Sabe aquele ditado (eu acho que é de origem judaica que sempre abre ou finaliza a maioria dos relatos de mães de implantados – ou quando falo da minha? hehehe) pois é, vou repetí-lo mais uma vez:
“E porque Deus não podia estar em todos os lugares ao mesmo instante, Ele criou as mães”
Pois é, Débora conta a história dela com o Kadu, o filhote, e faz jus de que esse ditado é verdade inegável!
Aviso: Uma caixinha de lenço à mão ajuda na leitura!
Bom dia Lak,
Você vai gostar da nossa história, tenho certeza, pois é uma linda história de amor com o implante coclear.
RELATO
Eu me chamo Débora Rodrigues da Silva, 43 anos, divorciada, contadora e sou natural de Manaus/Am.
Em 24/09/2005, nascia o mais esperado e amado bebê da minha vida, seria ele um meninão que durante todo tempo em que ainda estava em minha barriga foi sempre bem acompanhado, tratado e observado. Todos os possíveis exames foram realizados durante o pré natal, até os que não eram necessários, não poupei cuidados, até mesmo devido minha idade (38 anos na ocasião) e minhas condições de saúde, minha gestação foi considerada de risco e eu precisaria ficar algum tempo de repouso. Todas as precauções foram tomadas e crescia dentro de mim um SER muito especial, um SER que mudaria para sempre minha vida.
Diante de tantos cuidados era impossível alguma coisa dar errado, meu parto seria realizado em uma maternidade privada e minha cirurgia cesariana já estava marcada para o dia 26/10/05, tudo muito cautelosamente cuidado por mim.
Ontem, Raul Sinedino, meu amigo, me mandou um SMS “Você tem post programado para amanhã no DNO? Se não tiver, quero escrever um texto em homenagem ao Jobs”. Respondi que tudo bem, que hoje seria espaço pra ele contar como esse homem mudou a vida dele. E a minha. E a de tantas outras pessoas do planeta que se beneficiaram com a criatividade e a iniciativa de um dos maiores gênios da atualidade.
Vi algumas pessoas fazerem pouco caso com a morte do Jobs “ele nem sabia que eu existia”. Pois bem, alguém que não sabe que você existe mas transforma a sua vida, até mesmo sem que você saiba, é uma pessoa que merece ser homenageada.
Raul é surdo de nascença, oralizado e usuário do Implante Coclear, portanto, sabe melhor que ninguém como tecnologia pode abrir um mundo diante daqueles cuja natureza não segue o padrão habitual dos seres humanos e, portanto, precisa de uma mãozinha para fazer algumas coisas que a própria biologia nega!
Em uma bela manhã de um domingo de 1987 começava a minha relação com Steve Jobs. Naquele dia sequer imaginava que, 24 anos depois, ele fosse me proporcionar uma das maiores emoções que tive na vida – talvez até maior do que ouvir com o Implante Coclear pela primeira vez. Naquele ano, meu pai comprou, para uso profissional, um Macintosh da Apple, e eu me deparei, maravilhado, com aquela engenhoca. Minha afinidade com aquele computador do meu pai começou pelo logotipo lindo da maçã colorida e a tela preta com letras verdes.
Mas a identificação de verdade iniciou quando meu pai resolveu programar o jogo da forca para eu brincar e, ao mesmo tempo, melhorar o meu vocabulário, talvez um pouco defasado em relação à surdez. Sem querer, com o Macintosh, Steve Jobs já começava a incluir em seus computadores uma forma de acessibilidade para os deficientes auditivos, o que até hoje as empresas, por incompetência ou má vontade, insistem em ignorar.
No jogo da forca meu pai incluiu milhares de palavras cujo significado eu deveria descobrir antes de aparecer o boneco enforcado.
- Pai, o que significa indivíduo? – eu perguntava
- Filho, olhe o dicionário, coloque-o ao lado do computador e sempre que tiver dúvidas, consulte-o – respondia ele.
Confesso que, naquele momento, me bateu um enorme desânimo. Mas o jogo da forca, aliado ao dicionário, contribuiu para que eu desenvolvesse um excelente vocabulário. Outra vez, tentando adivinhar a palavra, comecei a pensar na vida que levava, olhando fixadamente para o logotipo colorido da maçã. Não sabia o que aquela maçã significava, mas parecia que queria me dizer: ainda vou ser sua companheira em muitos momentos da sua vida. E vou te proporcionar grandes emoções.
