Jingle Bells

Escrito por laklobato em 23/12/2009

noel2008Antes de mais nada, peço desculpas pela demora, em desejar “feliz natal!”

Não sou muito chegada a natal, porque não sou cristã, mas como moro num pais cristão, a gente acaba ‘comemorando’ de um jeito ou de outro.

E ninguém precisa de motivo para desejar o melhor às pessoas amadas….

Neste natal, eu desejo a cada um de vocês, independente da condição auditiva que você tiver: SOM. Mesmo que seus ouvidos não ouçam, sei que o cérebro consegue perceber através dos olhos e do tato.
Desejo o som das gargalhadas das pessoas à sua volta, rindo de alegrias junto com você.
Desejo o som de um beijo estalado na bochecha, dos braços que nos envolvem em abraços.
Desejo o som da voz que diz “você é especial”, “te amo muito”, “te desejo apenas o melhor”.
Desejo o som do garfo batendo no prato, depois de uma refeição farta.
Desejo o som da festa  com 2, 5, 10 ou 20 pessoas à sua volta.
Desejo o som da sua bebida favorita sendo despejada no seu copo.
Desejo o som dos papeis de presente sendo rasgados, da alegria de presentear e compartilhar.
Desejo o som de vários corações batendo juntos, num daqueles instantes que fazem parecer que o mundo poderia parar, porque tudo está perfeito e a vida faz sentido!

Se você puder, ouça tudo isso. E se não puder ouvir, veja. E se não puder ver, abrace. Não importa qual o sentido que você usar, viva intensamente este momento!

Obrigada pela companhia aqui no blog, em 2009, um ano pleno de transformações que vocês puderam acompanhar em tempo real. E que 2010 seja um ano de realizações e conquistas, para cada um de vocês!

Grande beijo,

Lakshmi

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A tampinha, o estacionamento e outras histórias…

Escrito por laklobato em 22/12/2009
Ultimamente, me sinto meio assim, de antena parabólica captando tudo.

Ultimamente, me sinto meio assim, de antena parabólica captando tudo.

Quando vocês estiverem cansados das minhas descobertas, vocês avisam? Ah, bom, então tá…

É claro que todo mundo espera que eu logo relate total compreensão auditiva da voz humana, mas isso ainda demora e, no entanto, o universo dos sons tem tantas particularidades, que provavelmente muita coisa passa despercebida para um ouvinte comum, mas que me encanta. Eu fiquei surpresa de saber que passar a mão no cabelo, por exemplo, faz barulho. Isso, o AASI não capta e eu não lembrava mesmo de já ter ouvido, provavelmente porque nunca prestei atenção até que parei de ouvir…

Mas, não foi só isso que me surpreendeu. Na sexta feira à noite, estava em casa, bem concentrada no que ouvia com o IC – porque como ainda está baixo, e o AASI mais alto, o som da prótese domina meus pensamentos a maior parte do tempo e ouvir os sons do IC ainda requerem concentração da minha parte – quando ouvi a voz do Edu vir do quarto. Ela se destacava do som da televisão, como algo conhecido e isso me chamou a atenção. Também ouvi o som do interfone – reconhecido imediatamente – soar diferente do que ouço com apenas a prótese externa, soou mais agudo e mais próximo do que meu cérebro identifica como uma chamada.

Um pouco depois, o Edu fez um barulho de tiro “pew” – mania boba dele – que eu achava que era uma palavra tipo “piu”, mas não, é um som que ele faz com a língua, parecido com os tiros de cinema da minha infância. Que surpresa ouvir isso, perceber que não era uma palavra, mas um som. Claro que ele percebeu o meu encanto e ficou um tempão fazendo esse barulho hehehe

Mas as melhores descobertas vieram no sábado. A primeira delas, foi ao abrir  a garrafa de refrigerante e ouvir o barulho do gás escapando, uma espécie de “tishiiii”. Isso, eu reconheci de imediato (mas confesso que estava só com o IC na hora, mesmo sabendo que não devo usá-lo sem o AASI ) e fiquei com aquela cara de criança que acabou de ver um passarinho verde.

Agora, o grande evento do dia, foi depois. Estávamos no carro, eu e Edu, quando eu falei algo do tipo “vamos não sei onde” e, antes que o Edu pudesse responder, eu levei as mãos à cabeça, pra prender o cabelo, algo assim, mas ouvi a voz dele dar uma resposta. Em geral, eu ouço vozes, mesmo sem compreendê-las. Com o IC, voz soa muito “plim plim plim”, como um sino. Mas, naquela hora, eu estava muito atenta em prestar atenção nesse sino, só porque acho gostoso ouvir sons agudos que não parecem alta frequência (porque o AASI não capta sons agudos,  mas transforma algumas coisas em sons irritantes, como por exemplo, voz de criança), e ouvi algo assim: “plim plim plim pará…”

Eu arregalei os olhos e disse pro Edu: Repete!

