A tampinha, o estacionamento e outras histórias…

Escrito por laklobato em 22/12/2009
Ultimamente, me sinto meio assim, de antena parabólica captando tudo.

Ultimamente, me sinto meio assim, de antena parabólica captando tudo.

Quando vocês estiverem cansados das minhas descobertas, vocês avisam? Ah, bom, então tá…

É claro que todo mundo espera que eu logo relate total compreensão auditiva da voz humana, mas isso ainda demora e, no entanto, o universo dos sons tem tantas particularidades, que provavelmente muita coisa passa despercebida para um ouvinte comum, mas que me encanta. Eu fiquei surpresa de saber que passar a mão no cabelo, por exemplo, faz barulho. Isso, o AASI não capta e eu não lembrava mesmo de já ter ouvido, provavelmente porque nunca prestei atenção até que parei de ouvir…

Mas, não foi só isso que me surpreendeu. Na sexta feira à noite, estava em casa, bem concentrada no que ouvia com o IC – porque como ainda está baixo, e o AASI mais alto, o som da prótese domina meus pensamentos a maior parte do tempo e ouvir os sons do IC ainda requerem concentração da minha parte – quando ouvi a voz do Edu vir do quarto. Ela se destacava do som da televisão, como algo conhecido e isso me chamou a atenção. Também ouvi o som do interfone – reconhecido imediatamente – soar diferente do que ouço com apenas a prótese externa, soou mais agudo e mais próximo do que meu cérebro identifica como uma chamada.

Um pouco depois, o Edu fez um barulho de tiro “pew” – mania boba dele – que eu achava que era uma palavra tipo “piu”, mas não, é um som que ele faz com a língua, parecido com os tiros de cinema da minha infância. Que surpresa ouvir isso, perceber que não era uma palavra, mas um som. Claro que ele percebeu o meu encanto e ficou um tempão fazendo esse barulho hehehe

Mas as melhores descobertas vieram no sábado. A primeira delas, foi ao abrir  a garrafa de refrigerante e ouvir o barulho do gás escapando, uma espécie de “tishiiii”. Isso, eu reconheci de imediato (mas confesso que estava só com o IC na hora, mesmo sabendo que não devo usá-lo sem o AASI ) e fiquei com aquela cara de criança que acabou de ver um passarinho verde.

Agora, o grande evento do dia, foi depois. Estávamos no carro, eu e Edu, quando eu falei algo do tipo “vamos não sei onde” e, antes que o Edu pudesse responder, eu levei as mãos à cabeça, pra prender o cabelo, algo assim, mas ouvi a voz dele dar uma resposta. Em geral, eu ouço vozes, mesmo sem compreendê-las. Com o IC, voz soa muito “plim plim plim”, como um sino. Mas, naquela hora, eu estava muito atenta em prestar atenção nesse sino, só porque acho gostoso ouvir sons agudos que não parecem alta frequência (porque o AASI não capta sons agudos,  mas transforma algumas coisas em sons irritantes, como por exemplo, voz de criança), e ouvi algo assim: “plim plim plim pará…”

Eu arregalei os olhos e disse pro Edu: Repete!

Acostumado como ele está, de repetir o que diz, ele  não se estressou, apenas repetiu “se a gente for lá, não terá onde estacionar”.

Respondi: Não, você falou “parar”!

E ele, com uma cara de surpreso: “É, na primeira vez, eu falei “parar” mesmo.”  E me deu um sorriso de candura, meio sem saber o que dizer.

Falei: “Eu te ouvi falar “parar”, sério!”

E meus olhos encheram d’água, mesmo sabendo que é um evento isolado, que foi sorte, que não devo esperar muito e blablablabla whiskas sachê. Mas sabe, pra quem não compreende palavras auditivamente há anos, ouvir uma palavra e compreendê-la é tão especial, que dá vontade de deixar de lado toda a cautela e simplesmente saborear o momento.

Os meninos aqui da Léo ficam brincando comigo, porque de vez em quando, eu tenho umas reações espontâneas de olhar quando eles me chamam, embora eu não tenha, conscientemente, ouvido o chamado.

Bom, vou compartilhando os progressos com vocês, prometo.

beijinhos,

Lak

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