A importância do sentir

Escrito por laklobato em 09/10/2009

Vez ou outra, falo de algum amigo aqui, porque eu realmente tenho muitos (cada um mais querido que o outro) e porque eles merecem.

Mas certamente, uma amiga tem um lugar muito especial no meu coração, a KK, e já falei dela algumas vezes aqui.

KK, ou Kali, é praticamente uma irmã de pais diferentes. Somos amigas desde que ela estava na barriga da mãe dela (sério, tem foto minha ainda bebê novinha abraçando a barriga de grávida da Lu, mãe da  KK). E crescemos juntas até os meus 6 anos, quando vim pra São Paulo e nossa convivência diminuiu bastante, mas o carinho não.

Ela me conhece desde antes de eu perder a audição  e viu em tempo real toda a mudança radical dessa surdez overnight que me ocorreu. Passamos pela adolescência, primeiro namorado, faculdade, viagens, meu casamento, juntas. Sempre nos correspondemos, desde as cartas via correio que levavam décadas até bate-papos em tempo real e muitas conversas por SMS sábado de madrugada (teve um que até, coincidentemente, a gente estava bebendo o mesmo vinho hahaha eu em Sampa, ela no Rio, eu com o marido, ela com o namorado).

Enfim, ela é psicologa clínica e eu pedi para ela me agraciar o blog com um texto sobre luto. Sim, LUTO, porque eu adoro falar de coisas boas, mas não posso negar que as mazelas da vida também existem. O imporante é saber conviver com uma perda, seja ela qual for.

Espero que gostem do texto, porque foi escrito por uma das pessoas que mais amo nesse mundo.

Há  algumas semanas nós conversávamos sobre essa questão do luto relacionado ao adoecimento e/ou perda de funções e você sugeriu que eu escrevesse um texto sobre isso para o seu blog. As demandas do trabalho não me deixaram tempo para pensar em algo assim, mas hoje consegui. Curiosamente consigo tempo para pensar no que escrever sobre luto no exato momento em que me preparo para estar ao seu lado em mais um dos grandes momentos da sua vida (das nossas vidas, é o meu sentimento). Em um primeiro momento, achei que não era hora para falar disso, depois acabei achando que pode ser sim, bastante pertinente… Vamos comigo que eu te explico:

 Lembro-me que em nossa conversa surgiu a dúvida se o luto relacionado à perda de alguém se aproximaria do luto relacionado à perda da saúde (ou de funções fisiológicas, sensoriais ou motoras) ou ainda, se seriam coisas completamente diferentes. Bom, a definição que considero mais clara sobre o assunto é a seguinte: “luto é uma reação normal e esperada diante do rompimento de uma relação significativa – que pode ser por morte, divórcio, aposentadoria, mudanças forçadas (incluindo o adoecimento) – e que tem impacto sobre o indivíduo e a família, muitas vezes a longo prazo, e até mesmo transgeracional. Esta reação deve ser entendida como um processo, e não como um estado, pois envolve mudanças e exige da pessoa uma reorganização interna e externa”. Até aqui, ponto para quem apostou que são sentimentos beeeem próximos.

A argumentação de que são situações completamente diferentes pode discursar sobre o fato de que quando se perde uma pessoa querida, não existe a possibilidade de ela voltar (embora sempre tenhamos essa esperançazinha escondida lá no fundo do nosso coração); enquanto no caso do adoecimento ouperda funcional, há maneiras de se adaptar e, em alguns casos, recuperar as funções perdidas (ainda que parcialmente). Eu cheguei a pensar assim também, mas quando comecei a estudar mais profundamente o assunto, acabei descobrindo que perda é perda, não dá pra comparar! A diferença maior está no reconhecimento social deste sofrimento. No caso da perda de alguma função fisiológica, sensorial ou motora, a dificuldade desse processo de recuperação e restituição é comumente subestimada. A doença ataca o corpo e a auto-estima e quando ficamos doentes, nos deparamos com o fato de que somos mortais. Isso causa desamparo e traz à tona sentimentos de fragilidade, vulnerabilidade e dependência. Se o simples fato de adoecer já gera transformações, a perda funcional, então, implica transformações ainda maiores, o que pode gerar uma desestabilização dos mecanismos de adaptação. Quando vamos organizar grupos terapêuticos, optamos por diferenciar esses tipos de perdas (morte, adoecimento, perda funcional, etc) como estratégia de evitar maiores sofrimentos, uma vez que as próprias participantes poderiam tender a diminuir seu sofrimento com a perda de um membro frente ao sofrimento de uma mãe que perdeu seu filho, por exemplo.

