Direito à diversidade!

Escrito por laklobato em 21/07/2010

Já me perguntaram várias vezes porque não falo sobre a Língua de Sinais aqui no DNO. E sempre explico que sinto necessidade de quebrar o estereótipo de que deficiência auditiva é sinônimo de lingua de sinais. Mas, muita gente insiste que isso se dá porque sou surda pós-lingual (ou seja, que perdi a audição depois de adquirir a linguagem oral), mas não é verdade, existem famílias que preferem oralizar a criança nascida surda com ajuda de fonoaudiólogas, próteses auditivas e, atualmente, implantes cocleares.

Há quem diga que isso vai contra a natureza da criança, mas eu discordo. Faz parte da natureza humana ouvir e se tem quem prefira insistir que mesmo uma criança com deficiência auditiva possa usar a audição residual que tem para ouvir, aprender a falar oralmente independemente do sotaque, ou implantar a criança esse direito deve ser tão respeitado quanto aqueles que optam tão somente pela lingua de sinais.

O problema é que, sem essa informação, muita gente cai no estereótipo de que todo deficiente auditivo fala Libras sim – esquecendo que é um idioma que precisa ser aprendido como qualquer outro – e tenta impor interprete de Líbras até para quem não o fala bem. Eu mesma já tive que explicar que leio lábios e falo somente português e isso é chato. Acho tão desrespeitoso me impor um idioma que eu não domino quanto tentar forçar um surdo sinalizado a falar.

Claro que tem quem ache que é exagero da minha parte e todo mundo respeita que haja surdos oralizados e deficientes auditivos que falam português e jamais imporiam Libras a nós.

Não é bem assim. Segue abaixo o depoimento de uma menina surda oralizada que sofreu com essa estereotipação e se sentiu desrespeitada por não aceitarem que ela poderia estudar somente com a leitura labial.

Olá, meu nome é Marcela

Sou surda bilateral severa desde que nasci e oralizada. Tenho 26 anos, e sou Pedagoga.

Tenho a sorte de ter pais que procuraram os melhores tratamentos que possam facilitar minha comunicação, minha fala e minha escrita. Buscaram maneiras para que eu possa ter um crescimento saudável sem comprometimento no desenvolvimento e alfabetização, com isso adquiri independência.

Só fui aprender libras em 2004, num curso de férias. Utilizo somente pra conversar com surdos adeptos dessa língua na comunidade surda.

Tive uma educação como a de um ouvinte, estudei sempre em escolas comuns e nunca precisei de intérpretes, sendo que já estava muito bem adaptada, sendo oralizada e fazia leitura labial, uso aparelho auditivo desde os seis anos, o que facilitou muito a minha vida.

Inscrevi-me no vestibular, passei em 1º lugar, me graduei recentemente.

Nunca na minha vida no ensino fundamental e médio precisei de algum profissional que pudesse me auxiliar na escola como intérpretes, por exemplo.

Chegando aos primeiros dias de aula na faculdade, os  professores foram se familiarizando comigo, se impressionaram com minha capacidade de comunicação, oralização e a escrita e a convivência foi fluindo em harmonia.

Já estava estudando nessa faculdade havia 4 meses e um professor coordenador da instituição, mesmo sabendo que eu não era usuária de Libras, me informou que, por causa da lei que foi regulamentada, sobre a obrigatoriedade de um intérprete de libras nas universidades, contrataram um intéprete, eu disse com toda a educação que não precisava e NUNCA precisei, pois estava indo muito bem nas aulas, mas creio que não fui levada a sério. Só que eu, ingênua como era na época, achava que eles não iriam à fundo nesse assunto e deixei pra lá.

Infelizmente, um mês e meio depois, para minha surpresa, no meio de uma das minhas aulas, fui informada pela coordenadora do nosso curso, que minha intérprete contratada estava à minha disposição para me acompanhar em todas as aulas da faculdade. Confesso que fiquei chocada, fui logo obrigada a sentar nos fundos, o que odeio pois sempre sentei na primeira carteira a vida toda e no decorrer dessa aula, a intérprete foi repassando todo o conteúdo da matéria em Libras, mas eu só fiquei calada, com maior cara de paisagem e extremamente revoltada por dentro, mas só estava esperando a aula acabar, para logo conversar com os coordenadores e tentar contornar a situação alegando que houve um mal-entendido por partes deles, eu não imaginava que eles levariam isso adiante,  toda a sala me olhando como se eu estivesse sendo tratada como uma idiota, porque com 4 meses de convívio, todos sabiam que eu não precisaria e perceberam o quanto eu estava revoltada e me sentindo humilhada, pois toda a coordenação da minha faculdade sabia que eu NUNCA precisei de intérprete e NUNCA SOLICITEI uma. Eles ficaram chocados pela atitude da faculdade de agir daquela forma, ignorando o fato de que não precisava de acompanhamento nenhum.

