30 minutos do mundo vistos através dos meus ouvidos

Escrito por laklobato em 13/05/2009

 

Parque do Retiro, Madrid - Espanha, junho/2008 (repara que a caixinha do aparelho ainda era bege-dharma)

Parque do Retiro, Madrid - Espanha, junho/2008 (repara que a caixinha do aparelho ainda era bege-dharma)

Meio dia e meia, saio pra almoçar. Meia hora de almoço já foi, mas não ligo. Quando se tem duas horas de almoço, a gente desperdiça sem dó. Tenho vontade de almoçar sozinha, então não pergunto pra ninguém onde vai almoçar. Saio da agência passando pelo departamento de criação. Ouço a menina do atendimento falando ao telefone “uãuãuã”, mas ignoro, porque não consigo discriminar a fala e, pra entender, teria que olhar pra ela. Desço as escadas, subo a outra (essa agência é singular) e saio na rua. Ouço, ao longe, o inconfundível som do trânsito pesado na Av. dos Bandeirantes. E, embora meus olhos não vejam, sei que aquele som mistura carros, motos e caminhões na vida fervilhante da capital paulista. Caminho pelo Brooklin adentro que, apesar de ser dia de semana, tem um tráfego suave de carros de tal modo que, por algumas frações do tempo fico restrita a apenas os sons das casas. A maior parte desse tempo, mergulho no silêncio pois das casas não me chega som nenhum. Vez ou outra, ouço um “uauauau” que identifico como o latido do cachorro da família que ali mora, muito embora eu reconheça melhor o som pelo padrão produzido do que pelo som em si. Sons, pra mim,  tem quase uma forma visual, não sei explicar o porquê. Na medida que me aproximo da rua mais movimentada do bairro, o barulho dos veículos passa a tomar conta do silêncio, de vez. Não chega a me incomodar, porque não é muito alto. O dia corre tranquilo por aqui.

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Jogado em Causos silenciosos

 

Dicionário de Cama

Escrito por laklobato em 13/05/2009
* O título é apenas uma homenagem ao filme Dicionário de Cama (Sleeping Dicionary) de Guy Jenkin. Não tem muito a ver com o tema do post.
Embora a maioria das pessoas tenham o hábito de colocar todas as deficiências como similares, elas não são iguais.
Esses dias, eu estava na agência e vi uma revista em cima da mesa da revisora, a Sônia (ela é gente boa, lê meu blog e até comenta de vez em quando hihihi). Passei a mão na revista e comecei a ler. Confesso que detesto ler revistas femininas, mas sempre tem uma coisa ou outra que faz o folhear dela valer a pena.
Mas, essa edição da Nova (maio de 2009) chamou a minha atenção. Enquanto olhava as páginas sem grande interesse, deparo-me com um relato de Luciane Silva contando que o amor da vida dela era um paraaltleta,  o cadeirante Giovani de Freitas.
Contou que ele não tinha as pernas, por má formação causada por talidomida (remédio comumente receitado para enjôos de gravidez que depois descobriram ser responsável por má formação fetal) e no preconceito que ela enfrentou pra conseguir viver esse amor. Dizia que as pessoas eram contra, porque alegavam que ela iria ser eterna enfermeira do namorado ou que ele não poderia ter uma vida sexual normal com ela.
Eu não me choco mais com essas coisas, porque estou tão acostumada a ler/ver/ouvir (licença poética) sobre como “deficiente deveria namorar deficiente e ponto” que sinto até raiva de ter me acostumado com isso.
Mas, no caso dos deficientes auditivos, é bem mais comum mesmo, casarem-se entre si. Por uma questão simples: com a limitação da comunicação, é mais fácil conviverem apenas com quem fala o idoma deles (a líbras) e, portanto, apaixonarem-se e casarem uns com os outros. Ou com intérpretes. Ou com quem tem outro surdo na família e acaba aprendendo a língua de sinais por osmose.
No post de ontem, que eu falei sobre deficientes auditivos X idiomas estrangeiros,  meu amigo Juca Jardim me mandou um link que ilustra perfeitamente como funciona essa dinâmica da sociedade com os surdos que não tem pleno domínio da língua oral. É uma cena do filme Babel, filme de Alejandro González Iñárritu, que a maioria conhece como “aquele filme do Brad Pitt”.

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Jogado em lugar nenhum

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