Enquanto me recupero da cirurgia – esqueci de falar, não fiquei nem 36 horas de turbante, quando postei depois da cirurgia, já tinha tirado – esperando o navio ancorar no porto (já melhorei bastante, mas ainda não posso fazer movimentos bruscos e continuo esbarrando em tudo), passo meus dias fazendo absolutamente nada, a não ser ficar na cama lendo a internet, o que alias, nem sempre consigo.
Mas, deparei-me com um texto da Anahi GM, uma amiga querida, que inclusive sempre me incentivou a fazer o implante, desde que nos conhecemos, há cerca de 5 anos:
“O deslumbramento é próprio de quem dá-se ao direito de explorar o novo, o desconhecido. (…)
Por que então eu nunca soube que o bem-te-vi tinha este nome? Meus pais
poderiam tê-lo me ensinado quando pequena, mas não (e talvez porque
pensassem que não compensava ensinar a uma filha surda algo que nunca ouviria), pois foi preciso 27 anos para que eu colocasse um implante coclear e em 2003 ouvisse e reconhecesse, com a ajuda de um casal de amigos, o que significava um sonoro “bem-te-vi”. E quando meu cérebro o decodificou, fiquei encantada. Hoje em dia, em meio a tantos sons que meu cérebro se recusa a reconhecer, o som do bem-te-vi se destaca entre eles, pois à primeira audição, imediatamente o reconheço.”
Meus olhos encheram-se de água e me peguei pensando qual o primeiro som que irei reconhecer. Acho que são as coisas mais simples, que estão mais distantes do nosso alcance, que tem valor mais inestimável. Estou errada?
Preguiça enorme de escrever, já que passei os ultimos 4 dias (e hoje ainda não tô 100%) com labirintite e enjôo. Sensação de estar num navio que não ancora nunca no porto. O mundo inteiro balançando. Sei que faz parte e é um preço pequeno a se pagar, pela graça do que está por vir, mas que dá uma desanimada no ânimo, dá sim.
Até tive um sonho engraçado essa noite. Sonhei que tinham feito uma ressonância magnética do meu cérebro e estavam tentando descobrir como é que uma área pequena e “em preto e branco” do meu cérebro, poderia ter crescido e “ficado colorida” só por causa da cirurgia.
Enfim, pela falta de assunto, deixemos que as imagem falem pelas palavras. Alguns já viram as fotos no meu album do orkut, mas como nem todo mundo tem acesso ao meu album, coloco as fotos aqui também!
Antes da cirurgia, calminha e com sono já, mesmo não tendo tomado sedativo nenhum. A tranquilidade tomou conta do meu ser, só Zeus sabe como!
Assim que retornei ao quarto, após a cirurgia, ainda meio sob efeito da anestesia.
No dia seguinte, depois de trocar o turbante, louca pra receber alta. Ao contrário do que ficam falando, eu não estava de mau humor, apenas séria. Algumas pessoas precisam parar de achar que falta de sorriso é sinal de mau humor. Eu também fico séria de vez em quando (é raro, mas acontece).
Na véspera da cirurgia, contrariando todas as minhas expectativas, eu estava calma. Tão calma, que fiz a mala pra ir pro hospital e dormi.
Acordei cedo, pra lavar o cabelo, porque não sabia quanto tempo ficaria impossibilitada de lavá-lo (3 dias). Arrumei-me, entrei um pouco na internet e chamei o Edu. Seria um dia típico como qualquer outro, não fosse que aquele dia seria o dia de partir em busca da realização de um sonho.
Edu acordou e se arrumou. Ao contrário de mim, ele estava ansioso e nervoso. Saímos 1h antes do horário agendado para internação. Chegando no Hospital das Clínicas, ironia do destino, o estacionamento tinha acabado de ser fechado, visto que estava lotado. Edu tentou convencer o guardinha a quebrar o nosso galho. Ele disse que não, que não tinha mais lugar. E eu, por um impulso que adormeceu toda e qualquer timidez a da minha parte, pedi: Olha, eu tenho que estar lá em cima em 10 minutos, pra ser internada, que serei operada ainda hoje. O guarda mudou de expressão facial e disse: Tudo bem, vocês entram.
