Eu, robô.

Escrito por laklobato em 30/09/2010

Como venho falando por aqui, meu Implante Coclear vem dando umas falhadas cada vez mais frequentes.

Acreditava piamente que seria algum problema na parte externa do IC, afinal, é um aparelho e, como tal, propenso a quebras, defeitos, falhas e o escambau. Antes que algum defensor do “naturismo surdo” venha usar isso como argumento anti-Implante, o corpo humano é igualmente propenso a problemas e falhas e a prova disso são as deficiencias que existem por ai.

Por isso mesmo, não liguei muito de ter que ir na assistência técnica, porque sabia que um dia isso iria acabar acontecendo. Mas, como já contei, não achamos nada e o jeito foi considerar que poderia ser algo na parte interna.

Olha, no dia que caiu minha ficha de “avaria interna”, bateu um certo desespero, mas foi só parar e pensar bem que problemas costumam ter solução que a paz de espírito voltou a imperar e nem me estressei mais.

Liguei para meu médico, que explicou que eu deveria entrar em contato com a fono que faz o mapeamento (ajustes de programação). Ela agendou um teste de equipamento Crystal, que verifica problemas na parte interna. E lá fui eu, feliz da vida, fazê-lo para confirmar se existe algum problema de fato ou eu que sou doidinha da cabeça e não tem nada de errado não (até parece!).

Chego lá na Fundação de Otorrinolaringologia da FMUSP, entro na sala da Dra. Valéria Goffi, onde tinha uma outra Valéria (sem piada, era mesmo esse o nome dela) com um equipamento de ficção científica para ser conectado à minha cabeça e testarmos a parte interna do Implante Coclear.

Juro que na hora, senti que teria uma crise de riso, porque era uma sensação de estar num filme. Eram vários equipamentos de informática – eu não saberia explicar – fios e eletrodos. Dava a impressão de que elas poderiam ler minha mente, se quisessem.

Sentei na cadeira e já avisei: “Vou querer uma foto para por no blog. Porque se tem algo legal nisso tudo é poder passar a informação adiante de que o Implante Coclear tem solução para a maioria dos problemas que possa vir a ter.” Dra. Valéria riu e disse que tirava a foto, com certeza.

Bom, ligaram aquela coisa na minha cabeça e ficaram uma boa meia hora testando coisas. Adoraria fazer uma descrição fidedigna, mas o lance é tão estranho e a gente participa tão pouco – porque ele é indolor e a gente não precisa fazer nada, é feito na gente e ponto.

No fim, falei para a fono de um comentário que fizeram aqui no DNO sobre baixar a velocidade de pulsos elétricos por minutos (Valeu, Alice) e aproveitamos para fazer 4 mapas com várias velocidades diferentes para eu testar por aqui, enquanto o laudo não sai.

A principio, não acharam nada detectável, mas só o técnico de Denver pode confirmar e isso deve levar 1 mês, pelo menos. Mas, por hora, baixou uma tranquilidade muito grande, de perceber que estou em mãos excelentes, seja pelo HC, seja pela assistência tecnica da Politec e da própria Cochlear, fabricante do aparelho.

De qualquer forma, testar outras velocidades também ajuda a saber se isso não é uma reação orgânica, sei lá.

Curtam minha foto  de cyborguinha:

Ah, e aproveitando o post para mostrar a foto que tirei quando encontrei dois candidatos ao Implante Coclear lá na Fundação semana passada, Marcelo e Marcela:

Beijinhos sonoros,

Lak

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Repair Parts [2]

Escrito por laklobato em 24/09/2010

Bom, como uma autêntica cyborg – sim, eu sou uma pessoa biônica, afinal, uso um “computador” para ouvir, logo, quando digo que sou meio androide, não falo apenas de brincadeira.

E já faz um tempo que venho reclamando de uma falha de som no Implante Coclear, né? Então, eu resolvi levar isso a sério e procurar a origem do problema. Por dois motivos: primeiro porque enche o saco e segundo, porque pode ser algo serio no aparelho e quanto mais rápido arrumar, melhor.

Já tentei mudar o mapa e até substituir algumas peças temporariamente, mas nada resolve o problema, que vai e volta só para me atormentar.