Achei que fosse piada na realidade, de muito mal gosto, mas não, era o que estava acontecendo.

Depois da aula fui conversar com dois professores que contrataram a intérprete, e pedi que pudesse transferir ela pra alguém surdo sinalizado que realmente estivesse precisando dela, em outra faculdade na nossa cidade, mas não, eles alegaram que não podiam fazer mais nada, que ela já era contratada e que eu era OBRIGADA a aceitar.

Achei muita falta de respeito comigo por parte da faculdade, um tremendo descaso. Porque eles nunca procuraram conversar comigo. Tudo foi feito sem minha autorização, mesmo sabendo que eu não exigi e ainda neguei, eles levaram adiante, me ignorando.

Creio eu, que eles não acreditaram que uma estudante surda poderia acompanhar as aulas, mesmo sendo oralizada. Falta de informação é lamentável, acontece situações dessas que acaba sendo desagradáveis para ambas as partes. Acredito também que eles queriam dar uma imagem melhor da nossa Instituição sobre a inclusão de deficientes e outras coisas típicas dessa equipe de coordenação, tanto que chamaram um jornal local da minha cidade comunicando a “conquista”. Sabe o que foi pior? Eles disseram que eu estava sendo muito ignorante, que eu tinha que aceitar minha “identidade surda” usando a Libras no meu dia-a-dia!  Quase não acreditei que eles realmente tinham dito isso!

Eu percebi que não adiantaria mais nada tentar alguma coisa com ele através do diálogo, porque isso não era o forte deles, é você aceitar o que eles impõe pra você e pronto. Eu era boba e ingênua, então resolvi deixar de discutir com eles, não levaria a nada. Conversar com um bando de ignorantes não adianta, tive que pensar e tentar resolver a situação do meu jeito, pois não poderiam mandá-la embora, a intérprete era concursada.

Todo o pessoal da minha sala sabia que a atitude da coordenação da nossa faculdade foi muito equivocada, não concordaram com essa contratação e sabiam que eu me sentia ofendida pela faculdade em me obrigar a conviver com uma intérprete, minha colegas de classe e alguns professores conversaram com a coordenação, mas eles não quiseram fazer nada a respeito. O que eu podia fazer? Conversei com essa intérprete, ela percebeu o erro da faculdade e chegamos a um acordo: Ela ficaria no meu lado na sala de aula, mas somente auxiliando em alguns casos como por exemplo, algum professor se esquecer e fazer a aula de costas pra mim, dificultando a leitura labial, ela foi bem compreensiva comigo, aliás até uma profissional da educação exemplar, pois era pedagoga também, mas especializada em educação de surdos. Ficamos juntas durante três anos, no ano seguinte ela foi contratada pra ser professora da nossa faculdade.

Olha, não me lembro de sofrer preconceito, se sofri algum, não me afetou, isso até na faculdade, nunca me senti tão ofendida na minha vida, e sendo logo numa Universidade? Foi demais pra mim, foi a situação mais desagradável na minha vida, a pior dela, posso dizer.

A minha faculdade tem ótimos professores mestres e doutores, mas a equipe de coordenação era ineficiente, ignorante e incompetente. Não soube e até hoje não sabe lidar com várias questões na nossa faculdade em variados assuntos, o que é triste. Mas graças a Deus, já me formei e acabei de ser chamada no concurso público municipal no qual fui aprovada, para trabalhar como Pedagoga Coordenadora de uma escola. Foi uma fase triste naquele momento na faculdade, mas agora tudo passou, creio que não ocorrerá mais, porque de todos os surdos da minha cidade, somente eu, meu irmão e mais uns 4 colegas são surdos oralizados como eu, outros são adeptos de libras, com eles não terá esse problema, mas comigo, foi uma situação embaraçosa que não desejo a ninguém.

Para um oralizado, sentar longe do professor é péssimo, porque a boa leitura labial depende de proximidade com o interlocutor. Sinto afliação de pensar que poderia ter passado por essa situação.

Respeito é um direito de todos, de acordo com as particularidades de cada um. Se existe espaço para a Libras, existe espaço suficiente para os oralizados também. Portanto estereotipação não!