Chegamos no horário combinado: 11hs. Assinamos a papelada, minha mãe chegou nesse meio tempo e, 10 minutos depois, já estávamos no quarto, onde recebi orientação de vestir aquela camisolinha chiquérrima hospitalar. Mediram minha pressão e temperatura. Fizeram trocentas perguntas e disseram que provavelmente a cirurgia seria no horario, embora pudesse adiantar ou atrasar.
Todo mundo estava nervoso no quarto, menos eu, que parecia ter tomado um ansiolítico, de tão calma e com tanto sono que eu já sentia. Eu tinha pedido pro anestesista um sedativo pré-operatório, mas na hora, achei que preferia ir acordada pro centro cirúrgico.
Saí do quarto com os quatro (minha mãe, irmã, Edu e Miriam, uma amiga) em lágrimas, mas consegui segurar o choro, porque tinha medo que a enfermeira achasse que era nervosismo e quisesse me dopar.
Fiquei algum tempo deitada numa maca, num corredor típico de filmes de hospital: estreito, teto alto cheio de lâmpadas fluorescentes. Veio uma enfermeira e me colocou uma touca de cabelo e um par de meias. Esperei cerca de 15 minutos, vendo passar dezenas de pessoas. Uma coisa que notei foi que bebês saem do centro cirurgico no colo da mãe, que na maioria das vezes, parecem buscar nos olhos das pessoas que encontram pelo caminho um olhar de apoio e compreensão. Lembrei da Alessia nessa hora, da mãe dela falando que a dor de ver um filho mal é pior do que a dor que sentimos em nós mesmos.
Enfim, finalmente, fui levada à sala de cirurgia. Um estudante falando no celular orientou a enfermeira acerca do que ela deveria fazer comigo. Entramos, troquei de maca, fui ligada a monitores cardíacos. A anestesista chegou e, espertamente, perguntou se eu sabia ler os lábios. Respondi que sim. Ela perguntou se eu já tinha sido sedada. Respondi que não e ela me perguntou por que. Respondi que estava calma o suficiente pra vir acordada. Ela sorriu. Perguntou da minha surdez, qual a causa, com que idade, se eu tinha inflamação no ouvido com frequencia. Em seguida, disse que eu sentiria uma picadinha no dorso da mão, já explicando que iria me dar “um remedinho que daria sono”. Logo depois, falaram que ia me colocar uma máscara de oxigênio e…
Eu acordei sendo estapeada no ombro. Antes de abrir os olhos, pensei: “Ah, Eduardo, me deixa dormir.” Abri os olhos e dei de cara com um japonês me falando: Sua cirurgia já acabou, foi um sucesso, logo você estará no quarto. Perguntei que horas eram, ele respondeu: 19h. Levei um susto, porque a previsão era sair do centro cirurgico às 18h. Tentaram conversar comigo, mas eu me sentia tonta e enjoada.
Uma hora depois, me levaram pro quarto. Bateram na porta e minha mãe saiu saltitante na minha direção. Perguntei: Estou muito inchada? Ela respondeu: Não, você está com uma cara ótima.
O resto da noite foi assim, um entra e sai de enfermeiros do quarto. Eu pedi trocentas vezes para ir ao banheiro, mas não me deixavam levantar, porque eu não tinha comido. E mesmo quando eu tentava, nada parava no meu estômago. Minha mãe conseguiu dormir. Edu passou a noite acordado do meu lado, tomando conta para que qualquer coisa que eu pedisse fosse prontamente atendido.
Na manhã seguinte, a médica veio e trocou o curativo. Disse que precisava ficar só mais um dia com ele. Depois, pediu um Raio-X da cabeça e disse que eu teria alta a tarde.
Fiquei meio triste de saber que só conseguiram inserir 18 eletrodos na minha coclea (por ser muito curta) mas a médica me acalmou dizendo que 18 eletrodos fariam a mesma coisa que 22 (que é o número ideal) e que isso de forma alguma iria me atrapalhar de ouvir o que quer que fosse.
Perguntei da tontura que eu sentia. Ela fez uma cara de reprovação meio disfarçada. Explicou que “algumas pessoas perdem líquido da coclea e demora um pouco pra refazer. O normal dessa tontura é durar entre 48 e 72hs”.
