Era um ciclo de palestras voltado especialmente para pais de crianças candidatas ao IC ou já implantadas. Pediram pra platéia se apresentar e falei que era implantada e que escrevia um blog sobre o IC.
Na hora do almoço, ela veio na minha direção. Bonita, magra, aparentava ser bem mais jovem que eu (tenho 34 anos) e um belo sorriso, um tanto assustado. Perguntou se eu tinha companhia para o almoço, já me convidado para almoçar, de maneira implícita. Aceitei e fomos.
Ela me pediu para contar a minha história, queria saber sobre a surdez, como aprendi a falar, quando fiz o implante coclear, como estava sendo os resultados. Contei, repetindo minha história pela milésima vez, mas com a mesma paciência de quem contava algo pela primeira vez.
Ela me contou que a filha era deficiente auditiva. Que ela não sabia se nascera assim ou se tinha perdido a audição. Que ela não sabia muito sobre surdez e estava pesquisando alternativas e queria saber o que eu achava de tudo. Se gostava de usar o IC, se incomodava, se a cirurgia tinha sido ruim…
Expliquei, falei que o IC me devolveu uma parte que me faltava. Que a cirurgia tinha sido mais difícil para as pessoas que se preocupavam comigo, do que pra mim. Que a minha recuperação só foi ruim pela labirintite, mas dor não tive nenhuma e encararia de boa uma segunda cirurgia no outro lado.
Então, ela me perguntou algo engraçado “Se você fosse mãe de uma criança deficiente auditiva, faria o implante nela?”
Respondi que era fácil para eu responder isso. Eu conhecia na pele todas as situações. Sabia o que era ouvir naturalmente. Sabia o que era ser surda. Sabia o que era encarar a cirurgia. Sabia como era a ativação e todo o processo de aprendizado sonoro. Sei os pontos fortes e fracos do IC. Então sim, um filho meu, surdo, seria implantado sem o menor receio!
Ela respondeu “Então, é isso que você acha que devo fazer?”
Respondi: “Não, isso é o que eu faria. Você deve pesquisar todas as alternativas. Optar pela lingua de sinais. Optar pelo uso de próteses apenas. Optar pelo IC. Optar por tudo isso junto. Você deve pesquisar, ver o que te agrada mais em todos os sentidos e só então, fazer o que achar melhor. Não posso dizer o que você deve fazer. Só digo que, pra mim, o IC valeu a pena. Mas não se paute por mim, porque cada caso é um caso e o meu sequer serve de espelho.”
Passei o endereço do DNO pra ela e disse: “Leia, há boas histórias lá, quem sabe alguma te ajuda?”
O almoço acabou. O ciclo de palestras se encerrou. Falamo-nos algumas poucas vezes pela internet. Mas, os meses foram passando e eu não tive mais notícias.
Até que, recentemente, recebi um recado “Oi Lak, tudo bem?? Estou super feliz, porque minha filha já está implantada. Agora, estamos ansiosos a espera da ativação… E só para lembrar, muito obrigado sempre, você não sabe o quanto foi importante para mim, em um momento tão difícil… Beijos”
Chorei! Não existe palavras para expressar o sentimento de alegria transbordante que enche meu coração quando recebo algum recado assim. Não por ter mais uma criança implantada, isso me é indiferente, pois eu respeito todas as escolhas que os pais de crianças com deficiência auditiva façam, mas porque saber que pude estar presente num momento difícil de alguém e servir pra alguma coisa boa, é mágico! Hoje, dia 5 de dezembro, comemora-se o Dia Internacional do Voluntario, data criada pela ONU para incentivar e valorizar o trabalho voluntário no mundo todo. Parabéns a todos que dedicam uma parte do seu tempo para ajudar outras pessoas e contribuir para um mundo melhor!
Beijinhos sonoros,
Lak
Claro, todo mundo gosta de comer, mas eu realmente gosto de comer. Sou do tipo esganada…
Não que eu coma muito de uma vez só. Eu como em pequenas porções, mas o tempo todo. Estou sempre mastigando alguma coisa.
Por conta disso, já fui chamada de um monte de apelidos. O meu favorito é ‘Ratinha’, como Edu me chama, porque diz que sempre me ouve mexendo em algo na cozinha, feito um rato…
Mas confesso que cozinhar nunca foi meu forte. Eu cozinho relativamente bem, mas tenho uma certa preguiça de passar horas produzindo um banquete. Minha ídola de culinária é a Nigella Lawson, justamente porque os pratos que ela ensina a preparar são rápidos, práticos e ficam saborosos….