Depois da saída de Jobs, a maçã colorida mergulhou num período de trevas, talvez com sérias conseqüências: se olharmos para o logotipo atual, veremos que as cores foram abandonadas, não mais existem. Foi neste período que a Apple assistiu, impotente, o sucesso do Windows. Só que este cometeu um pecado mortal: suas famosas telas azuis eram almas gêmeas da falta de familiaridade sentida pelos usuários. Ao longo do tempo, tive o Win3.11 e o Windows 95, quando surgiu internet, uma das das mais importantes revoluções na minha vida, por significar uma independência parcial. Parcial, porque esbarrava, como até hoje, na falta de acessibilidade pelas quais lutamos até os dias de hoje.
Chegou o Windows 98, 2000, Milenium, Xp, Vista, Seven. Neste meio tempo, a Apple ressurgiu, mas fora da minha realidade, devido aos preços exorbitantes. Apesar disso, os produtos da Apple me fascinavam, e o logotipo da maçã ainda teimava em seduzir meus olhos.
Surgiram os smartphones e, com eles, a Apple iniciava a revolução no mundo dos celulares com o seu brinquedo de estimação, o iPhone. Apesar de iPhone 2 não chegar a ser vendido no Brasil, era possível ser visto nas mãos de alguns brasileiros que compraram o brinquedinho no exterior. Em 2008, surgiu o iPhone 3G, o qual já permitia o acesso as redes 3G, o que despertou de imediato o meu interesse.
É possível fazer vídeochamada?
- Não.
Ok, foi a minha primeira decepção. Mas a maçã ainda teimava em me perseguir. Surgiu o iPhone 3Gs.
- É possível realizar vídeochamada?
- Não – disse o vendedor, acrescentando: Mas temos o Omnia da Samsung que realiza vídeochamada.
Comprei o aparelho na hora, mas se arrependimento matasse já estava a sete palmos. Que decepção, a começar pelos toques e pelas videos chamadas com os famosos delays que dificultavam qualquer leitura labial pelos surdos oralizados.
Mas a maçã continuava atrás de mim e eu atrás dela.
Finalmente, chegou o iPhone 4 que, dessa vez, permitia as vídeos chamadas pelo Facetime. Pensei: novamente, a mesma relação de amor com a maçã, a mesma que vivi no ano de 1987. Comprei no dia do lançamento.
Mas e agora? – pensei — com quem vou testar o facetime, já que, até aquele momento, as vídeos chamadas eram realizadas só entre iPhones 4 e via wi-fi?
Passei uma semana procurando algum amigo que tivesse o iPhone 4. Sem sucesso.
Deixei para lá. Uma hora eu testo, pensei.
Numa bela manhã de domingo de 2010, Lak Lobato, uma amiga, surda oralizada que mora em São Paulo, me revelou a novidade. Disse que havia comprado o iPhone 4 e seu marido também, para que pudessem conversar, via facetime. Logo disse que eu também tinha o aparelho e combinamos testar o facetime, right now. – Me liga – disse ela.
Quando liguei, mal sabia que teria uma das maiores emoções da minha vida, sem conseguir esboçar qualquer reação. Era a minha primeira conversa no telefone em tempo real, e ela aconteceu de forma espontânea e tranquila, sem aqueles famosos delays típicos de webcam e celulares. Eu não sabia se chorava ou se continuava a conversa. E o mais engraçado é que, de início, mergulhei numa enorme confusão, pensando:
- Mas o que eu falo no telefone? O que se costuma falar no telefone? Eu nunca tinha falado com alguém no telefone.
Quem ouve pode telefonar para um amigo e contar qualquer bobagem, o que é muito bom. Nós, surdos oralizados, nunca pudemos. Num passe de mágica, a invenção de Steve Jobs acabou com a dependência e o aprisionamento emocional dos surdos.
O Steve Jobs deve achar apenas que, mais uma vez, foi responsável por um avanço na tecnologia. Com certeza, jamais irá saber da pequena revolução pessoal que provocou na vida de dois surdos oralizados em um dia do ano de 2010. Sem qualquer exagero. Um verdadeiro show de acessibilidade!
