Ciborgue na roça

Escrito por laklobato em 28/03/2011

Semana passada, querendo dar um tempo de tudo, resolvi aceitar o convite do meu pai de passar uns dias com ele lá na roça.
Bom, roça é um termo um pouco exagerado, porque ele não mora num sítio, mas numa casa de campo.

O lugar é realmente lindo, fica numa estrada de terra a uns quilômetros da cidade, que só tem 3500 habitantes, o que é praticamente um vilarejo.
Admito que não sou das pessoas mais chegadas a aventuras, porque sofro de síndrome de urbanóide, mas além de querer visitar meu pai, espairecer a cabeça, queria também conhecer os sons do campo.

É, recuperar a audição depois de 23 anos de silêncio (e sons distorcidos via AASI-> aparelho de amplificação sonora individual), minha curiosidade com cada sonzinho do mundo é imensa.

A primeira coisa que fiz quando cheguei lá foi comentar dos progressos do Implante Coclear.
Semana passada, foi também o primeiro ‘mapeamento’ do ano. Apesar de eu ainda capengar MUITO em textos open set (eu entendo algumas palavras ditas aleatoriamente, mas frases, ainda não), em contexto fechado, minha compreensão já é muito boa, o que me permite ter conversas maiorzinhas via telefone, mas ainda só com pessoas muito chegadas, que sabem que não podem se empogar hehehe

Uma foto nossa, para vocês poderem ver como é meu paizinho:

Depois, pude apreciar o silêncio do campo. Ao longe, ouvia o som de um riozinho, mas que exigia um certo esforço da mente para poder ouvir o barulho da água. Aqui em São Paulo, a poluição sonora não nos permite muito curtir o silêncio. Embora eu possa fazer isso desligando os aparelhos, é gostoso ‘ouvir o silêncio’ com eles ligados também.
Na casa do meu pai, a maior parte do tempo, só se ouvia nós dois. Os barulhos que fazíamos e, vez ou outra, o barulho dos carros que passavam na estrada. Também ouvia-se alguns barulhinhos da natureza, que eu ainda preciso de ajuda para identificar.

No dia seguinte à minha chegada, meu pai me levou para ouvir, pela primeira vez, o som de uma cachoeira. Gente, a sensação foi tão incrível, que eu gravei um videozinho de 45 segundos para demonstrar meu deslumbramento. Som de água é simplesmente a maior orquestra que a natureza nos abençoa. É o mar, é o rio, é a cachoeira, é a chuva… Deleita aos ouvidos, olhos, coração!!

Não coloquei legenda porque não tem qualquer outro som além do barulho da água. Quem não puder ouvir, pode curtir apenas o visual, igualmente lindo!
À noite, apesar de não fazer frio, meu pai acendeu a lareira e pude ouvir o som dos estalos que o fogo faz quando queima a madeira… Que delicia!! Esse som eu simplesmente não lembrava mais.

No dia seguinte, ainda tive a sorte de ouvir o som do bem-te-vi (que não consigo assimilar como ‘bem-te-vi’, ouço algo tipo ‘priii-pri-pri’ e, embora o Edu diga que ouve esse ‘bem-te-vi’, meu pai disse que ouve tal como eu, então o problema não é comigo hahaha), um grilo, uma cigarra, outros pássaros. Esses sons são lindos também, mas pela falta de conhecimento da causa, ainda precisam me explicar qual bicho faz qual barulho. Sou uma criança da cidade indo ao campo pela primeira vez!!
Foram dias maravilhosos que, mais uma vez, somente o implante coclear poderia preenchê-los tão bem!!
Amo poder ouvir tudo isso!!

