(re)compreender o ato de ouvir

Escrito por laklobato em 30/03/2010

Tenho ciência que jamais serei uma pessoa como a maioria. Não porque não possa ouvir e escutar perfeitamente com o IC algum dia, mas porque a minha surdez sempre será parte integrante da minha personalidade, já que perdi a audição cedo e ela foi um dos alicerces bases que me moldaram.

Três meses depois da ativação, depois de 23 anos (incompletos) de silêncio, tem sido uma jornada de reencontros e descobertas que eu tento narrar pra vocês, mas em vão. Gostaria que quem lê esse blog pudesse sentir exatamente as emoções que sinto, mas me falta talento para transcrever com precisão, dado o calor da emoção de descobrir um som novo ou reencontrar um antigo.

Mas, mais do que ouvir, o que preenche o caminho de retorno à audição é o escutar, o compreender, o discriminar. E perceber como meu cérebro, tal como uma criança, dá formas mentais aquilo que ouve. Ouvir o latido de cachorro e visualizar rapida e mentalmente um cachorro. Ouvir uma lata de refrigerante sendo aberta e pensar “oba, refri!”.

E, como não é mais um processo natural e eu não tenho mais 1 ano de idade, preciso da ajuda da fonoterapia para conseguir refazer, com o implante, o caminho natural do som, dentro da cabeça.

Nunca fui de levar a fonoterapia a sério. Eu gostava de enrolar a fono e bater papo. E por 10 anos, foi assim, pouquissimos exercicios de estimulação auditiva e exercitação da fala e muita conversa e bate papo.

Hoje, sem aquela necessidade de ser compreendida – embora eu adore a Aline, claro, ela é fantástica – tenho dado lugar aos exercícios tão necessários a um deficiente auditivo que reaprende a ouvir.

No exercício, ela mostrou-me 6 figuras e falava o nome de uma delas, sem que eu pudesse visualizar os lábios (ou seja, sem o apelo visual que dependo). A principio, o exercício era simples, porque bastava prestar atenção na estensão da palavra. Não há como confundir FLOR com TELEFONE, pelo tempo que a sonorização dura, pouco importanto se compreendo ou não cada som por si.

Depois, era a vez de escutar palavras com o mesmo tempo de som, todas dissílabas. Carro, casa, bola. Qualquer criança ouvinte consegue diferenciar essas palavras com facilidade, mas pra mim, ela soam absolutamente similares, simplesmente porque a presença e ausência de som é similar. Tal como se o som limitasse-se a preto e branco e eu só pudesse enxergar luz e sombra.

Mas, com o implante, os sons começam a tomar forma. Não da primeira vez que ouço, mas na terceira, quarta tentativa, a palavra BO-LA começa a ter um formato específico e fazer – ainda que com um demorado tempo de resposta – meu cérebro perceber que trata-se de um objeto específico, bola.

Não quis demonstrar emoção demais para a Aline, porque não queria que ela parasse a terapia, mas compreender (sem chutar) a palavra “bola”, fazer uma imagem mental dela ao que ouço bo-la (e não apenas tentar enxergar a palavra em si) representa um passo enorme nesse caminho. É a primeira vez que o som da voz passa a ser significativo, passa a formar uma imagem mental espontâneamente no meu córtex cerebral.

E, junto com a bola, surge a esperança de poder compreender a voz, sem o auxílio da leitura labial, algum dia.

Mas, como o destino gosta de ser cruel, tive que sentir a pele a necessidade urgente de ouvir, saindo do consultório da fono, para buscar meu celular em casa e ficar presa no elevador. A unica coisa possivel, pra avisar o porteiro para que ele me soltasse manualmente, era usar o interfone. Eu podia claramente ouvir a voz dele, mas sem compreendê-la. E nessa hora percebi que o caminho que tenho a trilhar ainda é longo.

Porém, percebi que a voz dele, mesmo que não me dissesse nada de compreensivel, me tirava do total isolamento e isso, por si, também tem seu peso e sua importância: calma, um passo de cada vez, mas cada passo com seu valor.

Hehehe desculpem se o texto ficou confuso, mas queria compartilhar as emoções das últimas horas…

Beijinhos sonoros,

Lak

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