Mas a maçã ainda queria me proporcionar novos sentimentos, quando adquiri, dez meses depois, o iPad 2. Mais uma vez fiquei maravilhado com a tecnologia, e comecei a explorar os aplicativos que ele oferecia. Um deles ensinava português a estrangeiros. Pensei: pode ser bem legal se conseguir fazer treinamento auditivo com ele. Não me enganei na intuição: fiquei em êxtase ao ouvir palavras e, melhor, a identificá-las. Fiquei muito feliz de saber que ainda consigo reconhecer palavras auditivamente, uma vez que parei de fazer fonoterapia. As dificuldades são muitas e o governo não ajuda, ao abocanhar uma grande parte do meu salário, via IR, sem garantir qualquer abatimento para gastos com serviços imprescindíveis, como treinamento e terapia de voz, para os surdos oralizados. E ainda cobra imposto de importação de qualquer equipamento e produto necessários (pilhas, aparelhos auditivos, acessórios). Trata todos como bens para o mais puro entretenimento.
Mas, o que o governo rouba de mim, desde a infância – o direito a treinar ouvir e falar – a Apple de Steve Jobs me devolve, hoje, através do maravilhoso aplicativo de treinamento auditivo e do Facetime. E ainda tem outra novidade no iOS5, o despertador vibratório que, com certeza, vai facilitar a vida de muitos surdos oralizados que conquistaram a independência e moram sozinhos. É certo que a Apple cobra pelo produto, e no Brasil o preço é salgado. Mas devolve em serviço o dinheiro investido. Já com os impostos, no Brasil, eu penso que só sustento um monte de corruptos deputados.
Não é que aquela maçã, que já não era mais colorida e, sim, cinza, tinha razão e era o que tentava me dizer em um dia do ano de 1987?
Odiado ou adorado, uma coisa não podemos negar: Steve Jobs deixou um grande legado na área de acessibilidade para os surdos oralizados e também para os deficientes visuais, como disse Stevie Wonder, possibilitando o acesso antes negado. Acho que o melhor de tudo é que Steve foi embora sabendo disso. Em uma das reuniões da Apple, ele, emocionado, disse que tinha recebido um e-mail de uma mãe agradecendo a criação do iPad. Com o equipamento, a filha dela, portadora de uma doença que dificultava o aprendizado da leitura da escrita, começou a ter excelentes resultados.
Por tudo isso que me proporcionou, como também a outras pessoas, confesso que hoje foi um dia de grande tristeza , ao saber da morte de Steve Jobs. Como não tenho o poder de ressuscitar ninguém, digo apenas: Obrigado por ter existido. Nos vemos em breve, certamente!
Certamente, o Céu ganhou uma estrela às custas da Terra perder um pouco do seu brilho!
Graças à ajuda do Gilberto Muner, o DNO tem tido oportunidade de entrevistar pessoas cada vez mais importantes dessa área que abrange a deficiência auditiva. Já tivemos oportunidade de transcrever os relatos emocionantes de vários implantados, de divulgar os encontros do FIC, de facilitar à adesão de Implantados quanto a ADAP…
Agora, chega a vez de trazer a imprescindível entrevista da Fonoaudióloga Mônica Campello, que trabalha há longa data com deficientes auditivos no Instituto Nacional de Educação de Surdos.
Quando recebi as respostas, fiquei encantada com a postura da Mônica, já que temos a mesma opinião quanto ao IC: é uma decisão de foro familiar e cabe ao resto do mundo apenas informar quanto as opções: educação bilingue (Português/Líbras), Implante Coclear ou ambos. O que reforço é que uma coisa não exclui a outra. Fazer o IC não impede ninguém de aprender Líbras. E usar somente a Líbras como forma de comunicação não impede ninguém de fazer IC. Cada família deve optar por aquilo que acreditar ser o melhor e é ela, e não o Estado ou os profissionais da área de saúde ou os educadores que decidem nada, o espaço que tem é apenas de orientar e sugerir, nunca forçar nada.
Abaixo, as respostas da Mônica:
- Mônica, conte-nos um pouco sobre você. Você é de onde? Trabalha há quanto tempo como fonoaudióloga?
Olá para os leitores do “ Desculpe eu não ouvi” ! Quero agradecer o convite para estar aqui nesse cantinho onde sempre que posso faço uma “visitinha” e me delicio com os comentários e com as histórias de superação que tanto me ensinam….
