Vira e mexe, alguém me pergunta o que eu faço da vida.
Bom, a principal coisa que eu faço mesmo é dar risada. Sério, eu dou risada de tudo e sempre acho um motivo pra rir ou pra (tentar) fazer os outros riem. Mas como, infelizmente, a minha carreira de comediante não deslanchou (ainda, quem sabe) eu faço outras coisas pra viver, claro.
A primeira delas – quem adivinhar ganha um pirulito – é escrever. Por formação acadêmica, sou redatora publicitária. Primeiro, porque leio muito, segundo porque tenho facilidade pra isso. Terceiro, porque é um sonho e até hoje, só consegui ser redatora freelancer, mas tudo bem, a gente chega lá mais cedo, mais tarde ou durante o por-do-sol já. Já fiz diversos tipos de trabalho, mas meu xuxuzinho era um slogan que fiz pra um atelier de arte “Um lugar onde as cores criam vida, a imaginação toma forma e a inspiração se transforma em arte”. Procurei o site deles, mas não achei e faz tempo, não sei se ainda existe hehehe
A segunda coisa que eu faço, é fotografia, Decidi ser fotógrafa ainda na adolescência, porque as pessoas elogiavam muito as minhas fotos. Em breve, faço um tópico exclusivamente contando como foi fazer o curso de fotografia. Faz bastante tempo que trabalho com fotografia, já fui inclusive fotógrafa contratada (eu fazia as fotos do site de uma mega loja) e fiz trocentos tipos de trabalhos como freelancer. Se alguém (que ainda não viu) quiser dar uma conferida o meu trabalho: www.laklobato.com .
E, finalmente, o trabalho com o qual atualmente eu ganho a vida: sou Arte Finalista de uma agência de publicidade (vou omitir o nome por medidas de segurança). O arte finalista é basicamente a pessoa que finaliza as “obras de arte do mundo publicitário.”. Termina o arquivo antes de ir pra gráfica, faz alterações de última hora, faz adaptações que não precisem de um mega trabalho criativo, apenas de compreensão de diagramação e bom gosto, claro.
Se algum dos meus trabalhos foi escolhido pensando na surdez? Sinceramente, TODOS, porque a surdez moldou muito da minha personalidade, mas certamente, o que faz com que eles dêem certo é simplesmente a vontade de fazê-los. Não acho que a base da escolha profissional deva ser feita em base exclusiva da deficência, mas levando em consideração as particularidades dela apenas. Ficaria difícil se eu escolhesse ser telefonista ou cantora, mas não acredito que me impediria de ser psicologa, engenheira, veterinária, atriz ou dentista. Competência prevalesce à deficiência e existe tecnologia adequada para suprir às carências da deficiência, só isso.
Enfim, e como não poderia deixar de ser, algumas fotinhos (ridiculas) minhas aqui na agência (um tanto antigas, mas valendo)
Com cara de bobona
Com minha belíssima tela do G5 no qual trabalho
Provando que sou uma pessoa chique que trabalha bem vestida (calçando um belíssimo Conga)
Vocês não poderiam viver sem essa ultima foto, né?
Quem tem filho pequeno, já deve ter ouvido falar nesse teste. Mas que ainda está planejando um, vale a pena se informar sobre o teste de audição feito logo que o bebê nasce.
Esse teste é importantíssimo, pois quanto mais cedo se souber da perda auditiva do bebê, mais cedo se corrige a deficiência e menores serão as sequelas a longo prazo.
Hoje, li uma notícia (graças Leila) que explica bem o que é o esse exame:
Teste para evitar risco de surdez
Projeto nas mãos do prefeito Eduardo Paes propõe tornar ‘teste da orelhinha’ obrigatório na rede pública municipal
Rio – Fundamental para detectar problemas auditivos em recém-nascidos, o ‘teste da orelhinha’ pode se tornar obrigatório no Município do Rio. Projeto do vereador Bencardino (PRTB), aprovado dia 18 em segunda instância na Câmara, prevê que o exame seja feito em maternidades e hospitais municipais onde for realizado o parto. O projeto deve ser enviado esta semana para o prefeito Eduardo Paes. Assim que receber, Paes terá 13 dias para sancionar ou não.