Essa semana, a minha paciência chegou no limite e resolvi entrar em contato com o Walter, que trabalha na Politec. Ele também escreve um blog sobre o Implante Coclear. E, mais que  entendido do assunto, o Walter é usuário e, melhor do que ninguém, entende a condição de quem depende de uma prótese/órtose para bem viver. Expliquei o drama e ele me chamou para ir até a assistência para ver o que poderíamos fazer.

Qual não foi a minha surpresa, do Walter tirar o aparelho dele e colocar o meu, para testá-lo por duas horas. Juro, nada me causou tanta vontade de rir e surpresa ao mesmo tempo. Foi a coisa mais fantástica que jamais poderia imaginar. Mais do que explicar, alguém querer (e poder) testar e comprovar o que eu tentava dizer…

Saca só o poder da foto, dele com meu IC conectado à cabeça:

 

Foram duas horas testando e, embora infelizmente, não tenhamos achado a causa do problema ainda, tive o imenso prazer de conversar com uma pessoa que realmente entende do Implante Coclear, que pode esclarecer milhares de curiosidades que eu tinha (logo vou repassar todas as informações que consegui direto da fonte, inclusive belíssimas imagens) e que também tem uma história pessoal que é uma lição de vida, de fé, de coragem.

E, vou te falar, fiquei impressionada com a qualidade do serviço da Politec. Eles realmente sabem o que estão fazendo quanto ao Freedom. O técnico foi atenciosíssimo e se prontificou a sugerir várias possíveis soluções para o que poderia estar causando o problema. É excelente saber que colocamos um aparelho com boa assistência técnica, porque na hora do desespero, precisamos muito ter a quem recorrer.

Quanto ao Walter, me deu uma liçãozona de vida: ele trabalha como vendedor técnico do Implante Coclear. E vende com o coração, porque sabe a diferença tremenda que o IC pode fazer na vida de alguém. Se todos os vendedores fossem assim, a gente sempre saberia o que está comprando…

De resto, assim que souber qual o problema do meu IC (felizmente, ele continua aqui na minha orelha, mesmo falhando, não precisou ficar na assistência) conto aqui no blog…

Beijinhos sonoros e bom final de semana,

Lak

p.s. Olha só eu e o Walter:

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Amo Steve Jobs – por Raul Sinedino

Escrito por laklobato em 21/09/2010

Sabe o que é amizade, pra mim? É poder compartilhar e sentir junto com o outro….

O texto de hoje não é meu, embora eu tenha sido parte integrante deste acontecimento – por acaso, talvez, mesmo que eu não acredite no acaso!

Dessa vez, quando me vi com o coração quase explodindo de emoção, os olhos marejados pelas lágrimas difíceis de segurar, nem foi por mim. A melhor parte da minha aventura de resgate ao som é ter tanta gente especial para dividir as conquistas. Só que, agora, eu fui parte da conquista de outra pessoa e, nessas horas, eu compreendi o que muita gente sente quando lê este blog…

Amo  Steve Jobs

*Raul Sinedino

Conversar pelo facetime – uma novidade do Iphone 4—pode ser banal para as pessoas acostumadas a falar ao telefone, mas é uma verdadeira revolução na vida dos surdos oralizados.  A primeira “ligação” entre dois deles foi de uma emoção especial. Os dois falam e fazem leitura labial, mas sempre dependeram de alguém para resolver coisas rotineiras que complicam bastante a vida  de quem não tem o recurso quebra galho do telefone. Por exemplo, desbloquear  cartão de crédito. Os atendentes do outro lado exigem falar com o titular. Outra via crucis é cancelar um plano de telefonia. Só o titular pode fazer isso.  Só na hora de  solicitar o serviço, a exigência cai, liberam na hora, sem qualquer preocupação se falam com o dono da linha, ou não. Quem ouve também pode telefonar para alguém e contar qualquer bobagem, o que é muito bom. Nós, surdos, nunca pudemos.

Num passe de mágica, a invenção de Steve Jobs acabou com a dependência e o aprisionamento emocional dos surdos.  Ou quase. O preço do Iphone cobrado aqui no Brasil é muito alto, devido aos impostos. Nos Estados Unidos, a operadora AT & T cobra U$ 199 dólares ( R$ 340). Aqui, o preço ainda gira em torno de R$ 1.200, o que impede que parentes e amigos próximos de pessoas surdas se comuniquem com elas. Outro entrave é o fato de ser necessário a rede wi-fi  para falar através do facetime. Não funciona em 3G. Mas, Steve Jobs já é idolatrado pelos pessoas com deficiência auditiva até pelo que já promete: a videochamada em 3G.

