Desabafando: Plágio é crime digital!

Escrito por laklobato em 15/12/2011

Gente, geralmente uso o DNO mais pra contar coisas bonitas do que para reclamar.

Eu sou assim, gosto de poesia, gosto de achar o lado bonito da vida. Gosto de compartilhar, dividir e me doar. Tudo o que vivo de bom, quero que os outros possam – se assim quiserem – experimentar também.

Alias, não apenas experiências minhas, mas experiências que incentivem outras pessoas. Quantas vezes não trouxe entrevistas, relatos e textos pessoais de amigos próximos, de amigos de amigos, de gente que só conheço virtualmente, para ilustrar as páginas do DNO?

Meu blog, que alias nem é meu, é de todos nós, é uma salinha de descanso, feito para jogar conversa fora com direito a cafezinho. Tem textura de algodão doce. É o porto seguro de muita gente (essas palavras não são minhas, foram ditas por diversos leitores que são, sobretudo, parceiros de jornada).

Graças ao DNO, fui convidada para escrever em outros lugares, para contar minha história ao vivo, para fazer parte da fraternidade de implantados, que cresce a cada dia. Ele é uma parte importantíssima de quem eu sou.

Várias vezes, textos meus foram copiados para outros sites. Eu fico feliz, vou lá comentar, agradecer por espalharem minhas palavras muito mais longe do que o DNO alcança. A maioria das minhas opiniões, estou ciente, são juízo de valor, elas servem mais como conselhos do que como afirmações.

Mas hoje, pela segunda vez em pouco tempo, vi texto meu copiado na íntegra pra outros lugares, sem qualquer citação de autoria ou simples link para o texto original. Gente que se acha no direito de ‘porque achou bonito’ se apropriar das palavras de outra pessoa.

Na primeira vez, foi hardcore, porque a pessoa disse que era dela, porque ela tinha registrado em cartório. Mas, acontece que era um texto copiado com a minha autoria pra vários lugares. Inclusive, um amigo tinha a versão original em word salva no computador dele, porque foi escrito especialmente a pedido dele. Eu não quis me aborrecer, mas conversei com uma advogada e, só com essas provas, eu teria facilidade de provar SIM que o texto era meu. A revelia de outra pessoa ter registrado como dela.  Inclusive porque a minha linguagem é muito pessoal e fácil de se reconhecer. Não levei o processo a diante, porque a pessoa sumiu do mapa.

Hoje, aconteceu de novo. Só que, dessa vez, o texto estava disponível online. Esse texto meu sobre o Espaço Escuta (uma experiência subjetiva, pessoal e particular, escrita em primeira pessoa) foi copiado para outro site. Soube porque o wordpress – sistema para administrar o DNO – tem um recurso que, ao darem copy + past num texto em outro site com wordpress, ele me avisa para onde foi copiado.

Como disse, não me incomodo que textos meus sejam copiados, mas com a condição sine qua non (do Latim “sem a/o qual não pode deixar de ser”) de ser citada a autoria e haver link para o texto original. Não se trata apenas de uma questão de respeito, mas porque cópia sem citação de autoria é plágio e é um crime digital.

Reclamei lá e avisei no Facebook da situação. Vários amigos entraram reclamando sobre a copia sem citação de autoria.

Logo depois, o link foi tirado do ar e eu recebi um email mal-educado:

Prezada Lak Lobato,
Sou responsável pelo blog blablablá. A nossa intenção foi a
melhor possível, pois a idéia é sempre divulgar boas notícias e fortalecer
a causa, como no seu caso.
Não retiramos o texto diretamente do seu blog, mas sim, de um blog que
postava várias noticias interessantes e que reproduzimos.
Infelizmente, você e seus amigos, interpretaram a nossa ação de forma
errada, chamando inclusive de plágio, coisa que provavelmente você não
sabe o que é, pois plágio, é quando copiamos um texto de alguém e
assinamos como se fossemos nós os autores, e não foi o que aconteceu,
simplesmente por desconhecimento não tinhamos o seu nome para assinar.
Eu como de costume, arrumariamos o erro, pediriamos desculpas e
colocariamos o seu crédito por merecimento, mas diante de tantos e-mails
indelicados dos seus amigos, nos criticando, decidimos tirar o seu texto
do nosso blog.
Bastava nos mandar um e-mail nos comunicando a nossa falha e a autoria do
texto, que teriamos o maior prazer em arrumar, mas não foi esta a posição.
Pedimos desculpas pela falha, e comunicamos que nunca mais citaremos o seu
blog ou seus textos.
Atenciosamente

