Lembranças sonoras…

Escrito por laklobato em 19/05/2010

Tive o prazer de perceber, semana passada, que entro na segunda etapa da recuperação auditiva.

A primeira é ouvir, conhecer, identificar, discriminar. O aprendizado inical de utilizar a audição de qualquer ser humano. Claro que, para aqueles que não nasceram ou foram acometidos com deficiência auditiva, esse processo se dá nos primeiros 2 anos de vida e, portanto, a maioria nem se lembra…

Depois disso, vem a etapa emocional, criar vínculo com o som, relacioná-lo a situações, criar uma memória sentimental quanto a determinados sons. Muita gente, faz isso com música. Uma música para cada emoção específica.

Não, eu não estou vinculando nada com nada ainda, mas um som ativou uma lembrança da minha infância e veio aquela sensação gostosa de  esforço recompensado.

90% dos sons de coisas, eu não me lembro bem. A maioria caiu no mais absoluto esquecimento, simplesmente porque não havia espaço na memória pra me lembrar de coisas bestas, tipo o barulho que um copo faz ao esbarrar em outro. Em 23 anos de silêncio, havia muito mais coisa importante para me lembrar do que esse tipo de amenidade.

Tenho uma amiga que fica braba quando falo “eu não sabia que tal coisa fazia barulho”, ao que ela responde “você sabia, só não lembrava”. Ora, dá no mesmo, porque ninguém decora som de coisas bobas a ponto de lembrá-las 2 décadas e meia, sem esquecê-los a ponto de nem reconhecê-los mais. A gente tem coisa mais importante pra saber..

Enfim, esses dias, tem feito frio e eu tenho as extremidades frias. Vivo com os pés e as mãos geladinhos o inverno inteiro (até parece que temos estações do ano tão bem definidas assim hehe), portanto, tenho o hábito de atritá-los para esquentar, especialmente quando começa a sumir a sensibildade da ponta dos dedos. E olha que em São Paulo nem faz tanto frio assim, mas tudo bem…

Semana passada, estava esfregando as mãos, nessa tentativa de esquentá-las, quando percebi nitidamente que isso faz um barulho em particular. Achei o som gostoso e fiquei repetindo o som – gosto de fazer isso para criar memória auditiva – até que uma imagem veio na  minha mente….

Meu pai é massoterapeuta e, durante toda a minha infância, acompanhei aulas de Massagem Oriental que ele ministrava. Em determinado ponto da aula, ele dizia: “Vamos atritar as mãos para esquentá-las…” e a sala se enchia desse som, feito em uníssono por todas as pessoas da sala. Acho que eu gostava muito desse barulho, porque fechei os olhos e me lembrei nitidamente das aulas, em sala acolchoada, cheiro de incenso e, as vezes, um mantra tocando baixinho ao fundo. Luz azul – muitas vezes, a aula ficava a meia luz para propor relaxamento – e  a voz do meu pai, preenchendo o ambiente com pessoas de olhos fechados, falando de forma calma e pausada.

Senti uma vontade enorme de chorar – é, eu choro por tudo mesmo – pela sensação de paz e conforto que esse barulho me trouxe à mente, uma época em que ouvir era tão natural que dava para simplesmente mergulhar nos sons…

Beijinhos sonoros,

Lak

24 palpites
 

Boletim Informativo via SULP

Escrito por laklobato em 18/05/2010

Você já conhece o SULP, o blog da comissão de Surdos Usuários da Lingua Portuguesa? (basicamente, os deficientes auditivos que tem portugues e não Libras, como lingua materna ou, como chamam L1.)

Eu faço parte do SULP porque não falo Líbras. Nada contra a Líbras, mas evito esse assunto aqui porque além de achar perpetuação de estereótipo um blog de surdo falar de Líbras, eu não tenho afinidade nenhuma com esse idioma já que fui alfabetizada em português e só uso esse idioma. No entanto, nada contra a Líbras, o lance é querer mostrar que existe surdos que não falam por sinais e portanto surdo não é igual a língua de sinais. Surdo pode ler lábios, usar prótese ou implante, falar oralmente ou até falar Líbras fluentemente, mas preferir ler e escrever em português (não, quem fala a língua de sinais nem sempre é familiarizado com o português, mas isso não vem ao caso agora). Enfim, todos esses casos são considerados SULP.

Daí, o blog do SULP acaba sendo um blog parceiro do DNO, já que de um jeito ou de outro, defende a mesma coisa.

Essa semana, eu estou meio sem assunto (por ora) e resolvi mandar vocês pro SULP, darem uma lida em duas noticias interessantes (na real, ruinzinhas pra nós, mas que vale a pena ler), caso se sintam a vontade para tanto:

Ato pela adequação do CENSO 2010 sobre as Pessoas com Deficiência.

Dublagem de filmes, sem closed caption, vai contra a acessibilidade.

Tá, eu podia copiar pra cá, mas acho legal passear por outros blogs. Vocês não?

Beijinhos sonoros,

Lak

5 palpites
 

E VIVA! a vida!

