Qual é o limite?

Escrito por laklobato em 19/06/2010

Essa semana, eu tive um aborrecimento daqueles que você pensa “mas pra quê, heim?”, mas que no fim, acabou me fazendo pensar num monte de coisas, por conta de uma auto-análise forçada.

Tenho o hábito de ser otimista em excesso, porque sempre acho que tudo tem um lado bom, basta a gente cavar nem que seja bancando o arqueólogo. Mas, na verdade, isso também é uma defesa minha, porque eu não gosto das coisas ruins e acho que elas, infelizmente, prevalescem demais, basta assistir a qualquer telejornal…

Estava eu matando o tempo no orkut – um vício terrível, admito – quando uma pessoa começou, mais uma vez, a pegar no meu pé e distorcer uma analogia que fiz. Depois de eu falar de uma maneira seca pra ela ir pegar no pé de outro, ela respondeu que eu postava bobagens. Pela reincidência e porque ela já tinha me falando uns disparates anteriormente, eu respondi que ela postava coisas ordinárias (no sentido de comuns, pobres de conteúdo) e ela resolveu responder: “sua SURDA mal criada”. E exatamente porquê não era a primeira vez que ela apelava pra deficiência como arma, usei o adjetivo ordinário pra definir o naipe das postagens dela.

Na hora, minha reação foi apenas chamá-la de volta à razão “leia direito o que eu escrevi, pra ver se essa reação tem lógica, eu não te chamei de ordinária, disse que você escreve coisas ordinárias”, mas como ela não estava fim de entender, acabou seguindo-se por uma série de “sua surda isso, sua surda aquilo, você é surda mesmo, sua arrogante”. Veja bem, eu jamais omiti essa deficiência que me acompanha há anos e, a priori, não deveria ser uma ofensa. Tenho um amigo que, quando quer me encher o saco, me chama de “surda inútil” e isso só me arranca gargalhadas. Mas, no caso dela, é uma arma que ela usa, na tentativa de me diminuir como pessoa. Como se eu merecesse menos respeito por ser surda.

Ela também disse que eu “induzi” ela a usar isso, pra poder me fazer de coitada. Só que quem evocou isso foi ela. Veja bem, ela pode usar a deficiencia que tenho como arma, mas se eu reclamo, estou me fazendo de vítima. 2 pesos e 2 medidas bem distintas.

Enfim, baixaria sempre incomoda, mesmo quando a gente leva a situação numa boa. E isso acabou me fazendo pensar num monte de coisas.

Pensei se escrever esse blog realmente é uma boa, porque ele me expõe muito e eu acabo meio que virando um exemplo de vida. E ser exemplo de vida tem seu preço. Eu me policio muito mais nas coisas que digo, porque sei que tem quem valorize cada palavra minha. E EU não ganho nada pra fazer isso, não escrevo esse blog pra me sentir bem. Faço, porque acredito que haja quem precise dele, faço de coração aberto e a única compensação que tenho é saber que ajudei outras pessoas. Afinal de contas, quando precisei de ajuda, sempre tive. Não custa nada retribuir.

Várias vezes, o Jairo (do blog Assim Como Você e atualmente, colunista quinzenal do caderno Cotidiano da Folha de São Paulo) me deu puxões de orelha e disse: “Lak, você não pode fazer isso ou falar aquilo, porque você é representante de uma classe e isso gera responsabilidade.” Eu até fiquei braba com ele na hora, mas entendo muito bem o que ele quer dizer. E, nessas horas de babaquice alheia, eu não posso simplesmente partir pra baixaria também, porque fica feio pra minha condição atual. E isso pesa.

Também pensei se meus conselhos estão tão certos quanto eu acho que estão. Porque esse tipo de situação, por mais boba que seja, magoa. E eu sou forte pra caramba, já aguentei uns trancos que nem eu acredito depois, mas não tenho como saber se todo mundo também é tão forte e, a longo prazo, o que eu faço aqui, não estaria, na verdade, ajudando a mandar pessoas inocentes pra arena de leões.
Mas, felizmente, eu tenho anjos à minha volta e uma amiga me lembrou que querer proteger quem a gente gosta (e eu me sinto num compromisso com meus leitores) é uma atitude nobre, mas também caleja. Portanto, eu não estou mandando ninguém pra arena, apenas estou servindo de exemplo pra mostrar que é possivel sobreviver nela. E, bem ou mal, todo mundo tem as suas provações. “Tirar o meu da reta”, a essa altura do campeonato, é que seria uma atitude covarde.