Segundo a wikipédia: “O plágio é o ato de assinar ou apresentar uma obra intelectual de qualquer natureza (texto, música, obra pictórica, fotografia, obra audiovisual, etc) contendo partes de uma obra que pertença a outra pessoa sem colocar os créditos para o autor original.”

Fazendo de conta que eu não sei o que é plágio e que as intenções deles eram as melhores, há um pequeno detalhe: o pingback gerado pelo control C + control V dado aqui no DNO. Ou seja, não se trata meramente de um caso de plágio do mais descarado, como tem gente que não sabe que copiar e colar deixa rastros e que a pessoa que fez isso tinha SIM acesso ao nome do autor do texto, além de ter SIM acesso ao link com o texto original, de onde foi copiado.

Se por acaso eles tivessem copiado meu texto de outro site, porque não citaram o autor do site de onde pegaram? Pelo menos assim eu iria reclamar com o suposto plagiador original.O mais interessante é que há centenas de textos naquele site sem qualquer citação de autoria. Inclusive textos copiados na íntegra de veículos como a Globo. Ou seja, o DNO não foi a primeira ‘vítima’ nem a única.

Mas, o que em deixa mais abismada nessa história toda é a falta de caráter e ética das pessoas. Não basta elas errarem – errar é humano, quem não erra? – mas tentarem virar vítimas da situação que elas próprias causaram, ao se apropriar de algo que não lhes era devido. Escreverem coisas tipo “Era só você avisar que o texto era seu”. Ora bolas, copiam meu texto e EU tenho que avisar que é meu? Por que não, junto de copiar o texto já não copiam também o nome do autor e o link? E precisam resolver isso ameaçando me banir do site deles? Como se o DNO dependesse do site deles, quando na verdade o site deles depende de notícias plagiadas?  Não seria muito mais fácil pedir desculpas e assumir a mancada, simplesmente colocando autoria no texto copiado?

E, o que é pior? Fazem isso com um texto feito com a proposta de ajudar outras pessoas, o texto sobre o Espaço Escuta, que é um trabalho seríssimo e importantíssimo realizado para a melhoria da qualidade de vida de crianças implantadas.

Verdadeiramente fico horrorizada de ver que além de cometerem plágio, fazem isso em cima de um trabalho feito para ajudar outras pessoas.

Em que mundo vivemos, heim?

Beijinhos sonoros,

Lak

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Em respeito à liberdade de escolha.

Escrito por laklobato em 06/11/2011

Aqui, querendo debater…

Pessoalmente, eu não tenho nada contra o povo surdo se vender como cultura, porque existe cultura skatista, cultura emo, cultura geek (não sei se no sentido antropológico do termo, mas no sentido popular do emprego ao termo CULTURA), mas enfim… E, alias, se também quiserem se comparar aos índios, negros, aborígenes ou qualquer outro povo do universo,  tranquilo.

Levando em conta que o Brasil tem 270 línguas (li alguém alegar isso, mas não confirmo, porque não estou nem um pouco afim de vagar em busca de evidências sobre o tema), embora só tenha UM idioma oficial, o português (inclusive é um dos pontos fortes do Brasil, visto sobre o ponto de vista empresarial) que faz as empresas multinacionais se animarem de vir pra cá, uma vez que apenas um idioma terá que ser ensinado aos funcionários e apenas um idioma é escrito na maioria dos produtos (salvo aqueles que seguem a regra do Mercosul e incluem o espanhol). Se os nativos das outras 269 linguas não tem direito a privilegiá-la ao português, pode até ser visto como algo meio desrespeitoso os surdos terem, mas ainda assim, tô nem ai. De repente, não batalharam pra ter a emancipação do seu idioma e, quem sabe futuramente, sigam o exemplo da Cultura Surda e o Brasil se torne como a Índia, com 2 idiomas oficiais administrativos, 23 idiomas  federais oficiais, 200 Línguas reconhecidas e mais de 2000 dialetos e o povo se comunique mesmo em hindi e num inglês macarrônico que serviu para dominarem o mercado de telemarketing dos EUA (sem ofensas, porque acho isso sensacional!).