De vez em quando, me arrisco a fazer algo mais elaborado, mas sempre abusando das facilidades da cozinha.
Quando fiz o implante coclear, percebi que a cozinha é um dos lugares mais barulhentos da casa. É barulho de água, é barulho de fogo. Barulho dos eletrodomesticos. Dos utensílios. Barulho de cozinha mesmo. Já fiz alguns relatos aqui no DNO sobre descobertas e deslumbramentos sonoros que aconteceram na cozinha de casa.
Como sempre conto, o IC é um processo gradual de aprendizado sonoro, quando se ficou mais de uma década sem ouvir. Ouvir é um constante aprendizado. A gente vai formando registros de sons, aprendendo a reconhecer cada som ligado a cada coisa. É preciso ouvir um número grande de vezes, para fixar que dado barulho se refere a dada coisa, para que não se confunda com outra.
Hoje, 19 meses depois da ativação, eu já me localizo bem com sons, reconheço quando me chamam (tá, não sempre, porque sou distraida), já começo a ouvir a conversa alheia e tal… Mas, ainda me pego tendo encantamentos sonoros. Embora eles mudem de forma.
Esses dias, resolvi fazer um risoto de tomate e queijo, tarde da noite (é, eu como depois das 20hs sem complexo de culpa) e a sensação de cozinhar usando a audição como referência foi absolutamente especial.
Começou assim:
Faço o arroz no microondas. Então, na panela especial para microondas, coloco o tablete de tempero para arroz e um pouco de água numa chaleira, afim de dissolvê-lo. Enquanto pego o arroz e os outros utensílios no armário, ouço a água começar a borbulhar na chaleira. Desligo. Dissolvo o tablete, coloco o 1 copo de arroz e 2 de água. Tampo a panela com filme de pvc e furo com o garfo. Levo ao microondas. Ouço o barulhinho de ‘plim plim plim’ enquanto digito 15 minutos e o ‘vrummm’ do microondas ligado.
Saio da cozinha e volto 10 minutos depois. Começo a preparar os ingredientes que comporão o risoto. Lavo e descasco o tomate, pico a cebola. O som de picar legumes é deliciosamente inconfundível. Levo a cebola à panela para dourar, enquanto o arroz acaba de cozinhar. Ouço, então, o apito de término do microondas. Tiro o arroz e termino de juntar os ingredientes na panela. Misturo até que o tempero esteja do agrado do meu paladar e junto o arroz. Cozinho mais alguns minutos, até que o risoto começa a fazer bolhas e um barulhinho típico, que me diz claramente que está no ponto que me agrada. Saberia disso de olhos fechados.
O implante coclear não me devolve apenas a audição, ele me devolve a sensação de que a vida é plena e completa. Dá-me o direito de saboreá-la usando plenamente meus cinco sentidos!
Há cerca de um mês e meio, recebi o email de um leitor perguntando se poderia fazer um documentário sobre o blog para participar de um concurso de documentários de internet.
Obviamente, eu me senti honrada com o convite e topei.
Ficamos cerca de 2 semanas elaborando roteiro (mérito todo do Jean), realizando as filmagens e gravações de áudio. O resultado ficou surpreendentemente bom, com um detalhe: foi gravado (e legendado) totalmente em francês. Imagine o orgulho da Crisaidi, minha professora de idiomas (atualmente, só estou cursando inglês, tá?)
Finalmente, criei coragem de legendar em português, para trazê-lo ao DNO.
Duas informações pertinentes: é curto porque tinha tempo máximo. E eu não estou vendendo o IC, caso alguém diga que não serve para todo mundo. O vídeo é um relato específico do meu caso, que eu garanto que funcionou hihi
Abaixo, segue um texto descritivo para os amigos com deficiência visual poderem ter uma boa idéia do vídeo. Eu transcrevi as falas porque, obviamente, parti do pressuposto que nem todos devem ser fluentes no francês. Peço perdão pelos exageros e possíveis falhas de descrição, já que não tenho experiência com isso. Mas foi feito de coração!!
Importante, para visualizar a legenda em português, pode ser que vc precise habilitá-la. Clique no botão CC do rodapé do vídeo, caso ela não apareça automaticamente.
Texto descritivo:
“O vídeo começa com o som e a imagem de uma retroescavadeira.
O narrador diz: São Paulo capital, onde vive Lak, blogueira brasileira de 34 anos.
A imagem muda para vários prédios vistos de cima.
O narrador continua: Aos 10 anos de idade, ela perdeu a audição por sequela de caxumba.
