Fazer o Implante Coclear é mais do que fazer uma mera cirurgia corretiva. É também permitir-se adentrar num universo novo (ou redescoberto) que toca, inclusive, na identidade de quem você é. A identidade de uma pessoa sem deficiência – no caso, ouvinte – é diferente da identidade de um deficiente auditivo, porque muda toda a percepção do mundo. E, quando se faz o Implante Coclear, você não se torna, ainda, um ouvinte comum, mesmo que ouça com perfeição os sons através do implante. Por isso que os implantados são também chamados de Ciborgs. Nossa audição se dá através de um processador artificial, portanto, somos meio robôs.
Por causa dessa mudança que tem se processado na minha vida nos últimos, eu (e todo mundo ao meu redor, aparentemente) tenho procurado bastante informação acerca do IC. Ontem, Edu se deparou com uma notícia muito bacana sobre… tcham tcham: um gato implatado!
Obviamente, o site está em inglês. Mas caso alguém prefira ler o texto original: CiberCat
E uma tradução não muito fidedigna (meu forte ainda é o francês, Crisaidi que me perdoe)
Gato com implante coclear? Sim é verdade!
Então, quem que me conhece, sabe que eu amo gatos.
Quando deparei-me com essa foto na internet, fiquei intrigado, sem saber se era realmente verdade ou não. Mas minha fonoaudióloga confirmou que, aparentemente, era verdade sim. É a forma que um cientista usou para estudar os efeitos do Implante Coclear sobre a surdez.
Após 3 meses de uso do implante coclear, as sinapses de fibras do nervo auditivo nestes gatos implantados foram comparados às de gatos ouvintes (com audição normal) e gatos com surdez congênita da mesma idade. Eles descobriram que os implantes cocleares “resgataram” as sinapses dos gatos surdos!
Confira o site para obter mais detalhes sobre este assunto: Receptores, atividades e implantes cocleares. Estou certo de que muitas pessoas devem achar que isso é crueldade, mas ei, eu sou implantado e adoro isso!
Por isso mesmo, acho fascinante!
Poxa, mas esse gato pobre não parece muito feliz na foto, hein?!
Gatinho: "Mais uma foto de mim neste estado, e você morre, mané!". Brincadeira! Muito legal isso! Tenho que admitir, é o animal de estimação dos meus sonhos! Gato implantado, 5 meses após a cirurgia. O gato usa o dispositivo 8 horas por dia, 5 dias por semana. Esses gatos nascidos surdos oferecem um excelente modelo para estudar a surdez congênita. Com o implante, os gatos vêm quando são chamados e comportamentos demonstram que eles podem ouvir.
Eu não estou só!
Há gatos que estão lá fora, como eu também!
Eu quase me sinto como seria ganhar um gatinho surdo da RSPCA (sociedade protetora dos animais), levando-o ao Professor Da Cruz, e suplicando: “Trabalhe sua magia, Melville! Meu gato quer ouvir de novo! ”
E então, pós-cirurgia, o gatinho e eu vamos curtir o por do sol, alegremente falando um com o outro em miaus robóticos e comparando a vida útil da bateria.
Opa, o que vem agora? Já sonho com o dia que formaria um par perfeito com um animal de estimação (como as pessoas que fazem cortes de cabelo para combinar com seus animais de estimação!). Em vez de B1 e B2, será Coclear Kate e Coclear Cat. Impressionante! Podemos compartilhar processadores. Portanto, muitas possibilidades!
Ontem, deparei-me com um texto no Gizmodo Brasil, um site bacaníssimo sobre tecnologia e gadgets que leio de vez em quando, ou porque vejo link nalgum site ou porque alguém me manda um link de lá e, no fim, acabo acompanhando mais do que intencionalmente acessasse-o todos os dias.