O que pega é aceitarem essa apologia de ódio aos ouvintes e a quem compactua com a oralização. Sairem pregando que a oralização é uma tortura a que crianças são submetidas. Saírem ridicularizando a voz dos surdos oralizados. Saírem pregando contra o Implante Coclear e quererem barrar o teste da orelhinha (se alguém duvida, eu posto link de vídeos falando mal desse exame!). Saírem dizendo que todos os deficientes auditivos que não se submetem à supremacia da Cultura Surda são infelizes e não sabem. Ao ponto que são chamados de suicidas em potencial e precisam ser salvos de si mesmos. Precisam reconhecer que só existe uma verdade absoluta: só a cultura surda funciona como estilo de vida. Que só existe um caminho para a felicidade suprema. Que quem não quer aprender LIBRAS está sendo preconceituoso e blablablabla sem fim, exigindo-se aqui um respeito em via de mão única. Acho absurdo que seja permitido que, para se autoafirmar e se firmar como modo de vida aceitável, queriam exterminar quem pensa diferentes. Querer se vender como cultura, ok. Querer provar pra Deus e o mundo que são felizes assim, perfeitamente. Querem alterar a constituição pra LIBRAS virar idioma oficial junto com a língua portuguesa, tô nem aí, não opino. Mas, acho inaceitável que seja permitido que preguem o preconceito, a intolerância e o ódio com a calma que fazem. Atacarem blogs por falta de interpretação correta de texto. Mandarem email xingando mães que optam pela oralização e dizerem que é melhor pra criança surda ser morta do que oralizada! Isso sim, deveria ser passível de processo na justiça!

Pior ainda são ouvintes que compactuam com essa mentalidade e ficarem atormentando os surdos oralizados, ridicularizando a voz deles (li aqui alguém escrever que a voz dos oralizados não é, pasmem, HUMANA!), dizer que foram condicionados a pensar como pensam, simplesmente porque se acham no direito de saber sobre o outro mais que ele mesmo.
Num mundo que não existe apenas uma religião, uma filosofia de vida, uma única regra de dieta alimentar, um único time de futebol, vão exigir que todo e qualquer deficiente auditivo se comporte do jeito que dita e determina a cultura surda?

Respeito é via de mão dupla. Defendam o lado de vocês, MAS PAREM DE ATACAR QUEM NÃO QUER VIVER ISSO! PAREM DE EXIGIR QUE ESSE SEJA O ÚNICO CAMINHO ACEITÁVEL! PAREM DE IMPOR QUE SURDOS ORALIZADOS TEM QUE ENXERGAR QUE SÃO INFELIZES!
Uma coisa é você achar que está no caminho certo. Outra é achar que é o único caminho! Até segunda ordem, o Brasil é um país onde a liberdade de escolha é respeitada, portanto, não lhes cabe o direito de cercear essa liberdade.

EU E MEU BLOG DIZEMOS SIM A ORALIZAÇÃO! SIM AO PORTUGUÊS COMO PRIMEIRO IDIOMA! SIM AO USO DA PRÓTESE AUDITIVA, DO IMPLANTE COCLEAR, DO IMPLANTE BAHA e qualquer outra tecnologia que nos permita ouvir artificialmente! SIM AO TESTE DA ORELHINHA! E, SOBRE TUDO, SIM A LIBERDADE DE PODER ESCOLHER ESSA CORRENTE DE PENSAMENTO!