Acostumado como ele está, de repetir o que diz, ele  não se estressou, apenas repetiu “se a gente for lá, não terá onde estacionar”.

Respondi: Não, você falou “parar”!

E ele, com uma cara de surpreso: “É, na primeira vez, eu falei “parar” mesmo.”  E me deu um sorriso de candura, meio sem saber o que dizer.

Falei: “Eu te ouvi falar “parar”, sério!”

E meus olhos encheram d’água, mesmo sabendo que é um evento isolado, que foi sorte, que não devo esperar muito e blablablabla whiskas sachê. Mas sabe, pra quem não compreende palavras auditivamente há anos, ouvir uma palavra e compreendê-la é tão especial, que dá vontade de deixar de lado toda a cautela e simplesmente saborear o momento.

Os meninos aqui da Léo ficam brincando comigo, porque de vez em quando, eu tenho umas reações espontâneas de olhar quando eles me chamam, embora eu não tenha, conscientemente, ouvido o chamado.

Bom, vou compartilhando os progressos com vocês, prometo.

beijinhos,

Lak

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Menina Lak

Escrito por laklobato em 21/12/2009

Ontem à noite, recebi um texto lindo, desses que fizeram meus olhos encherem d’água e eu ficar com aquela cara de contemplação – o que anda bem comum do dia da ativação pra cá hehe – que tive que pedir permissão pro autor para  trazer pro blog.

Eu sei que todo mundo quer notícias dos primeiros sons que tem ganhado espaço nos meus ouvidos, mas um dia a mais não vai matar ninguém de ansiedade.

Enfim, vocês sabem como o Jairo Marques, do blog Assim Como Você (blog oficial da Folha de São Paulo) teve um peso importatíssimo na minha decisão de fazer o Desculpe, não ouvi! e, principalmente, de optar, finalmente, pelo Implante Coclear, né?

Pois, vejam o que ele me escreveu (sim, eu pedi permissão para colocar aqui no blog).

Toda vez que entro no seu blog para ler os últimos capítulos da sua jornada de volta ao mundo dos “sons plenos”, eu me emociono, não tem jeito, não tem controle, não tem saída que não seja os olhos marejados, um coração disparado, uma cabeça que rodopia em mil pensamentos.

Essa ebulição, talvez, seja porque o seu voltar a ouvir, pra mim, pode ser o voltar a caminhar, a correr… É intenso demais tudo isso, será que você tem noção do que se passa em nós? Não, não… não estou em busca e nem espero um milagre…. é que você me personifica uma conquista possível.

As suas últimas palavras dariam um roteiro de filme para a humanidade. Essa confusão/emoção/explosão de sensações e a clareza com que vc conta tudo, o sabor das novidades, é tão inédito e tão inspirador que faz acender na gente uma chama de procurar pequenas conquistas e novidades dentro do peito…

Não, Lak, não quero que vc seja uma heroína, a paladina das “conquistas”, a representante maior de uma multidão de pessoas que querem também evoluir em algum aspecto. Quero somente expressar e martelar pra ti o quanto é lindo poder estar compartilhando isso tudo, o quando é gostoso te conhecer, o quanto, pra mim, é gratificante, láááá atrás, ter te enviado uma mensagem para me ajudar a…. TE ENTENDER…

Obrigado por me fazer uma pessoa melhor, coisa linda. Obrigado pela paciência com os ansiosos. Obrigado por formar essa “rede” de gente que não é mole, nem boba, nem coitadinha e dá as caras ao mundo, que faz, que construí, que se movimenta, a sua maneira, para fazer algo pelo…. MUNDO.

Menina Lak, não deixe de estourar aquele “Chandon” (mesmo que vc não beba) pelo seu ANO BOM… não deixe de vibrar, de tourear os aborrecimentos, de se motivar para fazer, fazer, fazer… Lembre-se que, de agora em diante, todos os que te acompanham, em momentos que irão falar sobre motivação, sobre reconstrução, sobre vitórias, sobre alegrias, sobre quão fabulosa é a vida humana, com certeza irão dizer: “ahhhh, eu tenho a história da Lak pra contar…”

O que eu achei mais bonito foi essa sensação de compartilhar esperanças. De lembrar de quantas vezes vi pessoas amadas conseguirem conquistar um sonho  e estar lá para partilhar as alegrias, enquanto pensava “um dia, a minha vez chega, quem sabe?”. Agora que ela chegou, só consigo pensar: Que venha a vez dos outros também!