Um dos fatores também muito freqüentes em ambos processo é a sensação de solidão, de não ter qualquer pessoa ao seu redor que possa compreender completamente seu sofrimento. De fato, o esforço em reconstruir identidade e papel social, adotar novas regras e qualidades, é uma tensão constante em si mesmo e leva à sensação de solidão intensa.

Assim como na perda de alguém que se ama, cada pessoa tem uma experiência própria diante do adoecimento, mas é possível observar algumas reações comuns à maioria das pessoas. Dois autores são referências nesse assunto: Colin Murray Parkes e Elizabeth Kübler-Ross e abordam as perdas de forma bem parecida. Kübler-Ross desenvolveu uma teoria que fala de 5 estágios (bastante conhecidos) relacionados ao sofrimento da perda: Negação e/ou Isolamento; Raiva; Barganha; Depressão e Aceitação.

É nesse momento que chega a certeza de que esse assunto podia estar presente nessa fase de preparação para a sua cirurgia: o mais encantador é que a fase da aceitação não significa chegar à conclusão de que não há mais nada a fazer, mas sim o reconhecimento do cenário que se apresenta, e o que se poderá fazer em relação a isso. No seu caso, eu acho que esse é o seu estágio da aceitação e, depois de aceitar e olhar para você e a sua vida da maneira como ela está, foi possível optar por fazer o implante e começar a reconstruir uma nova relação com o mundo. Só que dessa vez, por livre e espontanea vontade!!!!!

E que venha esse tal de implante!!!!!!

Beijinhos,

Lak

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Anjos audíveis

Escrito por laklobato em 07/10/2009

Estava eu aqui, na minha mesa, em frente ao computador, sentindo uma culpa enorme de reclamar do adiamento da cirurgia – ahá, engana-se quem julga-me um poço de auto-controle, ainda não recebi transfusão suficiente de sangue de barata, fiquei injuriada sim – culpa, porque recebi uma notícia pior, referente a saúde de uma pessoa querida. Enfim, entre a angústia e a culpa, abro o painel de ferramentas do blog, na expectativa de simplesmente me distrair, quando me deparo com esse comentário:

Olá Lak,
Minha filha de apenas um aninho acabou de fazer a cirurgia de implante coclear aqui na Itália. Estamos aguardando a chegada de um novo modelo de aparelho para fazermos a ativação. Como você pode imaginar, a nossa expectativa é enorme… Temos tido contato com diversas pessoas que optaram por fazer a cirurgia depois de adultos e estão muito satisfeitos. Vou acompanhar sempre seu blog, por favor, conte tudo tim-tim-por-tim-tim, talvez a sua experiência possa nos ajudar, já que a minha pequena ainda não é capaz de descrever o que acontece a seu redor.
Se quiser acompanhar a viagem dela em busca dos sons, faça uma visitinha virtual a ela no blog, tem até umas fotinhos feitas logo depois da operação:
http://diariodaalessia.blogspot.com/2009/09/enfaixada-mais-bonita-do-hospital.html
Um abraço e até mais!
Erika

Entrei no link, vi os olhinhos desse anjinho com turbante, li o relato escrito sob a visão de uma mãe – e convenhamos, falar da própria dor é fácil; falar da dor de um filho é outra história bem diferente – e pensei que nada nesse mundo acontece em vão.

A gente percebe que se tem tempo pra se lamuriar, é sinal de que tem tempo de sobra, porque a vida não pára pra ninguém se lamentar. A gente usa tempo precioso, que poderia ser gasto simplesmente sendo feliz, com pena de nós mesmos. 