Não interessa se somos minoria, se somos apenas 20% da população surda (a base dessa porcentagem estatística? Comentários dos próprios defensores da comunidade surda), ainda temos o direito de existir. Deficientes auditivos representam apenas 3% da população brasileira e estão exigindo emancipação como cultura e do idioma, não é mesmo? Então, que aceitem a existência desses 20% oralizado tal qual querem que 97% da população ouvinte os aceitem.

Quem quiser pensar e agir diferente, tem o mesmo direito que eu. Mas, em momento algum, tem direito de me atacar por pensar como penso!

beijinhos sonoros,

Lak

p.s. E aos ouvintes que compactuam com a cultura surda e se acham no direito de ridicularizar a voz do surdo oralizado, fiquem ciente que não importa que a nossa voz soe como o grasnado de uma avestruz ou um zunido de besouro, se um deficiente auditivo consegue se fazer entender perfeitamente com a voz oral, ele tem todo o direito de usá-la! E vocês não tem o direito de ridicularizá-los por isso, tentando usar da vergonha para justificar que deveriam abraçar tão e somente a língua de sinais! Vocês podem ter vozes bonitas e sonoras, mas as palavras amargas que proferem torna vocês os verdadeiros monstros!

E um vídeo que considero altamente inspirador quando se fala em acabar com o ódio:

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Rumo à ditadura?

Escrito por laklobato em 12/09/2011

Evito o máximo que posso falar sobre LIBRAS aqui no DNO simplesmente porque não faz parte da minha realidade e chega uma hora que cansa de ficar dando respostas diplomáticas “não tenho nada contra”, porque muita gente entende isso como psicologia reversa e acha que tenho algo contra sim.

Sinceramente? Acho um porre deficiência auditiva ser confundida com LIBRAS e me ver obrigada a abordar esse tema toda hora. Como reclamei no meu post de quarta passada, quero liberdade pra falar de surdez sem ter que entrar no assunto “língua de sinais” porque existe um grupo que não a utiliza e que precisa ser divulgado também.

Mas, vez em quando, aparece umas situações que fica praticamente impossível não entrar nesse assunto. Semana passada, fiquei sabendo que existe um projeto de lei para exigir toda a educação básica de deficientes deficientes auditivos de qualquer nível ser obrigatoriamente ser feita em LIBRAS.  O autor desse projeto é senador Cristovam Buarque. Quem acha que é exagero meu, dá uma lida nessa matéria do Correio do Brasil: Comunicação por Libras poderá ser obrigatória para alunos deficientes auditivos da educação básica.

Veja bem, uma coisa é a escola especial com educação bilíngue estar à disposição de quem acredita que esse é o melhor caminho para as crianças com deficiência auditiva. Outra, bem diferente, é exigir que esse seja a única opção de educação disponível.

É certo exigir que um deficiente auditivo de grau moderado, com boa compreensão da fala com apoio de aparelho seja forçado a estudar obrigatoriamente através da LIBRAS? Ou uma criança implantada antes dos 2 anos, com 90% de chance de ter audição similar a de ouvintes, que nem mesmo utiliza a leitura labial, ser forçada a isso? E uma criança que perdeu a audição depois da aquisição da fala e se vira perfeitamente por leitura labial? Ou simplesmente negar à familia o direito de escolher qual tipo de educação prefere para a criança, num país onde se respeita escolha de credo, religião, alimentação, time de futebol e várias outras coisas? Onde está o respeito por aqueles que optam não ter LIBRAS como Língua 1 ou simplesmente não querem aprender?

Que a LIBRAS deve ser oferecida como opção, não dou palpite. Mas oferecer é bem diferente de impor e negar qualquer alternativa. Direito e dever são coisas bem diferentes.