Beijinhos sonoros,
Lak

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Delícias sonoras a dois

Escrito por laklobato em 21/03/2011

Sábado à noite, saímos para jantar. Edu queria jantar. Eu, por minha vez, bem que preferia um belo croissant com geléia.
Mas, como somos um casal democrático, do tipo que o mais faminto vence, acabamos indo a um restaurante italiano.
Para a felicidade dos meus ouvidos, que agora sofrem com locais barulhentos, o local estava tranquilo e dava para conversar sem qualquer esforço.
Num determinado momento, o garçom aproximou-se e encheu meu copo com o restante da bebida que havia na lata e perguntou-me algo, que pude perfeitamente compreender sem sequer me dar ao trabalho de virar a cabeça para ler seus lábios. Talvez eu não tenha entendido todas as palavras, mas pude assimilar, sem dificuldade, o contexto da pergunta.
Respondi repetindo a pergunta ao Edu: você quer dividir outra lata de refrigerante?
Ele respondeu que sim e eu pedi ao garçom…
Enquanto o rapaz fora buscar a bebida, eu exclamei, bem baixinho:
- Que espetáculo é poder responder uma pergunta simples, usando apenas a audição!
Rindo e segurando lágrimas que teimam em brotar dos meus olhos nessas horas de minúsculas conquistas…
Voltamos pra casa, perguntei ao Edu se ele queria ouvir música comigo.
E ficamos abraçados ouvindo músicas juntos até altas madrugadas…
Pela primeira vez em 6 anos juntos…
Pela primeira vez na vida…
Sons ínfimos.
Sons preciosos.
Sons que só o Implante Coclear poderia me proporcionar!
Beijinhos sonoros,
Lak

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Categorias: Causos silenciosos
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Encantos do som do chafariz

Escrito por laklobato em 11/03/2011

Precisei ir no Poupatempo outra vez, para resolver uma pendência.

Antigamente, eu entrava na fila como todo mundo. Mas, dado o fato que deficiência auditiva dá direito a atendimento preferencial, hoje em dia, nem discuto mais. Aviso antes de entrar na fila que sou deficiente auditiva, mostro os aparelhos e sou mandada direto pra mesa. Isso porque eu pergunto várias vezes a mesma coisa, já que agora preciso ouvir pra entender e o lugar é barulhento. É engraçado perceber que, apesar do IC ser ótimo para melhorar a comunicação, ele cria uns entraves novos, porque antes lugar barulhento não me afetava. Agora, dificulta um pouquinho!

Tenho que tirar o chapéu para a moça do atendimento. A primeira pergunta que ela fez foi: “Você quer uma interprete de Líbras?” Olha que sensacional!! Por dois motivos: 1. porque tinha interprete lá, para quem precisa e isso é fenomenal. e 2. Porque ela me perguntou se eu queria, não deduziu nada! Agradeci com um sorrisão e disse que não precisava, só queria que ela falasse sempre virada pra mim e devagar. Ela não apenas fez isso, como anotou tudo que considerava imprescindível que eu soubesse. Ahhh, se fosse assim em todos os lugares, né?

Mas, a graça do dia não foi só essa. Edu me acompanhou nessa empreitada ao Poupatempo da Sé e a gente passou por baixo do chafariz. Ele estava falando, quando ouvi e reconheci o barulho da água caindo, no meio do que ele dizia. Obviamente, meus olhos encheram d´água. Pelo reconhecimento, pelo som lindo que ouvia e, mais importante, por conseguir fazer isso enquanto ouvia a conversa do Edu. Ouvir separando sons, ouvir de maneira espontânea….

Acho que a melhor coisa do Implante Coclear, pra mim, foi a poesia que ele recolocou no mundo. Mais do que ouvir, ser capaz de escutar. Mas, escutar de verdade, tudo o que o mundo canta, fala e grita! Este é o verdadeiro milagre de estar vivo!

Beijinhos sonoros,

Lak

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Ao som do sol que se põe…

Escrito por laklobato em 24/02/2011

Por-do-sol em Ilhabela

E no post anterior, algo que deu no que falar no twitter (se alguém quiser me seguir também, não apenas ao blog, mas já aviso que posto muito e falo muita besteira: @lakl) foi o comentário do post-scriptum, vulgo P.S., sobre o som do pôr-do-sol.

Confesso que eu fiquei surpresa de ficarem surpresos, porque pra mim, o sol se pôr sempre fez barulho – pelo menos, é o que eu acho.

Saí para tomar café com o Edu após publicar o texto aqui no blog e ler a reação das pessoas. Muito porque não é só comigo que acontece isso – tenho certeza! Alguém viu Cidade dos Anjos? – mas, ninguém espera que eu ouça o que normalmente não se ouve, né? Acaba sendo surpreendente.