Adiar  a cirurgia foi chato. Mas provavelmente, se tivesse sido hoje – era pra estar sendo operada agora, nesse exato momento que elaboro o post – não teria visto a fotinho dessa mocinha e não teria mais um motivo pra deixar qualquer frescura de lado, antes de mergulhar no universo sonoro.

Eu ainda tô em baque com a notícia e vim apenas fazer propaganda do blog da Alessia. Se alguém estiver interessado em acompanhar o progresso do Implante Coclear de uma pessoa pequena – porque faz diferença sim, a idade que o IC é feito – recomendo esse blog!

Beijinhos

Lak

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Notícias boas e ruins… E o implante, cadê?

Escrito por laklobato em 05/10/2009

Então, meus amores, venho aqui hoje de coração apertado, porque infelizmente, a cirurgia que seria essa semana, foi adiada por contratempos da administração hospitalar X convênio. Cada lado fala que a culpa é do outro (o convênio diz que não recebeu o pedido a tempo e o Hospital, que enviou a tempo sim, mas o convênio pediu mais coisa). Enfim, já rodei a baiana, xinguei meio mundo, ameacei processar o administrador do hospital (que convenhamos, não tem nada a ver com isso), mas agora é deixar de lado a raiva, a decepção, a frustração e aguardar pacientemente chegar o dia da cirurgia e ponto. Fazer o que?
Mas, hoje também foi um dia legal, que tive o prazer de conhecer a fonoaudióloga que fará a ativação (ou seja, o anjo que vai trazer o som de volta ao meu lindo cérebro, no sentido literal da palavra), a Dra. Valeria Goffi (será que escrevi certo?).
Confesso que eu sou meio cabeça dura e tenho preguiça com fonoaudiólogas. Tanto que minha amiga KK (Kali) passou a tarde de sexta fazendo reprogramação neurológica na minha cabeça pra eu substituir a imagem mental de ir na fono por sorvete de brigadeiro. Assim, toda vez que eu pensasse que teria que madrugar hoje, pensasse em tomar um sorvetão de brigadeiro. Bom, que funcionou, funcionou, porque ela é realmente um doce. Conversou bastante comigo, queria saber das minhas expectativas, porque isso é importantíssimo.
Apesar de ser uma cirurgia bastante simples, ainda que delicada, o Implante Coclear não é uma cura imediata. Ele depende de tempo, disposição, força de vontade. É uma terapia de reabilitação, um aprendizado. Reapreender a ouvir pode ser absolutamente fácil ou difícil, dependendo do cérebro e da percepção auditiva de cada um. E, como eu fiquei muito tempo sem ouvir com precisão – porque simplesmente captar os sons não é ouvir, ouvir é distinguir os sons a ponto de compreendê-los com clareza – esse tempo de reaprendizagem pode ser longo. E tempo longo, muitas vezes, significa frustração e, obviamente, frustração pode significar desistência.
Ela também esclareceu algumas dúvidas. Eu tinha ficado com uma impressão meio cautelosa demais em relação ao IC, porque dizem coisas demais. Que não se pode mergulhar, nem tocar na tela da televisão/computador, nem ficar perto do microondas, nem passar perto de detectores de metal. Na verdade, é bem menos severo do que parece. Mergulhar realmente não é recomendado, mas pode ser feito sim, até o limite de 25 metros de profundidade. O problema com eletrônicos é a estática, portanto é sempre bom tocar em metais antes de encostar no aparelho, para evitar que a eletricidade estatica das mãos dê curto no aparelho externo ou o desprograme (porque o IC é mapeado de acordo com a perda – ou melhor, necessidade – de cada paciente). Ela me passou uma tranquilidade ainda maior para com relação ao IC.
Portanto, agora é só respirar fundo, deixar a zanga de não ter sido essa semana de lado e torcer pro dia da cirurgia chegar logo.
Vocês esperam comigo?
Beijinhos
Lak

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Eu, ali! Rumo ao implante…

Escrito por laklobato em 02/10/2009

Pessoal,

hoje, a festa é no blog do Jairo Marques, o ASSIM COMO VOCÊ!

Beijinhos

Lak

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