Eu concordo com a lei da LIBRAS, que deve ser uma forma de comunicação das comunidades surdas reconhecida pro lei. Concordo com acessibilidade através dela. Concordo que haja intérpretes de LIBRAS em tudo que é lugar e cursos de LIBRAS a disposição da população que se interesse de aprender. Mas discordo piamente que ela é uma obrigação de todo deficiente auditivo e que tem que ser a primeira e principal língua utilizada por todo e qualquer deficiente auditivo de qualquer grau. Isso é uma escolha de foro íntimo, de núcleo familiar. E não pode ser o governo ou a cultura surda a decidir. Os pais devem ter autonomia do que consideram melhor para seus filhos. Assim como a própria criança ensurdecida depois da aquisição da fala, deve ter o direito garantido de manter o português como primeiro (ou único idioma). Esse projeto de lei fere o direito de escolha individual!!

Da mesma forma que pedem respeito pela LIBRAS, é preciso que respeitem também a opção de quem prefere português como primeiro idioma. E/ou quem tem afinidade com aparelhos e implantes auditivos. E/ou quem perde a audição e quer manter o idioma que sempre falou. O respeito deve ser sempre em via de mão dupla, nunca exigido apenas de um dos lados!

E o pior, enquanto debatemos isso, vem nego dizer que não podemos ser exemplo de nada, porque nem todas as crianças surdas tem a mesma condição que nós. Acho um desaforo essa mania de alguns de nivelar tudo por baixo. Quer dizer que se os pais tem condição de pagar fono, dar aparelho ao filho, todo o suporte de apoio para que ele esteja numa escola inclusiva que corresponda às necessidades dele a ponto da lingua portuguesa ser tida como primeiro idioma da criança, ela não tem o direito de optar por isso, só porque tem crianças que não tem o mesmo acesso?

Será mesmo que essas pessoas que exigem essa conivência da nossa parte com uma lei que prega a DITADURA da LIBRAS, que nega o direito de escolha educacional à família, deixa de comer comida de boa qualidade ou comprar coisas de boa qualidade, só porque a maior parte dos brasileiros não tem acesso ao mesmo?

Fácil exigir que o outro seja humilde e comportado, assistindo de longe. Pimenta nos olhos dos outros é refresco, não é mesmo?

Em tempo, eu respeito a lingua de sinais sim, embora prefira não debater o assunto. Mas, jamais vou respeitar DITADURAS! Não se nega ao cidadão o direito de escolha, principalmente em casos como esse!

Beijinhos sonoros,

Lak

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Acessibilidade para surdos oralizados e as polêmicas

Escrito por laklobato em 07/09/2011

Imagem de uma passeata antiga, dos tempos da ditadura, com um grande numero de pessoas. E uma faixa aplicada com as palavras #acessibilidade #SurdosOralizados e imagem do logo do twitter (desenho de um passarinho azul) segurando uma placa escrito "twittaço"

Continuando a saga da nossa luta pró acessibilidade em bancos, empresas e mais um montão de coisas. O que temos observado, ao longo dessa semana que nos mobilizamos para debater, além de acessibilidade, a divulgação do nosso grupo de  surdos oralizados, é que falar de deficiência auditiva sem focar na LIBRAS é quase cometer um crime.

Veja bem, a nossa luta não invalida a luta de quem usa LIBRAS. Em momento  algum falamos contra ela. Só dizemos que ela não contempla as necessidades de todo e qualquer deficiente auditivo. E que surdos oralizados existem e que precisam de acessibilidade. Boa parte das coisas que pedimos  servem para todos os deficientes auditivos, a revelia se são oralizados, sinalizados, bilingues ou bimodais. Se são surdos adquiridos ou congênitos. Se são pré, peri ou pós linguais.

Mas, damos ênfase no grupo de surdos oralizados justamente porque nosso grupo tem pouca divulgação e muita gente nem sabe que existimos. Daí, quando se depara com um surdo oralizado, acha que é um caso raríssimo e por isso, nem deve ser considerado como um grupo que precisa de acessibilidade. Ou acha que não precisamos de nada, já que “estamos tão bem”. Divulgamos o grupo junto com a solicitação de acessibilidade, estamos aproveitando o gancho apenas para debater dois assuntos relevantes…

Só que, durante essa divulgação, aparece um monte de gente reclamando como se falar de surdos oralizados fosse crime. Como ousar falar sobre deficiencia auditiva sem focar na LIBRAS fosse uma ofensa. Veja bem, não estamos falando contra ela, ninguém disse que é desnecessária ou dispensável. Apenas estamos dizemos que nem todo deficiente auditivo se comunica através da LIBRAS somente.