Beijinhos,

Lak

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A placa de som nova…

Escrito por laklobato em 18/12/2009

Que eu não fui muito simpática no post de ontem, não fui mesmo. Não é nem que não quero falar do assunto, apenas não tenho muita paciencia de responder 10 vezes cada uma das indagações de cada pessoa. Entendo que as pessoas estejam curiosas, mas também estou curiosa  e muita coisa ainda estou descobrindo.

Mas como meu objetivo não é ser cruel,  contarei como foram as primeiras 36 horas de ciborg.

Sai do consultório da fono, assim com o IC e o AASI ligados. Não sei porquê, desliguei o AASI e me dei conta de que o IC não era nada além de um sussurro besta. Falei pro Edu: “Acho que o volume está baixo demais”. Prático como ele é, insistiu pra eu chamar a fono de novo. Ela achou que era melhor testar na rua, antes de decidir se estava baixo ou não.

Fomos tomar um café. Realmente, estava baixo demais e pulei 2 programas (porque o Freedom <- o modelo do meu IC – vem com 4 programas) e já comecei no que deveria ser pra terceira semana. Voltei lá, aumentamos e foi isso.

Saindo do consultório – na hora do rush e com direito a levar uma multa de estacioamento proibido – o Du colocou várias músicas pra eu ouvir. Claro que sem muito critério de julgamento ainda, eu demonstrei preferir músicas dançantes, tipo baladinha. Djavan, por exemplo, foi uma decepção, achei chatíssimo!

Depois, tinha uma festa pra ir, aqui da agência, de final de ano. Que, pra mim, foi comemoração dupla, afinal, também era minha primeira noite de implantada.

Primeira noite como ciborg ativada!

Primeira noite como ciborg ativada!

Logo que eu coloquei o AASI não aguentava ficar em lugares barulhentos. Até hoje, eu tiro o aparelho quando o som me cansa. Com o IC foi diferente. Eu passei a festa toda com ele ligado. Embora ainda  não consiga diferenciar a maioria dos sons (porque tudo soa muito mesclado). Mas, ao mesmo tempo, é um som agradável, que não cansa ouvir, sabe?

Ontem, o primeiro dia mesmo de implantada, eu vim trabalhar e reparei em detalhes que não ouço bem com o AASI. Por exemplo, como o meu teclado faz barulho (porque eu digito rápido).

É muito estranho ouvir sons agudos. Pra tudo, imagino um xilofone que tocam só as teclas de notas agudas o tempo todo. Mas, é tão baixo e o cérebro está tão desacostumado com isso, que eu não sei bem se ouvi ou se imaginei.

O mais especial é que os sons se parecem mais com o que eu imagino – porque meu cérebro tem essa defesa, ele imagina som pra qualquer coisa que faça movimento – do que quando ouço com AASI apenas. Embora eu ainda dependa 100% do apelo visual pra confirmar do que o som se trata.

Depois do trabalho, fui ao shopping. Percebi uma coisa engraçada. As pessoas que não conheço, com quem eu costumo ter receio de falar, estão me entendendo melhor, a ponto de eu não precisar repetir. Não sei se é impressão minha, se é psicológico (tipo, me sinto mais confiante), porque é muito cedo pra minha voz ter mudado. Mas a sensação de não  precisar repetir nada, é boa demais.

Uma hora, entrei com o Edu numa loja e um som agradável chegou ao meu cortex cerebral. Perguntei pro Edu e ele me confirmou: Era outra música! Ah, que descoberta fantástica!!

Por fim, cheguei em casa, mentalmente exausta (um pouco de exagero ficar 14hs com o IC ligado logo de cara, mas é humanamente impossível pra mim desligá-lo, é como se roubassem o ar do meu cérebro!) e fui dormir. Advinha: mesmo com o IC desligado, meu cérebro continuava processando as informações do dia. Continuei ouvindo zumbidos similares aos sons que ouvi o dia todo.

As expectativas são muitas, mas lembrem-se: não existe uma estimativa de tempo. O cérebro vai levar o tempo dele pra reconhecer sons e muitos escaparão, por conta dos 23 anos de silêncio. Mas, pra quem achava que nunca mais ouviria de novo, cada som reconhecido é um milagre por si só. Uma estrelinha sonora (como diz a Sun Melody) ajudando a preencher um enorme céu estrelado.

Beijinhos

Lak

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Ciborg Mode On

Escrito por laklobato em 17/12/2009

Eis a razão do meu sumiço…

Ontem, quarta-feira, 16 de dezembro de 2009, foi o dia da ativação.

