Parle lentement, s’il vous plaît. [2]

Escrito por laklobato em 26/05/2009

frances2Lembra que eu contei como foi aprender outro idioma?

Pois então, como sei que nem todo mundo que acompanha o blog tem deficiência auditiva e é um pouco difícil ver o mundo sob a mesma ótica que eu, resolvi fazer uma surpresa pros meus amados amigos e leitores, pedindo pra minha querida ex-professora (é temporário, ainda volto a estudar!!) contar como foi, sob a ótica dela, essa mesma história.

Confesso que foi uma experiência inédita pra nós duas. Eu até já tinha estudado inglês na escola e feito curso, mas nunca com uma  pessoa com sensibilidade suficiente pra me ensinar de verdade, a aprender a pronuncia correta, portanto, se tem alguém cujo título MESTRE é merecido, é  ela:

 

Olá! Meu nome é Crisaidi e já fui citada neste blog (me sinto famosa!). Dei aulas de Francês e de Inglês para a Lakshmi.

Um dia aparece um cartão na caixa de correio com uma mensagem: “Quero estudar Francês. Por favor, ligue para mim.”

Atendeu a mãe da Lakshmi dizendo que poderia falar com ela mesma, porque a Lakshmi não falava no telefone. Pensei: “Mais uma doidinha! Essa não fala no telefone. Tudo bem, eu também tenho minhas doidices!”

(A Lakshmi relatou essa estória de uma maneira beeeemmm mais elegante!)

Expliquei como era minha aula, minha sala, material, horários… Disse que poderíamos marcar uma aula demonstrativa grátis (oportunidade para nos conhecermos).

Sua mãe diz que a Lakshmi gostaria sim de assistir essa aula demo e que eu não teria nenhum problema (opa!) porque ela já havia terminado a faculdade, estudado Inglês… (opa, o que vem aí?) Então entendo porque ela não falava no telefone: “Ela é deficiente auditiva.”

Ufa! Não é nada!

Respondi que eu nunca havia ensinado um deficiente auditivo. Ela teria que me ajudar, me orientar para o melhor caminho, me dizendo o que eu estaria fazendo certo ou errado. E que eu iria preparar algo extra (exercícios, talvez) para que ela não ficasse ociosa enquanto os demais alunos fizessem uma atividade que lhe fosse impossível.

Que tonta, eu! O que pode ser impossível para a Lakshmi?

Nessa aula demo, havia também um casal.

Geralmente na primeira aula, dou o ABC com o som de cada letra. Usamos símbolos internacionais para “ler” o som – são aqueles que aparecem entre / /, ( ) ou [ ] nos dicionários de idiomas estrangeiros, logo após a palavra. O aluno se torna independente, não precisa de alguém para ensiná-lo a pronunciar uma nova palavra – ele simplesmente lê no dicionário e pronuncia com segurança. Assim (como ela!):

 

outstanding 7aut#standi%) (= notável)

fantastique [fɑ̃tastik] (= fantástica)

charmosa /ʃarmɔza/

 

Ela diz que nunca havia usado esses símbolos e fica maravilhada – parecia que eu tinha aberto um PORTÃO para ela. Eu fiquei muuuuito contente!

Para resumir: ela superou o casal e lia com uma rapidez o alfabeto que dava inveja a qualquer um!

Nas aulas, ela pedia para eu “escrever na lousa como se lia”.

Esses símbolos maravilhosos a ajudaram a pronunciar com perfeição.

Dando aulas para a Lakshmi, aprendi muito.

Por exemplo: um dia ela teve aula com uma aluna que tinha problema com a pronúncia (acho que um pouquinho de preguiça!). Então pedi que ela pronunciasse corretamente se quisesse ser entendida. Com a Lakshmi como “ouvinte”, ela caprichou! A presença da Lakshmi ajudou mais que tudo que eu já havia tentado.

Outro exemplo: comentei com a Lakshmi como era difícil ler lábios – eu havia tentado durante um telejornal em português, minha língua, em vão! Ela então me explica que ela não lia tudo, havia palavras que o movimento labial era igual, como faca e vaca.

 

Ah! /f/, /v/

Five… fifth! (= Cinco… quinto!)

Life… lives! (Vida… vidas!)

 

Toutefois… todavia!

 

E ela me conta uma estória de que foi ao médico, a recepcionista não percebe sua deficiência e lhe dá as costas para digitar seus dados no computador, vai perguntando e a Lakshmi vai respondendo: nome, endereço, telefone…

Dou aula de Francês Instrumental na PUC. Usamos textos bem sofisticados – é um curso para “ler” francês, especialmente para quem está fazendo mestrado ou doutorado. Conto essa estória da recepcionista do consultório médico e digo: “Vocês precisam prestar atenção na mensagem! Não se prendam às palavras!”.

Quanto algo extra (exercícios, talvez) para que ela não ficasse ociosa enquanto os demais alunos fizessem uma atividade que lhe fosse impossível? Bem, sempre preparo meu material com certa vantagem para nunca faltar nada. Preparei várias folhas com atividades e exercícios para aquela garota deficiente auditiva e ela nunca as viu!

