Pequenos milagres

Escrito por laklobato em 16/08/2010

Sábado, fui ao shopping almoçar. Até aí, nada demais, programa banal de sábado…

Estávamos no restaurante – é engraçado, pode ter umas 10 pessoas na mesa, que os garçons sempre querem falar comigo, não sei por quê – decidindo o que comer, quando chega uma família, pai, mãe e filho de uns 8 anos.

Eles sentaram-se numa mesa ao lado da nossa e, uma hora, a mãe levantou com o filho para olhar uma vitrine de doces.

Notei que o menino usava o Implante Coclear bilateral preso no capuz da blusa. Era fofo, porque era metade marrom, metade bege, meio mesclado no cabelo castanho dele.

Senti uma vontade enorme de chegar na mãe dele e fazer mil perguntas, mostrar que também usava o IC e que achava super especial esbarrar por ai com uma criança também implantada.

Mas, achei que eles não estavam no shopping para ser balcão de informações e deixei-os em paz…

Minha mãe disse que a voz do menino era perfeita, de criança ouvinte mesmo, o que me deu aquela pontinha de inveja hehehe Embora eu tenha ficado hiperfeliz por ele.

Penso como as pessoas que perdem a audição agora têm sorte, de ter um recurso tecnológico tão útil à disposição.

Beijinhos sonoros,

Lak

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Delícias sonoras, mais uma vez…

Escrito por laklobato em 13/08/2010

Ando meio preguiçosa para escrever  - é fase – então, vou apenas relatar algumas delicinhas sonoras (e visuais) sem muito gancho de uma pra outra, porque coerência narrativa está além do que a perguiça me permite…

  • Precisei ir na  fono que faz meu mapeamento, os ajustes de programação, do Implante coclear, porque ele anda dando umas falhadas meio inexplicáveis. Admito que morro de preguiça de ir lá, porque a região de Pinheiros costumar ter um transito pesadissimo em relação a onde moro/trabalho. Naquelas de dirigir 45 minutos, em meio de carros, ônibus, motos, carretas e pessoas de todas as espécies, resolvi tentar uma coisa que não me ocorre normalmente: ouvir música. Concluí que é a melhor coisa do mundo, porque “massageia mentalmente” o cérebro, distrai e o tempo passa rapidão. Já já começarei a me perguntar como foi que vivi milhões de anos sem isso!
  • Lá no consultório – eu não estava de mau humor, por causa do parágrafo anterior, senão estaria – estava cheíssimo e tinha um projetinho de cyborg fofíssimo de uns 4 anos. Ele era bem sorridente e, apesar de eu não tê-lo visto falando, apenas emitindo uns sons bem típicos de criança dessa idade (engraçado, né, criança adora fazer vocalizações, são todos potencialmente ótimos alunos de canto) ele se expressava muitissimo bem com o corpo todo. Era de uma alegria contagiante.  Enfim, ele tava comendo bolacha e me ofereceu. Recusei com a cabeça e dei um sorriso de agradecimento. Ele me respondeu com um sorrisão. Logo depois, um outro cyborguezinho, ja implantado, de uns 7 anos foi la roubar os biscoitos dele e o  pai dele mandou ele dar um pro menino, mas ele ofereceu a bolacha pra mim! Ai o outro arrancou da mão dele e ele sorriu pra mim, com uma cara de cumplicidade, de quem dizia “olha, eu queria dar pra vc e não pra ele”. Ri muito!
  • Conto que escrevi no twitter ontem: Quando o silêncio encheu o quarto, a casa, a cidade, o mundo, ela aprendeu a cantar baixinho o que ouvia o coração dizer. E por 23 anos, aquele foi o único som que ecoou na sua mente.  Quando o som retornou ao mundo, ela fez o coração cantar tão alto para que o mundo inteiro pudesse ouvir tb o que ela ouviu em silêncio. e foi assim que, juntos, ela, o silêncio e o som, compuseram a mais bela orquestra do mundo. O nome da música: O despertar da felicidade!

Beijinhos sonoros e ótimo final de semana, pessoas.

Lak


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É o refrão!

Escrito por laklobato em 11/08/2010

Uma das coisas que os ouvintes parecem ter obcessão de me perguntar é sobre música. Para uma pessoa que sempre ouviu, parece impensável que dá pra viver uma vida boa e plena sem ouvir música. Eu entendo, apesar de ter uma birra enorme desse hábito das pessoas de acharem que a única maneira de ser feliz é a que ela conhece.

Mas, tudo bem, ouvir música ainda é um aprendizado para mim.  Quando eu pensei em fazer o IC, admito que ouvir música não era uma das coisas que eu mais ansiava, tinha uma lista infinita de coisas que vinham primeiro, muitissimo mais importantes que música. A primeira delas era conhecer a voz das pessoas, depois me deliciar com barulhos do cotidiano. Música não fazia parte dos meus hábitos e, portanto, não tinha a menor importância.

Só que, pelo simples fato de poder tentar ouví-las, logo que sai do consultório da Dra. Valéria Goffi, no dia da ativação, pedi pro Edu colocar músicas que ele gostasse, para eu ouvir. Muito porque a gente pegou um trânsito pesadaço do consultório até em casa e era uma maneira de poder ouvir coisas novas.

