Amanhã, dia 17 de abril, “Desculpe, não ouvi!” completa um ano no ar.
Tenho que admitir que não esperava um blog na qualidade que ele se tornou. Desde o começo, fiquei surpresa com esse cantinho. Seja pelo layout fofo que o Edu fez. Seja pelo interesse das pessoas pelos meus causos e histórias.
Quando resolvi fazer o DNO, tinha o intuíto de informar as pessoas sobre algo que falta na mídia: o conhecimento sobre a diversidade existente dentro da deficiência auditiva.
Todo mundo sabe que existe surdo sinalizado (os famosos errôneamente chamados de surdos-mudos) e, hoje em dia, também sabem que existe a língua de sinais, a Líbras, que é um idioma reconhecido por lei.
Mas quantas pessoas sabem que um surdo pode ser oralizado? Que a leitura labial existe? Que o Implante Coclear é uma excelente opção para a surdez?
Certamente, agora tem mais gente do que há 1 ano atrás sabendo! Inclusive os meus conhecimentos se ampliaram, graças as maravilhosas contribuições, como a história do Henrique (que usa o Esteem, aparelho auditivo implantável). E até pelo conhecimento prático – que faço questão de dividir aqui – no meu implante recém feito.
Hoje, faço 4 meses de ativada e ontem, pela primeira vez em 23 anos, pude falar com meu pai ao telefone. Claro que um ainda é uma conversa básica e quase monossilábica da parte dele, mas o suficiente pra um recado rápido e uma segurança para tanto que eu não sentia, desde que me entendo por surda.
O post mais acessado? O do próprio Henrique, já linkado. Muita gente baixa aqui do nada, interessado nesse novo aparelho auditivo.
O post mais comentado? As minhas notícias pós-cirúrgicas. Sei que deixei muita gente de coração na mão até avisar que estava tudo bem. Mas também sei que sem tanto apoio moral, emocional e físico, eu não teria entrado acordada na sala de operações, de tão calma que me sentia. Tinha gente suficiente pra segurar todo o meu nervosismo, a ponto de não sobrar quase nada pra eu sentir hehehe
O comentário mais emocionante? Foram muitos. Gente que perdeu a audição depois da aquisição da fala e se sentia um peixe fora d’agua por não falar libras. Gente cujo filho, neto, sobrinho é deficiente auditivo e os meus relatos bem humorados tiravam o peso da deficiência. Gente que acabou de perder a audição e se sente perdido, até se encontrar aqui…
Mas a melhor parte do blog são as amizades que surgem por causa dele. Amizades que vão além de conselhos e partilhar da dor. Acompanhar a decisão pelo IC de amigos. Acompanhar os medos pré cirurgicos de quem vai ter um parente entrando na faca.
Certamente, o DNO mudou a minha vida, me fez crescer como ser humano (e não só como escritora) e me fez acreditar que a amizade supera qualquer distância.
Chego aqui para dar uma olhadinha se tem comentário e, dei de cara com esse, da Júlia, que lê o blog há um tempão. Não resisti transformá-lo em post, em vez de simplesmente responder…
Oi! Hoje me lembrei de você. Uma coisa doida, já que nao te conheço. Estou estudando francês por causa da possibilidade de ir a algum pais francófono pelo trabalho, o que claro, me faz aprender esta lingua de uma vez por todas. E para mim, o frances parece exigir muitíssimo da compreensão auditiva para distinguir tantas palavras que se juntam, que são pronunciadas de maneira parecida ou até mesmo iguais, sem falar que parece que se escreve de uma maneira e se fala de outra. O lembrar de você foi pelo fato de pensar como é que uma pessoa que não ouve então fez para aprender? E fazendo um link com este post, se eu fico contente a cada distinção que consigo fazer com o francâs, posso imaginar você com cada palavra nova que consegue identificar. Parabéns mesmo e que muitas palavras novas venham, que se juntem em frases e que se juntem em belíssimas melodias faladas. Me desculpe se demonstro tanto desconhecimento da sua realidade.