Segundo Bencardino, estudo feito pela prefeitura aponta que uma das principais causas de reprovação escolar são os problemas auditivos. Com o projeto, o vereador pretende diagnosticar precocemente o mal e evitar que as crianças tenham problema na fala. Bebês com dificuldade de audição que recebam tratamento até os seis meses de idade conseguem desenvolver linguagem muito próxima a de uma criança ouvinte.
“O objetivo é que o bebê só saia da maternidade com o exame feito, assim como ocorre com o teste do pezinho. Se for aprovado, o projeto não vai ficar caro para os hospitais aderirem. É melhor resolver o problema logo no início, para não ficar mais caro depois”, disse.
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelam que, a cada 10 mil bebês, 30 têm perda auditiva. No Brasil, em cada grupo de mil nascidos, um é surdo e entre dois a seis bebês nascem com problemas auditivos. De acordo com Cláudio Coelho, membro da Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia, o teste da orelhinha (emissão otoacústicas) é indolor e é feito com o bebê dormindo. Ele explica que o grau de audição é medido através de um fone que emite sons fracos e depois recolhe as respostas que a orelha do bebê produz.
“O teste da orelhinha pode descobrir no primeiro dia de vida se a criança apresenta algum problema auditivo. Se o exame for feito precocemente, possibilita uma maior reabilitação. Se o resultado do primeiro teste não for satisfatório, o exame pode ser repetido de 15 a 30 dias após o primeiro”, explica o especialista.
Já contei aqui que sou moderadora da comunidade do Orkut Surdos Oralizado, né?
Pois é, a comunidade é antiga, existe desde 2004, e foi o lugar onde descobri qual a denominação exata para o meu caso. Possui mais de 4 mil membros e, acredito, a maior parte de surdos que falam oralmente e assombram o mundo quebrando o estereótipo de que todo surdo também é mudo.
O lance é que só fechando os olhos a gente pode achar que as pessoas com deficiência já conquistaram o mundo a ponto de não viverem mais sob a sombra do preconceito e dos estereótipos. Essa semana mesmo, rolou uma discussão por lá, por conta dessa notícia do G1:
O censo 2000, do IBGE, mostrou que 14,5% da população brasileira têm algum tipo de deficiência. São mais de 24 milhões de pessoas. Há 18 anos, entrou em vigor a lei que prevê cotas para deficientes no mercado de trabalho. As empresas devem reservar de 2% a 5% de vagas, dependendo do número total de empregados. Quem não cumpre pode pagar multa.
Mesmo com a lei, mais da metade dos portadores de deficiências são inativos e, entre os que trabalham, apenas 10% têm carteira assinada, de acordo com o levantamento do IBGE.
A lei teve um efeito positivo para este segmento da população, mas falta gente preparada para ocupar as vagas, segundo o presidente da Associação de Amigos dos Deficientes Físicos do Rio de Janeiro, Paulo Sergio Fernandes: “Está faltando no mercado mão de obra especializada , então encontramos dificuldade às vezes pra colocar isso”
Lindovando Rodrigues Lima encontrou emprego de operador de teleatendimento, com a ajuda de uma associação que apoia deficientes físicos. Sozinho, ia ser mais difícil: “Depois da lei melhorou bastante”.
A empresa onde Enrico Salvador trabalha treina a mão-de-obra também para a convivência com os deficientes que emprega. O rapaz de 25 anos tem síndrome de Down e é atendente de lanchonete há quatro anos. “Acho legal trabalhar. É alegria, emoção de fazer as coisas”, comenta o atendente de lanchonete Enrico Salvador.
“Para o deficiente, é uma gratificação essa inclusão do portador no mercado de trabalho. Tem responsabilidade. É um prova de que ele é capaz, sim, de trabalhar”, diz a gerente.
Eu não duvido que muitas pessoas com deficiência não tenham tido oportunidade de estudar, nem de trabalhar para adquirir experiência. Muito por culpa da família, que aceita a visão estereotipada de que PcD é um coitadinho incapaz – e não, não falo de culpa no mal sentido, nem todo mundo tinha qualquer informação sobre a condição da pessoa com deficiência até bem pouco tempo atrás, porque a mídia não se interessava – e acabam não dando o incentivo adequado para uma educação boa e primorosa.
