Preconceito no trabalho

Escrito por laklobato em 14/01/2010

Nas minhas andanças pela internet, vou fazendo amigos por onde passo. E, como jamais omito a minha condição auditiva (porque perderia  a chance de “me auto-aloprar”) acabo conhecendo um pouco das dificuldades e deficiências das outras pessoas. É engraçado isso de que, quando você se abre em expor sua fragilidade, as pessoas se sente a vontade para abrir as dela pra você.

Há uns anos, numa comunidade do genérica do Orkut (falo genérica por não ter nenhum foco específico, é apenas de debate) resolveram fazer uma entrevista comigo, para as pessoas saberem um pouco mais sobre a vida de um bicho esquisito uma deficiente auditiva. Ainda que a maioria das pessoas só tivesse interesse em como sofri preconceito ou a minha vida deve ser horrorosa e infeliz (porque, convenhamos, uma pessoa com deficiencia feliz, plena e realizada pode ser bem incômodo, para que não se sente assim, mesmo gozando de plena condição física e sensorial) e, logo eu, não ser a melhor indicada pra falar de desgraça, já que  tenho uma bizonha capacidade abstração no que se refere a obstáculos, dificuldades e sofrimento, a entrevista acabou resultando no início de uma amizade muito querida, com a Christal.

Ela também tem deficiência auditiva, mas felizmente, apenas moderada e consegue se virar muito bem falando no telefone, por exemplo. Mas, dada essa empatia com a deficiência compartilhada, a gente acabou criando um vínculo de amizade e apoio mútuo.

Esses dias, ela teve um problema sério no trabalho, decorrente tão-somente da ignorância de uma “colega”, somada à vista grossa que algumas empresas são capazes de fazer, mascarada por uma política de “já que a gente é obrigado a contratar pessoa com deficiência, que eles não incomodem nem exijam nada.”. Admito que isso aconteceu comigo também, embora eu não veja  a menor graça de comentar sobre o assunto, já que é passado e hoje, estou muito bem empregada numa das melhores agências de publicidade do mundo.

Mas, como muita gente não tem idéia do que uma pessoa com deficiência pode passar, vale a pena dar uma lida no relato dela. Afinal, um blog que visa informar sobre a condição de PcD, não pode se ater a falar somente de coisas boas, senão fica a impressão de que estamos tentando maquiar o lado duro da vida.

Texto extraído do blog da Christal: http://christais.blogspot.com/

Hoje foi um daqueles dias em que a gente preferiria pular e riscar do calendário.
Como algumas pessoas sabem, minha audição é bastante prejudicada, escuto numa frequência diferente dos outros. É difícil ajustar com aparelhos, mas é unilateral, ou seja, meu ouvido direito consegue dar conta do recado.
Quando fui trabalhar na empresa onde estou agora, como corretora, não falei a respeito, pois em nada prejudicaria meu trabalho. Tanto é que consigo estar bem no ranking de vendas e falo e ouço tranquilamente ao telefone.
Acontece que, como a sala não é muito grande e dividimos entre quinze corretores, muitas vezes fica ruim de ouvir os que falam comigo mais afastados de minha mesa.
Tem uma colega que logo que percebeu esta minha, digamos, deficiência, começou a fazer brincadeiras de toda sorte de mau gosto e que se tornaram logo o grande motivo de diversão de alguns outros.
Não ligava,tentava levar numa boa,por vezes fazia “tiradas” inteligentes que nem ela entendia. Mas reclamava,pedia pra ela parar com isso,chamava-a de lado, só nós duas e tentava por fim nesta situação. Fui ficando irritada, pedí ajuda pra minha supervisora que (…), nada fez além de falar com ela que parasse.
Não parou!
Hoje, chego na empresa por volta de meio dia, a tal colega estava na mesa da plantonista, um colega, um colega na outra mesa e uma terceira de frente pra ele e nossa supervisora na mesa dela, central. Sentei-me ao lado do primeiro e a plantonista começou a falar (não se dirigiu a ninguém em especial) que até aquele momento só atendera uma ligação e nem era pra ela pois tinha feito “triagem” e era pra outra colega. Virei-me pra ela e, sem nenhuma alteração, disse que estava surpresa pois era a primeira vez que ouvia a palavra “triagem”( alí não fazem isso, é cada um por si e sua sardinha); ela se exasperou e berrou num tom agressivo demais que eu não sabia disso porque era muito burra e surda, muito surda, sem competência e que ela jamais mentia. Na hora não entendi, a ficha demorou a cair, cheguei a comentar que a ferradura estava nova hoje, havia sido polida. Ela continuou a berrar, dizia que somente assim eu ouviria, que surdas são o que de pior há. Pedí que se calasse, que poderíamos conversar sozinhas do lado de fora, no corredor, mas ela continuou a me destratar como se eu fosse o cristo que ela estava esperando pra descarregar um dia infeliz. Aí não aguentei. Disse-lhe que não “bateria” boca e que sairia dali direto pra uma delegacia. Minha supervisora que havia saído momentos antes, entrou de volta; ela, a colega, continou a falar toda sorte de insulto a mim; e o máximo que a nossa chefe fez foi pedir pra ela se calar e a respeitar.
Desci aos prantos e fui pra nossa emergencia. O médico me atendeu, minha pressão subiu muito e fiquei alí, sem entender o que eu havia feito àquela criatura pra me tratar daquela forma. Os rapazes que ficam na admistração e cuja sala é separada por divisórias e vidraças, perceberam tudo, não sei se ouviram pois ela gritava demais. Morrí de vergonha, porque ela sempre espalhou pela empresa que eu não ouvia e ria fazendo piadas e alguns riam também. Enquanto pude, aguentei. Agora não mais. Já recebí encaminhamento da DEAM pro Ministério do Trabalho (…).

Revolta, tristeza profunda e decepção. São estes os meus sentimentos agora. O que irei fazer a partir de amanhã só Deus sabe. Há a possibilidade de abrir o jogo com o dono da empresa, mas minha demissão será cotada. Não sei qual será reação dele, mas me demitir estará na pauta. De agora em diante, represento problema, pois não vou me calar sob nenhuma pressão.
Que Deus me ajude!!!
Chris.

O pior de tudo, certamente, é ler algumas pessoas dizendo que ela deveria se comportar, senão a empresa irá cortar a vaga dela, pejudicando a possibilidade de outro PcD conseguir emprego.

Acho isso engraçado. Diante de uma situação de injustiça  e preconceito, exigirem que a vítima (odeio esse termo, mas cabe aqui) se comporte melhor, para não piorar a situação; sem perceberem que quem precisa mudar é o algoz, que é preciso extrair o problema da fonte, que não é exigindo bom comportmento de quem sofre com preconceito, que a intolerância deixará de existir.

Espero, de verdade, que esse tipo de coisa pare de acontecer. Que um funcionário com deficiência seja julgado pela sua capacidade e competência, como qualquer outro funcionário, não pela sua condição física e/ou sensorial. Não ser conforme o padrão não significa, de forma alguma, ser menos humano.

Torcendo para o tribunal que julgar o caso da Chris lembrar disso!

Beijinhos sonoros,

Lak

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