Por fim, comecei a pensar no que realmente tinha me incomodado: a permissividade.

A gente acha que é bobeira, que não faz mal. Foi só um xingamento no meio de uma briga de ânimos exaltados. Mas, é exatamente essa permissividade que vira uma bola de neve. Não me incomodo se uma infeliz me xinga. Aí, ela vai até o shopping e pára em vaga de deficiente. E porque eu não quero arrumar problemas pra mim, faço vista grossa quando vejo um não-deficiente ocupar aquela vaga. Ou, se não faço vista grossa e reclamo, ele ainda acha que está com a razão e parte pra pancadaria (tal qual aquele monstro de Porto Alegre, vocês lembram?). Daí, é o cadeirante que passa em primeiro lugar no concurso e dão a vaga pro segundo colocado, porque acham que ele não tem condições e ele tem que entrar com recursos. É o prefeito da cidade pequena que diz que uma cega não pode cuidar de crianças, mesmo também tendo passado em primeiro lugar num concurso…

É a mania da nossa sociedade de fazer vista grossa pra tudo e achar que bobagenzinhas podem passar despercebidas, porque afinal de contas, é apenas bobagens e não importam. Ou que não somos nós que vamos mudar o mundo.

Importa sim. Baixaria sempre importa. E quem acha justificável usar a deficiência para agredir alguém, também acha justificável parar em vaga exclusiva ou utilizar banheiro adaptado. Acha bonito falar no meio de uma sala de aula que é um absurdo um deficiente ganhar o mesmo salário que outra pessoa sem deficiência, cumprindo exatamente a mesma função, mesmo que a deficiência não impeça a produtividade dele em nada.

Então, me dou conta de que o que eu quero é que eu, você, toda a sociedade, pare e pense se a permissividade excessiva não prejudica a todos nós, de uma maneira ou de outra. Afinal, a mesma mão que apara um tapa, também pode ser usada pra retribuí-lo…

Não, não acho que relevar seja sempre a melhor atitude.

Beijinhos sonoros,

Lak

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Jogado em debates

 

Elucubrações Musicais

Escrito por laklobato em 28/04/2010

Nos últimos meses, minha vida tem sido uma constante série de (re)descobertas através a percepção sonora. Ouvir é o sentido do qual fui privada por mais de duas décadas e, portanto, praticamente tudo para mim, é novidade. Como se eu fosse uma criança em corpo de adulto já crescido, tendo que reaprender a fazer o óbvio.

Longe disso ser uma reclamação. Na verdade, é um daqueles deslumbres paralizantes…

Mais do que ouvir, esse aprendizado consiste em escutar, compreender, entender, assimilar, criar repertório. A audição, ao contrário da visão e do tato, que são imediatos (ou quase) requer interpretação ao ser acionado áreas muito específicas do cérebro.

É claro que, para quem ouve naturalmente desde nasceu, isso parece ilógico, porque na cabeça da maioria, para alguém que tem perda auditiva, bastaria aumentar o som que a pessoa ouvisse com clareza e exatamente igual ao que ouve.

Não é assim porque geralmente as perdas são desiguais conforme a frequência e, de muitas formas, o som é ouvindo de forma distorcida.

No caso de implantados, a gente também não ouve naturalmente. Ouve através de um processador artificial, portanto, tem que criar sinapses específicas para decodificar o som transmitido por ele. Soa diferente sim, porque é um som feito por uma máquina, mas na cabeça de quem ouve assim, ESSA é a forma-referência que se torna, pra nós, a natural. Questão de ponto de percepção.

