Causozinho da Leila… Em homenagem à minha gafe hospitalar com a coca-cola (e ainda tive que ouvir o pessoal dizer que aqui em casa, coca-cola é alucinógeno!!). Afinal, todo mundo é propenso a mal entendido, mas deficiente auditivo tem que ter jogo de cintura, porque conosco é bem mais comum, enfim…
“Se tamanho fosse documento, o elefante seria dono do circo”.
(Frase de pára-choque de caminhão)
O Elefante
Sábado de bagunça. Tinha pizza, pipocas, refrigerantes e amigos para brincar. Inicialmente, foi tudo em cima da hora: veio todas as crianças de uma vez e eu não tinha programado nada. Prática, pedi pizza, refrigerantes e fiz pipoca.
Fiquei orientando o trabalho escolar para a criançada: meninas de 10 a 12 anos, do grupo da minha filha. Mas como falam!
- Meninas, hora de comer!
Todas comeram e depois saíram para terminar o trabalho. Na cozinha, a mesa estava uma bagunça. Comecei a arrumar.
Alguém chega e diz:
-Tia, podemos jogar Detetive na mesa?
-Claro!
Estavam lá, na minha mesa da cozinha, 5 crianças jogando Detetive e eu comecei a lavar a louça. Entre barulho de água, talheres e vidros, eu ouvia as crianças atrás:
-Não.
-É.
-Elefante.
-Elefante.
-É. Elefante.
-Não. AAAAAA? - Alguém dá um berro.
-Elefante, não, sim, elefante.
“Pombas!” ? penso eu. Viro-me, indago para as meninas:
- Do que vocês estão falando, elefante, elefante?
-Não, mãe. Estamos jogando, pensando quem matou quem, que arma é,
onde aconteceu dizendo: “É RELEVANTE”.
Bem relevante.
E eu ouvindo elefantes. Podia até sonhar com um…
Estado do Rio de Janeiro, RJ, 17 de junho de 2007.
Leila.
Não importa o tamanho do seu problema. Importa somente que você tenha a manha necessária pra rir dele. O resto, a vida resolve hahaha
Sabe, quando eu fiz o blog, inicialmente, apesar do nome, meu objetivo não era focar o blog na surdez. Sempre foi uma convicção minha que minha vida não girasse em torno da deficiência, mas que ela fosse uma parte importante da minha vida, embora não a única.
O tempo foi passando e raramente eu me dispunha a falar de outro assunto que não surdez e/ou deficiência, muito porque era uma proposta nova, falar sobre deficiência auditiva sem focar na língua de sinais ou na Cultura Surda, o que, pra muita gente, é praticamente sinônimo de surdez.
Outro dia, me mandaram um email, pedindo uma entrevista. Era uma moça fazendo faculdade de pedagogia e que tinha um trabalho sobre surdez pra fazer. Ela queria justamente a proposta do blog: falar sobre deficiência auditiva sem focar na língua de sinais, porque é de praxe relacionar as duas coisas.
A entrevista dela era basicamente algumas perguntas que viraram uma apresentação de powerpoint. Não sei a nota do trabalho, mas ela me disse que foi o único com essa temática e, portanto, causou rebuliço e foi inesperado.
Como eu sou uma pessoa muito exibida bacana, compartilharei minha fofoluxa entrevista e, obviamente, o trabalho da Andrea Petenucci e Sabrina Bohlen, estudantes de pedagogia da Universidade Anhembi Morumbi (coincidência das coindências, a universidade em que me formei em 2001):
1. Lak, obrigada pela atenção, fale um pouco de você. Basicamente, eu sou o que diz o perfil do meu blog. Uma mulher de 32 anos, casada, que trabalha, estuda e aproveita a vida. Sou formada em publicidade e fotografia. Atualmente, trabalho como arte finalista numa grande agência de publicidade, estudo francês e inglês, curto minha casa, minha familia, meus amigos, meu marido. Fiz o blog de brincadeira, justamente porque eu não vivo em função da surdez, nada na minha vida gira em torno disso e eu queria mostrar que era possível. 2. Em seu blog você diz que perdeu a audição aos 10 anos, com seguela de caxumba. Como foi para uma menina lidar com essa mudança?
Da melhor maneira possível. Criança não perde tempo se auto-comiserando. Acha que acontece e continua vivendo. Fiquei triste, mas uma hora cansei da tristeza e fui brincar de novo. 3.Como os médicos aconselharam você e sua familia a lidar com sua deficência auditiva? Fazer fono pra manter bem a fala e continuar inserida na comunidade ouvinte, graças a minha capacidade de leitura labial que sempre me permitiu manter uma boa comunicação. 4.Vocês buscaram informação com outros profissionais, grupo de apoio, pessoas em geral, etc?
