Ciborg Mode On

Escrito por laklobato em 17/12/2009

Eis a razão do meu sumiço…

Ontem, quarta-feira, 16 de dezembro de 2009, foi o dia da ativação.

Não quis fazer muito alarde, com medo de desmarcarem (era encaixe e isso poderia acontecer) e vocês sofrerem de novo, junto comigo. Porque confesso, ver vocês sofrendo, pra mim, é pior que o sofrimento em si.

O dia amanheceu lindo. Fui trabalhar – tinha dormido a base de meia garrafa de vinho – embora não tenha conseguido me concentrar muito em nada. Voltei, almocei, busquei o Edu no trabalho e fomos pro consultório da Dra. Valéria Goffi, o anjo que ativaria o ciborg que há em mim, a partir de agora.

Antes de mais nada, é importante falar a sensação complexa que fazia parte do meu dia, naquela hora tão importante. Sempre tive a sensação de que a surdez separou a minha alma em duas, porque sempre senti uma pessoa ouvinte, num corpo surdo. Eu era duas, embora fosse uma só. Ontem, quando ia ativar o implante, a sensação que me dava era que o Implante iria reunificar minha alma, o que é irônico, porque passei a ser meio humana, meio máquina. Agora, voltaria a ser uma só: uma ouvinte cibernética.

Chegando lá, a espera parecia eterna – realmente atrasou bastante, porque, como disse, era encaixe de consulta e vocês sabem bem como é isso.

Até que finalmente, fui chamada. Ela abriu uma caixa enorme de coisas que compunham o conjunto do implante. Tirou um coala de pelucia (mascote da Cochlear) e colocou o implante de brinquedo nele, dizendo: “Ele vai receber o implante dele, antes de você.” Eu ri… Botei ele no colo (xingando ele em pensamento, dada a minha ansiedade! Como assim, ele primeiro? hahaha)

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O dele era bege..

Logo em seguida, foi a minha vez. Dra. Valéria demorou uma década pra montar o aparelho todo hehehe, mas era um prazer olhar para aquela montagem e saber que dali uns segundos começaria uma nova etapa da minha vida.

Dra. Valéria montando a parte externa...

Dra. Valéria montando a parte externa...

Finalmente, ela conectou a antena (a parte do imã) na minha cabeça, junto com o processador, que foi conectado ao computador.
Antena na cabeça, processador atrás da orelha.

Antena na cabeça, processador atrás da orelha.

Conectada ao notebook. Vida cibernetica é outra coisa...

Conectada ao notebook. Vida cibernetica é outra coisa...

Por fim, ela começou a ligar os sons, até chegar no limite do audível suportável. É um processo gradual (e lento, leva anos pra se ter uma audição razoavelmente próxima da audição de um ouvinte) e a sensação inicial é de levar leves choques (similares ao que a gente tem quando bebe algo muito gelado, por exemplo) auditivos no cérebro. Por enquanto, tudo é tão baixo (porque mais alto me dá tontura) que tem coisas que eu ouço mas acho que imaginei. Ainda não consigo discriminar quase nada, justamente por estar tão baixinho e pela total falta de cooperação cerebral, de tão desacostumada que fiquei de não ouvir.
Lágrimas de emoção de ouvir o primeiro som.

Lágrimas de emoção de ouvir o primeiro som.

Está longe de ser parecido com o aparelho convencional. Com o AASI, ouço o tempo todo como se falassem num auto-falante cheio de ruídos e chiados. Com o IC, eu ouço os sons em separado, cada coisa é uma coisa. Consegui, por exemplo, reconhecer o som dos carros passando numa avenida, sabendo que estava longe de mim. Com o AASI, não consigo localizar bem de onde os sons vem.
Semana que vem, já aumento um pouco, mudando a programação (eu mesma faço isso, toda quarta-feira). Depois, retorno à fono, pra começar o mapeamento…
Enfim, falando do lado emocional. Muita gente quer conversar, fazer perguntas. Eu me sinto como se estivesse num momento de total reclusão, preciso desse tempo só pra mim, pra me centrar, pra entender o que se passa. É uma sensação de descoberta maravilhosa, mas é um momento meu. Não tenho tido vontade nenhuma de conversar com quem quer que seja, pra explicar como está sendo. Eu não sei explicar, apenas sentir.
Sei que vocês torcem por mim e, por isso, fiz questão de contar no blog. Mas por favor, não se chateem se eu ignorar as perguntas que me fizerem. Este momento é especial demais e eu não consigo compartilhar na medida que os amigos exigem.
No mais, ouvi uma música – ainda de forma sintética e sem muita discriminação dos instrumentos com a fala: Save Tonight – Eagle-Eye Cherry. Adorei, até comecei a chorar na hora, só pra vocês terem uma idéia de como estou.
Beijinhos
Lak
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