Mas, o meu deslumbramento atual é com a música. A princípio, ouvir música é uma coisa tão óbvia para mim quando para um ouvinte. Nasci ouvindo e compreendo bem porquê se ouve música. Ainda que eu não tenha o mesmo hábito que a maioria. Percebo que a música causa uma espécie de “identidade emocional”. As pessoas ouvem música de acordo com o estado de espirito que sentem ou conforme querem sentir: Música para acordar, para dormir, para trabalhar, para dirigir, para dançar…

E isso, pra mim, soa absolutamente estranho, já que geralmente essa identidade se forma na pré-adolescência, justamente quando tive meu desenvolvimento sonoro interrompido. Ouvir música, pra mim, soava mais ou menos como um mero passatempo.

Ontem, resolvi ouvir “Wish You Were Here” (Pink Floyd) simplesmente porque alguém, há muito tempo, me deu a letra dessa música e eu a decorei. No entanto, por ser uma música muito lenta, nos primeiros meses de implantada eu ainda tinha dificuldade de perceber todos os tipos de música. Adorei ouvir essa música pela primeira vez e tal, achei-a linda (e confesso que mais lenta do que eu imaginava).

Mas, o que me causa esse instante de reflexão, é que até seis meses atrás, audição para mim, limitáva-se a presença e ausência de sons. Portanto, ouvir música é um passo astronômico no quesito ouvir.

A minha surpresa veio nessa exploração musico-sonora de ontem. Ouvir aquela música me fez querer ouvir outras. Definitivamente, eu adoro Jazz e, por enquanto, é a minha absoluta preferência. (esse comentário é mais pra mim do que pra vocês, com o propósito de saber se em 1 ano de repertório essa preferência irá se manter).

Enfim, mas o que me causou espanto, foi o seguinte…

Na brincadeira, resolvi procurar “Marcha Fúnebre” do Chopin, simplesmente porque tal como “DoRéMiFá” é uma das pouquissimas músicas que eu me lembro exatamente da música e seria capaz de reproduzir, se soubesse tocar algum coisa. Nisso, eu confirmei que a música tem realmente um trecho exato como eu me lembrava. Porém, a minha surpresa foi que  ela, apesar de não ser uma música com a qual eu tenho um histórico sentimental (conheço porque toca(va) em desenhos animados) ela parecia ter acionado uma área adormecida do meu cérebro que me fazia sentir “saudade”, “falta”. Pensei “como isso é possível?”

Eu sei que, pra quem ouve, parece óbvio. Mas pra mim, é como se eu fosse um alienígena de um planeta sem música que acabou de chegar na Terra e não entende como aquilo que eu não posso ver nem tocar, me causa uma emoção tão específica. Pensei “provavelmente, é porque lembro dessa música da minha infância”. Tentei outra música clássica – porque a música classica é, pra mim, a forma mais pura de música – Requiém, de Mozart. E me deu uma vontade imensa de chorar, embora eu estivesse estupefante de emoção (até comentaram aqui, hoje, que a expressão do meu rosto está parecendo de criança, com olhinhos brilhantes e rosto ‘aberto’). E fiquei deslumbrada de perceber que a música tem a capacidade de acionar áreas emocionais específicas do cérebro…

Uma área, inclusive, que ficou adormecida em mim ao longo de duas décadas. Que me fez compreender uma coisa que sempre me intrigou: Quando eu era ouvinte, era excelente em matemática (minha matéria favorita no primário). Quando perdi a audição, comecei a ter dificuldades nessa matéria, que passou a ser o meu pesadelo (foi um declínio gradual, quanto mais tempo de surdez eu tinha, mais dificuldade tinha com a matemática). Passando a ser boa em matérias de humanas – português, história e geografia – as quais detestava quando criança. Nunca tinha entendido o porquê disso, até hoje de manhã: reprogramação neurológica. Por uma questão de adormecimento das  áreas do cérebro que regem música/matemática e fortalecimento das áreas que regem a comunicação (uma questão de puro instindo de sobrevivência!!).

Não sei se isso é uma regra, nem digo que surdos tenham, necessariamente, dificuldade em matemática. Falo específicamente do meu caso, que fique claro.

Mas, percebo que, se eu não tivesse ficado surda, seria alguém absolutamente diferente de quem eu sou hoje. Não pela experiência de vida somente, mas pelo próprio funcionamento do meu cérebro. De repente, a vida se tornou um laboratório e eu, de uma só vez, tornei-me minha pesquisadora e a própria cobaia. Fascinante!