Beijinhos sonoros,

Lak

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O caminho da serenidade

Escrito por laklobato em 20/07/2010

Quando fiz o Implante Coclear, depois de 23 anos de silêncio, deparei-me com uma mudança muito maior do que eu imaginava.
Não limitava-se a reaprender a ouvir, mas em reaprender a ser quem eu sou, porque é uma mudança também de padrão cerebral, já que  passo a perceber o mundo de outra maneira e requer, sem dúvidas, outro padrão de uso da percepção dos sentidos.
Para quem passou duas décadas usando a visão inclusive como substituto da audição – afinal, leio os lábios – isso significa transformar-se.
No começo me batiam dúvidas e receios. Não sabia muito bem como processar essas mudanças. Tinha coisas que pareciam impossíveis, simplesmente. Por exemplo, responder a um estímulo totalmente não-visual. Como assim? As coisas precisavam ser vistas para existirem hehehehe
Conversar com outros implantados, com as fonoaudiólogas ajudava muito. Mas, sempre achava que precisava de algo ainda, faltava alguém me explicar porquê parecia tão complexo algo que deveria ser simples.
Bom, um dia, estava à toa no twitter, quando alguém postou algo que me chamou atenção, não lembro bem o que era, e eu resolvi conversar com a pessoa.
Descobri que ele se dedicava, entre outras coisas, à recuperação de dependentes químicos e, por mais exótico que isso possa parecer, perguntei se poderia me explicar a respeito. E a explicação dele me deu aquele conforto que eu precisava, porque era exatamente assim que eu me sentia: durante anos meu cérebro foi viciado em usar apenas a visão e, agora, precisava usar a audição também.
Apesar de ser um caminho exótico (que eu espero que seja bem aceito pelos leitores hehe), encontrar ajuda quando a gente precisa é fundamental. Por isso, pedi pra ele me conceder uma entrevista aqui pro DNO:

1. Olá, Paulo. Fale-nos um pouco de você, do que você faz…
Sou Farmacêutico-Bioquímico, formado na UFPR em 1982 e atualmente atuo na área de Farmácia de Dispensação, a Farmácia tradicional.

2. Por que você decidiu dedicar-se a recuperação de dependentes?
Dedico-me, embora atualmente não muito, por conta de ser também um dependente químico e foi assim que, auxiliando-se mutuamente, Bill e Bob, co-fundadores de AA, primeiro grupo eficaz de ajuda-mútua, identificou esse modo, como sendo o melhor para a manutenção da abstinência alcoólica, portanto, nessa atitude, não vai nada de altruísmo, por excelência, mas sim, uma maneira de salvar a si próprio. Ninguém é herói, por salvar a própria vida!

3. Como é a reunião que vocês fazem?
As reuniões dos grupos de AA e NA, baseiam-se na troca de experiências, através de depoimentos de todos. Todos falam, todos ouvem, não necessariamente em todas as reuniões, visto que o tempo da mesma, com seus protocolos e dependendo da quantidade de assistentes, inviabilizaria a organização que existe dentro da irmandade, em relação às reuniões.
É como uma terapia de grupo, sem o viés profissional da coisa.

4. Como nos filmes, vocês começam as reuniões com a Oração da Serenidade? E, por que ela é tão importante?
Todas iniciam sim, com a oração, de autoria desconhecida, aliás (ela não foi feita por ninguém de AA) e a importância dela se traduz em sua sabedoria, inclusive, não só para os companheiros, mas deveria ser absorvida por mais pessoas no planeta. Pense bem:
Concedei-nos Senhor
A Serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar
Coragem para modificar aquelas que podemos
E sabedoria para distinguir umas das outras.

É um “hino” à lucidez possível de cada um de nós, seres humanos.
Caso se consiga segui-la e não é assim tão simples como possa parecer pela sua simplicidade e tamanho, economiza-se, em muito, os aborrecimentos muitas vezes tolos, que carregamos conosco.

5. Quais as principais dicas que você costuma dar pra quem está passando por uma mudança grande de hábitos?
Imaginando que as pessoas devam mudar seus hábitos, por conta de prejuízos evidentes que estejam tendo em suas vidas, de um modo geral, creio que a grande dica seja “colar” nas pessoas que tenham as mesmas dificuldades e que estejam conseguindo progressos internos em suas vidas. Dentro disso e para que não hajam confusões ainda maiores, como superestimar pessoas iguais a essa que estaria em dificuldades, o ideal seria a participação em grupos de ajuda-mútua, especificos ao problema em questão.
E, sempre que possível, a “velha e boa” terapia, com um profissional qualificado.