A conversa foi mais ou menos assim:

- Então, o povo ficou surpreso de eu ouvir o pôr-do-sol- disse eu

- Sim, só na cabeça de uma pessoa que não ouve desde os 9 anos o pôr-do-sol faria barulho, né? – respondeu ele.

Fiquei indignada

- Como assim? O pôr-do-sol não faz barulho?

- Por que faria barulho, Lak? – respondeu ele, segurando a risada.

- Porque tudo o que move faz barulho, oras. E o sol mergulha no mar, atrás das montanhas… – engraçado,  falei isso com a mesma ‘convicção’ de alguém de 6 anos, explicando o sabor das cores, mas tudo bem…

Ele não conseguiu mais segurar o riso e respondeu:

- Lak, ele se move no espaço sideral, o som não se propaga no vácuo. (embora ele saiba que é a Terra que se move e não o sol, mas o caso aí é de licença poética para explicar a impossibilidade física do som do pôr-do-sol, segundo ele)

- Vocês, ouvintes, não entendem…. –  Falei isso com pezar! Meu marido não ouve o pôr-do-sol, que triste!

- Explica, por que você acha que o sol faria barulho ao se por? – o tom dele mudou do desdém para o carinho fraterno

- Ora, eu perdi a audição aos 9 anos – resolvi mudar a tática – quando a realidade e a fantasia ainda não são distintas. Fiquei com isso na cabeça e se tornou uma regra, para mim, tudo o que se move faz barulho, a despeito das leis da física.

- É, nos desenhos animados é meio assim… –  concluiu ele – Mas… canta a música do pôr-do-sol pra mim?

Cantei, tentando imitar o som de um violino/piano, finalizado por um prato, quando sol finalmente se enterra sob o horizonte.

- Parece um hino – disse ele.

- É, o por-do-sol é algo altamente patriótico – conclui eu, finalmente rindo.

E, dei-me conta, 20 anos de silêncio me permitiram ouvir o pôr-do-sol. Nesse momento, apesar de amar os ganhos atuais do Implante Coclear vi que mesmo sem ouvir, o mundo me é mágico e me senti a pessoa mais abençoada do mundo!

beijinhos sonoros,

Lak

p.s. Um amigo fez uma tirinha brincando comigo e postou no Orkut. Amei de paixão, porque descreve bem o caminho de um implantado. Fofissima! Autoria: Alexandre

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Uau, mas isso faz barulho?

Escrito por laklobato em 23/02/2011

Praia do Portinho, Ilhabela

E quando a gente pensa que já viveu/viu/ouviu de tudo, a vida ainda nos surpreende…

Estava eu em Ilhabela – perdi o emprego semana passada de uma maneira muito injusta, mas a vida segue e aproveitei para conhecer Ilhabela – até que o Edu me disse “você não vai colocar o Implante para ouvir o mar aqui?”. Eu tinha deixado a parte externa na bolsa, por receio da maresia. Mas, nesse momento, me senti instigada a ouvir o barulho das ondas. Desafios, adoro-os.

Para a minha surpresa, o som era diferente do que eu imaginava. Comentei até “que estranho, o mar só faz barulho quando vem, não quando volta”. Ele respondeu “faz barulho quando volta também, mas é baixinho”.

Prestei atenção. Realmente faz, mas é bem mais baixo. Não sei porque eu imaginava que fosse tudo na mesma altura.

Tempos depois, voltando para São Paulo, um barulho que vinha e ia, na estrada, chamava minha atenção, mas eu não conseguia saber o que era. Finalmente, perguntei ao Edu. Ele respondeu que eram os postes pequenos (uns que ficam no canteiro central, preto e amarelos). Fiquei ressabiada. Como algo parado pode fazer barulho? Ele explicou que era o vento que o carro dissipava, ao passar perto deles. Uma explicação digna de uma criança de quatro anos hahaha

Eu ri, bobamente, surpresa com os barulhos que ainda me despertam esse entusiasmo infantil. É, ainda tenho muito deslumbramento sonoro pela frente!

Beijinhos sonoros,

Lak

p.s. mas admito que tem coisas que a minha imaginação supera, acho. Não sei se o por-do-sol faz barulho, mas sem aparelho, imagino uma melodia clássica, tocada bem baixinho.

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