Que tonta, eu! O que precisa ser diferente para a Lakshmi?

 

Fico por aqui, com os olhinhos cheios d´água e pensando naquela frase de Richard Bach: “Ensinar é lembrar os outros que eles sabem tanto quanto você.

Beijinhos

Lak

15 Palpites

Bia
26/05/2009 às 10:05

Que legal essa história Lak, e que professora bacana né?
Isso só mostra que ela é uma pessoa dedicada naquilo que faz e procura ajudar a todos.
Parabéns!

Beijo pra tu visse??

laklobato respondeu:

Ela é o máximo!! Saudade da aula dela hihihi


 
Juca Jardim
26/05/2009 às 10:52

“atenção à mensagem… não se prendam às palavras”…

isso valeu tb pra eu começar ler Proust no original!!! :D

(Lak… desafios diferentes à parte, eu tb me virei no francês fin-de-siècle do cara deduzindo o contexto :P )

esses dias eu tb tava tentando ler o que o apresentador do jornal falava… mesmo sabendo do que tratava o assunto…e?… NADA!!!!! kkkkkkkkkk

beijos! (muito bom o relato!) ;)

laklobato respondeu:

É a falta de necessidade, Juca. Mas televisão é cansativo mesmo. Melhor o closed caption, que você pode até não entender a bizarrice escrita, mas com certeza, dará boas risadas tentando decifrar as esquisitices que os digitadores colocam por la hihihi


 
renata
26/05/2009 às 11:05

Lak sua professora tem o dom de ensinar, coisa que falta em muitos “mestres” hoje em dia. encarar um novo aluno como um desafio e dar o melhor de si. Que sorte a sua ter encontrado ela em seu caminho. beijos :D

laklobato respondeu:

Talento todos temos, mas nem todos usam-no para trabalhar. Ela sim! Essa é a diferença. E sim, eu dei sorte mesmo!! =D muito grata pela sorte que tive!!


 
Rogério
26/05/2009 às 11:21

Tudo a ver com aquela história do pedreiro que “quebrava pedras” e o outro do lado que disse estar “construindo uma catedral”. Existem profissionais e profissionais, e sua professora é dessas criaturas com as quais tive a graça de encontrar em meu caminho de estudante e que fazem do ofício de transmitir conhecimento um exercício diário de paixão.

laklobato respondeu:

Ah, isso é verdade… =D ela vai gostar de ler isso, viu? hihihi


 
Edelson
26/05/2009 às 14:54

Ah se todos os professores fossem assim (ou pelo menos boa parte deles).

Mas enfim parabéns à professora e a você, pela força de vontade. Sem a força de vontade nada poderiam fazer.

BjuS!

laklobato respondeu:

“Querer é poder” não é o que dizem? Eu concordo com isso hehehe Beijocas


 
Ana Paula
26/05/2009 às 15:25

Mas é isso aí!
Dedicacão aluno/professor dão excelentes resultados. Nada é impossível!

laklobato respondeu:

Claro que a minha inteligência acima da média fez a diferença…
Hahaha brincadeirinha… Essa dupla dedicação faz mágica mesmo!


 
Bruna
26/05/2009 às 16:24

Nossa, que história e que professora hein. Eu aprendi outros idiomas (inglês, espanhol), e agora estou tentando aprender francês, e mesmo sem dificiência auditiva estou tendo uma deficiência mental mesmo pra aprender…ô língua difícil…hehehe
Parabéns por não desistir de aprender Lak! E parabéns à tua profe, fantástica ela!
Bjs ;)

laklobato respondeu:

Você fala espanhol avançado? Fluente? E inglês?
Relacionando com o que você sabe desses idiomas, fica mais facil aprender frances. Exemplo: “Appartament” se escreve igual em frances e ingles (só muda a pronuncia), então esse você já sabe.
O passé composé do francês, é o passado do espanhol tb. Sabendo mais de um idioma, é facil aprender outros (isso foi a Crisaidi que ensinou hihihi). O ruim é começar do zero.
Você tira de letra, Bruna!
Beijocas


 
Adriana
26/05/2009 às 17:30

Oi, Lak! O post me fez lembrar a necessidade e a preguiça :evil: (ambas eternas) de estudar línguas, ou melhor, pelo menos o inglês. Tive bons professores, outros nem tanto. Até hoje não evolui quase nada. Mas cá entre nós: quem faz a nossa história é a gente mesmo, né? Você fez a sua, com a ajuda de uma profissional pra lá de competente! Certamente, vocês formaram uma dupla mais que especial. Estou adorando essa “casa”. Vou me tornar habitué (olha eu gastando meu francês) por aqui. Beijos.

laklobato respondeu:

Puxa uma cadeira, pega uma coca-cola na geladeira e fique a vontade…
Quando a vontade de ensinar é proporcional à vontade de aprender, milagres acontecem hihihi
Beijos


 
Maíra
26/05/2009 às 21:30

Queria ter tido um professor assim, pelo menos no de inglês…….

