simplesmente avaliando-me numa altura em que a Deficiência Auditiva não estava bem estigmatizada na sociedade portuguesa. Portanto a primeira coisa foi, inserir-me numa creche normal de forma continuar aprender falar e adquirir vocabulário, o mesmo se passou na escola regular e mais tarde no básico, secundário e faculdade. Só te digo, que não senti o peso das dificuldades à medida que o tempo passava a correr…. era como se a minha Surdez não interrompesse o fio da vida.
    Os meus pais passeavam muito comigo, visitamos praticamente todos os territórios do país para que pudesse conhecer as singularidades de cada região, relembro-me do quão delirava absorvendo o mundo e mal dormia! Também viajei cedo para a Europa, creio que foi o ponto mais alto da minha vida ir sozinha embarcada num avião da TAP cuja minha acompanhante do lugar era espanhola, de a pedir para ficar ao ladinho da janela por uns 5 minutos, e de estar de boca aberta com o imenso azul fixado no horizonte com as nuvens por baixo, tinha ficado absolutamente fascinada com aqueles loucos 10 anos escusado anos depois tornei viajar desta vez em competições – foi LINDOOOOOOOOOO!

    Entusiasmei-me, beijinho Lak

    • laklobato disse:

      Quando se tira a surdez (ou qualquer deficiencia ou doença crônica) do centro, deixando-a relegada ao que ela é, uma parte mas não o todo, da vida de uma criança – e de um adulto, cá entre nós – a vida simplesmente age, porque ela é como um rio que corre numa força própria. Se a deficiência for posta no centro, ela se torna uma represa, que vai juntando a água de uma vida que poderia ser, mas não foi.
      O problema é que uma hora as paredes dessa represa podem rachar e inundar vales inteiros de vida que simplesmente não aconteceu.
      E o resultado de uma inundação pode ser muito trágico….
      Você, como eu e outros tantos de nós, tivemos a sorte de nossos pais (que encontraram bons médicos, item fundamental) deixarem nossos rios continuarem fluindo!
      Beijão sonoro.

  8. Greize disse:

    Mto interessante.Realmente antes as escolas não tinham preparo, aliás os professores não tinham, Magistério era bem limitado, falo porque fiz e nenhuma frase sobre inclusão.Hoje sim nas faculdades com curso de Pedagogia, é que estão abrindo para esse temas.Já sobre escolas particulares, eu fiz um estagio no meu último período em uma, que foi diferente de todas, lá o lema era inclusão.Tinha alunos com deficiências diferentes, e via que a diretora preparava os professores para isso.Qto as crianças, normal.Tdos levavam numa boa, no recreio, não tinha problema nenhum.
    Acostumados desde de cedo.Li uma frase do Mandela uma vez e vejo que da para incluir Deficiente se me permite:
    “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem, (deficiência) ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”. – Nelson Mandela
    😉

    • laklobato disse:

      Sabe, correndo o risco de ser açoitada, pra mim, do jeito que foi, foi excelente. 90% dos professores, apesar da falta de preparo, se demonstraram solicitos, atenciosos e dispostos a me ajudar. Eu não sei se tive sorte, se sou abençoada ou se simplesmente não fiquei preocupada de ter as coisas facilitadas, pq queria me sentir IGUAL e, por isso, ‘exigia’ o tratamento que tive. Se eu acho que isso funciona pra todos? Certamente não. Mas, pra mim, diferente disso não teria me trazido onde estou. Sou grata a todos os meus mestres!
      Beijos

  9. Rogério disse:

    A escola do meu filho, particular, é um caso para estudo. As crianças são entopidas com o assunto ecologia, no melhor estilo ‘salve o planeta’, e principalmente no ano passado o tema da vez era a inclusão. Teve até uma atividade no caderno contendo uma gravura com crianças brincando sorridentes, uma das quais cadeirante. Seria lindo se a escola desse o exemplo e criasse condições para receber um cadeirantinho. Não há rampas nem banheiros adaptados, todas as portas são estreitas. Questionada, a resposta foi padrão: “nunca recebemos um pedido de matrícula de um deficiente”. Canalhinha, né?

  10. Greize disse:

    Isso ai Lak, alguém valorizando os Mestres!!!Mto legal, seus professores!! 😉