Escrito por laklobato em 15/05/2010

Não sou de assistir novela, simplesmente por falta de hábito. Quando criança, assistia sim, embora não visse todos os capitulos, porque às vezes, os perdia por estar brincando.

Mas aí, eu fiquei surda e acompanhar novela não era tão fácil (eu acompanhei umas 2 ou 3, depois de ficar surda. Acho que Top Model, Por amor e mais uma, não lembro qual) já que ler os lábios de atores não é difícil, mas nem tudo é dito com a câmera focando a boca do personagem que tem a palavra.

Dada a dificuldade e a opção de poder assistir programas legendados na tv a cabo, fui deixando as novelas de lado, até perder o habito. Anos depois, passaram a ter closed caption e eu poderia assistir, mas não consigo mais acostumar, porque são 6, 7 meses de capitulos que não se repetem, salvo o último. Acho mais fácil acompanhar seriados, cujos capitulos passam 2, 3 vezes durante a semana (o mesmo capitulo).

Mas, a novela da Luciana, tem o  meu respeito, claro. Embora eu  não tenha assistido quase nenhum capitulo, via o povo comentar, debater, fazer post em blogs sobre isso, discutir se era realista no orkut, twittar links de cenas no youtube. E respeito essa novela – apesar de saber que novela é novela e nem sempre condiz com a realidade – justamente por causa do final da Luciana. Feliz, casada, mãe, trabalhando, mas na cadeira de rodas.

Sei que muita gente acha que só dá pra ser feliz se a pessoa se recupera 100% de uma deficiência. Só que isso é raro. A maioria dos acometidos por uma deficiência não vão se recuperar 100% e a felicidade NÃO PODE depender disso! Imagine como eu seria infeliz se ficasse esperando recuperar 100% de audição natural? Ainda que eu tenha amigos com o habito chato de falar que não sou mais surda (ainda sou, porque surdo é o deficiente auditivo que não consegue discriminar a fala nem com ajuda de próteses e eu ainda não discrimino a fala sem leitura labial. Até pode acontecer, mas não aconteceu ainda) esquecem que quem depende de uma prótese para ouvir, sempre vai ser deficiente auditivo.  E dependo sim,  do Implante Coclear, pro resto da vida. Se acontecer algo com a parte interna ou externa, eu volto pra minha condição de anacusia. Portanto, dizer que sou “ex-deficiente” não apenas é um equívoco como chega a ser uma ofensa, porque não poderia estar mais distante da verdade.

Por isso, retratar a Luciana com a vida plena, sem ter saído totalmente da condição de deficiente, foi um final digno da realidade da maioria de nós, pessoas com deficiência.

Mas, na real, nem é por isso que eu resolvi falar disso aqui. Como não vi a novela, não iria fazer um post só para elogiar o final, né?

Quando a novela começou, eu estava na pilha pré-cirurgia e lembro de ter pensado, vendo um capitulo lá (nem lembro qual): “Poxa, quando essa novela terminar, eu já estarei implantada, ativada e ouvir.”. Ontem, quando via o capitulo final – especialmente porque queria ver o Jairo, que estava no grupo da última cena – pensei exatamente isso “nada como o tempo…”

A última cena, o depoimento do maestro (que me levou lágrimas aos olhos, de tanta coisa que aconteceu com ele)… E a surpresa de ver a Orquestra, de ouvir a orquestra, de ouvir a música perfeitamente… Ahh, foi uma emoção muito forte e eu chorei. Chorei copiosamente, não porque a novela acabava, mas por poder ouvir a música do final…

Eu sei  que haverão muitos desses momentos, na minha vida. Momentos de “apreciamento sonoro”, como disse bem a Sô, do SULP (blog dos surdos usuários da língua portuguesa).

E, como não poderia deixar de ser, taí a última cena da novela Viver a Vida:

Beijinhos sonoros,

Lak

14 palpites
 

Paciente nota 10

Escrito por laklobato em 14/05/2010

Na verdade, o 10 não é a nota, mas o número de sessões de fonoterapia que fiz até agora. 2 meses dedicados ao reaprendizado de ouvir.

Lembro da primeira sessão de testes de fonoaudiologia lá do HC, que avisaram que era exigência da Fundação de Otorrinolaringologia que o paciente implantado fizesse fonoterapia depois de ativado. Senti um frio na espinha. Como deficiente auditiva, não tive escapatória de fazer fonoterapia. Mas, nem todas as fonos me agradaram. Nem todas as fonos eram acessíveis (teve um ano que mudei de fono 3 vezes, porque uma se mudou e a outra engravidou, o que é péssimo pro paciente, porque ele fica trocando de profissional e o tratamento acaba sendo hiper confuso). E, pior, fono é igual namorado, você tem que ter empatia e afinidade com a pessoa, senão o negócio não vai pra frente.

Quando chegou no tempo limite permitido que eu podia ficar sem fonoterapia, depois do IC (o prazo era de 2 meses de adaptação, no  máximo, mas eu fiz três, porque no meio sai de férias) uma amiga me indicou a fono que ela fazia. Mas a moça, ironia do destino, ia se mudar e avisou que não ia ficar comigo muito tempo. Gelei! Ai minha santa paciência! Resolvi pedir pra ela me indicar outra e já começar com a indicada.