Eu intuía a pequena revolução que o Iphone 4 iria me proporcionar. Por isso, nem me importei com o custo de fazer um plano Iphone, no qual está incluído pagar por  400 minutos de conversa que nunca vou ter, R$ 1.149 pelo aparelho e R$ 250 de mensalidade. Não me enganei. Moro em Porto Alegre e, hoje, recebi minha primeira ligação na vida. Era uma amiga surda, residente de São Paulo, querendo compartilhar o seu estado de graça pela compra do Iphone. O marido ouvinte sentia a falta de falar com ela ao telefone, por isso foram os dois resolver o problema, comprando o aparelho.

Confesso que fiquei sem reação durante a minha primeira videochamada.  Não sabia se chorava ou se continuava a conversa. Não sabia nem como reagir, o que fazer ou responder, porque jamais falei desse jeito com ninguém ao telefone. Muita coisa passava minha cabeça – a briga cotidiana, desde criança, por autonomia, principal motivo de estresse entre os surdos.  Pelo menos, dos que falam, fazem leitura labial e estão inseridos na sociedade ouvinte, mas se deparam com muitas barreiras, na maioria das vezes apenas criadas pela falta de bom senso de algumas empresas e órgãos governamentais ou de uma política voltada às necessidades específicas de uma  nova geração de surdos –  oralizados e implantados.

O Steve Jobs deve achar apenas que, mais uma vez, foi responsável por um avanço na tecnologia. Com certeza, jamais irá saber da pequena revolução pessoal que  provocou na vida de dois surdos brasileiros no dia 20 de setembro de 2010. Sem qualquer exagero.

*Engenheiro químico e surdo desde o nascimento

Beijinhos sonoros,

Lak

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Sabia que a caneta faz barulho?

Escrito por laklobato em 20/09/2010

Acordei cedo hoje e me arrumei tranquilamente, sem pressa. É gostoso quando percebo que todo o processo de voltar à ouvir se torna cada vez mais natural. Inclusive, me preparar para mais um mapeamento, o penultimo do primeiro ano, a fase mais atarefada da vida de um recém implantado.

Até mesmo o trânsito ajudou, bem tranquilo, de uma bela manhã de segunda-feira.

Chegando – com uma pontualidade britânica – ao consultório onde me aguardava uma consulta com a Dra. Valéria, tive duas surpresas maravilhosas. Encontrei duas pessoas candidatas ao Implante Coclear que estão em processo de consultas, Marcelo – cujo caso é absolutamente similar ao meu: surdez por caxumba aos 9 anos de idade (o meu foi aos 10, mas tudo bem) e – e a Marcela, que perdeu a audição por meningite (se não me engano) aos 2 anos. Ambos oraliazados, mas que também usam Líbras no dia a dia (autênticos bilingues, o que prova que Implante Coclear e Língua de Sinais podem caminhar de mãos dadas).

A Marcela, eu já conhecia, mas fazia tempo que não a encontrava, mas soube bem recentemente que ela pensava em fazer o IC, só não sabia que estava na avaliação via Hospital das Clínicas.  Já o Marcelo, só conhecia virtualmente, mas ele me reconheceu de imediato e me deu um sorrisão enorme. Ambos acompanham o blog e ficam de olho nas novidades que posto aqui, o que me faz dar-me conta do quão importante é ser realista quanto aos meus relatos. Sabe, senti aquele peso de responsabilidade hehehe

Marcelo tirou uma foto nossa e, assim que ele me enviar, posto aqui no DNO.

Já na consulta, refizemos o mapa, por causa das falhas (lembra que eu comentei que as vezes o som some e, por isso, eu levei o aparelho na Assistência, mas não acharam nada?) que ainda permanece. Pedi para a Dra. Valeria fazer um mapa mais alto, que eu pudesse deixar o volume permanentemente no 6, porque eu uso normalmente no 9 e isso pode estar sobrecarregando o processador.