6. Você ficou surpreso da minha abordagem, quando comparei a minha situação com a recuperação do vício em substâncias? Ou isso acontece com frequência?
Não, porque dificuldades, todos nós as temos e por mais diferentes que sejam, quanto à mecânica de cada uma delas, guardam extremas semelhanças quanto à essência do ser humano.

A melhor dica que Paulo me deu foi: Não se cobre, ninguém muda da noite para o dia. Vai ter horas que você se sentirá perdida, mas não desista, faz parte do progresso. Viva um dia de cada vez e comemore todas as pequenas vitórias.

Tenho seguido essas dicas ao pé da letra e, por isso, sinto-me bem e cada vez mais feliz e realizada. No fundo, a serenidade é o que importa, o resto, faz parte do caminho.

Beijinhos sonoros,

Lak

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Notícia importantíssima

Escrito por laklobato em 19/07/2010

Certo, os meus eram de outra marca, mas amo essa foto hehehe

Pessoas, começo a semana com uma super notícia importantíssima, por dois motivos. Primeiro, porque é uma noticía especial para quem já tentou comprar prótese auditiva (os aparelhos convencionais) e sabe como eles são caros. Segundo, porque não é mera divulgação de outro blog, mas divulgação de uma conquista importantíssima feita por uma blogueira.

Entonces, vocês se lembram da Paula Pfeifer, autora do blog Crônicas da Surdez? Falei dela nesse post aqui.

Semana passada, ela comentou lá que conseguiu uma conquista e tanto: convencer uma empresa que vende aparelhos auditivos a dar desconto na compra de próteses auditivas aos leitores do blog dela.

Achei isso fantástico e não posso deixar de comentar isso aqui e parabenizar a Paulinha pela iniciativa! Quem quiser saber a respeito, aí vai o link especialmente para o post.

Se você precisa de AASI, vale a pena dar uma lida neste post do Crônicas!

Lembrem-se que só um especialista (médico otorrinolaringologista) sabe qual é o aparelho ideal para a sua perda auditiva, portanto, é imprescindível consultar seu médico antes.

Beijinho hipersonoro e boa semana a todos,

Lak

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Pela liberdade de ser humano

Escrito por laklobato em 16/07/2010

Primeiro, peço desculpas pelo sumiço. Tive alguns contratempos pessoais que me deixaram sem ânimo para escrever. Resolvida uma parte deles, retorno ao blog com um texto bastante polêmico – vai ter quem discorde da minha posição, mas críticas construtivas são muitíssimo bem vindas – feito em contribuição com a Maíra, amiga há tempos, da comunidade Surdos Oralizados do Orkut.

Tudo começou porque a Má mandou um video baseado numa história que eu já conhecia (e talvez a maioria conheça) e que também já vi em várias versões e com crianças de deficiências diferentes. O enredo é mais ou menos esse: “um grupo de crianças com deficiência está competindo numa corrida. Até que uma das crianças cai e, em vez de continuarem, as crianças retornam para buscar aquela que caiu e atravessam todas juntas a linha de chegada”.

Ela achou isso lindo e fez uma comparação com a situação dos deficientes auditivos de diversos graus e natureza que não lutam em conjunto, pois estão ocupados em diversos grupos separados.

Normalmente, quando recebo um email assim, eu costumo ignorar, porque todo mundo tem o direito de expressar a opinião pessoal e subjetiva, não é mesmo?

Mas ontem, pela Maíra ser uma pessoa próxima, sensível e inteligentíssima, resolvi dar a minha opinião a respeito, sobre o vídeo, o que iniciou um delicioso debate sobre opiniões diferentes sobre um mesmo tema.