Apareço eu, uma mulher de 34 anos com cabelos pretos lisos, apreciando a vista.
Narrador: Em 2009, a tecnologia mudou sua vida: um implante eletrônico que a permite ouvir novamente.
A cena muda para minha casa, onde apareço digitando algum num notebook. Primeiro meu rosto olhando para a tela. Depois os dedos digitando no teclado.
Narrador: Em seu blog, ela compartilha sua experiência como ouvinte Cyborg,
como ela mesma se define.
Aparece novamente a retroescavadeira.
Eu começo a narrar: Na manhã de 16 de fevereiro de 1987 acordei surda.
A imagem volta para meus dedos digitando no teclado (aparece a frase escrita, junto com a imagem: “extraido do blog, escrito por Lak em 22/05/2009), depois muda para a foto de uma orelha, em preto e branco, que vai ficando cada vez mais próxima e enchendo a tela.
Continuo falando: “Perdi a audição durante a noite. O barulho da obra, aquela maldita obra que me tirava do sono todas as manhãs havia desaparecido.”
A imagem muda novamente para edifícios vistos de cima, com a câmera se aproximando cada vez mais de uma janela. E, em seguida, volta a mostrar a retroescavadeira.
Digo então: No entanto, ao olhar pela janela, vi que a obra estava a pleno vapor.
O silêncio era meu.
A tela fica preta e aparece apenas uma frase escrita, com letra branca: “Em seguida, foram 23 anos de silêncio”
Aparece um contador de anos na tela (apenas os numeros mudando): 1987, 1988, 1989, 1990, 1991, 1992, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000
Quando chega em 2001, aparece também a palavra: Universidade
E uma foto em preto e branca minha, no dia da formatura, de beca e capelo, segurando o canudo do diploma.
O contador volta: 2002, 2003, 2004, 2005, 2006
Quando chega em 2007, aparece a palavra: Casamento
e na sequencia, uma foto em preto e branco da festa do meu casamento. Eu vestida de noiva, com flores no cabelo, o noivo sorrindo. A foto foi tirada do lado de fora de uma janela e tem a moldura da janela aparecendo. Ao fundo, aparece alguns cantores com violão e roupas antigas
Volta o contador 2008
Quando chega em 2009, aparece a palavra: Blog
E aparece uma foto minha, em preto e branco, sentada em frente do computador, com o rosto virado pra câmera, sorrindo e as mãos pousadas sobre o teclado. Na tela, aparece a imagem da página inicial do blog “Desculpe, não ouvi”
A tela fica preta de novo, apenas com o texto em branco:
“O blog acabou sendo uma revelação de partilha, de abertura,
de descobertas e encorajamento decisivo à minha decisão de fazer o Implante.”
Aparece então, uma foto do raio X do meu crânio, onde dá para ver perfeitamente a parte interna do implante coclear (um circulo, um quadrado e uma linha, que compõem essa parte do aparelho) e a frase na tela: “E em 21/10/2009 fiz a cirurgia.” E segue a frase: “Foto publicada no blog em 26/10/2009″
A tela volta a ficar preta e aparece a frase, em texto branco: “Finalmente, na quarta-feira de 16/12/2009, o implante foi ativado.”
Aparece um video gravado meu, olhando o Mar Mediterrâneo, sorrindo. Levanto os óculos escuros dos olhos, colocando sobre os cabelos e caminho em direção ao mar.
A frase “Video publicado no blog em 15/11/2010″ aparece no canto superior do video.
Enquanto olho o mar, narro em off: “O implante me permite descobrir e redescobrir os sons.”
A imagem se aproxima do solo da praia, onde as ondas suaves trazem algas do mar.
Continuo narrando: “Graças a esse pequeno aparelho eu posso ouvir o mar,”
A imagem muda para uma pessoa abrindo uma lata de refrigerante. E eu digo: “o barulhinho da lata de refrigerante sendo aberta,”
A imagem muda para uma panela, no fogo, com água fervendo e eu falo: “a água que ferve…”
Apareço, então, passando pela catraca de uma estação de metrô, caminhado em direção a escada rolante e depois, subindo essa escada. Aparece a frase, no canto superior do video “Extraído do blog, escrito por Lak em 17/12/2009″
Eu falo: “Sempre tive a sensação de que a surdez separou a minha alma em duas,
pois sempre me senti ouvinte num corpo surdo.”
A imagem muda para eu digindo meu carro. Falo então:”Eu era duas.”