Porém, me incomoda um pouco só ler esse tipo de notícia, que sempre dá um jeito de distorcer a situação e dizer que a culpa não é do preconceito nem dos empresários – totalmente e sempre bem intencionados – mas dos próprios PcDs, que quase sempre são realmente incapacitados. Ai surgem cursos e mais cursos de “capacitação profissional” e a maior parte das vagas são de cargos baixíssimo, que não exigem quase nada e o pagam um salario de fome.
Enquanto isso, vejo os surdos oralizados com formação acadêmica, até pós graduação desanimados, porque não acham vagas para a sua formação. Já que, entre colocar um PcD num cargo adequado para um advogado, administrador, publicitário, engenheiro, preferem destinar essa vaga a quem não tem deficiência nenhuma. Mas isso, a mídia não noticia, né? Não convém falar que, além de boa parte das pessoas com deficiência não serem capacitadas, as que são também não conseguem cargos adequados, porque os empresários têm preconceito. Muito mais fácil culpar um lado só.
Quem pensa que eu tenho sorte – de trabalhar numa das maiores agências de Publicidade do mundo (e amo essa agência, confesso) – provavelmente não tem noção dos preconceitos que já passei. Já trabalhei numa empresa que não aceitava dar aumento para cotista (PcDs que preenchem a cota de 2 a 5%). Quando a gente pedia aumento, ou enrolavam à exaustão, ou faziam de tudo para que a gente se demitisse. Não foi diferente comigo, a única PcD que não tinha cargo de auxiliar…
Prevalesce a postura medieval de que, já que estão fazendo o favor de nos deixar trabalhar, que a gente fique quietinho no canto, sem reclamar e satisfeito com um salário ridiculo!
Depois que eu falei isso na Surdos Oralizados, me perguntaram se eu achava mesmo que era possível mudar toda a visão social acerca de nós.
Sinceramente, acho SIM! Apenas nunca disse que achava fácil…
No mais, vamos tentando, que um dia, a gente consegue.
Nessas de ansiedade transbordante – falei no twitter que minha alma anda tamanho GG – pego-me fazendo retrospectivas da minha vida. Hoje mesmo, mexendo nos meus exames, me deparei com uma audiometria (exame que mede a audição) feita muito antes de eu ser acometida pela caxumba e sua sequela. Audição plena e perfeita, do jeito que manda os padrões sociais. Se senti tristeza? Até que não, tive tempo mais que suficiente para aprender a viver com isso. E sou enfática de afirmar, a dor nunca passa, a gente apenas aprende a viver com ela, que torna-se uma companheira silenciosa e constante, que a chega uma hora que ela passa praticamente despercebida.
Mas, como nostalgia chorosa nunca foi um traço marcante da minha personalidade (sempre oscilo entre o mimimi e a alegria plena, desde criança, já cansei de ver minha mãe comentar com as pessoas dessa minha capacidade de ir da tristeza à piada na velocidade da luz) comecei a pensar nas coisas engraçadas que a surdez me fez passar e que, provavelmente, se eu ouvisse nem saberia que tem que não se dá bem com tal coisa.
Enfim, nos meus tempos idos de adolescente, quando o Mar Morto ainda era vivo e Guaraná era vendido com Rolha, eu namorei (muito brevemente) um menino que morava no predio ao lado do meu. Alias, já falei dele aqui, mas desafio alguém a achar o post hihihi Até aí, nada demais, namorar na adolescencia não tem nada de novidade. O X da questão era que o prédio dele, ao contrário do meu com porteiro e guarita – sou chique – era provido do pior pesadelo de um surdo: Porteiro Eletrônico.
Ainda que hoje em dia, por conta da violência, assalto e o escambau, muitas guaritas tenham vidro fumê e o porteiro insista em falar conosco por interfone, é difícil algum ser suficientemente mal educado pra não entender quando eu falo claramente: não ouço, por favor, enfie sua cabeça pra fora da guarita pra eu ler seus lindos lábios (mentira, não passo cantada em porteiro) o porteiro eletrônico ainda consegue ser pior.
