Quando eu perdi a audição, tinha a fala nomal, uma vez que a minha audição era perfeita. Mas, como boa fala requer bom feedback (retorno) auditivo, mandaram-me para a fonoaudióloga, para mantê-la.
Já contei que eu fiz fono durante 8 anos com uma fono xará da minha mãe, né? Eliane, o nome dela… Enfim…
Deficiente auditivo – salvo crianças implatadas antes dos 6 anos – não tem alta com fonoaudiologia. Tal como a diabetes, é uma “doença crônica” (ou melhor, privação crônica do som) que requer cuidado pra vida toda. No caso das crianças implantadas, soube que elas tem alta depois de 5 anos, mas não confirmo sob parecer de especialista. Sou leiga, lembrem-se disso.
Enfim, apesar da gente não ter alta formal, a gente para sim, o tratamento de tempos em tempos. Porque custa caro, porque enche o saco e porque – apesar de não ser muito sensato – a gente pode, oras…
Mas, como falei ha uns posts atrás, o relacionamento entre terapeuta (seja qual for a terapia que ele faça, fisica, auditiva, mental) e paciente precisa ser uma parceria de cumplicidade, porque o sucesso depende do empenho dos dois…
No caso da Eliane, apesar dela ser fonoaudióloga, não é especializada em reabilitação auditiva, mas em reprogramação neurológica (eu cai nela por acaso, ja que a fono especilizada em R.A. saiu de licença maternidade), mas a gente acabou criando um vínculo forte e eu fiquei meio dependente dela a adolescência toda. Se, por um lado, não exercitei tanto a voz como deveria, por outro, ela me ensinou a respirar, a pausar, a criar confiança em quem eu era, mesmo com uma mudança de vida tão grande quanto tive.
Depois dos 21 anos, dei-me alta até retornar em março, com a Aline, por causa do Implante Coclear.
Mas, sempre tive um carinho especial pela Eliane e, volta e meia, procuro algum tipo de contato com ela. E ontem, depois de um bom tempo sem vê-la, reencontramo-nos para almoçar. Foi uma situação emocionante pra mim, porque ela ainda não tinha me visto implantada. Mostrei o IC, contei das mudanças de percepção sonora. E das mudanças físicas e emocionais, que são grandes. O IC, pelo menos para mim, representa uma grande mudança global do individuo que eu sou. E, nessa fase transitória – que deve durar até o último mapeamento desse ciclo, em dezembro, além dos proximos anos de adaptação – foi bom conversar com uma pessoa que me conheceu melhor do que ninguém antes disso acontecer.
Uma das coisas que ela me disse foi sobre a mudança da voz. Realmente, por conta do feedback auditivo, é esperado que a fala do implantado se abra (sim, esse termo é esquisito, mas é isso mesmo, porque basicamente, surdo oralizado costuma falar baixo e de forma introspectiva, por receio. Quem fala alto demais são os deficientes auditivos que tem bom feedback com a prótese convencional e que aumentam o volume pra se ouvir melhor) mas, apesar de eu ja ter boa articulação – sempre tive, por causa da leitura labial, a fala se torna bem articulada, porque é um reflexo visual – melhorei muito na sonorização, porque solto mais a voz, falo mais alto e pronuncio todas as silabas, coisas que eu não fazia, embora articulasse todas elas, eu deixava de emitir voz nas últimas, sem querer. Mas, ainda assim, falta alguns aspectos do mapeamento para a fala ficar perfeita.
Por outro lado, o IC não trata a parte psicologica sozinho, isso também leva tempo. Então, ela comentou que o medo ainda está visivelmente (ou melhor, audivelmente) presente na minha voz. A sugestão dela: “Cante!” Ao ouvir isso, dei risada. Como assim, EU cantar? Mas ela insistiu nisso, disse que cantar faz bem, porque mexe com a emoção. Falei que ia ensurdecer o prédio todo. Ela riu e disse “problema deles” hehehe
Enfim, não sei ainda se a dica funciona, mas achei boa e resolvi repassar no blog. Boa fala pode ser treinada em casa, com exercícios de oratória e canto, segundo as fonos que tenho o prazer de ter na minha vida. Elas fazem a parte dela, nós fazemos a nossa e conquistamos o mundo. O implante vale muito a pena, não me canso de dizer!
Passado meus 5 minutos de fama (também conhecidos como “mamãe, eu quero aparecer” hahaha mentira, eu adoro divulgar o Implante Coclear) voltemos a nossa rotina de posts delicados e lakinianos.
Mas, ontem, quando via vaaaaaaarios amigos me chamando de “exemplo de vida” – coisa que odeio, porque não me sinto exemplo de nada – fiquei lembrando de uma conversa que tive com meu pai, aos 8 anos. Eu falei que queria crescer e ser uma heroína (excesso de desenho animado dá nisso) e meu pai respondeu que o importante era ser uma boa pessoa que ajudava os outros. E, bom, isso eu tento fazer, né?
Por isso e por outro motivo, eu realmente acredito que existe esse tal de destino e nada acontece por acaso.
O outro motivo é que, não sei se já comentei aqui, eu tenho 2 irmãos: 1 irmã mais velha (1 ano e meio) e 1 meio irmão por parte de pai, 16 anos mais novo. Eu e minha irmã – ela também tem nome de deusa hindu, Parvati – por conta dessa diferença mínima de idade, sempre fomos próximas e competitivas.