Depois muda para uma imagem minha, levantando o cabelo e mostrando a parte externa do implante e sorrindo. Então, minha voz em off diz: “Quando o implante foi ativado, tive a sensação de que ele iria reunificar a minha alma”
A imagem muda para uma livraria, onde caminho entre estantes e mesas de livros. Toco num livro e continuo caminhando. Continuo narrando em off: “o que é irônico, pois me tornei metade humana, metade máquina. A partir deste dia, voltei então, a ser uma só: uma ouvinte cibernética.”
Apareço sentada numa poltrona, olhando para a câmera e falando diretamente com ela: “Eu me dou conta que compartilhar minha experiência no blog é muito importante.
Nós estamos em 2011, na era de novas tecnologias de informação.
E mesmo assim, ainda existe um monte de gente
que acha que surdos só se casam com surdos,
que surdos não dirigem, que surdos só falam com as mãos e outros equívocos.”
A imagem volta para minhas mãos digitando no teclado, depois foca meu olho e, na sequencia, aparece o monitor do notebook, onde dá para ver o administrador que uso para escever meu blog. Narro novamente em off:”Se eu posso acabar com esses preconceitos através do meu blog, todas as minhas dificuldades não terão sido em vão.”
O narrador oculto volta a falar, enquanto aparece imagens do dia a dia. Eu andando na livraria, vista de baixo. Depois uma imagem minha mexendo no celular, na sala da minha casa trabalhando no compudador. E por fim, meu rosto sorrindo, enquanto converso com alguém que não aparece no vídeo.
O narrador diz: “Muita gente pensa que a tecnologia irá acabar com as relações humanas tal como as conhecemos.
Que elas criarão gerações desconectadas com a realidade.
A história de Lak demonstra o contrário.
Ela tem orgulho de se definir com cyborg, mas o que ela compartilha na internet é um exemplo de humanidade.”
Espero que gostem… E se quiserem compartilhar, fiquem a vontade.
Vocês me perdoam? Explico. Ter perdido o emprego não foi assim, o meu sonho (e não, não teve nada a ver com a deficiência auditiva, até onde sei, foi corte da empresa mesmo, que fez muita gente ser demitida e eu, inclusa) mas aproveitei pra curtir um pouco e dar uma viajada, coisa que, salvo nas duas férias que tirei ano passado, não fazia com muita frequência. Como contei já, fui até Ilhabela e até a casa do meu pai, que fica lá no interior.
Agora em abril, eu realizei um outro sonho meu, que era conhecer o Chile, aproveitando que abril temos 2 aniversários aqui em casa: o meu e o de namoro (eu e Edu nos conhecemos no dia do meu aniversário e começamos a namorar logo depois).
Bom, já contei que eu costumo ignorar as recomendações dadas à implantados e passar em detectores de metal. Simplesmente desligo o aparelho (e isso, quando lembro!) e passo. Mas, desta vez, resolvi testar pra ver como anda o atendimento para quem prefere seguir as recomendações e não passar nos detectores de aeroporto. Aqui no Brasil, no aeroporto de Guarulhos, todo detector tem uma placa de aviso ‘Proibida a passagem de usuários de marcapasso e implantes cocleares”.
Mas, ano passado, quando fui à Argentina, passei por uma situação meio ridícula de que ninguém sabia o que fazer comigo, quando avisei que era implantada e me mandaram pro vôo sem qualquer revista.
O engraçado é que aqui pedem carteirinha de implantado (todo usuário recebe e deve estar com ela sempre à mão) e anotam junto com o número da passagem. Só que realmente não souberam o que fazer… Este ano, a oficial que me atendeu foi super simpática e sabia bem o que era o IC, mas me levou pra uma sala fechada, pra ser revistada ‘de forma privativa’. Oh, eu acho bacana revistarem a gente manualmente, mas ter que ir pra essa sala é meio chato, porque tive que largar minha bolsa, meu passaporte, minha mala de mão e minha passagem no balcão. Tudo bem que o Edu estava comigo, mas e se eu estivesse sozinha? Tipo, não gostei muito, vai? Poderiam ter me revistado manualmente na frente do detector mesmo, como fazem em todos os outros aeroportos em que estive (da Europa principalmente, que apitam até com obturação dentária).