A primeira música que me lembro de ter gostado foi Save Tonight, do Eagle-Eyes Cherry e, durante o primeiro mês da ativação, ouvi essa música várias vezes. Depois, fui conhecendo outras, gostando mais de outras e ai, acabei deixando essa um pouco de lado hehe

Como já expliquei, eu (ainda) não tenho plena discriminação sonora e muito da música era apenas pela música, não pela letra que eu sequer conseguia ouvir o suficiente para compreender. Por isso, eu tenho uma leve predisposição a preferir música clássica, já que elas não tem letras nem ninguém cantarolando.

Enfim, ontem a noite, esperava o Edu no carro, enquanto ele vinha do trabalho. Começo, engatinhando, a usar  música como passatempo. Em geral, ouço apenas Jamiroquai, porque eu adoro hehehe Mas ontem, coloquei Save Tonight para ouvir, ja que fazia um tempão que eu não ouvia.

Em dado ponto da música (repito, eu não costumo sequer ler a letra das músicas, porque não considero importante ainda) ouvi nitidamente a voz do intérprete dizer “Save Tonight”. Pensei comigo “ué” e se repetiu “save tonight“. Nesse mesmo momento, o Edu chegou e, antes mesmo de eu falar qualquer coisa, perguntei “ele fala save tonight na letra?”
Edu, que está acostumadissimo com as minhas perguntas, disse com a maior calma do mundo: “Claro, Lak, é o refrão!”

Nem preciso dizer que chorei, né?

Salvar a noite e lavar a alma, segue o video da música:

Beijinhos Sonoros,

Lak

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Tenha a santa paciência…

Escrito por laklobato em 10/08/2010

Outro dia, estava conversando com a Anna, amiga virtual (por enquanto, por causa da distância), amiga da  Rê, uma amiga de Portugal que eu amo. Ela veio me perguntar no MSN sobre o Implante, porque ela brincou comigo no twitter em relação a música e eu expliquei que sempre vou ter uma certa dificuldade com algumas coisas, visto que 18 eletrodos jamais substituem com perfeição milhões de células nervosas (mas claro que substituem muito bem, embora com diferenças consideráveis) e ela comentou que não sabia disso, que achava que era uma audição normal…

Dai, eu expliquei o que sempre explico aqui no blog, que a tecnologia (ainda) não consegue substituir 100% das funções da natureza (embora, nalguns casos, a supere, caso das próteses de pernas cangurus), mas que o Implante Coclear faz muito bem o trabalho dele e eu sou feliz de usá-lo.

Depois de uma boa conversa sobre as particularidades do IC e da vida de cyborg, Anna disse: “Você sempre tem uma santa paciência de explicar nossas dúvidas.”

Dando a real (adoro essa expressão, o contrário seria “mentindo na cara dura”?) eu não sou  a pessoa mais paciente do mundo não. Sou daquelas pessoas que xinga todos os antepassados alheios quando precisa encarar uma fila.

Mas, quando se trata de uma forma peculiar de vida que eu vivo, não acho que o mundo tenha obrigação de se informar e saber nada. Acho que me cabe explicar timtim por timtim de como funciona a prótese auditiva e o implante coclear ou porquê a voz de surdo oralizado pode ter sotaque ou porquê leva anos pra gente conseguir compreender bem a fala sem a leitura labial. Simplesmente porque ninguém aprende isso sem ler a respeito ou que outro deficiente auditivo explique. Pergunte-me o que eu sei sobre cegueira ou epilepsia, pra ver se eu sou tão expert assim no assunto.

A única coisa que me faz perder a paciência, confesso, é falarem comigo em Líbras, em resposta da minha verbalização oral, por conta do estereótipo de que ela é  uma forma de comunicação apenas e não um idioma a ser aprendido como qualquer outro. Se eu estivesse falando em sinais, acharia lindo responderem em Libras, confesso. Mas fala oral, se responde com fala oral. Fica a dica!

Beijinhos sonoros,

Lak

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Um beijo a mais

Escrito por laklobato em 04/08/2010

A gente vinha andando pela rua, minha mãe e eu. Fazia um sol gostoso, os carros passavam de maneira bem preguiçosa, porque era tarde de sábado. O mundo, silencioso por duas décadas,  agora tinha milhares de sons… Ainda não identifico todos eles, mas os ouço; hora com atenção, hora distraída.

Passando por uma loja, um carro ligou o motor pra sair da calçada onde estava estacionado, para ir à rua.

Minha mãe me segurou para que eu não ficasse na frente do carro, com essa candura que as mães tem com os filhos, tendo ele 8 ou 80 anos. As mães são assim…

Ela não percebeu que eu já tinha parado. Então eu disse, sorrindo: “não se preocupe, mãe, eu ouvi!”

Ela sorriu de volta, com os olhos cheios d’água – lágrimas que poderiam ser descritas como um oceano de tranquilidade – e, sem dizer uma só palavra, me deu um beijo no rosto, transbordando uma emoção que sou incapaz de descrever.

Eu fico feliz com cada som que reconheço, todos eles me dão aquela sensação de realização, mas nenhum deles teve  mais importância do que ver a plenitude do rosto da minha mãe…

Foi um daqueles momentos que fazem a vida toda valer a pena!

Beijinhos sonoros,

Lak

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Categorias: Causos silenciosos
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