Não quis fazer muito alarde, com medo de desmarcarem (era encaixe e isso poderia acontecer) e vocês sofrerem de novo, junto comigo. Porque confesso, ver vocês sofrendo, pra mim, é pior que o sofrimento em si.

O dia amanheceu lindo. Fui trabalhar – tinha dormido a base de meia garrafa de vinho – embora não tenha conseguido me concentrar muito em nada. Voltei, almocei, busquei o Edu no trabalho e fomos pro consultório da Dra. Valéria Goffi, o anjo que ativaria o ciborg que há em mim, a partir de agora.

Antes de mais nada, é importante falar a sensação complexa que fazia parte do meu dia, naquela hora tão importante. Sempre tive a sensação de que a surdez separou a minha alma em duas, porque sempre senti uma pessoa ouvinte, num corpo surdo. Eu era duas, embora fosse uma só. Ontem, quando ia ativar o implante, a sensação que me dava era que o Implante iria reunificar minha alma, o que é irônico, porque passei a ser meio humana, meio máquina. Agora, voltaria a ser uma só: uma ouvinte cibernética.

Chegando lá, a espera parecia eterna – realmente atrasou bastante, porque, como disse, era encaixe de consulta e vocês sabem bem como é isso.

Até que finalmente, fui chamada. Ela abriu uma caixa enorme de coisas que compunham o conjunto do implante. Tirou um coala de pelucia (mascote da Cochlear) e colocou o implante de brinquedo nele, dizendo: “Ele vai receber o implante dele, antes de você.” Eu ri… Botei ele no colo (xingando ele em pensamento, dada a minha ansiedade! Como assim, ele primeiro? hahaha)

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O dele era bege..

Logo em seguida, foi a minha vez. Dra. Valéria demorou uma década pra montar o aparelho todo hehehe, mas era um prazer olhar para aquela montagem e saber que dali uns segundos começaria uma nova etapa da minha vida.

Dra. Valéria montando a parte externa...

Dra. Valéria montando a parte externa...

Finalmente, ela conectou a antena (a parte do imã) na minha cabeça, junto com o processador, que foi conectado ao computador.
Antena na cabeça, processador atrás da orelha.

Antena na cabeça, processador atrás da orelha.

Conectada ao notebook. Vida cibernetica é outra coisa...

Conectada ao notebook. Vida cibernetica é outra coisa...

Por fim, ela começou a ligar os sons, até chegar no limite do audível suportável. É um processo gradual (e lento, leva anos pra se ter uma audição razoavelmente próxima da audição de um ouvinte) e a sensação inicial é de levar leves choques (similares ao que a gente tem quando bebe algo muito gelado, por exemplo) auditivos no cérebro. Por enquanto, tudo é tão baixo (porque mais alto me dá tontura) que tem coisas que eu ouço mas acho que imaginei. Ainda não consigo discriminar quase nada, justamente por estar tão baixinho e pela total falta de cooperação cerebral, de tão desacostumada que fiquei de não ouvir.
Lágrimas de emoção de ouvir o primeiro som.

Lágrimas de emoção de ouvir o primeiro som.

Está longe de ser parecido com o aparelho convencional. Com o AASI, ouço o tempo todo como se falassem num auto-falante cheio de ruídos e chiados. Com o IC, eu ouço os sons em separado, cada coisa é uma coisa. Consegui, por exemplo, reconhecer o som dos carros passando numa avenida, sabendo que estava longe de mim. Com o AASI, não consigo localizar bem de onde os sons vem.
Semana que vem, já aumento um pouco, mudando a programação (eu mesma faço isso, toda quarta-feira). Depois, retorno à fono, pra começar o mapeamento…
Enfim, falando do lado emocional. Muita gente quer conversar, fazer perguntas. Eu me sinto como se estivesse num momento de total reclusão, preciso desse tempo só pra mim, pra me centrar, pra entender o que se passa. É uma sensação de descoberta maravilhosa, mas é um momento meu. Não tenho tido vontade nenhuma de conversar com quem quer que seja, pra explicar como está sendo. Eu não sei explicar, apenas sentir.
Sei que vocês torcem por mim e, por isso, fiz questão de contar no blog. Mas por favor, não se chateem se eu ignorar as perguntas que me fizerem. Este momento é especial demais e eu não consigo compartilhar na medida que os amigos exigem.
No mais, ouvi uma música – ainda de forma sintética e sem muita discriminação dos instrumentos com a fala: Save Tonight – Eagle-Eye Cherry. Adorei, até comecei a chorar na hora, só pra vocês terem uma idéia de como estou.
Beijinhos
Lak
38 palpites

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