Mais de uma vez, me vi discutindo com alguém que dizia que surdos oralizados não existem. Ou que é um absurdo essa divisão entre os grupos de deficientes auditivos. Ou até falando mal da oralização. Sendo que nossa luta em momento algum fala mal da LIBRAS. Nós reconhecemos a importância da língua de sinais, achamos ótimo que a Lei da LIBRAS esteja em vigor. Sabemos que é fundamental que haja acessibilidade através dela e que é preciso ter interprete em todos os lugares públicos. Mas, ainda assim, os surdos oralizados existem e precisam de acessibilidade também.

O problema maior, talvez, seja o fato das pessoas esquecerem que deficiência pode ser adquirida. E em qualquer momento da vida. Que uma pessoa pode perder a audição de uma hora pra outra. E que talvez não queira aprender outro idioma – sim, porque a LIBRAS é um idioma inteiro, não apenas uma outra forma de comunicação – porque já tem uma língua base.

Teve alguém que me acusou de discriminar os outros surdos e disse que era crime. Respondi que falar de um grupo não invalida o outro. Não negamos que existem surdos que preferem ou só usam LIBRAS, só estamos dando foco no nosso grupo simplesmente porque ninguém o conhece.

Outro foi dizendo: “Surdo oralizado são minoria, então vocês não podem se pautar em vocês”. Simplesmente respondi: “Só porque somos minoria não temos o direito de existir? Nem de reinvindicar o que precisamos?”.

Será mesmo que é tão ofensivo assim falar de surdez sem falar também de LIBRAS? Será que pedir para as necessidades de surdos que falam somente português é tão prejudicial à luta do outro grupo assim? Por que é tão importante invalidar a nossa existência? Por que é tão importante tentar homogenizar os deficientes auditivos e impor à LIBRAS aos oralizados? Essa imposição soa menos injusta que forçar um surdo sinalizado a falar oralmente ou impor o português a eles, por quê?

Não seria mais fácil admitir que existe dois grupos com necessidades distintas, promover acessibilidade a ambos e coexistir em harmonia, sem que as necessidades de um grupo se sobreponha às necessidades do outro grupo?

Tenho certeza que o mundo é grande o bastante para ter espaço suficiente para ambos!

Beijinhos

Lak

 

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Campanha: Videoaulas Legendadas para Concurseiros Surdos Oralizados

Escrito por laklobato em 17/08/2011

A idéia é de uma amiga, Marcela, que também é surda oralizada.

Quem não tem  deficiência não sabe, mas deficiente vive ouvindo que deveria prestar concurso pelo fato de termos direito a cota. Basta a gente reclamar do emprego ou estar desempregado que falam isso “presta concurso”.

Aqui entre nós, nada contra concursos, mas acho meio chato ser a única opção além de trabalhar em ONGs, mas estamos ai. Tem gente que prefere mesmo ser funcionário público e, se é mais fácil pra gente entrar (por ter menos concorrência) por que não?

Esses dias, estava conversando com Marcela a respeito, porque ela tem vontade de prestar concurso. O problema é que concursos, em geral, pedem muita matéria e fazer cursinho preparatório é a melhor saída.

Porém, aí mora um impasse: “Como acompanhar as aulas sendo surdo oralizado?”. Como eu nunca fiz cursinho, nem me arrisco a opinar a respeito, então aqui vai relato da Marcela a respeito da experiência dela:

“Eu me matriculei em um cursinho preparatório para concursos muito famoso aqui em São Paulo capital. Desde o começo, quando fui efetuar a matrícula, expliquei que era surda e que precisava fazer leitura labial, portanto, precisava que os professores estivessem de frente para mim quando dessem as aulas. Eles prontamente me falaram: “Claro, pode deixar, avisaremos os professores, eles vão falar olhando pra vc, o coordenador vai explicar o seu caso para cada um deles, não se preocupe etc etc.”