Edu se preocupa de ser a parte interna, mas fiz teste de telemetria (acho que era esse o nome) e, aparentemente, os eletrodos e o nervo auditivo estão normais, portanto, é mais provável que seja algo do processador externo mesmo. Vamos ver…

Nos testes de audição, ja consigo acertar algumas palavras sem qualquer pista visual, mas ainda são poucas. No entanto, percebo que já tenho uma certa dificuldade de ler os lábios sem o implante. O cérebro vai cedendo espaço da visão para a audição. Fico feliz com isso, mas também meio receosa de não ter tanta fluência com a leitura labial. Tenho dificuldade de me desapegrar hahaha

No final da consulta, Dra. Valéria atendeu o telefone – nem comento mais reconheço de imediato o toque de telefone porque já virou algo banal – e eu prestei atenção no que ela dizia (coisa feia, né?) e consegui reconhecer 2 expressões “mas é claro” e “então tá bom”. Confirmei com ela e rimos juntas da minha capacidade de fuçar na conversa alheia….

Por fim, ela anotava algo numa folha de papel e eu consegui ouvir o barulho que a caneta fazia, ao percorrer o papel sobre a mesa. Até comentei disso, porque jamais me ocorreria que escrever à caneta poderia fazer um barulhinho tão gostoso.

Vim para o trabalho prestando atenção em todos os barulhos do trânsito… Carros, ônibus, motos, buzinas, pessoas falando, musica do carro do lado, sirene de ambulância e sentia minha alma cantorolar – se a Alice (do blog Ouvido Biônico) me permite o plágio – “estou viva, estou viva, estou viva”. Ouvir é lindo!

Beijinhos sonoros

Lak

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Cyborg mode on [2]

