Lakita na Balada
Tenho comigo, a proposta se servir de cicerone aqueles que gostariam de viajar pelos mares silenciosos por onde navega uma deficiente auditiva. Embora eu não goste de ser resumida à simplesmente uma pessoa que não ouve, admito que é também um enorme prazer de servir-lhes de guia por esses caminhos escassos de sons…
Peço licença pela linguagem poética, porque a experiência em questão foi há quase uma década e, no entanto, acho que fica mais fácil fazer a narrativa em tempo presente, quando a proposta de transportá-los à minha realidade não-auditiva prevalesce.
“É uma sexta-feita à noite. Sinto-me inquieta em casa. A vida parece fervilhar lá fora, enquanto eu me sinto impaciente aqui dentro. Não apenas dentro de casa, mas dentro de um corpo que, muitas vezes, parece menor que a grandeza do meu espírito.
Percebendo essa inquietude, minha irmã se oferece para me levar à balada. Aceito o convite de bom grado, tudo o que quero nesse instante é saborear os sedutores prazeres da noite que corre levemente fria, na capital paulistana.
Vamos numa balada na Vila Madalena que, para quem não conhece a cidade de São Paulo, é um rico reduto da vida boêmia alternativa. A porta da balada é de metal, com uma fachada pintada em rosa e nela, nos recebe um porteiro grandalhão com cara de poucos amigos; mas que sorri simpático quando em abre o portão do que seria meu laboratório de antropologia desta noite.
O nome da balada – uma ironia que somente o Jairo e seus fieis leitores irão compreender: “Matrix”
Assim que adentramos pelas pesadas portas de metal, a primeira sensação que me invade é olfativa. Sinto o aroma forte de tabaco queimado, misturado com o cheiro embriagante de álcool e simples odor de corpos humanos em movimento constante. Junto com esses cheiros, sinto meu peito vibrar pelo som altissimo que vem da pista de dança, mas que para os meus ouvidos não soa mais que um sussurro – eu estava sem AASI (aparelhos auditivo) nesta noite.
Texto de autoria de Lakshmi Lobato e licenciado sob a Licença Creative Commons 3.0 Brasil:Sempre atribua a autoria - Vedado uso comercial - Proibido obras derivadas.
Tags: auditiva, deficiência, diversão, história, música