Beijinhos sonoros,

Lak

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Poupe-me tempo

Escrito por laklobato em 10/02/2010

Sei que muita gente lê o blog, acha fofo mas não comenta, porque comentário massagem-no-ego não é o forte de todo mundo, nem o objetivo do blog (embora eu adore, claro).

Mas o post de hoje tem a proposta de debate e quem quiser deixar a opinião, eu agradeceria muito, porque realmente é algo que ficou me martelando na cabeça agora pela manhã.

Hoje, acordei as 5h30 da matina porque precisava tirar uma 18ª via (exagero, mas deve ser lá pela 4ª via) do meu RG e resolvi chegar o mais cedo possível, pra não comprometer meu horário de trabalho, mesmo tendo avisado o chefe que chegaria tarde…

Tinham me falado que o Poupatempo da Sé (sou de Sampa Capital, caso alguém não saiba) era o mais organizado e foi lá que fui.

Sai de casa 6h, ainda escuro – deu até medo porque achei que as ruas estariam desertas, mas felizmente descobri que não era o caso – peguei um ônibus relativamente vazio e um metrô também vazio. Cheguei lá e já tinha uma fila monstruosa, mas decidi encará-la assim mesmo, dada a falta de opção e a necessidade urgente de um RG novo…

Enfim, 40 minutos depois, sou atendida por uma senhora nada simpática que me pede a certidão de nascimento ou casamento. Entreguei a certidão de casamento já avisando que não tinha alterado meu sobrenome, só precisava de um RG mais recente. Ela me olhou meio torto (acho que falei baixo, dada a dor que eu estava sentindo, porque, lembrem-se, eu tô de pé quebrado, mas encarei 40 minutos de fila assim mesmo, já que a imobilização que fizeram só envolve metade do pé e eu não estava afim de ser chamada de golpista) e não disse nada sobre isso.

Passado alguns minutos, ela me fez uma pergunta. Eu não entendi e pedi para ela repetir. Ela repetiu de má vontade e eu expliquei: Desculpe, senhora, não estou fazendo pouco caso, sou deficiente auditiva (puxando o AASI para ela ver).

A expressão facial dela  - uma carranca quase caricata – mudou completamente. Ela me deu um sorriso dócil e repetiu falando devagar sei lá o que e completou:
- Olha, vou te dar senha preferencial por você ter deficiência.

A priori, eu recusaria, já que nada me impede de esperar na fila como todo mundo, mas como meu pé doia feito um condenado, acabei aceitando.

Ela me mandou pro banco pagar a taxa  e volta – frizando para eu falar com ela, porque ela me daria a senha preferencial.

Fui mancando até lá, me mandaram pra fila preferencial também (dessa vez, porque a moça me viu mancando). Paguei a taxa – não antes de ser questionada porque estaria na fila preferencial, respondido por “surda e de pé machucado”.

Voltei, recebi a senha e fui sentar num banco para esperar ser chamada, o que levou menos de 2 minutos, por conta da preferência.

Chegando no guinche de atendimento, o mocinho com crachá “atendente multitarefas” (quase perguntei se ele era multimidias também) me faz a pergunta “atendimento preferencial por quê?”. Respondi, mostrando o AASI de novo “deficiente auditiva”.

Ai ele me fez 1799379380 perguntas pro cadastro, sujou meus dedos e me mandou voltar amanha pra pegar o RG (haha que eu volto lá amanhã!!).

Sai de lá pensando se deficiente auditivo deve ou não usar o atendimento preferencial. Porque em principio, nada nos impede de ficar na fila. Mas tratando-se de  um serviço que depende de conversação, requer que o atendente tenha paciência de repetir, boa vontade para entender-nos. Então, em parte, concordo com esse atendimento preferencial sim. O que você acha disso??

No fim, voltei pra casa pegando um metrô e um ônibus mega lotados, com medo de ter o pé pisoteado ou o que esbarracem no IC e ele voasse longe – o que felizmente não aconteceu, até porque tirei a parte externa do IC e fiquei segurando como se minha vida dependesse disso hehehe

Beijinhos de pé dolorido, mas sonoros….

Lak

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Jogado em debates

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