Enfim, o texto de ontem foi um desses que a gente ri, chora, identifica-se e sente aquela sensação de que não estamos a sós no mundo. Era sobre próteses e a relação que se tem com elas. Se alguém quiser ler o texto na íntegra: Gizmodo
Mas, quero destacar as partes que realmente mexeram comigo:
“Na década de 30 até a de 70, o Serviço de Saúde Nacional do Reino Unido receitava apenas uma “opção” de óculos – considerado antes apenas “utensílios médicos” – e o padrão era uma armação de plástico com uma coloração rósea pra lá de horrível, uma tentativa de fazê-la no “tom da pele”, o que era problemático já na sua descrição: tom de pele de quem, mais exatamente?
O SSN acreditava que as pessoas quereriam discrição na sua correção visual – a humilhação social que se atribuía ao ato de usar óculos significava que ninguém iria querer que os seus óculos se destacassem dos demais. Assim, apenas uma armação de óculos era feita para todo mundo. Hoje, isto soa ridículo.”
Embora realmente hoje os óculos se destaquem e muita gente (mas tem sim quem se envergonhe de usá-los, normalmente, quem sofreu bullying na infância por conta deles e prefira lentes de contato) curte ter trocentos modelos pra combinar com cada cor/estilo de roupa ou situação social.
Porém, no quesito prótese auditiva, seja o AASI (aparelho de amplificação sonora individual) ou mesmo o IC (Implante Coclear) percebo que não chegamos ainda nesse ponto. Muita gente parece ter necessidade de esconder ou camuflar esse tipo de aparelho, como se ter audição deficiente fosse algo feio ou errado, digno de ofensa aos olhos de quem vê aquilo. Especialmente em casos de pessoas que perderam a audição depois de uma certa idade ou seja, que cresceram sem a prótese.
Quando eu era adolescente, o que mais me incomodava no AASI era o fato dele ser bege. Realmente acho horroroso o tom bege dos aparelhos. Ele não fica menos aparente e sempre passa aquela impressão de “PRÓTESE”. Quando voltei a usar o AASI depois de adulta – fiquei anos sem usar, porque eu perdi os que tinha e não consegui comprar novos – fiz questão de trocar a caixinha por fumê (são o coração do cabeçalho do blog) ja que o modelo só tinha 3 opções de cores: vermelho, azul (metalicos) e fumê (translucido).
Não posso dar um parecer de especialista e muito menos impor a minha opinião subjetiva como uma verdade absoluta, mas acredito de coração que aceitar a prótese, seja qual for ela, como parte integrante de quem somos, não meramente algo externo e impessoal em que nos apoiamos de forma envergonhada, pode ser uma grande conquista de auto-aceitação.
Obviamente, sempre haverá quem nos olhará como o nariz torcido e o dedão apontando como: “INVÁLIDO!”, mas esse tipo de gente é digno de pena e não deve jamais ter qualquer importância.
Quanto a mim, pedi a parte externa do IC preta! Tomara que não esqueçam disso!
Ainda faltam 14 dias – duas semanas – para a ativação do Implante Coclear. Não vou fingir que sou uma pessoa zen, tranquila, blablablá whiskas sachê porque duvide-o-dó que qualquer um de vocês acreditaria, vocês não são bobinhos, certo?
Pensei em coisas que poderiam me acalmar nesse meio tempo, assim tipo, coisas que poderiam preencher o tempo de sobra desses dias, pra eu não sentir a vagarosidade (existe essa palavra?) do tempo daqui até lá. Façamos uma lista então – eu começo e quem quiser, dá sugestões nos comentários.
Voilà:
1. Comer chocolate. Essa é de praxe e, reza-a-lenda, funciona que é uma beleza no quesito conter a ansiedade. O lado ruim é que engorda e pesa no bolso, especialmente se meu gosto for excessivamente refinado (não é) e eu quiser iguarias tipo Godiva.
2. Fazer ginástica. Seria excelente, não fosse que eu sou um bicho preguiça e sempre acho que vou morrer depois do 3 abdominal. Nãooo, passemos pra próxima.