Eu já fiz um post explicando isso, mas dada a situação atual do meu aprendizado de ouvir, não faria mal, repetir pra mim mesma (e elucidar a dúvida da Julia) de como alguém que não ouve aprende outro idioma.
A principio, eu não saberia explicar como uma pessoa que ouve aprende outro idioma hehehe só posso falar de como EU aprendi e tendo plena ciência de que, talvez, isso só seja válido para mim, dada a diversidade imensa que existe entre os deficientes auditivos.
Começa pela maneira de me enxergar. Eu nunca me vi como “uma pessoa que não ouve e quer aprender outro idioma”. Sempre me via como “alguém que tem interesse e quer aprender outro idioma”, a maneira viria com o aprendizado, conforme eu fosse percebendo o que era mais fácil e o que não era.
A primeira dúvida foi: Como compreender o que não ouço? Simples, usando a ferramenta que tenho à minha disposição: pela leitura labial.
Apesar da leitura labial ser um complemento da audição (existe até um video que comprova que mesmo um ouvinte faz leitura labial como apoio da audição, para diferenciar alguns fonemas, depois procuro esse vídeo pro DNO) ela não é um substituto igual. Ler os lábio pode se assemelhar, mas não reproduz 100% da audição. Portanto, quem depende de ler os lábios, preocupa-se, antes de mais nada de compreender o sentido da mensagem como o todo, não se atendo a entender 100% das palavras ditas. Usamos muito a intução e percepção visual do rosto e do corpo, enquanto o interlocutor fala. Seguido de eliminar (em tempo absurdamente rápido) todas as similaridades fonéticas que a leitura labial produz, como por exemplo FACA e VACA, soam absolutamente iguais, mas no contexto da frase possuem a diferença chave: “Eu gosto de leite de vaca” para “eu gosto de leite de faca”, a segunda não teria o menor sentido lógico.
Portanto, eu mantenho isso em qualquer idioma que eu venha a falar/entender: compreender o sentido da mensagem toda e não o som das palavras isoladamente. Parece difícil? Ora, estou absolutamente habituada, é facílimo pelo tempo de prática!
Percebi também que os idiomas de origem latina, tais como: francês, espanhol e italiano; são bastante labiais. A diferença do som se dá pela posição dos lábios mais do que pela posição da lingua. Portanto, esses idiomas são fáceis de se comprender pela leitura dos lábios.
Não é o caso, por exemplo, do inglês, que abusa das diferenças de som pela lingua e cordas vocais. O inglês tem uma gramática facílima, mas é muitissimo mais difícil de se compreender pela leitura labial. Agora, com o implante, mesmo não entendendo bem os sons isolados, já tenho bem mais facilidade de compreendê-lo do que apenas pela leitura labial em si.
Portanto, para aprender a ler os lábios em francês, bastou que eu tivesse um bom vocabulário no idioma e reproduzisse o que faço em português.
Para aprender a falar, outra facilidade: 90% dos sons do francês existem em português. E os poucos que não existem, podem ser aprendidos mesclando-se dois sons também existentes em português. Por exemplo, o E de “Je” fala-se posicionando a lingua para falar um ê (dEdo) e os lábios, em posição de ô (dedO).
Diz a minha professora – que também me dá aula de inglês – que a minha pronuncia em francês é excelente e tão fácil de compreender como se eu falasse em português. Nativos do idioma também elogiaram bastante a minha pronúncia.
Então, basicamente, para aprender outro idioma, só foi necessário saber aplicar o que eu já fazia na prática, adaptando às particularidades idiomáticas, estudar a gramática e somar tudo isso a uma enorme vontade de aprender.
Espero ter respondido a sua pergunta, Ju. Boa sorte com o francês!!
Qualquer dúvida, estou a disposição para esclarecimentos.