Sou do Rio do Janeiro e atuo na área da surdez há 27 anos
- O que te fez escolher a Fonoaudiologia como profissão? Algum motivo especial?
Nossa ! Esta pergunta daria um livro, mas vou tentar resumir essa minha história pessoal que é especial e me faz feliz ao lembrar…
Tenho contato frequente com pessoas surdas desde que nasci.
Minha mãe é Professora aposentada do Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES – Centro de Referência Nacional na Área da Surdez e que possui aproximadamente 500 alunos surdos no seu Colégio de Aplicação e tantos outros em seu Departamento de Ensino Superior. Por isso, convivo muito próxima a eles há tempos.
Nos anos 70 muitos alunos surdos eram internos na Instituição, pois vinham de outros Estados para estudar nessa que é a única escola Pública Federal especializada para o atendimento ao surdo no País. Em muitos finais de semana convivia muito próxima aos alunos do Instituto porque enquanto os estudantes surdos cariocas voltavam às suas casas para o convívio familiar, os internos de outros Estados permaneciam na Instituição, pois era quase impossível um retorno às suas casas pela distância entre o Instituto e seus Estados. Muitas vezes esse convívio foi até bem familiar na medida que minha mãe, ao ser autorizada, os levava para passar o fim de semana conosco.. Tenho alguns amigos dessa época. Eram como meus irmãos de fim de semana. Brincávamos, saíamos, fazíamos tudo que uma família costuma fazer nessas ocasiões. Penso que este foi o começo da minha história profissional na área da surdez e escolher a Fonoaudiologia como veículo científico para lidar com a questão foi pura empatia..
- Nós temos conhecimento que você realiza um excelente trabalho no INES, então conte-nos um pouco sobre esse trabalho. Acredita que ele poderia ajudar os Implantados?
Os profissionais da Divisão de Fonoaudiologia – DIFON – do INES são especialistas na área e estão continuamente em atualização. Com a regulamentação do Teste da “Orelhinha” e por ser o INES um dos locais que realiza gratuitamente esse exame para toda a comunidade, temos recebido na Instituição muitos bebês precocemente diagnosticados com surdez. Com isso o perfil do público atendido está mudando. A DIFON atende exclusivamente aos alunos da Instituição e agora também muitos bebês surdos. Realizamos todo um trabalho de orientação aos pais, mas a escolha para o melhor caminho a seguir sempre é deles. Atendemos bebês cujos pais optaram pelo IC como também outros que fizeram a opção pelo trabalho bilíngüe, porém o Implante Coclear já é uma realidade na Instituição e estamos nesse momento nos organizando e reformulando o Projeto Político Pedagógico para também construir um programa diferenciado para atendimento a esse novo público de Surdos Implantados no INES.
– Como a direção do INES vem acolhendo a idéia do Implante Coclear?
A Diretora do Instituto, Professora Dra Solange Maria da Rocha, sabe que o Implante Coclear é uma realidade, e sua realização uma escolha das famílias. É partindo dessa constatação que o INES dialoga com seus alunos implantados e os que desejam realizar o implante. Também entendemos que há resistência política quanto ao IC por segmentos da comunidade surda e estamos atentos a isso. O INES deve garantir a livre escolha das famílias e dos alunos pela realização e pela não realização do Implante Coclear.
- Em seu consultório você atende Implantados? Se sim, você daria aos Implantados e as outros fonos sugestões de como trabalhar melhor o Implante?
Em minha prática no consultório atendo também pessoas surdas implantadas, porém é muito delicado sugerir trabalhos sem conhecer as histórias, sem conhecer cada criança; suas famílias e escolas. Um diferencial importante é quando encontramos escolas que decidem abraçar verdadeiramente a inclusão tornando-se verdadeiras parceiras no trabalho a ser desenvolvido. O que percebo cada vez mais na prática do dia- a – dia é que aqueles cujas famílias e suas escolas estão abertas, seguindo as orientações e nos procurando nos momentos de dúvidas, como também nos recebendo em diferentes momentos para pensarmos juntos sobre o melhor caminho pedagógico a seguir com o aluno, são aqueles que possuem maior sucesso escolar. A orientação frequente é um diferencial. Costumo inserir os pais ou responsáveis nos atendimentos e muitas vezes também alguns professores que se disponibilizam e vão até o consultório no horário da terapia de seus alunos. Tudo que é vivenciado é melhor assimilado, compreendido para ser reforçado na escola e em casa. Todos só têm a ganhar com isso.