Logo no comecinho do namoro, que já começou acabando já que não ficamos juntos nem dois meses, me ocorreu que era praticamente impossível eu poder chamá-lo por via desse esquipamento. Veja bem, sem aparelho, eu só ouço sons – graves – acima de 80 decibéis (nem queira saber o quão alto precisaria ser isso, acima de 85 já faz mal pra audição de um ser humano normal) já os médios e agudos, precisam ser ainda mais altos e, acima de uma determinada frequencia, não ouço nem por decreto. E mesmo quando eu ouço, nem sempre consigo saber de onde é o som e muito menos intepretá-lo com clareza, especialmente no que se refere à compreensão da fala.
O que fazer nesse caso? A gente precisou criar um código da maneira como eu tocava o porteiro. Eram três toques num ritmo rápido, que soavam como uma campaínha. E dificilmente ele abria o portão pra mim, ele descia para verificar se era realmente eu. Cansativo, né?
Claro que não foi por isso que o namoro acabou, mas ainda assim, eu passei a ter alergia a pessoas que morassem em prédio com esse dispositivo. Porque, realmente, fica difícil ter código com todo mundo que mora num prédio desses e eu pretendo visitar. Hoje em dia, o SMS facilita e muito a minha vida, mas a tecnologia é recente. Em mil novecentos e antigamente, eu acabei perdendo algumas oportunidades de visitar amigos por conta disso hehehe
Historinha bobinha, mas tá valendo.
Beijinhos
Lak
p.s. apesar do namoro não ter durado, a gente mantém contato até hoje, viu? O porteiro eletrônico incomodou, mas não tanto.
Você conhece a poesia Mar Português, de Fernando Pessoa? Provavelmente conhece, especialmente por causa de uma frase famosa:
“Tudo vale a pena, se a alma não é pequena.”
Mas a poesia inteira é linda e explica, com toda a licença poética que Pessoa se permitiu, explicar porquê o mal é salgado (e fazer uma homenagem aos marinheiros que enfrantaram e morreram no mar durante a época da descoberta das Américas) hehehehe Ainda assim, todo mundo lembra da poesia por conta da frase já citada, afinal, realmente tudo vale a pena quando a gente se permite sentir, pensar, sonhar…
A minha paixão não é essa frase – óbvio, eu tenho a mania chata de querer ser diferente do comum. Sou apaixonada pela estrofe seguinte. Enfim, a poesia toda, com destaque à minha parte favorita:
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Uma noite, há pouco mais de um ano, passei a madrugada conversando com minha amiga Anahí, estudante de ciências sociais, deficiente auditiva como eu. A gente falava sobre a condição das pessoas com deficiência – ela é militante da luta pró-acessibilidade, pró-inclusão social – e em dado momento, comentei dessa poesia e do quanto eu gostava da frase destacada. Pra mim, essa frase tem um peso absolutamente maior que a frase anterior, que todo mundo gosta. Ela gostou da minha explicação e perguntou se podia guardar de recordação. Falei que sim, que ela poderia usar como quisesse.
Essa semana, estava novamente conversando com ela, quando ela me contou que tinha se formado em Ciências Sociais e que iria apresentar o Trabalho de Conclusão de Curso nos próximo dias (já apresentado) e perguntou se poderia me mandar uma cópia. Falou: “Aquela frase que você gosta é a epígrafe do meu TCC”. Respondi que queria ler sim e imaginei o trabalho dela com essa triunfante abertura de Fernando Pessoa “quem quer passar além do bojador…”. O trabalho dela fala justamente da condição das pessoas com deficiência.
Enfim, recebi o arquivo, abri pra ler porque o assunto em muito me interessa e dei de cara com essa epígrafe (ah, eu admito que chorei na hora): “Você sabe o que é o bojador, né? As pessoas achavam
que o mundo era plano, mas se seguissem pelo mar até
o horizonte, havia uma queda e ele acabava. Esse limite
do mundo se chamava bojador. Um dia, alguém
atravessou e descobriu que o bojador não existia.
Exatamente o que a gente tenta provar quando mostra
que existe superação pra deficiência. Que existe vida
além do bojador imaginário das pessoas.”
(De Lakshmi Lobato para Anahi, numa noite daquelas
de papo sobre transcender-se à própria deficiência).
Praia de Nice, Riviera Francesa, adaptada aqueles que precisam adrentrar com rodas na praia. Fonte: acervo pessoal de Lak Lobato (é, tb sou fotógrafa, lembra? hahaha)
E você, qual o bojador que você gostaria de atravessar?