Isso foi na teoria, né? Antes de começar as aulas, eu pessoalmente ia falar com cada professor e explicava que eu era surda, que precisava de leitura labial, se ele poderia fazer a gentileza de falar olhando pra mim, enfim, explicava tudo. Agora, quantos daqueles professores já sabiam, de antemão, que eu era surda? Nenhum deles aparentou já estar sabendo de algo previamente. Ou seja, se eu não avisasse, ficaria por isso mesmo e fim. E a promessa da coordenação de avisar a todos os professores antecipadamente? Nada, né? Enfim… Mas voltando aos professores, todos eles, quando avisados da minha dificuldade, me respondiam: “Claro, pode deixar, vou prestar atenção a isso, fique tranquila…”

Só que, na prática, mesmo sabendo que eu era surda, na correria da aula, muitos deles falavam mais rápido do que eu poderia ou conseguiria acompanhar. Outros, pelo seu estilo de dar aulas, ficavam dando voltas pela sala… eu tinha que ficar girando meu pescoço pra lá e pra cá. Nessas horas seria bom ter um pescoço que girasse 360 graus! E quando o professor ia para os fundos da sala? O jeito era me resignar, a não ser que eu pegasse o professor pelo braço e falasse: “Por favor, fique aqui na minha frente, eu sou surda e preciso ler seus lábios.” Confesso que cheguei a fazer isso uma vez, e o professor ficou olhando para mim com uma cara de: “O quê?”. Morri de vergonha e nunca mais fiz isso.

Acho que muitos, por falta de informação, não compreendem que um surdo pode ser capaz de falar e se comunicar normalmente…

É muito difícil ser surdo oralizado. Há um preconceito velado, porque, ao mesmo tempo em que você, sendo surdo oralizado, tem mais autonomia que um surdo sinalizado, o pensamento geral dos ouvintes é o seguinte: “Você fala e se comunica, né? Você entende as pessoas por leitura labial, você é independente, se vira, então, por que você precisa de acessibilidade, se vocêentende tudo por meio da leitura labial?”

Acontece que as coisas não são bem assim… a leitura labial é falha, principalmente se um professor fala muito rápido ou tem o hábito de andar pela classe. Dificulta enormemente ter que se concentrar em ler os lábios de pessoa que não para de andar pela sala! E quando uma explicação crucial está sendo dada e o professor, bem na hora H, se vira em direção à lousa e fala virado par a lousa? Eu tenho vontade de gritar nessas horas!

Só que gritar só adianta se nós, surdos oralizados, pudermos ser ouvidos… por isso, fica aqui o meu apelo. A melhor forma de acessibilidade que consigo vislumbrar agora são as vídeo-aulas legendadas, já que, dessa forma, a liberdade do professor de dar aulas não seria tolhida e, ao mesmo tempo, o acesso à informação pelo surdo ficaria muito mais fácil…”

Aí começa aquela história: legenda é caro e difícil e blablablá. Não é bem assim. O problema é falta de interesse. É acharem que não existe demanda. Legendar não tem nada de caro.  Ainda mais se os videos estiverem disponíveis na internet.  Qualquer um pode baixar um programa de legendagem pela internet. Basta apenas um pouco de paciência pra copiar tudo que é dito e inserir no vídeo. No Youtube mesmo, é automático a inserção de legenda em vídeo (uma vez tendo o arquivo do texto transcrito). Só que precisa ser ouvinte pra fazer isso, senão eu mesma faria. Precisa ouvir toda a aula e copiar todo o texto pro arquivo de legenda. Não é apenas barato, como dá pra baixar esse programa de graça. É trabalhoso, porque exige tempo. Mas quantas coisas exigem tempo e assim mesmo são feitas porque pessoas precisam delas?

Então, pessoas, vamos lançar uma campanha para que haja videoaulas legendadas para concurseiros surdos oralizados? Tenho certeza que existe demanda SIM, afinal muitos de nós tem interesse de prestar concurso, não é mesmo?

Beijinhos,

Lak

 

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