- Algo que desperta um enorme carinho das pessoas por você é que, mesmo sendo uma profissional ocupadíssima e com pouco tempo livre, dedica-se há 4 anos a realizar o Encontro de Implantados do Rio de Janeiro. como você se sente neste realização?
Super feliz !!!! Acho que desde a 1ª vez que tive contato com uma pessoa surda implantada, o Roner Dawson, amigo querido que me introduziu no FIC e aos conhecimentos iniciais sobre implante, o desejo de me aproximar de vocês e mergulhar nessas histórias de superação foram ficando mais fortes…Quanto ao pouco tempo livre.. uma amiga sempre me faz lembrar que 1 hora não tem mais que 60 minutos, pois desde muito jovem a paixão pela vida e pela profissão me faz abraçar várias frentes e o Encontro Carioca de Implante Coclear é uma dessas frentes. Confesso que esse ano por estar com novas atribuições de trabalho no Instituto, tentei pedir uma licença temporária da Comissão Organizadora do Encontro, com receio de não conseguir estar tão participativa como nos outros anos, mas eles não me deixaram “licenciar” .Aos queridos Clara “Lita”, Gil Muner, Marcos Antônio, Marcus Felipe e Patty Escobar só tenho a agradecer, pois o carinho que recebi deles e a nossa amizade me deram todo suporte para continuar. Estamos a mil – super empolgados – e bolando várias surpresas para recebê-los com o mesmo carinho e entusiasmo dos outros encontros, sendo que esse ano também comemoraremos os 10 anos do Fórum de Implante Coclear com a presença já confirmada dos três moderadores, Roner, Fernando e Felipe. Ficamos muito honrados em sediar essa primeira comemoração.
- Monica, você nos daria a honra de dizer uma frase de incentivo aos que desejam uma melhor qualidade de vida?
Fui aprendendo no convívio com as pessoas surdas que muitas vezes o que para mim significa qualidade de vida, para outra pessoa pode não ser. Quando cheguei ao INES era muito nova – me fiz Fonoaudióloga aos 21 anos – e entrei com o sonho de que ensinaria a Língua Portuguesa em sua modalidade oral a todos os alunos do INES. Eu os ensinaria a falar. No decorrer dos anos fui percebendo que nem todos poderiam aprender por motivos diversos, mas que também muitos deles não se interessavam em falar. Muitos se calavam para lutar pelo reconhecimento da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS. Com isso, resolvi me abrir também para conhecê-la e tenho certeza que aprender LIBRAS fez um diferencial no meu “ ser Fonoaudióloga”. Durante todos esses anos e em convívio diário com muitas famílias, muitos surdos adultos – queridos amigos – percebo que o respeito por suas escolhas é essencial para o exercício pleno da profissão que escolhi para ensiná-los e orientá-los a exercerem sua cidadania. Aprendi sobre lutar verdadeiramente por um ideal, a ouvi-los, a aceitar o outro e todas as suas contradições e diversidades.. Frase de incentivo? Hum..poderia citar muitas, mas a mensagem que gostaria de deixar é a de que devemos respeitar o outro e suas escolhas e atuar dentro da nossa profissão sempre buscando o melhor para aquele paciente, porque cada um é único. Para ilustrar conto dois fatos: Uma ex-paciente, surda bilíngüe, bacharela em Direito, Pedagoga bilíngüe e Professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ – teve seu 1º filho – surdo. Hoje, ele está com 10 meses e ela optou, desde que foi diagnosticado com 1 mês , por não fazer o Implante. Iniciou terapia precoce e está se tornando um fofo bebê bilíngüe. Um casal de surdos conhecidos, ambos falantes da LIBRAS, teve seu 1º filho – surdo, há 8 anos atrás. Fizeram a opção pelo o Implante Coclear. Hoje em dia ele é um fofo menino bilíngüe. Os caminhos são muitos, as histórias, as famílias e por isso, precisamos ter a sensibilidade para aceitar suas escolhas e respeitar os seus desejos.
