Desejos proibidos

Escrito por laklobato em 02/02/2010

Esse texto requer um pouco de ousadia da minha parte e, portanto, peço aos mais púdicos que não o leiam, para que não fira a integridade moral de quem prefere não adentrar no assunto sexualidade.

Mas, para quem se interessa, acho que esse post vale a pena.

De vez em quando, alguma pessoa sem noção pergunta se tem diferença entre transar sem audição. Como perdi a audição aos 10 anos – e naquela época era uma Lakinha inocente – eu ficava completamente sem parâmetro para responder essa pergunta. Para saber a diferença é preciso que se conheça bem os dois lados de uma situação e eu só fui iniciar a minha vida sexual muito depois dos 10 anos…

Ainda que eu já tenha tentado curtir momentos íntimos com o AASI (aparelho de amplificação sonora individual, as próteses convencionais) ficar deitada com isso pendurado na orelha costuma ser bem desagradável, porque além de ter um “molde” que fica no interior do pavilhão auditivo, vulgo orelha, que incomoda e até provoca dor dependendo de como se apoia a cabeça, também tem o inconveniente de apitar (por conta da microfonia) conforme o movimento da cabeça ou qualquer coisa que deixe-o com som abafado. Enfim, acabava nem compensando a pouca resposta auditiva que me dava.

A priori, a audição não é exatamente o sentido mais importante no ato erótico. Ela faz parte, mas o importante é principalmente o tato. Ainda assim, há algumas pequenas diferenças que valem a pena ser levadas em conta.

Sabe essa história que homem adora luz acesa e mulher adora luz apagada? Bem, não temos essa opção. Para uma pessoa que depende da visão para “ouvir” (já vi deficiente auditivo brincar dizendo “quando a luz apaga, eu fico surdo”), é importante manter um mínimo de luz sempre. Claro que nem sempre a luz do teto acesona mantém o clima, mas sempre precisamos de uma meia luz, nem que seja a luz da televisão hihihi

Outra coisa é que juras de amor ao pé do ouvido é algo completamente fora de alcance, se a pessoa não tiver audição suficiente para discriminar a fala auditivamente apenas. Todas as “juras de amor” nessas horas, tem que ser ditas olhos-nos-olhos, sabe?

O mesmo vale para… ãh… posições em que um fique de costas pro outro ou que não dê para visualizar os lábios, a comunicação fica limitada e, conversar, fica completamente fora de propósito (tá, eu sei que  praticamente ninguém bate papo nessas horas, mas usando a criatividade, falar algumas coisas pode ser interessante).

Música é algo que, sem audição, não dá pra compartilhar, então nem se cogita música de fundo, coisa que muita gente considera importantíssima e a 7ª Arte sempre dá imenso valor nas cenas mais românticas dos filmes.

Enfim, salvo por essas pequenas adaptações, falta de audição não impede ninguém de curtir o erotismo, ter anseios e desejos ou de ter uma vida sexual boa e saudável.

Uma vez, eu conversava com uma amiga que trabalha com acessibilidade e condição das pessoas com deficiência e ela me contou que conheceu um rapaz implantado que confidenciou-lhe que depois do implante, a vida sexual dele tinha mudado imensamente para melhor.

Fiquei com isso na cabeça e até cheguei a perguntar para alguns amigos implantados se isso realmente acontecia. Tive das mais variadas respostas e há quem diga que sim e há quem diga que não curte o implante nessas horas.

Mas para a gente formar opinião, é preciso tentar, não é mesmo?

Sei que falar de sexo só é bacana quando a gente fala tercerizando o discurso, mas não tem como eu dar um parecer sem falar na primeira pessoa. E, como eu sou casada, faz-de-conta que soa menos grosseiro hehehe

O que eu pude perceber – depois de semanas de enrolação, porque na hora H eu tirava o implante, por puro medo de tentar uma experiência nova – é que ouvir faz diferença SIM. Quanto mais percepção se tem, maior a sensibilidade. A experiência torna-se mais rica, mais completa. Fechar os olhos sem ficar a mercê apenas do tato, tendo a audição como referência do outro, eleva a percepção sensorial a outro estágio de compartilhar o momento. É difícil explicar, mas com certeza, vale a pena fechar os olhos e simplesmente ouvir os sussurros e suspiros.

Ainda que, no meu caso, requeira um certo cuidado de não esbarrar no imã e perder tudo aquilo por uns segundos (o que dá pra evidenciar mais ainda a diferença que pode fazer com e sem audição).

Mas, compartilhar o prazer, de qualquer forma que seja (de comum acordo, entre pessoas adultas e blablablá) vale a pena, não acha?

Beijinhos sonoros,

Lak

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Jogado em Causos silenciosos

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