Fui à fonoaudióloga hoje, primeira consulta tradicional – a anterior era entrevista. Tenho gostado muito da terapia. Sempre fui avessa à fonoterapia, por rebeldia talvez e dava um jeito de enrolar a fono e ficar batendo papo. Mas, com a Aline, sinto uma vontade imensa de passar a consulta inteira fazendo exercícios. Não sei se pelo fato de eu ter amadurecido (fiz fono dos 11 aos 20 anos) ou se porque agora a chance de um progresso realmente existe!
Ela me explicou quais são as diferenças da minha voz para a voz de um ouvinte – falei que não me preocupava com isso, mas passei a semana matutando sobre – e como poderia melhorá-la. E, nada melhor que uma fono pra perceber esses detalhes, afinal, sempre perguntava às pessoas próximas e nenhuma delas me sabia explicar…
Em tempo, ela me passou um texto lindo (com propósito de treinar a audição: ler e ouvir, reconhecendo qual palavra pode ser), que não resisti trazê-lo pro blog – um trecho, pelo menos, senão me acusam de plágio e com link pro texto completo.
Afinal, este é o 200º post do DNO e merece um texto comemorativo, afinal, minha vida mudou radicalmente nesses 11 meses que escrevo o blog. Ele serviu de espelho para enxergar meus defeitos e mudá-los…
E certamente, porque me aproximou de tantas pessoas especiais e histórias lindas…
A ARTE DE OUVIR
RUBEM ALVES
De todos os sentidos, o mais importante para a aprendizagem do amor, do viver juntos e da cidadania é a audição. Disse o escritor sagrado: “No princípio era o Verbo”. Eu acrescento: “Antes do Verbo era o silêncio.” É do silêncio que nasce o ouvir. Só posso ouvir a palavra se meus ruídos interiores forem silenciados. Só posso ouvir a verdade do outro se eu parar de tagarelar. Quem fala muito não ouve. Sabem disso os poetas, esses seres de fala mínima. Eles falam, sim. Para ouvir as vozes do silêncio. Veja esse poema de Fernando Pessoa, dirigido a um poeta: “Cessa o teu canto! Cessa, que, enquanto o ouvi, ouvia uma outra voz como que vindo nos interstícios do brando encanto com que o teu canto vinha até nós. Ouvi-te e ouvia-a no mesmo tempo e diferentes, juntas a cantar. E a melodia que não havia se agora a lembro, faz-me chorar…” A magia do poema não está nas palavras do poeta. Está nos interstícios silenciosos que há entre as suas palavras. É nesse silêncio que se ouve a melodia que não havia. Aí a magia acontece: a melodia me faz chorar.
Não nos sentimos em casa no silêncio. Quando a conversa para por não haver o que dizer tratamos logo de falar qualquer coisa, para por um fim no silêncio. Vez por outra tenho vontade de escrever um ensaio sobre a psicologia dos elevadores. Ali estamos, nós dois, fechados naquele cubículo. Um diante do outro. Olhamos nos olhos um do outro? Ou olhamos para o chão? Nada temos a falar. Esse silêncio, é como se fosse uma ofensa. Aí falamos sobre o tempo. Mas nós dois bem sabemos que se trata de uma farsa para encher o tempo até que o elevador pare…
Antes de mais nada, peço desculpas pela demora, em desejar “feliz natal!”
Não sou muito chegada a natal, porque não sou cristã, mas como moro num pais cristão, a gente acaba ‘comemorando’ de um jeito ou de outro.
E ninguém precisa de motivo para desejar o melhor às pessoas amadas….
Neste natal, eu desejo a cada um de vocês, independente da condição auditiva que você tiver: SOM. Mesmo que seus ouvidos não ouçam, sei que o cérebro consegue perceber através dos olhos e do tato.
Desejo o som das gargalhadas das pessoas à sua volta, rindo de alegrias junto com você.
Desejo o som de um beijo estalado na bochecha, dos braços que nos envolvem em abraços.
Desejo o som da voz que diz “você é especial”, “te amo muito”, “te desejo apenas o melhor”.
Desejo o som do garfo batendo no prato, depois de uma refeição farta.
Desejo o som da festa com 2, 5, 10 ou 20 pessoas à sua volta.