Para finalizar deixo então duas frases. A primeira do Papa João Paulo II : “O respeito à vida é fundamento de qualquer outro direito, inclusive o da liberdade”. A segunda frase de Franz Kafka : “A única coisa que temos de respeitar, porque ela nos une, é a língua“
Um beijo em todos vocês!
Comissão Organizadora do Encontro Carioca de Implante Coclear (da esquerda para direita ), Clara “Lita” (implantada ), Fga. Patrícia Escobar, Marcus Felipe ( implantado) Gil Muner (implantado) , Fga. Mônica Campello, Marcos Antônio (implantado)
Fga Mônica Campello e Milena Andrade Souza Ribeiro, bailarina e implantada há 2 dois anos e oito meses.
Milena Andrade, pequena bailarina. Detalhe no IC na orelha esquerda.
Várias vezes, aqui no DNO, citei a necessidade de haver mais intérpretes oralistas para trabalharem em apoio aos surdos oralizados.
Tudo porque, como boa parte de nós não tem fluência na Língua Brasileira de Sinais, fica difícil acompanhar os intérpretes de Líbras.
Assistir palestras, por exemplo, sempre me foi uma tarefa penosa nos meus anos de total ensurdecida. Só fui realmente apreciar isso já implantada, muito porque a acústica do auditório da FORL (Fundação de Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas) era excelente e eu estava sentada em posição de completar o audio do IC com a leitura labial.
Mas, como fazer no caso de surdos oralizados não-implantados e que não tem fluência em Líbras?
Claro, vai ter quem sugira que aprendam a Líbras fluentemente e, mais uma vez, vou insistir que a Líbras é um idioma tão complexo quanto qualquer outro e requer um bom tempo de estudo e bastante afinidade, coisa que nem todo mundo que teve a Língua Portuguesa como base linguística consegue ter.
E já que não dá para legendar todas as palestras do universo, o jeito é utilizar o recurso que temos: leitura labial, com o auxílio do intérprete oralista.
Finalmente, tive o imenso prazer de conhecer um intérprete de Líbras que já havia atuado como intérprete oralista e aceitou explicar sobre esse maravilhoso trabalho dele aqui para o DNO.
Com a palavra: Jadson Nunes:
1. Fale um pouco de você. De onde você é, qual a sua idade e formação…
Meu nome é Jadson. Sou metade Paulista e metade Sergipano (risos) tenho 18 anos e no momento sou um ex-universitário, tentei ser pedagogo, mas não me adaptei aos estágios em sala de aula.
2. Como você teve contato com a Língua de Sinais Brasileira? Qual sua opinião sobre o idioma?
Meu primeiro contato com a Comunidade Surda foi em 2002, na escola. Mas era algo bem superficial. Eu utilizava mímica e gestos para conversar com os então “mudinhos”.
Em 2006 começou um curso de Libras na Igreja em que eu freqüentava. O curso teve duração de 1 ano, entretanto ingressei já no finalzinho do segundo tempo, faltando 3 meses para acabar fui lá xeretar e me identifiquei bastante.
3. Você convive com Surdos sempre?
Sim, é surdo no café da manhã, surdo no almoço e surdo na janta kkkkk 24 horas
Ai, conta também os amigos surdocegos.
4. Há quanto tempo trabalha como intérprete?
Há 3 anos
5. Já atuou como intérperte oralista? O que acha desse trabalho?
Já atuei sim, acho da mesma importância de um intérprete de Português – Inglês, Português – Libras.
6. Como é o trabalho do intérprete oralista?
O Intérprete oralista é também conhecido como intérprete repetidor.
O trabalho do intérprete oralista, consiste na transliteração, pois envolve apenas uma língua, geralmente fica sentado na frente do surdo oralizado repetindo tudo que a pessoa do discurso diz.
7. Gostaria de deixar um contato para os surdos oralizados poderem conversar com você?
A gente fala do Implante Coclear como se fosse uma tecnologia recente. Bom, se for comparado com… sei lá, carro… realmente é novidade. Mas, os primeiros estudos foram feitos na década de 70. Ficou em fase experimental na década de 80. Nos anos 90, começo a ser feito e larga escala nos países desenvolvidos. E chegou aos SUS em 1999 aqui no Brasil. Por isso, tem gente usando o IC há mais de uma década, sabia?