3. Ver filmes. Seria uma boa, né? Rever trocentos mil filmes que eu gosto. A começar por Dirty Dacing, que tenho a edição de aniversário de 20 anos do filme em DVD e até hoje não assisti. Além de muitos outros que eu poderia alugar/pedir emprestado. É, considerável e combina bem com o item 1, somado a pipoca e coca-zero (que lembrem-se, não é droga!)
4. Listar todas as músicas que eu gostaria de re-ouvir. Essa idéia é muito boa, vai? O ruim é que não dá pra saber quando nem SE eu terei sensibilidade auditiva pra tanto e periga eu ficar mais ansiosa ainda. No entanto, a top top da lista seria ouvir:
hehehe eu perdi a audição aos 10 anos, a maioria das músicas que eu quero ouvir são as que eu ouvia na época e, portanto, são músicas infantis.
A letra, pra quem não conhece a música (e não consegue ouvir, pelo motivo que for):
Pato
Vinicius de Moraes
Lá vem o pato
Pata aqui, pata acolá
La vem o pato
Para ver o que é que há.
O pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou do poleiro
No pé do cavalo
Levou um coice
Criou um galo
Comeu um pedaço
De jenipapo
Ficou engasgado
Com dor no papo
Caiu no poço
Quebrou a tigela
Tantas fez o moço
Que foi pra panela
Sou uma menininha de 10 anos em corpo de mulher de 32. Dá nisso!!
Eu, lá no hospital, estava calma, né? Mas, calma não significa em perfeitas faculdades mentais e eu cometi uma gafe engraçadinha – que fez meu ego ir pro chão na hora, mas tudo bem. A gente erra pra poder rir depois…
Logo que nos levaram ao quarto, veio uma enfermeira, mediu minha pressão, temperatura, perguntou se eu estava de jejum, me mandou por a camisola e foi embora.
Pouco depois, veio uma segunda enfermeira, com uma prancheta e me fez um questionário. Ela ficou fazendo umas perguntas bem ‘técnicas’ tipo meu peso e se eu tinha perdido peso nos ultimos dias. Que horas tinha comido pela ultima vez. Quais os remédios que eu tinha tomado nas ultimas 72hs, enfim…
Lá pelas tantas, ela me pergunta:
- Você fuma?
Eu respondi:
- Não.
E ela continuou:
- Você bebe?
E eu:
- Não.
E ela:
- Você tomou café ou coca-cola recentemente?
E eu:
- Bom, ontem a noite.
Ai o quarto ficou um silêncio, todo mundo se entreolhando. A enfermeira me olhando com uma cara de apavorada….
E eu:
- Bom, ninguém me avisou que não podia consumir cafeína na véspera da cirurgia. Eu tomei coca-zero ontem no jantar, mas já faz mais de 12hs.
Ai o Edu caiu na gargalhada e me disse:
- Lak, ela te perguntou se você usa drogas….
Na leitura labial (até porque ela abaixou a cabeça um pouco pra ler a pergunta) eu confundi “drogas” com “coca-cola” – e convenhamos que não deixa de ser uma associação lá muito incorreta, segundo os naturebas.
E eu, depois de ficar vermelha e rir feito uma hiena de vergonha, respondi “não, não uso drogas nenhuma”.
Ahhhh, eu mereço! Deu vontade de falar pra enfermeira: Oh, você faça pro medico que ele não precisa me acordar mais da anestesia, tá? Estou envergonhada demais pra continuar vivendo…
Ainda na onda dos festivais de cinema brasileiro com legenda – já que faltam 2 semanas para a ativação do Implante Coclear e nem unhas eu tenho mais – divulgando:
Para quem é de Brasilia – DF
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Para quem é do Rio de Janeiro – RJ
NOVEMBRO 2009
Narradores de Javé
Com legenda oculta (CC) e audiodescrição.
Dias 07 e 21
Cidade baixa
Com legenda oculta (CC)
Dias 14 e 28
Sábado, às 14 horas, no CCBB. Entrada franca.
CCBB-RJ: Rua 1º de março, 66 – Centro, RJ.