A arte de ouvir

Escrito por laklobato em 19/03/2010

Fui à fonoaudióloga hoje, primeira consulta tradicional – a anterior era entrevista. Tenho gostado muito da terapia. Sempre fui avessa à fonoterapia, por rebeldia talvez e dava um jeito de enrolar a fono e ficar batendo papo. Mas, com a Aline, sinto uma vontade imensa de passar  a consulta inteira fazendo exercícios. Não sei se pelo fato de eu ter amadurecido (fiz fono dos 11 aos 20 anos) ou se porque agora a chance de um progresso realmente existe!

Ela me explicou quais são as diferenças da minha voz para a voz de um ouvinte – falei que não me preocupava com isso, mas passei a semana matutando sobre – e como poderia  melhorá-la. E, nada melhor que uma fono pra perceber esses detalhes, afinal, sempre perguntava às pessoas próximas e nenhuma delas me sabia explicar…

Em tempo, ela me passou um texto lindo (com propósito de treinar a audição: ler e ouvir, reconhecendo qual palavra pode ser), que não resisti trazê-lo pro blog – um trecho, pelo menos, senão me acusam de plágio e com link pro texto completo.

Afinal, este é o 200º post do DNO e merece um texto comemorativo, afinal, minha vida mudou radicalmente nesses 11 meses que escrevo o blog. Ele serviu de espelho para enxergar meus defeitos e mudá-los…

E certamente, porque me aproximou de tantas pessoas especiais e histórias lindas…

A ARTE DE OUVIR

RUBEM ALVES

De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, do viver juntos e da cidadania é a audição. Disse o escritor sagrado: “No princípio era o Verbo”. Eu acrescento: “Antes do Verbo era o silêncio.” É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Quem fala muito não ouve. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima. Eles falam, sim. Para ouvir as vozes do silêncio. Veja esse poema de Fernando Pessoa, dirigido a um poeta: “Cessa o teu canto! Cessa, que, enquanto o ouvi, ouvia uma outra voz como que vindo nos interstícios do brando encanto com que o teu canto vinha até nós. Ouvi-te e ouvia-a no mesmo tempo e diferentes, juntas a cantar. E a melodia que não havia se agora a lembro, faz-me chorar…” A magia do poema não está nas palavras do poeta. Está nos interstícios silenciosos que há entre as suas palavras. É nesse silêncio que se ouve a melodia que não havia. Aí a magia acontece: a melodia me faz chorar.

Não nos sentimos em casa no silêncio. Quando a conversa para por não haver o que dizer tratamos logo de falar qualquer coisa, para por um fim no silêncio. Vez por outra tenho vontade de escrever um ensaio sobre a psicologia dos elevadores. Ali estamos, nós dois, fechados naquele cubículo. Um diante do outro. Olhamos nos olhos um do outro? Ou olhamos para o chão? Nada temos a falar. Esse silêncio, é como se fosse uma ofensa. Aí falamos sobre o tempo. Mas nós dois bem sabemos que se trata de uma farsa para encher o tempo até que o elevador pare…

Para continuar lendo no site do autor: A Casa de Rubem Alves.

Beijinhos sonoros,

Lak

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