Recebi alta 24hs depois de ter entrado no hospital e vim pra casa, onde tinha milhares de recadinhos no blog, no orkut, no MSN dos amigos preocupados. Foi maravilhoso saber que tinha tanta gente preocupada e pensando em mim, numa hora tão importante da minha vida.
Quando eu estava no corredor do centro cirurgico, esperando ser levada pra a sala de cirurgia, me ocorreu que foram 23 anos de silêncio que finalmente dariam espaço para os sons retornarem à minha vida. Nem nervosismo nem tristeza, o que eu senti foi somente uma sensação de realização, de pensar: Para quem acredita, tudo é possível!
Acabei de saber a data da cirurgia. Será essa semana…
Sabe quando você fica meio sem saber o que dizer, pensar, sentir? Até ontem, eu estava numa ansiedade triste que me emudecia – tanto que postei pouco esses dias e não consegui conversar muito com ninguém, mesmo tendo montes de amigos queridos ao meu redor.
Agora, o que me emudece é a felicidade. Porque eu sou assim, emoções extremas me deixam em choque e eu congelo, feito um sacolé (aqueles sorvetes feitos em saquinho, em cada lugar tem um nome) de cereja esperando a ficha cair e poder me mover de novo.
Mas, como não posso abandonar o blog, claro, vou copiar um trecho de um email da KK (lembram dela? Ela fez um post sobre Luto), sobre mudanças. Lindo demais:
Poetas, filósofos e grandes pensadores conseguem falar de momentos de mudança com palavras encantadoras que fazem a gente ter vontade de se jogar na vida em busca dessa coisa fantástica que é o mundo das possibilidades. De fato, as mudanças trazem consigo a Possibilidade (com letra maiúscula); proporcionam um frescor e reavivam os desejos… Mas trazem também outros sentimentos que muitas vezes preferimos não conhecer (ou reencontrar): medo, insegurança, perda, entre outros. Sim, nosso amigo luto está de volta, afinal, para mudar, precisamos abrir mão do antigo. Não de tudo o que é antigo, mas uma parte tem que ir. Por isso, os momentos de mudança são tão confusos. A gente sente alegria, esperança, desejo, vontade, medo, dor, ansiedade… tudo “junto e misturado” (isso é uma gíria bem carioca). Ainda por cima, tem na bagagem um monte de sentimentos dos processos de mudança anteriores que voltam… Ou seja, a gente está vivendo uma coisa agora que aparentemente não tem muita relação com o que viveu antes, mas os sentimentos ficam todos bagunçados… Fica tudo muito complexo!
Isso acontece em todos os tipos de mudança. E é fácil visualizar essa bagunça se nós pensarmos na mudança de casa: a gente vai tentando arrumar a casa nova e acaba tendo que arrumar a antiga também pra o processo ser viável; tem que decidir o que levar e o que não precisa mais; além de ter que olhar de novo pra todas aquelas coisas que estavam guardadas e “esquecidas”. É bem parecido com o que acontece quando vamos mudar alguma coisa nas nossas vidas. Pelo menos comigo é assim!
Aí, dá uma vontade danada de ter uma receita de “como fazer” e mais uma vez a resposta é: não tem receita! Cada um faz o processo da sua maneira! E isso ainda varia na mesma pessoa conforme a época da vida e a importância que essa mudança tem na nossa história.
Já descobriu porque eu acabei falando disso? Claro! Esse momento encantador, irritante, cheio de possibilidades e de confusões da sua vida!
No final das contas, acho que a única receita que podemos ter pra ajudar um pouquinho nesses momentos é bem receita de avó: tempo! Porque demora mesmo pra gente organizar “a casa” atual para mudar… a casa nova então, nem se fala! Demora mesmo para colocar as coisas no lugar… Fora o reconhecimento do espaço… rsrsrrsrs.
Por outro lado, voltando para os poetas, filósofos e grandes pensadores, há um mundo de possibilidades recheadas de sonhos e desejos nos esperando!
A melhor parte de ter amigos é isso. Eles conseguem subir nos nossos ombros pra enxergar o horizonte que os olhos não alcançam.