Parabéns! Ela usou o bom senso e soube lidar bem com você, com carinho, atençao e compreensão :)

laklobato respondeu:

Ela é um anjo caído do céu. Gente assim, deveria ser fabricada em série! hihihi


 
Neiva
26/05/2009 às 21:37

Olá, Lak!

Adoro visitar o seu blog e ler as suas histórias, sempre aprendo um pouquinho mais sobre como olhar a vida na perspectiva do outro. Sou professora e tenho estudado melhores formas de ensinar alunos surdos que não são oralizados e fazem uso da Língua Brasileira de Sinais.

Faço um pedido: coloca aí a opção seguidores, dessa forma eu seria avisada todas as vezes que você escrevesse algo novo.

Parabéns pelo blog :D
Neiva

laklobato respondeu:

Olá, Neiva. Bem vinda ao blog!
Espero que eu possa te ajudar de alguma forma, muito embora o blog seja voltado à dinâmica dos surdos oralizados, que diferem bastante dos sinalizados. Acho que o principal é saber nos diferenciar hehehe
É bem pouco provável que seja abordada a situação dos sinalizados, uma vez que tenho pouquíssimo contato com eles, mas se as minhas histórias te derem estimulo para continuar empolgada de trabalhar com sinalizados, já terei feito a minha parte.
Viu que na lista de blogs tem um link pra “Educação Matemática e Surdos”? Pelo que vi nesse site, parece ter bastante informação voltada pra líbras. Não sei se você já conhece, mas se não, pode ser um ótimo ponto de partida para a sua pesquisa.
Não sei como se faz a opção seguidores, embora tenha “assine meu feed” e “seguir meu twitter”. Mas, assim que descobrir adiciono, ok?
Grande beijo e volte sempre.


 
Alex Martins
26/05/2009 às 22:51

Essa história é divina, sua professora realmente sabe fazer bem o que faz, dá orgulho saber que ainda existem colegas de profissão que se preocupam com o aluno e se adequam a ele e não o contrário.

parabéns para as duas

laklobato respondeu:

Fiquei emocionada até. Ela vai ler seu comentário, viu??
Beijos :oops:


 
elaine
27/05/2009 às 18:56

Concordo com a Cris, o que é dificil para Lakshmi?
Eu, que além de escutar já estudo e treino essa lingua há anos…
e tb além de amar profundamente esse idioma percebo Lakshmi me superando e se superando a cada aula. E, teste final: conversando tranquilamente em Paris, Nice,
Nimes por toda a França!
Quantas pessoas que escutam, não conseguem ter a clareza de pronuncia que ela tem.
Por essas e outras que sou sua fã incondicional e de carteirinha.
E, claro da Cris tb que encarou essa empreitada, não teve preconceito, nem receio,
ensinou e se permitiu aprender. carinho pras duas :D


 
CAROL
30/05/2009 às 09:11

q maravilha..
parabéns p ambas!
já encontrei professoras bastante dispostas a me ensinarem… mas nunca uma professora de língua estrangeira! só sei o básico do inglês! heiuheiue

laklobato respondeu:

Mas que existe, existe. Taí a prova. Somos capazes de aprender de tudo, querida!


 
Crisaidi
31/07/2009 às 20:57

O Alex comentou sobre o professor se adequar ao aluno e não o contrário…

Quando eu me sento numa sala de aula como aluna… puxa!… mesmo com muito interesse, tem hora que cansa, dá fome, dá dor no corpo, preguiça…

Eu entendo isso…

Eu estou dando aula a mil por hora, me divertindo, todo pique… e o aluno tem que prestar atenção, participar, responder, quebrar a cuca! Eu tenho mais é que prestar atenção a todos os sinais e tentar oferecer uma aula dinâmica, agradável, que não canse. Mais que isso, que cause impacto, surpreenda – puxa! Que desafio!

Vocês pensam que é fácil?

Há dias em que estou explodindo de idéias – é como uma cozinheira com fome! Você terá mil idéias e irá preparar um banquete! (Eu também gosto muito de cozinhar e de comer! :D )

Mas há dias em que a cozinheira não consegue achar que “arroz, salsicha e fritas” irão descepcionar!

Mas sempre fui curiosa e continuo estudando.

Tenho dois livros que estavam encalhados no armário e, recomeçando minhas aulas com a Lakshmi (viva ela!), comecei a leitura – me senti estimulada, eu preciso me preparar para surpreender meus aluninhos (-inhos, carinhosamente!).

Um é sobre pronúncia e o outro é sobre como aprendemos um idioma.

Até mais, Crisaidi. :)

laklobato respondeu:

Eiii quero saber mais sobre esse livro sobre como aprendemos um idioma, Cris… Assunto pra te pentelhar na próxima aula hihihi
Beijos


 
Alex Martins
31/07/2009 às 21:35

Crisaidi, é bom ver esse gosto pela função em colegas de profissão, eu acho que a gente sempre tem que se doar ao máximo. Tb acho que o aluno tem que curtir a aula e que eu sou o responsável [por isso.

Parabéns pela excelência do seu trabalho


 

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