Desejo o som da sua bebida favorita sendo despejada no seu copo.
Desejo o som dos papeis de presente sendo rasgados, da alegria de presentear e compartilhar.
Desejo o som de vários corações batendo juntos, num daqueles instantes que fazem parecer que o mundo poderia parar, porque tudo está perfeito e a vida faz sentido!
Se você puder, ouça tudo isso. E se não puder ouvir, veja. E se não puder ver, abrace. Não importa qual o sentido que você usar, viva intensamente este momento!
Obrigada pela companhia aqui no blog, em 2009, um ano pleno de transformações que vocês puderam acompanhar em tempo real. E que 2010 seja um ano de realizações e conquistas, para cada um de vocês!
Ontem, deparei-me com um texto no Gizmodo Brasil, um site bacaníssimo sobre tecnologia e gadgets que leio de vez em quando, ou porque vejo link nalgum site ou porque alguém me manda um link de lá e, no fim, acabo acompanhando mais do que intencionalmente acessasse-o todos os dias.
Enfim, o texto de ontem foi um desses que a gente ri, chora, identifica-se e sente aquela sensação de que não estamos a sós no mundo. Era sobre próteses e a relação que se tem com elas. Se alguém quiser ler o texto na íntegra: Gizmodo
Mas, quero destacar as partes que realmente mexeram comigo:
“Na década de 30 até a de 70, o Serviço de Saúde Nacional do Reino Unido receitava apenas uma “opção” de óculos – considerado antes apenas “utensílios médicos” – e o padrão era uma armação de plástico com uma coloração rósea pra lá de horrível, uma tentativa de fazê-la no “tom da pele”, o que era problemático já na sua descrição: tom de pele de quem, mais exatamente?
O SSN acreditava que as pessoas quereriam discrição na sua correção visual – a humilhação social que se atribuía ao ato de usar óculos significava que ninguém iria querer que os seus óculos se destacassem dos demais. Assim, apenas uma armação de óculos era feita para todo mundo. Hoje, isto soa ridículo.”
Embora realmente hoje os óculos se destaquem e muita gente (mas tem sim quem se envergonhe de usá-los, normalmente, quem sofreu bullying na infância por conta deles e prefira lentes de contato) curte ter trocentos modelos pra combinar com cada cor/estilo de roupa ou situação social.
Porém, no quesito prótese auditiva, seja o AASI (aparelho de amplificação sonora individual) ou mesmo o IC (Implante Coclear) percebo que não chegamos ainda nesse ponto. Muita gente parece ter necessidade de esconder ou camuflar esse tipo de aparelho, como se ter audição deficiente fosse algo feio ou errado, digno de ofensa aos olhos de quem vê aquilo. Especialmente em casos de pessoas que perderam a audição depois de uma certa idade ou seja, que cresceram sem a prótese.
Quando eu era adolescente, o que mais me incomodava no AASI era o fato dele ser bege. Realmente acho horroroso o tom bege dos aparelhos. Ele não fica menos aparente e sempre passa aquela impressão de “PRÓTESE”. Quando voltei a usar o AASI depois de adulta – fiquei anos sem usar, porque eu perdi os que tinha e não consegui comprar novos – fiz questão de trocar a caixinha por fumê (são o coração do cabeçalho do blog) ja que o modelo só tinha 3 opções de cores: vermelho, azul (metalicos) e fumê (translucido).
Não posso dar um parecer de especialista e muito menos impor a minha opinião subjetiva como uma verdade absoluta, mas acredito de coração que aceitar a prótese, seja qual for ela, como parte integrante de quem somos, não meramente algo externo e impessoal em que nos apoiamos de forma envergonhada, pode ser uma grande conquista de auto-aceitação.
Obviamente, sempre haverá quem nos olhará como o nariz torcido e o dedão apontando como: “INVÁLIDO!”, mas esse tipo de gente é digno de pena e não deve jamais ter qualquer importância.
Quanto a mim, pedi a parte externa do IC preta! Tomara que não esqueçam disso!