Escrito por laklobato em 13/09/2010
Que tal descobrir que a sua história pode fazer TODA a diferença na vida de alguém?
Que tal descobrir que os obstáculos que você transpõe pelo caminho não é em vão?
E qua tal descobrir que compartilhar uma vitória tem muito mais valor do que vivenciá-la sozinho?
São esses pequenos detalhes que fazem a vida toda valer a pena!
Então, leiam a história do meu amigo Drauzio, contando como o DNO fez uma pequena-enorme diferença na vida dele (e, consequentemente, na minha).
O texto é longo, mas vale a pena!
A pedido da minha querida amiga Lak Lobato, compartilho com todos os  leitores do DNO a minha história em relação a audição.
Tenho 33 anos e a minha família descobriu, por acaso, que eu não ouvia com o ouvido direito aos 4 anos, quandofoi instalado o primeiro telefone em casa. Tudo aconteceu quando meu pai ligou para casa, minha mãe atendeu e me pôs para falar com ele, colocando o fone em meu ouvido direito. Eu fiquei quieto. Então ela pegou o fone e viu que meu pai falava comigo e que eu não respondia. Ela, então, colocou o fone no ouvido esquerdo e eu conversei normalmente com meu pai. A partir desse fato, fui levado a vários otorrinose eles chegaram a conclusão de que meu ouvido direito tinha perda profunda, mas queisso não era problema porque meu ouvido esquerdo era 100%. O motivo? Ninguém soube explicar. Estávamos no começo da década de 1980. Com isso, cresci com uma vida normal, de ouvinte. Fui alfabetizado como qualquer outra criança de minha idade e a vida transcorria normalmente.
Até que, em um belo dia, aos 12 anos, fui dormir ouvindo e acordei sem ouvir. Levado a diversos médicos, inclusive famosos à época, todos chegaram a conclusão de que não sabiam o que havia causado a minha perda e que a solução era usar aparelho auditivo (AASI) no ouvido esquerdo, já que para o direito não “teria utilidade”.
A partir daí, desde os 12 anos, usei sempre aparelhos auditivos no ouvido esquerdo. Continuei minha vida normalmente em escolas comuns. No começo tive muito apoio dos professores e mesmo dos colegas de classe que me ajudavam quando os professores se esqueciam da minha particularidade. Sempre procurava sentar-me na frente da classe para acompanhar as aulas. E fazia bastante barulho para conseguir o meu objetivo: se o professor falava no fundo da sala, eu reclamava. Se os colegas conversavam demais e me atrapalhavam, eu reclamava. Notei, então que o meu gosto pela leitura, que já era grande, aumentou e meu desempenho era melhor em disciplinas em que precisava menos da explicação do professor do que dos livros.
Até os meus 12 anos de idade o fato de não contar com o ouvido direito em nada me atrapalhava porque ouvia perfeitamente com o esquerdo e tinha audição e vida de ouvinte.
As coisas se tornaram mais difíceis quando perdi a audição do ouvido esquerdo (70%). Nunca tive dificuldades de fala, pois a alfabetização como ouvinte fez toda a diferença. Mas a perda de audição mudou a minha vida ao tornar mais difícil conversar com colegas ao telefone, ao entender grupos, ao ter de pedir para repetir. Ficava mais difícil de pegar tiradas de humor rápidas. Enfim, a perda de audição – para os outros de minha idade – tornou-me diferente. E nisso, a falta de audição cobra o seu preço, que é o isolamento. Na verdade, eu conseguia com os AASI a distinguir vozes (masculina, feminina) e se é de uma pessoa específica. Mas, claro, precisava muito da leitura labial que aprendi sozinho. E nesse período, nunca precisei de acompanhamento de fonoaudióloga, exceto para manutenção do aparelho. Como consigo ouvir com o AASI, desenvolvi por característica falar alto e minha mãe, para se fazer entender por mim, acabou mudando seu hábito de falar – de baixo para alto. Uma adaptação que ela precisou fazer. Minha surdez, basicamente, me impede de entender alguém que fale por trás de mim; no escuro; ou longe de mim. Impede-me de falar ao telefone sem viva voz (não é fácil); de entender programas de TV com narrador oculto. Embora de
frente e perto a questão não se manifeste, graças a leitura labial. É claro que a surdez prejudicou enormemente, no início, minha inserção no mercado de trabalho por conta do preconceito.
Quanto ao IC, a primeira vez que ouvi falar dele foi em 1996, quando com 20 anos, ao mudar-me para Taubaté, passei com um novo otorrino, o Dr. Henrique Mercaldo. Ele julgou que eu poderia ser candidato ao implante e me encaminhou para o centrinho de Bauru. Minha família para lá me levou. Passei três dias fazendo uma série de exames, mas eles não me julgaram candidato ao IC porque eu “ouvia bem” com o AASI no lado esquerdo, desconsiderando que não ouvia nada com o ouvido direito.