Em contrapartida, no Chile, não tinha qualquer aviso no detector. Simplesmente virei pra oficial e disse ‘Implante Coclear’ (em português mesmo) mostrando a parte externa do IC. A moça sorriu e disse: “Passa por ali…” apontando um caminho entre detectores. Veio junto comigo e simplesmente passou o detector manual do peito pra baixo. Muito mais rápido, prático e sem sequer pedir carteirinha nenhuma, muito menos anotar coisa e me levar pra sala isolada. Em dois segundos, eu estava livre e minhas coisas não ficaram abandonadas por tempo suficiente de algum ‘simpático’ mão leve, levá-las. Tiro o chapéu pro atendimento que recebi no aeroporto chileno!!
No mais, a viagem foi uma delícia, recheada de muitos sons novos, pois estive num zoológico e pude ouvir montes de sons de bichinhos. Meu mundo, como implantada, ganha uma ‘trilha sonora’ cada vez mais maravilhosa! Algumas fotinhos da viagem, com direito a usar todos os sentidos… (eu coloquei legenda, mas sumiram quando fiz a galeria de fotos. Então, cabe a cada um descobrir qual sentido cada foto atiça.)
Beijinhos sonoros, Lak
p.s. no próximo post coloco a foto do pessoal do FIC que encontrei na Reatech…
Semana passada, querendo dar um tempo de tudo, resolvi aceitar o convite do meu pai de passar uns dias com ele lá na roça.
Bom, roça é um termo um pouco exagerado, porque ele não mora num sítio, mas numa casa de campo.
O lugar é realmente lindo, fica numa estrada de terra a uns quilômetros da cidade, que só tem 3500 habitantes, o que é praticamente um vilarejo.
Admito que não sou das pessoas mais chegadas a aventuras, porque sofro de síndrome de urbanóide, mas além de querer visitar meu pai, espairecer a cabeça, queria também conhecer os sons do campo.
É, recuperar a audição depois de 23 anos de silêncio (e sons distorcidos via AASI-> aparelho de amplificação sonora individual), minha curiosidade com cada sonzinho do mundo é imensa.
A primeira coisa que fiz quando cheguei lá foi comentar dos progressos do Implante Coclear.
Semana passada, foi também o primeiro ‘mapeamento’ do ano. Apesar de eu ainda capengar MUITO em textos open set (eu entendo algumas palavras ditas aleatoriamente, mas frases, ainda não), em contexto fechado, minha compreensão já é muito boa, o que me permite ter conversas maiorzinhas via telefone, mas ainda só com pessoas muito chegadas, que sabem que não podem se empogar hehehe
Uma foto nossa, para vocês poderem ver como é meu paizinho:
Depois, pude apreciar o silêncio do campo. Ao longe, ouvia o som de um riozinho, mas que exigia um certo esforço da mente para poder ouvir o barulho da água. Aqui em São Paulo, a poluição sonora não nos permite muito curtir o silêncio. Embora eu possa fazer isso desligando os aparelhos, é gostoso ‘ouvir o silêncio’ com eles ligados também.
Na casa do meu pai, a maior parte do tempo, só se ouvia nós dois. Os barulhos que fazíamos e, vez ou outra, o barulho dos carros que passavam na estrada. Também ouvia-se alguns barulhinhos da natureza, que eu ainda preciso de ajuda para identificar.
No dia seguinte à minha chegada, meu pai me levou para ouvir, pela primeira vez, o som de uma cachoeira. Gente, a sensação foi tão incrível, que eu gravei um videozinho de 45 segundos para demonstrar meu deslumbramento. Som de água é simplesmente a maior orquestra que a natureza nos abençoa. É o mar, é o rio, é a cachoeira, é a chuva… Deleita aos ouvidos, olhos, coração!!
Não coloquei legenda porque não tem qualquer outro som além do barulho da água. Quem não puder ouvir, pode curtir apenas o visual, igualmente lindo!
À noite, apesar de não fazer frio, meu pai acendeu a lareira e pude ouvir o som dos estalos que o fogo faz quando queima a madeira… Que delicia!! Esse som eu simplesmente não lembrava mais.
No dia seguinte, ainda tive a sorte de ouvir o som do bem-te-vi (que não consigo assimilar como ‘bem-te-vi’, ouço algo tipo ‘priii-pri-pri’ e, embora o Edu diga que ouve esse ‘bem-te-vi’, meu pai disse que ouve tal como eu, então o problema não é comigo hahaha), um grilo, uma cigarra, outros pássaros. Esses sons são lindos também, mas pela falta de conhecimento da causa, ainda precisam me explicar qual bicho faz qual barulho. Sou uma criança da cidade indo ao campo pela primeira vez!!
Foram dias maravilhosos que, mais uma vez, somente o implante coclear poderia preenchê-los tão bem!!
Amo poder ouvir tudo isso!!