Na infância, éramos realmente grudadas, justamente porque irmãos com diferença de idade pequena brincam juntos. E a gente tinha aquela cumplicidade de se juntar pra brincar com amigos em comum, que eram muitos…
Quando eu perdi a audição, vinha tendo um surto de caxumba e muita gente teve, inclusive minha irmã. Ela teve a doença cerca de 3 semanas antes de mim, no final das férias de verão, quando estávamos na praia. Par sempre teve tendência a garganta inflamada e ela incha muito fácil no rosto (até hoje, embora seja magérrima), então, até se tocarem que ela estava com caxumba, ela fez tudo o que não podia: tomou sorvete, foi à praia, ficou sob o sol escaldante, mergulhou no mar…
Mas, felizmente, ela escapou dessa sem nenhuma sequela.
Eu, quando adoeci, já estava em casa. O diagnóstico foi imediato, fui ao médico, fiquei de cama, fui medicada. E tive sequelas…
A única diferença foi que a Par teve 40 graus de febre e eu, não passei do 37,5. Nunca fui de ficar febril e, dessa vez, não foi diferente. Pela medicina homeopatica, febre significa reação orgânica e, segundo essa teoria, o corpo dela reagiu e combateu o virus. O meu não… Mas, não sei se foi realmente isso, porque não sou médica.
A verdade é que as coisas acontecem por algum motivo que nem sempre a gente compreende. Existem milhares de explicações psicológicas, filosóficas, espirituais, religiosas, mas nada realmente faz diferença na prática. Acontece porque tem que acontecer. Ficar elucubrando, na minha opinião, só serve pra sentir raiva, desgosto e tristeza. Não gosto desses sentimentos. Acredito que pode até haver um porquê, mas o que interessa é COMO lidar com isso e ponto.
Por um lado, eu me perguntou se não poderia ter tido a mesma sorte que minha irmã e ter saido da caxumba sem sequelas. Por outro, penso que se tinha que acontecer com uma de nós, foi melhor que tenha sido comigo. Por vários motivos. Porque eu sempre (me achei) fui mais forte. Porque eu sempre lidei melhor com as dificuldades. Porque eu sempre consegui me reinventar e ter a capacidade de rir de mim mesma (redundancia não, licença poética). Mas, sobre tudo, porque sempre prefiro que aconteça comigo, do que com alguém que eu amo.
Beijinhos sonoros,
Lak
p.s. uma foto minha e da Par, num café em Paris, em maio/2005
Como ando meio sem inspiração para escrever – e não gosto muito de ficar repetindo coisas óbvias sobre o IC, senão cansa – resolvi trazer um assunto essencial para debate: a qualidade da audição e o aprendizado.
Pais de crianças com perda severa/profunda, procuram ajuda. Mas e as crianças com perdas não significativas a ponto dos pais perceberem com facilidade?
O teste da orelhinha vem sendo aplicado em larga escala, mas ainda assim, perder a audição ao longo da vida é possível. Eu perdi aos 10 anos, como vocês sabem…
O que muita gente não sabe é que a escola em que eu fiz a 1ª série exigia audiometria e teste de visão para todos os alunos. Graças a esse exame, eu pude comprovar que tinha audição normal, aos médicos que, na tentativa de explicarem o motivo da minha súbita perda auditiva, sugeriram que eu devia ter nascido assim e meus pais que não notaram.
Vale lembrar que surdos não são necessariamente menos inteligentes. De aluna mediana quando ouvia, passei a melhor aluna da sala, depois de ensurdecida. Simplesmente porque me concentrava melhor e exigia mais de mim. Vai da natureza de cada um.
O gostoso de fazer fonoterapia, quando se usa o Implante Coclear, é poder confirmar – sob o olhar crítico de um(a) especialista – o seu progresso real.
Quando fazemos alguma coisa que muda os alicerces de quem somos, temos essa necessidade de saber que não é um esforço em vão, que vale a pena, que o saldo é positivo. Mas, dependendo da pessoa – meu caso – acaba dando uma dourada na pílula, porque sempre quer progresso real e imediato, o que nem sempre é possível.
Vira e mexe, alguém me pergunta se eu já consigo ouvir música e falar ao telefone. Como se essas fossem as únicas coisas importantes e que comprovassem que realmente o Implante serve para algo. Mas, já cansei de relatar aqui sons “menos importantes” que dão aquela sensação de prazer enorme.
Eu ouço música sim, embora não consiga compreender bem a letra. E falo ao telefone também, embora de forma sucinta e muita coisa seja compreendida à base da dedução. Mas isso, é uma questão de tempo e acho surrealista esperar que 23 anos de surdez sejam “curados” com 7 meses de implantada (sendo apenas 5 meses do implante ativado).
Hoje, a fono resolveu que os testes abertos (com pistas visuais) estavam começando a ficar faceis demais e passamos para testes fechados (sem pistas visuais). Um deles, era ouvir o nome de qualquer objeto da sala. E no meio, ela falou meu nome – não, eu não pensei nele, já que nunca pensei em mim como um “objeto da sala”.
Outra, foi ouvir sequencias de numeros de 1 a 5, em qualquer ordem, com qualquer repetição. “Um dois três quatro cinco” “Um um um um um” “Cinco cinco dois dois dois” enfim, um contexto fechado, mas de forma bastante ampla. Advinhem, acertei 95% do teste. Sinal de que o cérebro já tenta ouvir mais do que deduzir. Otimo sinal, visto que mudar um hábito cerebral é complicado pra uma pessoa adulta.
Um progresso pequeno, mas uma sensação de realização imensa…
Como falei hoje, eu não preciso de audição pra nada – visto que construi uma vida plena sem audição nenhuma – portanto, longe de obrigações e expectativas, ouvir é apenas um desejo realizado e um prazer. E, quer saber? Vale a pena!