Dado o fato que pouca gente sabe disso, resolvi trazer ao DNO uma entrevista com um amigo, Marcus Felipe, que usa o IC há 11 anos! Espero que gostem!
1. Você é surdo de nascença ou adquirido? Sabe a causa? Qual o grau da sua perda?
Sou surdo de nascença, tenho genes recessivos da surdez. Tenho perda de 106 dB no ouvido esquerdo, no ouvido direito não sei quanto é minha perda. Minha surdez foi aumentando com o passar dos anos, pois ela é progressiva.
2. Você usou AASI antes do IC? Qual modelo? Dos dois ouvidos? Gostava deles? Ouvia bem com eles?
Sim, uso o AASI desde os 4 anos de idade. Eu usava somente no lado esquerdo. No lado direito eu não ouvia nada. Naquela época minha perda auditiva no ouvido esquerdo era moderada, aos 14 anos ela passou a ser profunda.
3. Fez fonoterapia?
Sim, quando criança.
4. Como soube do Implante Coclear?
O meu otorrino me indicou.
5. Você foi operado em 2000, né? Onde? Como era o IC naquela época? Tinha muita diferença a cirurgia daquela época com a cirurgia atual?
Sim, fui operado em Agosto de 2000 no HC-USP por um aluno do Ricardo Bento, creio que o nome dele era Fernando. Fui a 19° pessoa a colocar o IC no HC-USP. O IC naquela época tinha somente 22 eletrodos e era de caixinha. A cirurgia era mais “grosseira”, tinha que fazer um corte grande na cabeça. Estou com uma cicatriz grande na forma de “C” que fica visível quando eu raspo a cabeça. Fiquei cerca de 3 dias no hospital.
6. Quanto tempo depois de operado você foi ativado? Com qual aparelho?
Fui ativado cerca de 40 dias depois. Meu implante era o Nucleus Spectra 22.
7. Como foi a ativação? Você gostou ou achou ruim?
Não gostei da ativação, fiquei muito decepcionado. O som era muito irritante, muito metálico, incomodava muito.
8. Quantos mapeamentos precisou fazer para realmente ficar satisfeito com a cirurgia?
Cerca de 1 ano depois eu já estava ouvindo melhor.
9. Como foram os primeiros meses de ativado? Quais foram as mudanças na sua vida?
Nos primeiros meses de ativado eu tinha muita vergonha de usar o IC. Eu não usava muito. Me sentia um ET, me sentia a única pessoa a usar o aparelho. Só ia com o IC para a rua se eu usasse um boné para tapar a anteninha e o microfone. Mas, eu fui notando uma melhora na audição.
10. Você acha que o IC fez diferença? Precisou abrir mão de alguma coisa ou faz tudo que tem vontade?
O IC faz uma enorme diferença! É muito melhor que o AASI! Hoje eu consigo falar ao telefone e ouvir música. Faço as coisas que eu gosto, faço trilhas, vou à praia, vou à sauna, luto Jiu-Jitsu (o IC fica guardado, é lógico). Fiz cursos de Inglês, Espanhol e Francês. A única coisa com que tenho que me preocupar é com os campos magnéticos fortes.
Marcus, já com o Freedom.
11. Você mudou de aparelho recentemente, né? Gostou do Freedom? Notou muita diferença?
Sim, troquei o Nucleus Spectra 22 pelo Freedom 22 em outubro de 2010. O Freedom realmente é muito melhor que o Spectra 22! Sem contar que me livrei daquele fio incômodo que ia do microfone até a caixinha!
12. Na época, havia pouco debate a respeito. O FIC também completa 10 anos, não? Você foi um dos fundadores do Forum?
Realmente o IC era muito desconhecido. Ter que lidar com o IC sem conhecer alguém que também usasse era muito complicado. Não fui um dos fundadores do FIC, eu fiquei sabendo do FIC por meio de alguma divulgação. Hoje eu tenho muitos amigos que também usam o IC e a gente se ajuda bastante. Estou sempre trazendo outros usuários para as comunidades de implante coclear, organizando encontros de implantados com a ajuda de meus amigos.
13. Fique a vontade para falar das suas próprias considerações e conquistas como cyberouvinte…
O IC realmente mudou minha vida para melhor!!! Ele me deu muita segurança para lidar com os meus desafios do dia-a-dia de forma independente! Sem contar que cada som que eu ouço é como uma música!