Você me permite uma análise sobre esse video?
Já é a terceira versão dele que eu vejo. Sempre é um grupo que tem alguma deficiência e volta pra buscar aquele que cai para atravessarem a linha de chegada todos juntos.
Na primeira vez que vi, achei bacana. Hoje, já olho com reserva, porque isso reforça muito o estereótipo de que deficientes são pessoas sempre iluminadas, que não reclamam de nada, que tem um coração imenso, que estão sempre dispostas a ajudar, porque não têm malicia nem maldade no coração. Mas sabe? Isso retira de nós o direito a humanidade. De ser chato, de querer vencer, de ter ambição, de pensar primeiro em nós mesmos e depois, na sociedade.
Por que pessoas sem deficiência são aplaudidas por chegarem em primeiro, mas aquela com deficiencia é aplaudida por ter compaixão com um semelhante, numa situação que, provavelmente, a pessoa sem deficiência seria vista como otária?
Eu entendo que você tenha achado bonita a solidariedade, isso é realmente lindo!
O que me incomoda é que ela tenha que ser retratada com frequência com um protagonista deficiente. Como se nós tivessemos obrigação de sempre ser bonzinhos e lição de vida.
Já cansei de ver gente falar “fulano tem deficiência e nunca reclama, ele é um exemplo”. Ora, ele não reclama porque não reclama, é uma característica dele, não tem a ver com o fato de ter ou não deficiência. Nem todas as pessoas sem deficiência vivem reclamando ou não reclamam nunca. Elas são vistas como seres com direito a características individuais. Nós também deveríamos.
Concordo que os deficientes auditivos deveriam ser mais unidos. Mas não dá, porque somos muito diferentes inclusive pela deficiência que temos. Existe oralizados que falam bem, outros nem tanto. A deficiência auditiva é muito individual e ela afeta justamente o que une a sociedade como um todo: a comunicação. Portanto, é preferivel sim, que sejamos um grupo de vários segmentos, porque nossas necessidades são distintas e não tem como a gente brigar por nada em comum.
Sinalizados querem Libras em todos os lugares. Oralizados querem legenda em todos os lugares. Isso sempre vai se contrapor e não tem como chegar num senso comum, porque são necessidades diferentes. Que cada grupo lute pelo que precisa e obtenha o que necessita, sem invalidar a necessidade dos outros grupos.

É claro que ela discordou de algumas partes e concordou com outras. Pra ela, as pessoas com deficiência tendem a ser mais solidárias com as dificuldades alheias sim, porque sente muitas na pele também.

Eu, apesar de achar que sentir a mesma dor ajuda a ter mais compaixão, acho que não é uma regra de grupo, mas individual. O que determina que uma pessoa seja solidária é quem ela é, não a condição física dela. Conheço gente sem deficiência nenhuma extremamente solidária com a dificuldade do próximo – muitos dos leitores do blog, inclusive – pessoas que trabalham em prol da acessibilidade, mesmo não precisando dela pra si, agora. É uma questão de empatia, sem precisar passar por isso.

Enfim, sempre defendo que cada ser humano é único e o que o define são as características individuais dele, o carater, as experiências de vida e o que ele faz com elas, a educação que teve. Não a condição física, o rótulo ou as experiências de forma isolada, pois uma mesma situação pode ter efeito absolutamente inverso em duas pessoas distintas.

Beijinhos sonoros e bom final de semana,

Lak

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Efeito anestésico

Escrito por laklobato em 08/07/2010

Engraçado como, ultimamente, eu me pego prestando atenção nas adaptações que fiz, ao longo da vida, pra suprir a ausência da audição. E fico impressionada com a capacidade de adaptação do cérebro que, pela necessidade de sobreviver, faz com que busquemos alternativas para praticamente tudo.

No meu caso, por ser ouvinte de nascença, sempre tive necessidade de sonorizar tudo. Eu imaginava som para as coisas – praticamente todo o que se move, faz um som particular na minha cabeça – tão automaticamente que eu nem percebia que isso era interno e não externo.

Com o passar do tempo, graças ao uso do Implante Coclear, meu cérebro já não tem tanta necessidade de “criar” sons, apenas de ouví-los e interpretá-los, cada vez mais rápido. Até bem pouco tempo atrás, ouvir era como fechar os olhos, tatear e tentar visualizar o que era tal coisa (ou seja, usando outro sentido para interpretar uma informação, em vez daquele habitual). Agora, ouvir vem se tornando como sentir cheiros: ouço, levo alguns milésimos de segundos analisando e processo a informação “aham, isso é barulho da torneira do banheiro pingando”. Um aprendizado constante, prazeroso e bem sucedido.

Terça-feira, passei a tarde no dentista e, pela primeira vez desde nem sei quando, pude ouvir o barulho dos famosos  motorzinhos, pesadelo de muita gente. Eu sempre imaginei som para eles e, justamente pelo fato de provocarem dor, imaginava um som horroroso e estridente, quase ensurdecedor.

Antes da minha consulta, minha mãe precisou de uma consulta rápida e eu fiquei esperando com ela, na sala.

Foi uma surpresa constatar que o barulho do motor era muito mais fraco e menos irritante do que aquele que eu imaginava. Achei até engraçadinho de ouvir.

No fim, na hora da consulta acabei tirando o IC pra não molhar a parte externa (o motorzinho espirra água, né?) e, graças ao fato de que meu cérebro já não imagina tanto som, pude curtir a consulta no maior silêncio…

Beijinhos sonoros,

Lak

10 palpites

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