Já contei como eu aprendi a usar o tato pra ouvir música? Uma aluna do curso de Massagem Oriental para deficientes visuais, da escola do meu pai, perguntou se podia tocar uma música pra mim. Eu tinha acabado de ficar surda e não sabia como reencontrar o som. Dei uma resposta desanimadora: “Eu não tenho como…”. Ela pediu a minha mão, que eu estendi. E colocou-a tocando o violão e disse: “O que você não pode ouvir, sinta.”. Com isso, ela me ensinou 2 coisas:
1. Que o tato é um excelente substituto para a audição.
2. Viver não tem nada a ver com ficar dentro de limites. Portanto, soltemos as velas!
Pessoal, muita gente já sabe, mas não custa dar um toque via blog: Está acontecendo em Sampacity (São Paulo Capital) o festival “ASSIM VIVEMOS”, que aborda a temática das pessoas com deficiência na sétima arte. Essa semana, tem um debate super pra quem se interessa pelo universo dos deficientes auditivos. Segue abaixo a programação com ênfase em filmes sobre surdez.
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil
Endereço: R. Álvares Penteado 112- Centro. Telefone: (11) 3113-3651
Obs: Senhas distribuídas na bilheteria do teatro uma hora antes da sessão.
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil
Endereço: R. Álvares Penteado 112- Centro. Telefone: (11) 3113-3651
Obs: Senhas distribuídas na bilheteria do teatro uma hora antes da sessão.
Vozes de El-Sayed PROGRAMA 05
Direção: Oded Adomi Leshem (Israel / 75 minutos)
No pitoresco deserto israelense de Negev encontra-se a aldeia beduína de El-Sayed, que possui o maior percentual de pessoas surdas do mundo. Lá, ninguém usa prótese auditiva porque em El-Sayed a surdez não é considerada uma deficiência. Através das gerações, desenvolveu-se uma língua de sinais única. A tranqüilidade da aldeia é interrompida pela decisão tomada por Salim de mudar o destino de seu filho surdo e fazer dele um ouvinte por meio da operação de implante coclear.
Sou Surdo e Não Sabia PROGRAMA 06
Direção: Igor Ochronowicz (França / 70 minutos)
Por vários anos, Sandrine não sabia que era surda. Surda de nascença, ela é filha de pais ouvintes. Chegou a freqüentar a escola regular, e lá se perguntava como os outros compreendiam o que a professora estava tentando transmitir. Como uma pessoa surda descobre que pessoas se comunicam através de sons, que o movimento dos lábios que eles vêem produz palavras e comunicação? Esse documentário olha para a questão a partir de dentro, pela perspectiva de Sandrine e sua história verídica. Paralelamente ao relato da autonomia conquistada com a Língua de Sinais, o filme levanta a discussão sobre a conveniência do implante coclear e da oralização de crianças surdas.
Semana de 14 a 18 de outubro
Quarta 14
Quinta 15
Sexta 16
Sábado 17
Domingo 18
13h
PROGRAMA 9
PROGRAMA 2
PROGRAMA 3
PROGRAMA 6
PROGRAMA 13
15h
PROGRAMA 10
PROGRAMA 5
PROGRAMA 4
PROGRAMA 9
PROGRAMA 12
17h
PROGRAMA 1 seguido de DEBATE
PROGRAMA 6 seguido de DEBATE
PROGRAMA 8
PROGRAMA 14*
PROGRAMA 11
19h
PROGRAMA 7
PROGRAMA 10
PROGRAMA 8
* Programa 14 indicado para maiores de 16 anos
Debate 15/10 – Surdo: Sinalizado ou Oralizado
Anahi Guedes de Mello – Cientista Social, militante do Movimento de Vida Independente; Membro do Núcleo de Estudos de Modos de Subjetivação e Movimentos Contemporâneos, no Laboratório de Antropologia Social da UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina.
Paullo Roberto Amaral Vieira – Presidente da Associação dos Surdos de São Paulo; Coordenador do Departamento de Natação da CBDS (Confederação Brasileira dos Desportos dos Surdos); Líder do Movimento dos Surdos e Surdo-Cegos em São Paulo – SP; Assistente Técnico da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida da Cidade de São Paulo.