Assim, a questão, para mim, morreu aí. Só voltei a ouvir falar de IC em 2008 quando, na Internet, entrei na Comunidade Surdos Oralizados no Orkut. Na verdade, essa era a primeira vez que eu tinha contato com surdos, pois as interações em minha vida sempre foram com ouvintes. Isso simplesmente porque eu não encontrava pessoas na mesma situação que eu. Já tinha visto surdos sinalizados, mas a história deles é diferente da minha. E isso era ratificado pela minha fono que sempre me dizia que eu estava no meio do caminho entre surdo e ouvinte. Não era surdo porque tinha padrão de vida de ouvinte, fala de ouvinte. E era surdo porque tinha dificuldade de ouvir e só ouvia bem com AASI.
Então, a Comunidade Surdos Oralizados foi interessante porque passei a ter contato com outras histórias de surdez e nela, conheci pessoas que usavam IC tais como a Anahí, o Marcus e o Raul. Na conversa que tive com eles, sempre associei o IC com um caso específico de surdez pré-lingual e então, a sentença da equipe de Bauru se reforçava para mim: é uma tecnologia que não serve para o meu caso. Conheci a Anahí pessoalmente, em 2009, quando ela me visitou e, conhecendo o caso dela, pela diferença do meu, acreditei, mais uma vez, que o IC não serviria para mim, pois tinha resto de audição valioso no ouvido esquerdo.
A questão do IC começou a mudar, para mim, depois que alguns fatores aconteceram: eu passei a militar no SULP, surdos usuários da língua portuguesa e a Lak passou a escrever o DNO. Meu contato com a Lak começou na SO, mas era esporádico. Aumentou quando da redação do Manifesto SULP quando passamos a dialogar (e a quebrar pau também…rs). Mas foi com o DNO que, acredito, nos tornamos amigos. Quando a Lak começou a contar a vida dela com a surdez no blog, eu descobri, finalmente, que havia alguém com uma história semelhante a minha. Ela perdeu a audição aos 10, eu aos 12, quando perdi a audição do ouvido esquerdo. Ela soube a causa, embora eu não. Mas o fato de ela ter usado AASI em meio a ouvintes e não estar satisfeita com os resultados, tal como eu, aproximava nossas histórias.
A partir do momento que a Lak contou que iria fazer o IC, no começo eu fiquei surpreso, pois tinha convicção que o implante não era para pós linguais ( e ninguém me disse o oposto). Passei a acompanhá-la, pela amizade, mas jamais me imaginando implantado. Fiquei muito feliz quando ela contou-me que estava ouvindo e mais feliz fiquei com cada progresso que ela alcançava e alcança. E foi a partir de uma conversa da Lak que ela me sugeriu – ao menos tentar conversar com o Dr. Robinson Koji. Eu fui, muito temeroso, confesso, porque ouvir tantas vezes profissionais te dizerem que não há o que fazer é muito doloroso.
E para a minha surpresa, o Dr. Koji teve uma visão que nenhuma outra pessoa teve. Por que não implantar no ouvido direito, o que não usa AASI? Para isso, ele pediu uma série de exames clínicos. A fonoaudióloga, Dra. Ana Tereza também fez uma série de exames e comprovou que era possível fazer o implante. Viu também que o nervo auditivo do OD respondia ao AASI. Ou seja, o AASI não era adequado para a perda, então o implante era adequado e viável porque havia a resposta do nervo auditivo.
Desse ponto, a maratona para o implante foi muito semelhante a da Lak. Várias consultas com o Dr. Koji, com a Dra. Ana Tereza e com a psicóloga da equipe, Dra. Heloísa que me atenderam em São Paulo. Outras tantas em Taubaté com profissionais de outras especialidades para exames e testes. Também a demora para a liberação da cirurgia foi semelhante, embora a minha espera tenha sido maior.
A cirurgia foi muito tranqüila. Devido ao meu convênio, foi realizada no Hospital SEPACO em São Paulo. Internei-me à meia-noite e às sete da manhã estava esperando para entrar na sala de cirurgia. Estava emocionado, mas o Dr. Koji e o médico anestesista me explicaram o que eu precisava saber. O mais legal é que a minha fono particular, Dra. Flávia Badaró que cuida da minha voz devido a minha profissão de professor universitário, também acompanhou a cirurgia. O procedimento foi tranqüilo. Eu vi a turma que trabalharia em mim e comecei a receber a anestesia. Que estava sendo aplicada nas costas da mão. Como eu sou chato, achei que estava doendo e reclamei. O anestesista transferiu a aplicação para o braço, mais confortável e depois nada mais vi. Dormi. Soube depois que a cirurgia durou três horas e meia. Que os resultados após o implante “foram lindos”, palavras da Dra. Ana Tereza. E soube que dei trabalho para o Dr. Koji devido a minha pele ser bem consistente e os músculos da região da cirurgia bem “altos”.
Quando acordei da cirurgia, acordei reclamando: estou com sede. Ganhei duas gotas de água e só. Só pude beber água mais de hora depois. É a única situação desagradável. Mas passa. O dia mesmo para mim correu bem. Os remédios a tomar não agradavam a meu estômago e devido a própria cirurgia tive problema de vômito. Porém, no dia seguinte, já estava bem tranqüilo. Tanto que ao ganhar alta voltei para casa dirigindo. E levei uma bronca do Dr. Koji quando ele soube. Nos primeiros dias, a gente fica com a área da cabeça inchada. No meu caso, tive que aprender a dormir de outro jeito, pois gostava de dormir com a cabeça apoiada justamente no lado do implante e não podia mais. Com o tempo vai passando e hoje