Não, somente fonoaudiólogas. Meus pais perceberam que eu continuava vivendo tranquilamente, estudando, fazendo amigos, brincando e não atrapalharam. Apenas insistiram pra eu fazer fonoterapia sempre. 5. Conte um pouco como foi sua adolescência e juventude? Tranquila, como de qualquer pessoa. Estudei, namorei, fiz planos pro futuro… 6.Você estudou em escola especial ou regular?
Regular 7. Sofreu descriminação por parte dos alunos ouvintes?
Não. Faziam gracinhas, mas nada de diferente de qualquer outro aluno. Sempre fui querida e tive amigos. 8. Você aprendeu ou se interessou por aprender LIBRAS? Se não, você foi criticada por ter feito essa opção?
Aprendi aos 26 anos, pra fazer um trabalho. Mas não gostei. Não, nunca me criticaram, porque eu nunca convivi com surdos. 9. Você participa da Comunidade Surda?
Não 10. Você fez o Implante Coclear ha pouco tempo. O que a fez optar pelo implante?
Vontade de ouvir de novo, nunca deixei de me sentir ouvinte, de querer fazer coisas que fazia quando criança. Demorei pra fazer porque queria ter o prazer de pagar tudo do meu bolso, sem depender da ajuda de ninguém. Coisa que me orgulha muito. 11. Foi uma decisão fácil de tomar? E por que não seria? Eu considero a surdez uma deficiência sensorial e, ao meu ver, tendo uma cura/tratamento pra uma deficiência, não teria razão pra não fazer. Quanto melhor a minha qualidade de vida, melhor a vida será. 12. Como foi o processo da cirurgia? E a recuperação?
A cirurgia foi absolutamente tranquila. Na recuperação, eu tive um pouco de labirintite. 13. A surdez influenciou na escolha de sua profissão?
Talvez, não sei. Eu realmente não presto atenção na surdez o suficiente pra dizer onde ela influencia ou não. Faço o que tenho vontade. Sou uma pessoa, não um rótulo. 14. Quais conselhos você daria aos pais de uma criança com diagnostico de surdez?
A fazerem o que acham melhor pra si mesmos e pra criança. Pesquisem todas as opções e mergulhem nela de cabeça. Se quiserem implantá-la, façam tudo o necessário. Se quiserem mantê-la na Comunidade Surda, aprendam libras. Seja a decisão que tomarem, participem dela em conjunto com a criança. 15.Algumas pessoas surdas são contra o implante coclear e muitas optam por não terem filhos, em função da deficiência. O que você acha sobre isso?
Honestamente? Ridiculo! Mas até aí, é opção de cada um e cada um faz o que quer da vida. Não sou ninguém pra ditar regra na vida alheia. Verdade que o implante coclear não é e jamais será indicado em 100% dos casos, mas ser contra pra si é uma coisa, se meter na vida dos outros a ponto de criticar quem opta pelo implante é bem diferente. 16. Comente um pouco sobre o uso de legendas em filmes publicitários. Bom, a legenda é fundamental para todos os deficientes auditivos que tem fluencia no portugues. Ela serve para quem tem perda leve e moderada como complemento da audição e pra quem tem perda severa e profunda como unica fonte de informação. É importante no quesito acessibilidade, uma vez que também somos consumidores e também queremos saber o que podemos adquirir.
O mesmo vale para qualquer midia televisiva/cinema/web. Sem a legenda, nosso acesso se torna bastante restrito.
O mais legal do trabalho, sem dúvida, era a introdução:
“Navegando pela internet em busca de perfis de deficientes auditivos, nos deparamos com o blog Desculpe, não ouvi! e a cada linha lida, crescia a certeza de ter encontrado a pessoa certa para a entrevista. Uma mulher sensível, inteligente e descolada. Sem dúvida, uma contribuição incrível para nós, pois ela é o avesso do estereótipo do surdo. Neste momento, o convidamos a deixar os modelos já conhecidos de lado e se encantar com tantas possibilidades que se apresentam.”
Seguido da justificativa:
“Dentre tantos aspéctos do perfil da Lak, o que mais nos chamou atenção foi o fato dela não utilizar a língua de sinais. Como a maioria das discussões sobre surdos são sobre o uso da LIBRAS, entendemos que seria riquíssimo trazer uma abordagem diferente sobre a surdez. Usando as palavras da Lak: Não que haja algo errado na Líbras, mas é importante considerar que nem todo surdo nasceu surdo, nem todo surdo foi encaminhado cedo para a Comunidade Surda, nem todo surdo quer se comunicar de outra forma que não oral.”
Apesar de eu parecer uma pessoa petulante – sou mesmo, admito – nunca tive a pretensão de fazer desse blog algo além de um espaço para se conhecer um pouco mais sobre os Surdos Oralizados, mas quando percebo que é mais que isso, que atinge pessoas, atinge idéias e quebra barreiras, vejo que o que a gente pretende nem sempre condiz com a realidade. É possível ir além…