Dei uma sorte tremenda! Fui cair justo nas mãos da Aline, que é um anjo encarnado em fono especializada em Implante Coclear.

Na primeira consulta, entrevista, ficou evidente que eu fui surda por 23 anos, portanto, ouvir não era meu forte. Desacostumei com isso, desaprendi tudo. Então, ela teve toda a boa vontade de resgatar som por som, me ensinar a usar  a audição de novo, esclarecendo todas as minhas dúvidas. Vogais, intensidade da voz, entonação, palavras, frases, tudo o que compõe a comunicação oral…

Hoje, ela passou para uns exercícios mais difíceis, porque disse que o básico eu dominei rápido até demais. Nos mais complexos AINDA não fui tão bem. Mas também não fui mal…

Ela disse que meu progresso é animador, que é rápido, que é produtivo. E endossou: “Nossa, só foram 10 sessões até agora?”

Pois é…

Não acredito fórmula mágica,  mas unir alguém que quer aprender com outro alguém que sabe ensinar, está bem perto disso! Eu acho…

Beijinhos animada e compreensivelmente sonoros,

E bom final de semana, pessoas!

Lak

8 palpites
 

Ironias adoráveis…

Escrito por laklobato em 13/05/2010

Muita gente se diverte com o nome do blog, por conta da ironia que ele escancara… Claro que tem quem ache que é um pedido de desculpas real – até parece que eu pediria desculpas por ter deficiência auditiva, como tem gente “inocente” nesse mundo  - e eu tenho toda a paciência de explicar que é brincadeira.

Esse nome não foi criado especificamente pro blog. Acontece que há muitos anos atrás (tipo uns 11) eu escrevi uma biografia sobre viver com deficiência auditiva, sendo surda oralizada. Mas, aparentemente não era interessante o suficiente, já que nenhuma editora se interessou (eu mandei pra umas 5).

Eu escolhi “Desculpe, não ouvi!”, porque além de soar irônico, também era mais educado do que o que eu realmente falo: “ã?”, “heim?”, “repete ai”, “não entendi, mané” ,”fala direito, que eu leio seus labios, p****” e por ai vai…

Aí, como o livro não saiu, o nome ficou armazenado até o dia que o DNO nasceu, agradando gregos e troianos (embora alguns espartanos não tenham curtido tanto).

Bom, floreios introdutórios encerrados, vamos ao que interessa:

A melhor coisa do IC, ao contrario do que os apressadinhos que acham que é ligar e a pessoa ouvir normalmente e 100% de imediato, é justamente o delicioso caminho longo e cheio de pequenas descobertas. A gente aprende a ouvir devagar, formando uma memória auditiva totalmente nova (claro que quem faz o IC logo que fica surdo, deve ter a resposta muito mais rapida)  e apreciando os mais infimos e indiferentes sons, para quem ouve normalmente.

É o som da garrafa de refrigerante sendo aberta. O som da unha sendo cortada. O som de passar a mão no cabelo. De atritar uma mão na outra. Do ovo frito estalando na frigideira. A gente comemora as pequenas conquistas e se delicia contando uns aos outros – sim, implantados AMAM conversar com outros implantados.

Aí a gente começa a fazer fonoterapia, vai aprendendo o som das letras, formando palavras e começa a pegar uma ou outra palavra sem leitura labial e se diverte horrores com uma palavra besta tipo “bola”, como se tivesse 2 anos de idade e ouvir “bola” fosse engraçado.

Ontem, chamei um cara do meu trabalho pra tomar café. Ai ele brincou perguntando como estava o IC. Falei que continuava com os progressos lentos dele, mas que eu adorava. Embora, eu tenha notado essa semana, que as vozes já estão cada vez mais próximas do que eu lembrava da voz humana. Embora, ainda soem abafadas, como se as pessoas falassem com um pano na boca ou numa sala acustica que isola parte do som.

Ele resolveu brincar e, tampou a boca e falou uma frase. Eu só entendo o que a fono fala e, normalmente, com pistas visuais, nem dei muita bola pra brincadeira.

Mas, assim que a escutei, arregalei os olhos e respondi: Você perguntou se eu estou te ouvindo?

E ele ficou vermelho e respondeu: É…

E caimos os dois na gargalhada.

Ai ele queria testar outras frases e eu falei: Não, calma, deixa eu saborear essa…

Ouvir uma frase inteira, entendê-la…

Sem nenhuma pista – porque eu não tinha como deduzir nada, ele podia ter dito qualquer coisa…

E logo  a frase oposta do nome do blog…

Ai ai…

E tem gente que acha que se a audição não for imediata o IC não serve pra nada. Tem gente que não sabe o prazer e a felicidade de saborear a vida aos poucos. Mas, felizmente, não sou uma dessas pessoas!!

Beijinhos sonoros,

Lak

20 palpites

Copyright © 2012 Desculpe, não ouvi! All rights reserved. Visite www.laklobato.com