nem aparece. Só passando a mão na região para sentir uma leve saliência. Passaram-se 30 dias até a ativação. E em 16 de agosto, como a Dra. Ana Tereza estava em Congresso no exterior, quem me ativou foi a Dra. Cristina Ornelas. Na ativação fiquei surpreso com o tamanho da caixa de produtos/acessórios que vem com o implante. É enorme. Até o coala veio. A segunda surpresa é com o processo de ativação: muito simples! A fono pedia para que eu dissesse qual era a altura que eu julgava boa para cada som isolado. Fui escolhendo até que tudo foi posto. Quando ela ligou, levei um susto, pulei da cadeira. Era como se eu ouvisse um dedilhar de piano do som mais grave ao mais agudo: dó-ré-mi-fá-sol-lá-si-dó. Claro que não eram sons de nota musical. Mas para que o ouvinte entenda: era como se alguém corresse as teclas do piano e as notas soassem.
Nesse momento surgiu o primeiro problema: o imã não parava. Justamente o que o Dr. Koji previu na cirurgia: músculo alto e pele grossa pedirão imã forte. Pulei direto
do imã 2 para o 4. Comecei a usar a partir desse dia o implante. No primeiro dia, uma surpresa. Ao tomar banho, obviamente sem nenhum aparelho, notei que conseguia ouvir o barulho do chuveiro, coisa que não ouvia. Não tem explicação, mas aconteceu.
Comecei a perceber mudanças logo depois: ao voltar ao trabalho, três dias após a ativação, a minha chefe, logo ao me ouvir, me disse que a minha voz estava ainda
melhor. O que me deixou alegre.
Depois descobri que o clique de mouse faz barulho, que o teclado faz barulho. Ou seja, comecei a ouvir os pequenos barulhos, que com o AASI eu ignorava. Para o leitor ter uma noção: imagine como você se sentiria ao tomar conhecimento do muito pequeno, quando vê pela primeira vez algo diminuto no microscópio eletrônico. Você até sabe que está lá, mas ignora como é. E quando vê, no meu caso, ouve, a surpresa!
E as coisas não param por aí. Para que o leitor entenda: passei 2 dias com o Programa 1 (P1) e dois dias com o P2. E então passei para o P3 quinze dias e agora estou no P4, mais quinze dias. E desde o segundo dia, a minha fono, Dra. Flávia, está me acompanhando. Ela me disse que estou indo mais rápido do que ela pensava. Por mim mesmo, eu percebi que já consigo diferenciar se os barulhos dos saltos, se estão perto ou longe. Já consegui diferenciar os barulhos produzidos por saltos diferentes. Mas o principal é que já estou percebendo se as palavras são curtas ou longas e inclusive estou decifrando-as. De costas e de longe. O mais espetacular é que já não estou precisando tanto da leitura labial. E isso nós descobrimos de maneira bem natural: Minha fono estava conversando comigo e me ofereceu água e fez um comentário enquanto eu não olhava para ela. A novidade é que eu respondi-lhe sem me preocupar em olhar para ela. Normalmente se ela ou alguém fala quando eu não estou olhando, eu não entendo a mensagem, paro o que estiver fazendo, olho para a pessoa e peço para
repetir. Nessa vez – e não foi a única, pois ela fez outros testes quando eu não esperava – a resposta mudou. Eu continuei o diálogo sem me preocupar em ler os lábios. Com
isso, ela resolveu avançar duas semanas na terapia. E hoje, 08 de setembro, novos avanços obtive: consegui entender, pelas costas, palavras e frases que não estavam na lista de trabalho da fonoterapia!
Ou seja, estou muito feliz. Em pouco mais de 15 dias, a diferença já foi notada por minha chefe, por meu pai, pela minha fono que externaram suas visões da diferença.
É um começo muito alvissareiro para quem achava, pois assim lhe diziam, que o implante não lhe servia.
Para o futuro, espero atingir algumas metas bem ambiciosas: falar ao telefone sem viva voz e sem ajuda externa (meu maior sonho e desejo); ouvir e entender pessoas que falem comigo de longe ou por minhas costas ou no escuro; ouvir e entender qualquer programa de TV com narrador oculto.
Para finalizar, não posso deixar de externar meus agradecimentos para as pessoas que me ajudaram:
1)Minha mãe e meu pai que nunca mediram esforços em fazer por mim tudo o que podiam;
2) A Lak, que me estimulou a seguir o caminho do implante;
3) Ao Dr. Koji, Dra. Ana Tereza e equipe que me abriram as portas da audição;
4) A Dra. Flávia Badaró que faz um trabalho de voz e audição com dedicação, empenho e profissionalismo impecáveis.
É isso, Lak. Ficou longo, mas espero que possa ser útil a todos os leitores do DNO. Caso queira, conforme avançar, vou te contanto. Um abraço, Drauzio Junior.

Sabe, eu contei que “Desculpe, não ouvi!” era o nome do livro que eu escrevi há uns 10 anos anos, né? Mas não publiquei, porque ele não era tão interessante quanto o DNO. Mas, ele terminava com essas palavras “talvez um dia, eu compreenda que todas as minhas dificuldades não terão sido em vão.”

Beijinhos sonoros,
Lak

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